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Uma nova greve dos caminhoneiros? Entenda os erros e as falácias

O Brasil de março de 2026 assiste, mais uma vez, ao ensaiar de uma paralisia logística. Os caminhoneiros, braço forte que carrega o PIB nacional, ameaçam desligar os motores sob a justificativa de que o custo do diesel e o valor dos fretes tornaram a atividade inviável. Contudo, ao analisarmos a pauta de reivindicações, percebemos um sintoma crônico de “Síndrome de Estocolmo econômica”: a categoria busca no estado — o agressor original — a solução para as feridas que o próprio aparato estatal abriu.

O caminhoneiro brasileiro hoje vive mergulhado em um pensamento estatista, acreditando que a mesma canetada que distorce o mercado pode, por milagre, corrigi-lo. Antes de clamar por subsídios, é preciso olhar para o que o estado fez com o custo estrutural apenas neste início de ano:

A Realidade dos Impostos (ICMS Diesel)
PeríodoAlíquota Ad Rem (R$/litro)Variação
Até dezembro de 2025R$ 1,12
Março de 2026R$ 1,17+ 4,46%

Enquanto a categoria pede ajuda ao governo, o próprio governo aumentou o imposto fixo em R$ 0,05 por litro na virada do ano. É a prova cabal de que o estado não é o salvador, mas o sócio majoritário que nunca divide o prejuízo.

O ciclo de Mises e o caos do cálculo econômico

Como explicou Ludwig von Mises, a intervenção estatal nunca é um evento isolado; ela é um processo degenerativo. A categoria sofre com a inflação — fruto da expansão monetária para cobrir o déficit público — e com impostos que sufocam suas margens. Ao exigir o “tabelamento de frete”, o caminhoneiro tenta curar as consequências ignorando as causas. Na ótica misesiana, o preço é o único mecanismo capaz de realizar o cálculo econômico. Quando o estado, através da ANTT, fixa um preço mínimo, ele destrói essa bússola. O resultado é o malinvestment: o frete artificialmente alto atrai uma frota maior do que a demanda real suporta, gerando um excedente de oferta que, ironicamente, pressiona os ganhos reais para baixo.

A perspectiva de Rothbard: a captura pela intervenção binária

Sob a lente de Murray Rothbard, a situação revela uma face ainda mais sombria: a transformação do caminhoneiro de empreendedor em um peão da “anatomia do estado”. Rothbard classificaria o subsídio ao diesel como uma intervenção binária — um ato de coerção onde o estado retira recursos de terceiros (o pagador de impostos) para transferir a um grupo de pressão. Já a tabela de frete é uma intervenção triangular, onde o governo impede a troca voluntária entre o caminhoneiro e o embarcador. Para Rothbard, ao aceitar essas “migalhas” regulatórias, a categoria cede sua soberania ao aparato estatal em troca de uma falsa segurança.

A “falácia da guerra” e o sinal dos preços

É preciso encarar os fatos: o argumento de que os conflitos globais tornam o diesel impagável em 2026 é uma falácia estatística. Com o barril de Brent orbitando os US$ 105, estamos significativamente abaixo dos picos de US$ 130 vistos na crise de 2022. Utilizando a lição de F.A. Hayek sobre o sistema de preços como transmissor de informação, percebemos que o preço atual não é “impossível”, mas sim um sinal de escassez. Se o negócio é inviável hoje, o culpado não é o general no exterior, mas sim a destruição do poder de compra do Real.

O caminho da liberdade: desregulamentação e livre concorrência

A solução para o impasse não reside em novas leis, mas na revogação das existentes. Para que o combustível deixe de ser uma ferramenta de manipulação política, é urgente:

  • Fim do ICMS e extinção do poder político do CONFAZ: o ICMS sobre combustíveis deve ser abolido. O uso do CONFAZ como um cartel de governadores para manipular alíquotas ad rem serve apenas para garantir a arrecadação estatal às custas da logística nacional. O combustível não pode ser o caixa eletrônico dos estados.
  • Privatização da Petrobras e fim de privilégios: abertura total do mercado de refino e exploração, extinguindo a preferência da estatal na partilha do pré-sal.
  • Abertura total do refino: permitir que empresas privadas operem refinarias sem a concorrência desleal de uma estatal subsidiada.
  • Fim das misturas obrigatórias e liberdade tecnológica: o mercado deve ser livre para definir as misturas de biodiesel e as rotas tecnológicas mais eficientes, sem imposição de percentuais burocráticos.
  • Desvinculação de pautas sociais: fim da obrigação de uso de óleo da agricultura familiar para produção de biodiesel. O caminhoneiro não pode ser o pagador involuntário de programas assistenciais.
Conclusão

O pensamento estatista acredita que a economia é uma máquina que pode ser ajustada por parafusos burocráticos. Não é. Enquanto os caminhoneiros pedirem as correntes do subsídio e o conforto da tutela estatal, continuarão prisioneiros de uma crise que eles mesmos ajudam a sustentar. A verdadeira pauta de quem vive nas estradas deveria ser a desregulação total. A greve, se vier, não deveria ser por mais estado, mas pelo direito sagrado de trabalhar sem a sua interferência.

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3 comentários em “Uma nova greve dos caminhoneiros? Entenda os erros e as falácias”

  1. Vai é restatalizar as distribuidoras que o SOCIALISTA do bolsonaro vendeu de graça.

    Acreditar que um dia o petroleo estará livre do controle do estado é fantasia,mundialmente ele está cada vez nas maõs do estado e coorporativistas

  2. Greve de novo? E aí o estado no final das contas aumenta mais o próprio poder, exatamente o que aconteceu em 2018, e que o IMB tão bem fez em denunciar.

    Brasil continua insistindo no rodoviarismo. Espero que o Marco das Ferrovias melhore isso, mas vai levar um tempo ainda. Hoje as ferrovias são ainda bem precárias, principalmente a de passageiros.

  3. Wanderley Pardo da Silva

    Parabéns professor!! Abriu o tumor com precisão cirúrgica e nos deu a visão do verdadeiro problema. E ainda. Apontou a solução com clareza.

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