Recorde de americanos com dois empregos
Em janeiro de 2026, 331 mil homens trabalhavam em dois empregos de tempo integral nos EUA, o dobro da média de 2011–2016 e superando o pico de 253 mil em 2008. Incluindo mulheres, o número de 476 mil pessoas nessa condição é histórico. O total de americanos com mais de um emprego chegou a 8,77 milhões, perto das máximas já registradas.
Isso não é prosperidade, mas pressão econômica profunda.
Na Grande Crise de 2008, o choque foi o desemprego em massa. Hoje, o emprego “até existe”, mas os salários não sustentam um padrão de vida decente sem um segundo trabalho. A inflação corroeu o poder de compra real, e mesmo reajustes salariais de 4%-5% deixam o trabalhador empacado ou em perda real de renda.
Inflação: mais que números de preços
A inflação não é apenas “preços mais altos”. Para a teoria austríaca, é consequência direta de expansão da oferta de dinheiro (mais notavelmente o M2) e crédito, que distorce preços relativos e enfraquece o poder de compra da moeda. A inflação elevada corrói renda, riqueza e incentiva múltiplos empregos para fechar contas.
O efeito Cantillon, conceito clássico da Escola Austríaca, nos lembra que quem recebe primeiro o dinheiro recém-criado (via crédito, bens públicos, grandes bancos) se beneficia antes dos preços subirem, comprando terrenos, investindo em empresas etc. Por outro lado, trabalhadores e pequenos poupadores sofrem, pois seus salários e economias se desvalorizam ao longo do tempo. O dinheiro novo não chega a todos ao mesmo tempo nem com o mesmo impacto.
O agregado M2, que inclui moeda em circulação, depósitos à vista e a prazo, é um dos principais balizadores da liquidez e da inflação potencial.
Nos EUA, o M2 chegou a cerca de US$ 22,4 trilhões no fim de 2025. Na Zona do Euro, o M2 totalizou €16,07 tri (≈ US$ 19 tri) em dezembro de 2025. Já na China, o M2 foi de aproximadamente US$ 45,6 trilhões em meados de 2025. O total global de M2 (EUA + China + Europa + outros) supera US$ 100 trilhões.
Esses números representam uma enorme expansão da base monetária nas últimas décadas, especialmente nos anos da pandemia e pós-pandemia, embora a inflação tradicional tenha arrefecido em 2024-25.
A economia dos EUA também experimentou crescimento massivo das dívidas pública e privada, com déficits persistentes e políticas de estímulo que alimentaram a liquidez. Embora muitos analistas tradicionais priorizem taxas de juros e desemprego, a Escola Austríaca alerta que a emissão contínua de M2 distorce preços e pode retardar o ajuste necessário.
Inflação real e poder de compra
O trabalhador moderno pode manter um emprego, porém observa seu poder de compra cair: aluguel e custos de moradia acima da renda; saúde, educação e seguros pressionando orçamento; juros altos em consumo e dívidas.
A inflação subjacente (ao nível de serviços e bens essenciais) segue corroendo renda, mesmo se o CPI (Índice de Preços ao Consumidor, na sigla em inglês) oficial cair temporariamente. A necessidade de um segundo emprego reflete esse enfraquecimento real do padrão de vida, não uma economia robusta.
Conclusão: o alerta que importa
Os indicadores convencionais sugerem desemprego relativamente baixo e crescimento modesto, mas o recorde de trabalhadores com dois empregos é um sinal de desequilíbrio estrutural.
Assim, observamos expansão do M2 sem correspondente crescimento real da produção, inflação de preços e de ativos, redistribuição não equitativa da nova liquidez (efeito Cantillon) e trabalhadores forçados a múltiplos empregos para sobreviver.
O problema não é apenas “preços mais altos”, mas a erosão contínua do poder de compra que empurra milhões para a ponta do esforço econômico sem ganho real de bem-estar.