John Cochrane tem um blog divertido e informativo chamado “The Grumpy Economist” [O economista ranzinza, em tradução livre], que oferece reflexões centradas na abordagem da Escola de Chicago, mas que ainda assim podem ressoar com o leitor da tradição austríaca. Contudo, em um post de agosto de 2019, Cochrane afirmou erroneamente que pessoas que vivem em áreas da Califórnia com aluguéis muito altos estariam, na prática, utilizando uma moeda diferente da usada por outros americanos. Esse tipo de afirmação imprecisa está incorreta, como Mises explicou em sua obra clássica de 1912, The Theory of Money and Credit [Teoria do dinheiro e do crédito, em tradução livre]. Neste artigo, apontarei qual é exatamente o erro envolvido, a fim de esclarecer sobre como os preços e os salários são determinados na economia de mercado.
Cochrane sobre índices de preços
O principal tema do post de Cochrane diz respeito à estimativa de “índices de preços” e à taxa medida de inflação (de preços ao consumidor). Mas, no presente artigo, quero me concentrar no seguinte trecho do comentário de Cochrane:
“A próxima questão(…) que acredito ser muito pouco estudada: a enorme variação local nos preços e, por meio da grande variação no que consumimos, a inflação experimentada por pessoas em diferentes partes do país. Viver na Califórnia, e especialmente na região da Bay Area, é como viver em um país diferente com uma moeda diferente. Até a gasolina custa o dobro do que custa no resto do país. Muito do que parece ser desigualdade de renda é apenas diferença de preços, especialmente nos preços da terra. (Grande parte da produtividade dos trabalhadores de tecnologia foi parar nos bolsos dos proprietários de terra já existentes). Se você recebe 100 ienes no Japão, você não é cem vezes mais rico do que alguém que recebe 1 dólar nos Estados Unidos. Receber US$ 100.000 por ano em São Francisco é algo parecido com isso — e receber US$ 20 por hora em grande parte dos Estados Unidos está longe de ser o desastre que seria receber esse mesmo valor em São Francisco”.
Embora Cochrane esteja apontando para um ponto importante no que diz respeito às estimativas de desigualdade de renda, sua motivação está completamente equivocada. Sim, se Smith ganha US$ 100.000 trabalhando em São Francisco enquanto Jones ganha US$ 50.000 trabalhando em Cleveland, seria errado concluir que Smith necessariamente esta aproveitando “um padrão de vida duas vezes maior” que o de Jones.
No entanto, Cochrane está errado ao argumentar que esse fenômeno seria semelhante ao uso de moedas diferentes nas duas regiões. Em primeiro lugar, sabemos que são dólares americanos que estão sendo usados em ambos os lugares. (Ora). Mas, mais importante ainda, o fato de a maioria dos preços ser mais alta em São Francisco não significa que os dólares em São Francisco sejam mais fracos do que os dólares em Cleveland, da mesma forma que podemos dizer que o iene é mais fraco que o dólar.
Mises sobre o “custo de vida” e o poder de compra da moeda
Mises abordou a falácia subjacente ao argumento de Cochrane, mas também o elemento de verdade presente na posição de Cochrane, em sua obra clássica de 1912, The Theory of Money and Credit:
“O fato de que o custo de vida é diferente em diferentes localidades significa apenas que o mesmo indivíduo não pode obter o mesmo grau de satisfação a partir do mesmo estoque de bens em lugares distintos(…) A crença em diferenças locais no custo de vida é(…) sustentada pela referência a diferenças locais no poder de compra da moeda(…). Não é mais apropriado falar de uma diferença no poder de compra da moeda entre a Alemanha e a Áustria do que seria justificável concluir, a partir das diferenças entre os preços cobrados por hotéis nos picos e nos vales dos Alpes, que o valor objetivo de troca da moeda é diferente nas duas situações, e formular alguma proposição como a de que o poder de compra da moeda varia inversamente com a altitude acima do nível do mar. O poder de compra da moeda é o mesmo em toda parte; apenas as mercadorias oferecidas não são as mesmas. Elas diferem em uma qualidade que é economicamente significativa — a posição no espaço do local em que estão prontas para o consumo.Mas, embora as relações de troca entre dinheiro e bens econômicos de constituição completamente semelhante em todas as partes de uma área de mercado unificada na qual o mesmo tipo de moeda é utilizado sejam, em qualquer momento, iguais entre si, e todas as aparentes exceções possam ser atribuídas a diferenças na qualidade espacial das mercadorias, ainda assim é verdade que diferenciais de preços provocados pela diferença de localização (e, portanto, na qualidade econômica das mercadorias) podem, em certas circunstâncias, constituir uma justificativa subjetiva para a afirmação de que existem diferenças no custo de vida [Mises, The Theory of Money and Credit, p. 176]”.
Para reforçar o ponto, Mises então aplica esses princípios ao caso de Karlsbad, que (em sua época) era um atraente destino turístico por causa de seu spa:
“Aquele que visita voluntariamente Karlsbad por motivos de saúde estaria errado ao deduzir, a partir do preço mais elevado das casas e dos alimentos ali, que é impossível obter tanto prazer com uma determinada soma de dinheiro em Karlsbad quanto em outros lugares e que, consequentemente, viver ali é mais caro. Essa conclusão não leva em conta a diferença na qualidade das mercadorias cujos preços estão sendo comparados. É justamente por causa dessa diferença de qualidade, justamente porque ela tem um certo valor para ele, que o visitante vai a Karlsbad. Se ele tem de pagar mais em Karlsbad pela mesma quantidade de satisfações, isso se deve ao fato de que, ao pagar por elas, ele também está pagando o preço de poder desfrutá-las na vizinhança imediata das fontes medicinais. O caso é diferente para o empresário, o trabalhador e o funcionário que estão apenas vinculados a Karlsbad por causa de suas ocupações. A proximidade das águas não tem importância para a satisfação de suas necessidades e, portanto, o fato de terem de pagar mais por causa disso por cada bem e serviço que compram lhes parecerá, já que não obtêm nenhuma satisfação adicional com isso, uma redução das possibilidades de desfrute que poderiam ter de outra forma. Se compararem seu padrão de vida com aquele que poderiam alcançar com o mesmo gasto em uma cidade vizinha, chegarão à conclusão de que viver na cidade do spa é realmente mais cara do que em outros lugares. Eles só transferirão sua atividade para a cidade mais cara se acreditarem que poderão obter ali uma renda monetária suficientemente mais alta que lhes permita alcançar o mesmo padrão de vida que teriam em outro lugar. Mas, ao comparar os níveis de satisfação alcançáveis, deixarão de levar em conta a vantagem de poder satisfazer suas necessidades estando próximos ao spa, porque essa circunstância não tem valor aos seus olhos. Portanto, todo tipo de salário será, sob a suposição de completa mobilidade, mais alto no balneário do que em outros lugares mais baratos [Mises, The Theory of Money and Credit, pp. 176–177]”.
O erro de Cochrane: estendendo a análise
Até aqui, pode parecer que estou apenas discutindo detalhes semânticos, pois Mises aparentemente concorda com o espírito das observações de Cochrane. No entanto, a diferença importante — e a base deste artigo — é que Cochrane acreditava que o maior “custo de vida” seria semelhante ao fato de as pessoas em São Francisco utilizarem uma moeda diferente. E, como Mises enfatiza repetidamente nas passagens citadas acima, isso simplesmente não está correto. Não apenas as pessoas em São Francisco e Cleveland utilizam dólares, como o dólar possui o mesmo poder de compra em ambos os lugares.
Se não fosse assim — isto é, se realmente fosse o caso de que se pudesse comprar mais “dos mesmos bens” com US$ 100 em Cleveland do que em São Francisco — então por que os comerciantes não comprariam bens por US$ 100 em Cleveland e os venderiam por (digamos) US$ 140 em São Francisco, obtendo lucro mesmo após levar em conta os custos de transporte?
Quando refletimos sobre a lógica da arbitragem, percebemos que a observação casual de Cochrane de que as pessoas na região da Bay Area estariam usando uma “moeda diferente” é insustentável. As pessoas na Bay Area utilizam os mesmos dólares que em qualquer outra parte dos Estados Unidos. A razão pela qual os preços são mais altos na Bay Area tem a ver com impostos e com preços imobiliários mais elevados.
Por exemplo, de acordo com a AAA [sigla em inglês para American Automobile Association, ou Associação Americana de Automóveis], os preços da gasolina na Califórnia, no momento em que escrevo [em agosto de 2019], têm uma média de US$ 3,61 por galão, enquanto no estado vizinho de Nevada são de apenas US$ 3,12. Isso parece uma discrepância estranha; por que alguns empreendedores não carregariam caminhões-tanque em Reno, Nevada e percorreriam os mais de 200 quilômetros até São Francisco para ganhar cerca de 50 centavos por galão entregue (antes de descontar os custos de transporte)?
As principais razões são que a Califórnia possui regulamentações ambientais específicas para a gasolina que pode ser vendida no estado, exigindo inclusive diferentes misturas para o verão e para o inverno. Isso significa que as refinarias precisam produzir gasolina especificamente para o mercado californiano. Além disso, a Califórnia impõe impostos sobre a gasolina mais elevados do que os de seus estados vizinhos — na verdade, os mais altos do país — como mostra este gráfico do American Petroleum Institute (API):
Legenda: Total de impostos (locais, estaduais e federais), em centavos por galão, nos diferentes estados americanos em janeiro de 2020. De vermelho, os estados com impostos maiores que 49.5 centavos de dólar por galão, de azul, os estados com impostos entre 40 e 49.5 e, de amarelo, estados americanos com menos de 40 centavos de dólar por galão em impostos totais na gasolina. | Fonte: imagem disponível no link: https://www.api.org/~/media/Files/Statistics/Gasoline-Tax-Map.pdf
Como o gráfico indica, o imposto médio estadual e local sobre a gasolina na Califórnia é cerca de 27 centavos por galão mais alto do que em Nevada [52.18 centavos] — e impressionantes 42 centavos por galão mais alto do que no Arizona [37.40 centavos].
Obviamente, John Cochrane, um economista profissional que lecionou na Universidade de Chicago (na Booth School of Business), entende o papel dos impostos na determinação dos preços no varejo. Ainda assim, é um erro de categoria afirmar que essa diferença de preços é comparável ao uso de moedas diferentes. Os cigarros custam muito mais em Nova York por causa dos enormes impostos que incidem sobre eles; não é porque os nova-iorquinos utilizam um tipo diferente de dinheiro.
Por que as pessoas pagam mais para viver em cidades grandes?
Outra maneira de perceber a falha na analogia de Cochrane é perguntar: como essas discrepâncias são sustentadas? Por exemplo, se a Empresa A em Cleveland oferece um salário de US$ 50.000 por ano, enquanto a Empresa B em Cleveland oferece um salário de 5 milhões de centavos por ano, então isso na verdade representa o mesmo salário. A unidade monetária na primeira empresa é o dólar, enquanto na segunda é o centavo, e a taxa de conversão entre as duas é de um dólar para cada 100 centavos.
Mas claramente não é isso que está acontecendo quando a Empresa A em Cleveland paga US$ 50.000 por ano pelo “mesmo trabalho” que paga US$ 100.000 em São Francisco. Se trabalhadores em qualquer uma das cidades economizassem US$ 10.000 de seus respectivos salários e os enviassem por transferência para suas mães em casa (na Flórida, por exemplo), seria exatamente o mesmo dinheiro. Obviamente não é verdade que “dólares ganhos em São Francisco” sejam uma moeda diferente de “dólares ganhos em Cleveland”, da mesma forma que realmente seria uma unidade diferente se uma empresa pagasse seus trabalhadores em centavos (ou em ienes japoneses).
Isso levanta então a questão: por que os trabalhadores se mudam para uma cidade grande onde o aluguel é tão alto? Como argumentei exaustivamente acima, isso não é simplesmente uma questão de unidades monetárias. Os dólares são os mesmos em São Francisco, mas a maioria dos preços é mais alta. Por que as pessoas aceitam isso?
A resposta óbvia é: “Porque os salários e rendas tendem a ser mais altos”. Mas então por que não vemos, por exemplo, milhões de pessoas vivendo na Antártida? Seria extremamente caro construir abrigos adequados e fornecer alimentos em um ambiente desse tipo e, portanto, para convencer as pessoas a se mudarem para lá, os salários de zeladores na Antártida teriam de ser astronômicos. No entanto, não vemos isso acontecer; o resultado de mercado é que quase ninguém vive na Antártida.
A explicação breve é que a produtividade de muitos tipos de trabalho é muito maior nas áreas urbanas do que em outros lugares. Historicamente, o desenvolvimento das grandes cidades dos Estados Unidos esteve ligado ao transporte por água: Nova York, Los Angeles e Houston ainda são grandes cidades portuárias, enquanto o acesso de Chicago aos Grandes Lagos e a importantes rios desempenhou um papel relevante em seu crescimento.
Portanto, não foi coincidência que as maiores cidades dos Estados Unidos tenham se desenvolvido onde se desenvolveram. No entanto, quando as pessoas começam a viver próximas umas das outras por causa de algum fator externo (como o acesso à água), surge um efeito adicional: sua produtividade também é ampliada em outras áreas simplesmente devido à proximidade. A “abordagem econômica das cidades” constitui todo um subcampo de estudo, de modo que não me alongarei nisso aqui. Basta dizer que as pessoas não se distribuem uniformemente pelo território, da mesma forma que elétrons se repelem na superfície de um objeto para distribuir a carga elétrica de maneira uniforme.
Em vez disso, mais da metade das pessoas no mundo atualmente vive em áreas urbanas ou cidades, e as projeções indicam que esse número chegará a dois terços até 2050. Deve haver alguma razão para essa atração. Do lado do consumidor, pode ser a possibilidade de comer nos melhores restaurantes e assistir a um espetáculo da Broadway (se estivermos falando de Manhattan). Do lado do produtor, pode ser porque as cidades oferecem os salários mais altos e, portanto, valem a pena mesmo apesar do preço mais elevado de um apartamento de determinado tamanho.
No entanto, ao contrário do que afirma Cochrane, esses salários elevados não se devem a uma diferença de moeda; eles são sustentados pelo fato de que a produtividade dos trabalhadores é genuinamente maior. O trabalhador que recebe US$ 100.000 em São Francisco está produzindo o dobro para seu empregador em comparação com o trabalhador que recebe US$ 50.000 em Cleveland. Isso não ocorre porque as unidades monetárias sejam diferentes, mas porque o primeiro trabalhador é realmente mais produtivo.
Conclusão
A observação de John Cochrane de que viver na região da Bay Area é “como viver em um país diferente com uma moeda diferente” é suficientemente inofensiva para uma conversa cotidiana e também acrescenta nuances aos debates sobre desigualdade de renda nos Estados Unidos. No entanto, falando estritamente em termos econômicos, sua afirmação é uma bobagem do ponto de vista econômico. Além disso, quando pensamos cuidadosamente sobre o que exatamente há de errado nela, acabamos apreciando melhor as complexidades da economia de mercado e o papel que os preços desempenham na alocação de recursos, incluindo o trabalho.
Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.
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