O
termo “austeridade” continua sendo utilizado na Europa. E a Alemanha continua sendo criticada por
promover essa visão. Afinal, a
austeridade pode fazer uma economia crescer?
Em
primeiro lugar, é necessário deixar claro alguns conceitos. A palavra “austeridade” normalmente é
utilizada para descrever duas coisas totalmente opostas e contraditórias:
reduzir os gastos do governo ou elevar impostos.
Por
que essas duas medidas são opostas?
Porque reduzir gastos do governo significa que menos recursos escassos
da economia serão apropriados pelo governo; significa que haverá mais recursos
disponíveis para pessoas e empresas.
Quando
o governo gasta, ele está consumindo bens que, de outra forma, seriam
utilizados pela população ou mesmo por empreendedores para fins mais úteis e
mais produtivos. Bens que foram poupados para serem consumidos no futuro
acabam sendo apropriados pelo governo, que os utilizará sempre de forma mais irracional
que o mercado, que sempre se preocupa com o sistema de lucros e
prejuízos. Portanto, os gastos do governo exaurem a poupança (por
”poupança”, entenda-se ”bens que não foram consumidos no presente para serem
utilizados em atividades futuras”).
Logo,
uma redução nos gastos do governo permite que haja mais recursos disponíveis na
economia.
Já
uma elevação de impostos significa o contrário: mais recursos da economia —
principalmente o capital de pessoas e empresas, que seriam utilizados para
consumo e investimento — serão apropriados pelo governo.
E esse é justamente o cerne da questão: deveríamos dar mais ou
menos recursos para o governo?
Como
na fábula em que o
escorpião dá uma ferroada no sapo, keynesianos sempre inventam razões para
explicar por que gastos do governo são bons para todos. Um de seus principais argumentos é o de que é
“impossível alcançar a prosperidade cortando”.
Como todas as propagandas, essa afirmação é enganosa — austeridade não
é sobre “cortar”; é sobre transferir. Mais especificamente, retirar o controle de
recursos produtivos de burocratas e transferi-los para indivíduos e empresas.
Vamos
analisar os argumentos keynesianos. Segundo
eles, os gastos do governo são bons para todos — o que significa que a
austeridade baseada no corte de gastos é ruim — porque esses gastos
governamentais criam um “efeito
multiplicador“. Sendo assim, cada $1
gasto pelo governo cria, digamos, $2 de valor.
Isso
de fato seria ótimo — e está na mesma categoria dos unicórnios, do
moto-perpétuo e do sorvete grátis para sempre. Tal raciocínio implica que o colapso da União
Soviética permanece sendo um mistério econômico, uma vez que o sistema
soviético deveria estar repleto desse multiplicador produtivo.
Para
refutar essa ideia de multiplicador, nem é necessário entrar em detalhes
técnicos. Aliás, podemos inclusive supor
que de fato exista tal multiplicador.
Basta apenas dizer que qualquer multiplicador que porventura possa
existir é necessariamente cancelado pelo “multiplicador negativo”, uma vez que
os recursos necessariamente tiveram de vir de algum lugar. Assim, se você dá $1 para o governo, você
necessariamente ficou com $1 a menos, o que significa que você agora terá menos
$1 para gastar no restaurante. Ambas as
unidades monetárias possuem um “multiplicador” em direções opostas. Elas se cancelam.
Tchau,
sorvete grátis.
Porém,
tudo ainda piora: ha fortes motivos para crer na existência de um multiplicador
negativo. Ou seja, o governo confisca via impostos $1 e
o transforma, digamos, em $0,80. Ou até
mesmo em $0,05. Por quê? Porque o governo é extremamente eficaz em
desperdiçar recursos.
Apenas
pense na economia real — em suas “microfundações”, como dizem os
teóricos. A produção não é um fenômeno
que cai do céu. Ao contrário, a produção
é feita de recursos — fábricas, matérias-primas, trabalhadores,
empreendedores, concreto e aço. Esses
fatores são combinados de modo a gerar bens de consumo ou bens de capital. Ou eles podem simplesmente ser poupados para
serem utilizados no futuro. Isso
significa que há apenas 3 ações que você pode fazer com um recurso produtivo:
consumi-lo, investi-lo ou poupá-lo para uso posterior.
Simultaneamente,
há apenas três categorias de pessoas para fazer alguma dessas ações (consumir,
investir ou poupar): indivíduos consumidores, indivíduos empreendedores ou
indivíduos políticos/burocratas.
Portanto,
todo o debate sobre se austeridade é bom ou ruim é simplesmente um debate sobre
se os governos são melhores gerenciadores de recursos. Só isso.
Os governos farão investimentos mais sensatos e mais produtivos? Os governos irão poupar recursos de maneira
mais prudente que indivíduos e empresas?
A
menos que você tenha acabado de chegar de Marte, você já sabe a resposta:
governos são inacreditavelmente ineficientes e esbanjadores. É impossível que “investimentos” do governo
sejam eficazes (ver detalhes aqui, aqui e aqui) e é irreal
imaginar o governo como um “poupador prudente”.
Sendo
assim, se o governo é um péssimo gerenciador de recursos, conclui-se que cada
recurso que conseguimos impedir que seja apropriado pelo governo nos torna mais
ricos. Tendo menos recursos, o governo
fará menos guerras, dará menos subsídios a empresas, e financiará menos grupos
de interesse. Em vez disso, esses
recursos serão utilizados por indivíduos em investimentos mais produtivos, mais
prudentes e mais sensatos. E será assim
porque essas pessoas estarão utilizando seu
próprio dinheiro, e não um dinheiro que foi confiscado de terceiros.
Essa
definição de austeridade — os recursos devem ficar com indivíduos e empresas
em vez de serem entregues ao governo — implica que a austeridade fará crescer
a economia, e não que irá encolhê-la. No
entanto, se a “austeridade” se basear meramente em aumento de impostos, como
está ocorrendo na Europa, então de fato não está havendo austeridade
nenhuma. Ao contrário, está havendo o
oposto de austeridade.
Cortar
os gastos do governo, permitindo que indivíduos e empresas tenham mais recursos
à sua disposição, é o caminho mais sensato para a prosperidade.
________________________________________
Leia também:
Os quatro tipos de
austeridade – por que o governo cortar gastos é positivo para a economia
O mito da austeridade
europeia
Explicando a recessão
europeia
Gastos governamentais
sempre são ruins para a economia
Como as obras públicas
subtraem riqueza da população
É tão simples…
Por que o Paul Krugman não entende essas coisas?
Excelente. Só uma correção:
A fábula do sapo e do escorpião não é de Esopo. É tradição popular. A fábula de Esopo equivalente é a do fazendeiro e a cobra.
Existe um ponto que precisa ser levado em consideração. Apesar de ser verdade que manter os recursos com as pessoas é moralmente superior, é complicado dizer que sempre haverá crescimento econômico nessa alternativa. O problema é que esse ponto é relativo: crescimento pra quem?
Quando o governo gerencia os gastos ele interfere em como os agentes econômicos se relacionam. Assim, várias atividades que não seriam vantajosas passar a ser atraentes. Todas essas atividades despencam se o governo sai da jogada. Em um país como o nosso, onde o governo se mete em tudo, isso significaria a condenação de cidades inteiras, talvez até de áreas inteiras. Quando a gente vê os dados de quantas cidades são deficitárias no país dá pra imaginar o tamanho do estrago.
Desta forma, muita gente seria afetada negativamente se o governo saísse da jogada. Pra elas, principalmente no curto prazo, haveria um encolhimento na capacidade de consumo, no padrão de vida. Eu não estou defendendo de forma alguma gastos governamentais, não estou defendendo o Estado. Só estou levantando o fato de que não é uma panaceia. A austeridade, mesmo quando compreendida como corte de gastos, gera efeitos negativos em muita gente e dá pra entender o descontentamento.
Como complemento ao já excelente comentário do Leandro, sugiro abrir a área de comentários desse artigo, dar um Ctrl F na página e procurar pela palavra “tapa”.
Não estou questionando se o resultado final seria positivo. O ponto é que isso gera atrito, incômodo, custos políticos. Lembro-me de ter lido que vários fornecedores das estatais, na época das privatizações, tiveram que pela primeira vez na vida se preocupar em cortar gastos. Quando seus clientes eram empresas do governo, bastava preencher uma planilha com custos.
Independente de gerar mais riqueza, a desestatização força várias pessoas a repensarem completamente a sua vida. Em um país como o nosso, não duvido que existiriam cidades inteiras que seriam abandonadas. Algumas pessoas, depois de um tempo, achariam novas posições. Outras realmente viriam seu padrão de vida despencar, jamais se recuperariam.
Dá pra imaginar uma situação onde fôssemos questionar o sistema de aposentadoria estatal. É um sistema baseado em confisco dos atuais pagadores pra transferir pra quem não paga mais nada. O dinheiro pago já foi gasto, não há como recuperá-lo. Ainda assim, não dá pra imaginar em um movimento que propusesse simplesmente ignorar o passado e, de uma hora pra outra, que os aposentados arranjassem outra fonte de sustento. O esquema é completamente furado, mas gerou muita gente dependente dele. Suspendê-lo de uma hora pra outra traria danos pesadíssimos a várias pessoas.
Novamente, eu não defendo de forma alguma intervenções estatais. Só estou salientando que desmontar um esquema político traz custos porque o mercado está completamente desestruturado e muita gente acaba dependendo da configuração atual. Também acredito que a liberdade gera mais prosperidade, além de ser moralmente superior, mas não dá pra ignorar a complexidade do processo de desestatização. Conheço pessoas que moravam na Inglaterra e que até hoje lamentam a destruição que ocorreu em algumas regiões por conta de medidas liberalizantes da Thatcher. As intervenções geram muitas distorções que trazem custos altos a muita gente em qualquer tentativa de liberalizar.
De fato, há três coisas que o governo brasileiro precisa fazer se quiser sair dessa estagnação econômica em que se meteu:
1 – Elevar a taxa de juros, a fim de controlar a inflação. O que já surpreendeu o mercado ontem com a elevação da SELIC para 11,25%.
2 – Desestatizar o crédito, combatendo a liberação de dinheiro na economia, às vezes até sem lastro, por meio dos bancos públicos. Dinheiro, por vezes, subsidiado pelo próprio governo, com juros abaixo da SELIC, como no caso do crédito imobiliário.
3 – Aumentar o superávit primário por meio da redução de gastos públicos, os quais explodiram nesse governo, tanto por políticas assistenciais quanto pelo déficit da previdência publica.
Enfim, é algo que temos de esperar para ver. Creio que não terão coragem.
Texto muito bom, mas faltou o R em motor no “moto-perpétuo”.
Explicação mais simples e completa que essa talvez não exista. Se alguém ainda não conseguiu entender, há duas razões: 1 – É burro; 2 – Faz parte de algum governo(Logo, é burro). Desculpem a ironia. Poupem, criancinhas!
Olhem o nível de um jurista conhecido em especial do meio para o fim (já foi desembargador em SP e é aclamado como um dos maiores especialistas em direito do consumidor no país):
http://www.migalhas.com.br/ABCdoCDC/92%2cMI210214%2c101048-As+eleicoes++a+democracia+e+a+sociedade+de+consumidores
Esse aumento da taxa selic vai servir pra alguma coisa se não mexerem no esquema de crédito direcionado? Eu lembro dos artigos do Leandro falando sobre isso.
Fernando
Hilária essa analogia dos tapas na cara. Vale a pena ler!!
Vou colá-la aqui só para facilitar:
Silvio 29/09/2014 15:13:02
A solução é muito simples. Não se trata de ser radical ou gradualista. Trata-se de simplesmente fazer o que é certo.
Se alguém habitualmente te dá 100 tapas na cara todos os dias, não é certo que ela vá reduzindo um tapa por semana até chegar ao ponto em que você não seja mais esbofeteado.
Se alguém te dá 100 tapas na cara todo santo dia e você não fez nada para merecer isso, só há uma única coisa que deva ser feita: aquela pessoa deve parar imediatamente de te dar tapas.
Mas aquela pessoa pode se julgar injustiçada, pois essa atividade era muito importante na vida dela. Ela já tinha até parado de freqüentar a academia, pois ela já se exercitava o suficiente em suas sessões diárias de estapeamento na sua fuça. Imagina o impacto econômico na vida da pessoa que, de uma hora para outra, terá de passar a pagar academia para poder se exercitar.
Mais ainda, aquela pessoa realmente se divertia dando bolachas na sua cara. Ela não precisava freqüentar teatros e cinemas para se divertir. A sua cara era praticamente a fonte de toda a diversão que aquela pessoa precisava. Se formos parar com a agressão de uma hora para outra, ela vai sofrer e ter de repensar toda a sua vida, sem contar que vai ter de procurar novas formas de diversão.
E não é só a pessoa que te dava tapas que vai sofrer com a imediata extinção dessa atividade lúdica. O farmacêutico ganhava uma boa grana te vendendo analgésicos. O dentista também tinha um bom rendimento ao tratar de seus dentes que volta e meia ficavam afrouxados. O psicológo tinha em você um cliente regular e também faturava bem ao ouvir suas lamentações pelo sofrimento decorrente das coças diárias. A economia será afetada e fatalmente haverá uma retração se a sua cara não for mais objeto de porrada.
Mas então, qual seria a melhor solução? Simplesmente impedir que te impeçam de dar tapas ou buscar uma redução na quantidade de tapas dados na sua cara até chegar a um patamar mais razoável ou mesmo tendente a zero?
Quando se põe sua cara à tapa a solução fica evidentemente óbvia. Mas o certo é que ninguém pode tolerar a iniciação de agressão. Como o estado é financiado na base de roubo/agressão, ele simplesmente não pode ser tolerado. Não se deve reduzir o roubo aos poucos para que o ladrão tenha a oportunidade de tranqüilamente arranjar outra atividade para se sustentar.
Voltando ao hipotético caso do tapa, mas então como é que ficam o cara que te estapeia diariamente, o farmacêutico, o dentista e o psicológo? A resposta é muito simples: FODAM-SE ELES! Ninguém tem o direito de levar a sua vida na base da coerção de outras pessoas.
Créditos ao Silvio
Acompanho o Mises.org tem algum tempo, mas nunca comentei nada.
Agora, neste momento de insônia, eu escrevi algo que estava em minha mente e gostaria de trazê-lo aqui, para saber a opinião dos amigos que frequentam este valioso espaço:
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=298809240310389&set=a.284810705043576.1073741829.100005439467413&type=1&ref=notif¬if_t=like
Se puderem me dar um feedback, serei grato, afinal, estou apenas construindo minhas ideias.
Abraços.
Corrigindo o link que mandei no comentário anterior, por favor:
https://www.facebook.com/drthalesdeoliveira/posts/298809630310350:0
Acredito que poderíamos ter um artigo sobre a recente decisão de aumento na velocidade de expansão monetária do Japão, não?
Olá,
Li o artigo e a recomendação inserida no texto sobre o “efeito multiplicador”, mas ainda não consegui entender seu funcionamento, principalmente quando interpretado à luz de um caso prático, como o Programa Bolsa Família.
Lembro de ter visto uma propaganda do governo que dizia que a cada R$ 1,00 investido no PBF, R$ 1,78 eram criados no PIB. Nunca acreditei nesta propaganda, mas também nunca tive algum argumento concreto contra ela.
Se o governo tira 1 real de alguém e o transfere para outra pessoa (que passa por necessidades e irá utilizar o dinheiro, e não o poupará) eu não posso dizer que este valor movimentou a economia em um outro lugar? Qual seria a diferença em gastar R$ 1,00 em um restaurante ou em um supermercado? Alguém pode me ajudar com essa dúvida?
Desde já, agradeço.
Excelente texto, hoje, vemos exatamente o contrário do que acabamos de ler. Governo cobra mais, toma mais, rouba mais e gasta mais ainda. Não há retorno
A austeridade é o remédio amargo de um país doente. A população acostumada aos benesses sociais do estado não a aceita e os políticos se aproveitam do ressentimento geral para ganhar eleições e, por fim, piorar tudo. É o que vemos hoje na Europa; amanhã, no Brasil.
Leandro e Leitores, queriam que comentassem acerca disto :
br.rbth.com/economia/2014/10/27/proximo_passo_logico_e_a_criacao_de_uma_moeda_comum_para_os_brics_28013.html
Criação de uma moeda unica para os BRICS, o que aconteceria?
Mas o aumento dos impostos não é necessário num primeiro momento para que o governo pague as suas dívidas?
Diversos governantes fizeram isso no começo de seus mandatos. Cito Campos Sales no Brasil e Ronald Reagan nos EUA.
Interessante a polissemia, como a mesma palavra pode ter significados diferentes para pessoas diferentes. Você diz que “austeridade é importante”, a outra pessoa concorda e ambos pensam que se entenderam. Porém, por “austeridade” você quis dizer “redução dos gastos”, mas para a outra pessoa significa “aumento de impostos” e foi isso que ela compreendeu da sua fala. Por isso é importante esclarecer termos-chave antes de prosseguir um diálogo.
* * *