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Tales de Mileto e a Unidade da Água

Nota da edição:

Este artigo é a publicação do primeiro capítulo do livro do médico Marcos Giansante, Do Arché ao Logos: A Economia como Ciência da Ação Humana no Tempo. O autor do artigo é aluno da Pós-Graduação em Escola Austríaca do Instituto Mises Brasil e lançará seu livro em parceria com o IMB. Nas próximas semanas, vamos publicar seções do livro no site do Instituto Mises Brasil, com o objetivo de trazer ao nosso público a oportunidade de acessar o rico conteúdo sobre a filosofia do tempo e a origem da ciência econômica.


“Tales sustentava que o princípio (arché) de todas as coisas é a água.”
— Aristóteles, Metafísica, I, 3, 983b

Há figuras na história que não fundam apenas uma doutrina, inauguram o próprio gesto de pensar. Tales é uma dessas. Quando a tradição grega o consagrou como o primeiro filósofo, não foi por ter descoberto a água como elemento originário, mas por ter inaugurado um novo modo de relação entre o homem e o mundo, o da confiança na razão como instrumento de compreensão da realidade.

Tales viveu entre o final do século VII e o início do século VI a.C., em Mileto, uma cidade voltada para o mar e para o comércio. A imagem que se tem dele, recolhida por Aristóteles, Heródoto e Diógenes Laércio, é a de um homem prático e curioso, astrônomo, geômetra, engenheiro e político. Calculava eclipses, media pirâmides, observava as estrelas e especulava sobre a matéria. As tradições egípcias e babilônicas que conheceu em suas viagens legaram-lhe um saber técnico, mas a mente jônica acrescentou algo novo, o desejo de compreender a ordem invisível que governa o mundo.

Na cosmologia milésia, essa ordem recebe o nome de arché, palavra que significa simultaneamente princípio, origem e comando. É o ponto de partida da filosofia natural. A pergunta que movia Tales, e que moverá toda a tradição posterior, era simples e radical, qual é a origem do mundo? Existe um princípio primordial do qual tudo deriva e ao qual tudo retorna?

Para Tales, o arché de todas as coisas é a água. Essa resposta, que pode parecer ingênua à sensibilidade moderna, contém um gesto de ruptura decisivo. Pela primeira vez, busca-se uma explicação racional e imanente para o cosmos, não mais dependente da genealogia dos deuses.

Aristóteles, em sua Metafísica (I, 3), explica o raciocínio que orientava os primeiros filósofos. O princípio das coisas deveria ser uma realidade material, pois aquilo de que tudo se gera e para o qual tudo retorna é o que verdadeiramente “é” e permanece idêntico em meio às transformações. Mesmo quando algo nasce ou perece, há sempre um substrato que se conserva. Nada é gerado ou destruído em sentido absoluto, mudam apenas as formas e os estados dessa substância primordial.

Nesse contexto, Tales observou que a vida depende do úmido. As sementes são úmidas, o alimento é úmido, o calor nasce do úmido e o vivente nele subsiste. Concluiu, portanto, que a água é o princípio da natureza das coisas úmidas e, por extensão, de todas as coisas. Por isso afirmou que a Terra flutua sobre a água, sustentada pelo mesmo elemento que gera e conserva a vida. O alimento de tudo é o úmido; o úmido deriva da água; logo, tudo é, em sua origem, água.

Essa escolha não foi arbitrária. A água é o elemento que, em praticamente todas as civilizações antigas, simboliza o nascimento e o renascimento. No Egito, o Nilo definia o ritmo da vida e da fertilidade. Na Mesopotâmia, os rios Tigre e Eufrates eram fronteiras e veias do mundo conhecido. Do mesmo modo, no Oriente, rios como o Indo, o Ganges e o Huang He estruturaram civilizações inteiras, unindo fertilidade, sacralidade e destruição em um mesmo ciclo.

Desde a Ásia até o Mediterrâneo, a água foi o primeiro espelho da ordem cósmica, princípio de vida e de morte, estabilidade e fluxo. Tales apenas traduziu em conceito aquilo que a humanidade já intuía, o mundo nasce da água, vive pela água e nela se reflete.

A força de sua intuição está em ter deslocado o pensamento da genealogia divina para a causa natural. Antes dele, os poetas explicavam o cosmos por famílias de deuses, Oceano e Tétis como pais de tudo o que vive, segundo Homero e Hesíodo. Tales preserva o símbolo, mas muda o método. Em vez de um deus que encarna a água, é a água que revela o divino. O mito não desaparece, é reinterpretado. A sacralidade do mundo permanece, agora como imanência, não como transcendência.

Com isso, Tales dá o primeiro passo da razão ocidental. O mundo passa a ser compreendido de dentro, como algo que contém em si a inteligibilidade de sua própria ordem. Nesse gesto já está contida a possibilidade de toda ciência e de toda filosofia posteriores.

As histórias sobre Tales são muitas e carregadas de simbolismo. Conta-se que, ao observar os astros, caiu em um poço, imagem do homem que, olhando para o céu, esquece o chão. Mas também se conta que previu uma colheita abundante de oliveiras e alugou antecipadamente os lagares, tornando-se rico. Nesse episódio, o saber converte-se em previsão, a previsão em decisão e a decisão em troca. O pensamento ordena o tempo e, ao fazê-lo, gera valor. Sem nomeá-lo, Tales antecipa o núcleo do que mais tarde seria reconhecido como o princípio econômico da ação racional diante da escassez.

A escolha da água como princípio primordial tem ainda um sentido ontológico mais profundo. A água está em movimento contínuo, mas conserva sua identidade. É a mesma na chuva, no rio e no mar. Nela conciliam-se constância e mudança, aquilo que Heráclito mais tarde chamará de devir. Tales antecipa, sem sabê-lo, a dialética fundamental entre ser e vir a ser, nada é imóvel, mas tudo é coerente. A lógica do tempo começa a ser moldada ainda em matéria rudimentar.

O gesto de Tales é também o nascimento da physis, palavra que passará a designar a natureza como realidade autônoma e que já contém, em germe, o princípio metodológico da ciência. O homem já não se contenta com o mito nem com o acaso, procura leis, proporções e causas. Quando Tales mede a sombra de uma pirâmide ou calcula o intervalo de um eclipse, não está apenas fazendo matemática, está descobrindo que a ordem do mundo é cognoscível.

Na história do espírito humano, essa confiança é uma revolução. O cosmos deixa de ser uma prisão do destino para tornar-se uma arquitetura da razão. O mundo é inteligível não porque o homem o domina, mas porque participa dele pelo pensamento. Essa é a herança de Tales, a ideia de que pensar é participar da ordem do ser.

Assim, quando Aristóteles o chama de o primeiro filósofo, não o faz por erudição retrospectiva, mas por reconhecer nele o arquétipo do pensador, aquele que, diante da multiplicidade do real, procura o princípio que o unifica. Esse princípio, ao mesmo tempo sensível e inteligível, físico e simbólico, é a água, o espelho em que o homem, pela primeira vez, viu refletida a própria razão. E desse fluxo contínuo, dessa unidade móvel que Tales divisou na água, emergirá a pergunta seguinte, a do ilimitado, o ápeiron de Anaximandro, o segundo passo da travessia do Logos.

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