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Concessões, propaganda e censura velada: como o estado capturou a voz da imprensa

Criança ingênua, em meados dos anos 70. O ocaso reunia a família diante do monitor de tubo, imagem em preto e branco, às vezes trêmula, corrigida por um ajuste na antena. E então, o milagre diário da televisão brasileira, desenhado por Assis Chateaubriand, se cumpria: olhos e ouvidos atentos à voz barítona de Gontijo Teodoro — precedido no rádio por Heron Domingues — anunciando: ‘Aqui fala o seu Repórter Esso’. O que vinha a seguir era o auge da credibilidade. Um pouco mais velho, ainda inocente, soube que todo aquele aparato era uma concessão estatal. A explicação me pareceu lógica, e nela acreditei por muitos anos: do poder central emanaria a segurança da informação. Hoje reconheço que esse conforto, na mesma medida em que parecia sólido, era ilusório. A outorga pública não gerou neutralidade, mas dependência. E o que se consolidou foi um círculo vicioso que atravessa décadas: concessões, propaganda e censura velada moldaram a imprensa brasileira como serva do poder.

 

A engrenagem da submissão

A televisão brasileira não nasceu livre: nasceu concedida. O rádio, igualmente. Ambos dependem até hoje do beneplácito da União para existir. A própria Constituição de 1988 cristalizou esse mecanismo no Artigo 223, que exige concessão, permissão ou autorização federal para qualquer serviço de radiodifusão sonora ou de imagens. Não se trata, portanto, de acidente histórico: a dependência está gravada na lei.

O modelo criou um vínculo de servidão. A cada renovação de outorga, as empresas de comunicação sabem que sua sobrevivência depende de manter portas abertas em Brasília. A cada repasse de publicidade estatal, os jornais e emissoras confirmam que sua fidelidade está menos no leitor ou espectador, e mais no poder que paga e autoriza.

 

O mito da pluralidade

A expansão tecnológica — do rádio à televisão, da TV aberta ao cabo, do cabo às plataformas digitais — foi vendida como promessa de diversidade. Mas as raízes permaneceram as mesmas: um sistema centralizado, controlado e irrigado por dinheiro público.

A pluralidade não passou de aparência. O que mudou foi o formato da tela; o que permaneceu foi a lógica da dependência. Em vez de competição genuína, o que se viu foi a multiplicação de braços de um mesmo corpo, alimentado pela publicidade oficial e protegido pela outorga estatal.

 

Os incentivos perversos

A Escola Austríaca de Economia ensina que são os incentivos que moldam a ação humana. Se o Estado detém a chave (as concessões) e a bolsa (a publicidade), não há como esperar independência real.

Mises lembrava que não existe monopólio sem o braço do governo. Hayek advertia que a informação é dispersa e não pode ser controlada por um centro. Rothbard defendia que a liberdade de expressão só é autêntica quando não está sujeita à coerção econômica. No Brasil, ignoramos esses alertas. Nossa imprensa cresceu sob o monopólio concedido, sobreviveu sob o monopólio financiado e se acostumou a chamar de “liberdade” aquilo que é apenas simulacro de independência.

 

A submissão jornalístico-cultural

O resultado desse arranjo é mais profundo do que a parcialidade editorial. É a formação de uma cultura de submissão: jornalistas que confundem dever profissional com obediência institucional, empresas que tratam o Estado não como objeto de crítica, mas como cliente vitalício.

Essa estrutura explica por que, hoje, assistimos à cena grotesca de uma imprensa que chancela sem pudor a ditadura judicial que se impôs sobre o país. Não há mais sequer o disfarce da neutralidade. Tribunais exorbitam seus poderes, a Constituição é reinterpretada ao sabor da conveniência e a imprensa — que deveria ser contrapeso e vigilância — prefere o silêncio cúmplice ou a defesa ativa dos abusos.

É a lógica da servidão aplicada à informação: quem depende da outorga e do financiamento não ousa morder a mão que alimenta. A censura não precisa ser imposta; ela é praticada de forma voluntária, por medo e por conveniência.

 

Conclusão: liberdade sequestrada

Não estamos diante de meros desvios ocasionais. Estamos diante de uma estrutura que fez da imprensa brasileira um aparelho de legitimação do poder centralizado. Um sistema onde concessões amarram, publicidade seduz e tribunais intimidam.

Enquanto perdurar essa engrenagem, continuaremos a viver sob uma imprensa que não informa: conforma. Que não fiscaliza: justifica. Que não liberta: aprisiona.

A verdadeira liberdade de imprensa só surgirá quando for rompido o vínculo fatal entre mídia e Estado. Enquanto o poder continuar dono da chave e da bolsa, a imprensa brasileira não será sentinela da liberdade, mas guardiã da tirania.

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8 comentários em “Concessões, propaganda e censura velada: como o estado capturou a voz da imprensa”

  1. Nos Estragos Fudidos, o laranjão ditador facista está atacando a impresa jornalista e querendo revogar a licença de duas emissoras de Tv.

    A terra da liberdade é maravilhosa mesmo hahahaahha

  2. Perfeito! Para complementar e concluir levando o raciocínio ao consequente desfecho do que estamos vendo no Brasil, só faltou falar que é por tudo o que foi discutido no artigo que, não por acaso, intenciona-se impor uma legislação de regulamentação das redes sociais no Brasil. Aliás, já deram um passo na suprema corte ao redefinirem que o hóspede do conteúdo pode ser responsabilizado pelo que for publicado na rede. Querem calar o único espaço que ainda tem um pouco de liberdade para criticar pois muitas redes sociais e comunicadores da chamada mídia independente tem uma postura independente e de questionamento a todo este ambiente de censura ao qual estamos submetidos.

  3. E daí?.

    Quem ainda assiste TV, lê jornais hoje em dia?. Só quem tem mais de 70 anos.

    A guerra hoje está na internet.

    A TV daqui de casa é usada como monitor do computador e para ver vídeos da internet.

    1. Pobre Mineiro,

      os boomers de esquerda, wokes progressistas e afins o fazem, infelizmente. Mesmo antes de ter atritos familiares, percebia quando almoçava ou jantava com eles. Televisores sintonizados quase só nos canais do grupo Globo; Band News e CNN, de quando em vez… tratando-se de minha família paterna, infelizmente o que a Globo diz é verdade quase absoluta. Isto ajuda a explicar por quê consideram Bolsonaro o satanás encarnado sobre a Terra.

    2. Sem querer ser metido nessa conversa, mas você já parou para pensar que o problema não é a globo mas as pessoas idiotas que escutam ela? Aliás, quando falam em globo, geralmente vem na minha mente o globo do planeta terra de tão irrelevante que esse canal é na minha vida. Portanto, se estão sintonizados nesse lixo é porque gostam, ué.

    3. Não querendo aqui parecer o Peter do Ancapsu, mas infelizmente há regiões do Brasil em que a Internet é ainda escassa e portanto, isto afeta a difusão das informações descentralizadas, como ele muito diz em seu canal. Nisso, o principal veículo informativo acaba sendo o braço televisivo do PSOL, que é o perfil mais bem encaixável quanto à Globo, que na prática é já uma emissora estatal. O mais próximo de problemas envolvendo quem dá audiência à ela são os boomers por comodismo tecnológico e os wokes, que, embora mais concectados, dão eventual ibope à rede em tela devido certos programas (novelas, séries, Altas Horas, Encontro, etc) apregoarem progressismo, gayzismo, abortismo e afins. Sem contar o dito “argumento de autoridade”; não à toa se não é noticiado na maldita emissora, é porque não ocorreu de fato e qualquer outro veículo que divulge algo que os desagrade, será sempre “fake news”.

    4. O Peter do canal Ancapsu não passa mais um Bolsonarista e não da para leva-lo a serio.

      O Bolsonaro e seus alidos não são direita,mas centro como sempre foram. Defendem o estado minimo,mas estão sempre votando por mais regulamentações.

       

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