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O que realmente é a “sociedade”

O
ser humano nasce em um ambiente socialmente organizado. Somente nesse sentido é
que podemos aceitar quando se diz que a sociedade — lógica e historicamente —
antecede o indivíduo. Com qualquer outro significado, este dito torna-se sem
sentido ou absurdo. O indivíduo vive e age em sociedade. Mas a
sociedade não é mais do que essa combinação de esforços individuais.

A
sociedade em si não existe, a não ser por meio das ações dos indivíduos. É uma
ilusão imaginá-la fora do âmbito das ações individuais. Falar de uma existência
autônoma e independente da sociedade, de sua vida, sua alma e suas ações, é uma
metáfora que pode facilmente conduzir a erros grosseiros.

É
inútil perguntar se é a sociedade ou o indivíduo o que deve ser considerado
como fim supremo, e se os interesses da sociedade devem ser subordinados aos do
indivíduo ou vice-versa.  Ação é sempre
ação de indivíduos. O elemento social ou relativo à sociedade é a orientação
específica das ações individuais. A categoria fim só tem sentido
quando referida à ação.

A
teologia e a metafísica da história podem discutir os fins da sociedade e os
desígnios que Deus pretende realizar no que concerne à sociedade, da mesma
maneira que discutem a razão de ser de todas as outras partes do universo. Para
a ciência, que é inseparável da razão — instrumento evidentemente inadequado
para tratar de problemas desse tipo –, seria inútil envolver-se em
especulações desta natureza.

Sociedade
é ação concertada, cooperação.

A
sociedade é a consequência do comportamento propositado e consciente. Isso não
significa que os indivíduos tenham firmado contratos por meio dos quais teria
sido formada a sociedade.  As ações que
deram origem à cooperação social, e que diariamente se renovam, visavam apenas
à cooperação e à ajuda mútua, a fim de atingir objetivos específicos e
individuais.  Esse complexo de relações
mútuas criadas por tais ações concertadas é o que se denomina sociedade.  Sociedade é divisão de trabalho e combinação
de esforços
.  Por meio da colaboração
e da divisão do trabalho, o homem substitui uma existência isolada — ainda que
apenas imaginável — pela existência conjunta. Por ser um animal que age, o
homem torna-se um animal social.

No
quadro da cooperação social podem emergir, entre os membros da sociedade,
sentimentos de simpatia e amizade e uma sensação de comunidade. Esses
sentimentos são a fonte, para o homem, das mais agradáveis e sublimes
experiências. Elevam a espécie animal homem às alturas de uma existência
realmente humana; são o mais precioso adorno da vida.  Entretanto, esses sentimentos são fruto da
cooperação social e só vicejam no seu quadro; não precederam o estabelecimento
de relações sociais e não são as sementes de onde estas germinam.

Os
fatos fundamentais que fizeram existir a cooperação, a sociedade e a
civilização, e que transformaram o animal homem em um ser humano, é o fato de
que o trabalho efetuado valendo-se da divisão do trabalho é mais produtivo que
o trabalho solitário, e o fato de que a razão humana é capaz de perceber esta
verdade.  Não fosse por isso, os homens
permaneceriam sempre inimigos mortais uns dos outros, rivais irreconciliáveis
nos seus esforços para assegurar uma parte dos escassos recursos que a natureza
fornece como meio de subsistência. Cada
homem seria forçado a ver todos os outros como seus inimigos; seu intenso
desejo de satisfazer seus próprios apetites o conduziria a um conflito
implacável com seus vizinhos.  Nenhum
sentimento de simpatia poderia florescer em tais condições.

Alguns
sociólogos têm afirmado que o fato subjetivo original e elementar na sociedade
é uma “consciência da espécie”.  Outros sustentam que não
haveria sistemas sociais se não houvesse um “senso de comunidade ou de
propriedade comum”. Podemos concordar, desde que estes
termos um pouco vagos e ambíguos sejam corretamente interpretados. Podemos
chamar de consciência da espécie, senso de comunidade ou senso de propriedade
comum, o reconhecimento do fato de que todos os outros seres humanos são
virtuais colaboradores na luta pela sobrevivência, pois são capazes de
reconhecer os benefícios mútuos da cooperação, ao passo que os animais não têm
essa faculdade.

Entretanto,
não devemos esquecer que são os dois fatos essenciais acima mencionados que
fazem existir tal consciência ou tal senso de existência.  Em um mundo hipotético, no qual a divisão do
trabalho não aumentasse a produtividade, não haveria sociedade. Não haveria
qualquer sentimento de benevolência e de boa vontade.

O
princípio da divisão do trabalho é um dos grandes princípios básicos da
transformação cósmica e da mudança evolucionária. Os biologistas tinham razão
em tomar emprestado da filosofia social o conceito de divisão do trabalho e em
adaptá-lo a seu campo de investigação.

Existe
divisão do trabalho entre as várias partes de qualquer organismo vivo. Mais
ainda: existem, no reino animal, colônias integradas por seres que colaboram
entre si; tais entidades, formadas, por exemplo, por formigas ou abelhas,
costumam ser chamadas, metaforicamente, de “sociedades animais”. Mas
não devemos jamais nos esquecer de que o traço característico da sociedade
humana é a cooperação propositada; a sociedade é fruto da ação humana, isto é,
apresenta um esforço consciente para a realização de fins.

Nenhum
elemento desse gênero está presente, ao que se saiba, nos processos que
resultaram no surgimento dos sistemas estruturais e funcionais de plantas e de
corpos animais ou no funcionamento das sociedades de formigas, abelhas e
vespas. A sociedade humana é um fenômeno intelectual e espiritual.  É a consequência da utilização deliberada de
uma lei universal que rege a evolução cósmica: a maior produtividade gerada
pela divisão do trabalho.

Como
em todos os casos de ação, o reconhecimento das leis da natureza é colocado a
serviço dos esforços do homem desejoso de melhorar suas condições de vida.

A cooperação humana

A
cooperação humana é diferente das atividades que ocorreram sob as condições
pré-humanas no reino animal e daquelas que ocorriam entre pessoas ou grupos
isolados durante as eras primitivas.  A faculdade humana específica que
distingue o homem do animal é a cooperação.  Os homens cooperam. 
Isso significa que, em suas atividades, eles preveem que as atividades
incorridas por outras pessoas irão produzir certas coisas que possibilitarão os
resultados que eles objetivam com seu próprio trabalho.

O
mercado é uma situação, ou um conjunto de situações, em que eu dou algo para
você a fim de receber em troca algo de você.  Um ditado em latim, há mais
de 2.000 anos, já apresentava a melhor descrição do mercado: do ut des —
dou algo para que assim você também dê.  Eu contribuo com algo de modo que
você contribua com algo mais.  Com base nisso desenvolveu-se a sociedade
humana, o mercado, a cooperação pacífica entre os indivíduos.  E
cooperação social significa divisão do trabalho.

Os
vários membros, os vários indivíduos de uma sociedade não vivem suas próprias
vidas sem qualquer ligação ou conexão com outros indivíduos.  Graças à
divisão do trabalho, estamos constantemente associados a terceiros: trabalhando
para eles e recebendo e consumindo o que eles produziram para nós.  Como
resultado, temos uma economia baseada nas trocas e que consiste totalmente na
cooperação entre vários indivíduos.  Todo mundo produz, não apenas para si
próprio, mas para outras pessoas também, na expectativa de que essas outras
pessoas irão produzir para ele.  Esse sistema requer atos de troca.

A
cooperação pacífica, as conquistas pacíficas dos homens, são todas efetuadas e
realizadas no mercado. Cooperação necessariamente significa que as
pessoas estão trocando serviços e bens, sendo estes últimos os produtos dos
serviços.  São essas trocas que criam o mercado.  O mercado
representa precisamente a liberdade de as pessoas produzirem, consumirem e
determinarem o que deve ser produzido, em qual quantidade, com qual qualidade e
para quem esses produtos devem ir.  Um sistema livre sem um mercado é
impossível.  O mercado é a representação prática desse sistema livre.

Tem-se
aquela ideia de que as instituições criadas pelo homem são (1) o mercado, que é
a livre troca entre indivíduos, e (2) o governo, uma instituição que, na mente
de muitas pessoas, é algo superior ao mercado e poderia existir na ausência do
mercado.  A verdade é que o governo — que representa necessariamente o
recurso à violência, pois não passa de um poder policial com seu correspondente
aparato de compulsão e coerção — não pode produzir nada.  Tudo que é
produzido de bom é produzido somente pelas atividades desempenhadas por
indivíduos, e é disponibilizado no mercado com o intuito de se receber algo
benéfico em troca.

É
importante lembrar que tudo o que é feito, tudo que o homem já fez, tudo que a
sociedade já fez, é o resultado da cooperação e dos acordos voluntários. 
A cooperação social entre os homens — e isso significa o mercado — é o que
cria a civilização.  E foi essa cooperação que permitiu todas as melhorias
ocorridas nas condições humanas, melhorias essas que podemos usufruir hoje.

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24 comentários em “O que realmente é a “sociedade””

  1. Emerson Luís, um Psicólogo

    O senso de individualidade e o impulso de cooperar em busca do benefício próprio (obtido através do benefício do outro e vice-versa) fazem parte da própria estrutura neurobiológica do ser humano. O socialismo só funcionaria (talvez) se fôssemos insetos sociais em vez de primatas sociais.

    * * *

  2. Mises estava descrevendo a sociedade humana como uma espécie de formigueiro ou de uma colméia de abelhas egoístas, onde os indivíduos nascem aptos à divisão do trabalho, e desde o primeiro dia de vida já percebem que terão mais vantagens se trabalharem em equipe.
    Pois ele se esqueceu que o ser humano nasce totalmente indefeso e só teria alguma chance de sobreviver com muita dificuldade, sozinho na natureza selvagem, depois de adulto e depois de adquirir conhecimentos de outro ser humano… Não é por puro interesse material que os seres humanos se associam e não é nem mesmo uma coisa consciente, pois se as sociedades humanas se originassem como na exata descrição do Mises, nenhuma mãe cuidaria do seu bebê pois desde que o mundo é mundo, um bebê, até conseguir sustentar-se a si próprio só traz desvantagens materiais para mãe, para a família e para sociedade onde ele nasce. Aliás, nessas idéias materialistas está o gérmem do eugenismo, que prega o aborto e a eutanásia de indivíduos que não poderão cooperar com a sociedade.
    Nesse caso, só a metafisica pode explicar porque as pessoas se associam quando só terão desvantagens materiais.

  3. Você não deve ter filhos, ou você é um proletário.. hahaha…

    A tal “vantagem a longo prazo” não está nesse texto de misses, ela é a sua explicação…

    O ponto é que Mises garante que a cooperação é consciente e a formação da sociedade ocorre sempre quando há a percepção de vantagem mútua, mas ele sequer menciona o fato de que toda sociedade humana tem sua primeira associação entre indivíduos, na FAMÍLIA e ela se dá pela HERANÇA GENÉTICA e PELOS LAÇOS CRIADOS PELO AMOR MATERNO da mãe pelo filho ainda bebê.
    Isso derruba a tese de que as sociedades são exclusivamente formadas pelo interesse mútuo entre indivíduos e na sua divisão de trabalho, pois quando nasce um filho a mãe e o pai sempre vão estar, SEMPRE, em posição de desvantagem material por muitos anos, que seja 5 anos, ainda mais numa sociedade primitiva onde a expectativa de vida do ser humano era de 25 anos, até que um filho possa sustentar-se e mais alguns até filho cresça e possa contribuir, primeiro com a FAMÍLIA, depois com a sociedade.

  4. Infelizmente, não li nada sobre o "estado da natureza". Dai caberia uma indagação sobre a divisão do trabalho antes de Hobbes. (já refutando a parte absolutista deste autor).
    Todavia, ao contrário do exposto, penso que a sociedade é, sem dúvida, algo mais do que a combinação de esforços individuais. Exatamente dai, numa visão holística, extrai-se a sinergia de uma organização qualquer que vai favorecer a própria ação individual.
    Em que pese a importância de se atender aos "fins individuais" é evidente que há casos em que o fim supremo visa o todo. Basta observar o funcionamento de uma "sociedade" empresarial qualquer nos dias atuais.
    Sabe-se que os contratualistas (Rousseaunianos) existiram e ainda existem. Mesmo em Montesquieu há alguma sinalização nesse sentido, isto é, no de um "pacto anterior". Também em Locke, embora "impuro," há alguma tendência contratualista. Logo, há sim um entendimento de sociedade formada por CONTRATOS.
    Ao contrário do que foi dito, a sociedade não é apenas divisão de trabalho e combinação de esforços. É muito mais que isso. Seria preciso abordar temas como poder e seu uso (em todas as formas, inclusive, físicas) segurança, etc. para poder confirmar a tese. É possível concluir que a divisão de trabalho NÃO resolve estes problemas.
    Em que pese a importância da divisão de trabalho para a existência da produção em massa e o progresso mundial dai decorrente, não se pode concordar que esta seja a causa ou a única fonte fundamental ou mesmo a mais importante delas para embasar a EXISTÊNCIA da cooperação, da sociedade e da civilização. Talvez, o direito natural de PAZ "possível" , bem como o desejo do fim do estado de natureza, sejam os pilares mais importantes.
    Por último, nem sempre os "acordos" são voluntários, sobretudo, em ambiente cujo o todo NÃO é a soma das partes.

    Saudações

  5. É evidente que quem age são indivíduos, mas isso não significa que não exista algo externo ao individuo que influencie suas ações. É um erro tremendo reduzir a espécie humana a seus indivíduos, desconsiderando o papel do grupo. O nosso pensamento é determinado por nossa educação, pelo meio social em que vivemos, pela cultura na qual estamos inseridos.

  6. Saudações caros “Imbistas”, (para descontrair um pouco antes… =P)

    Gostaria de saber se neste site existem frequentadores que tem interesse em empreendedorismo no ramo de entretenimento.Caso alguem tenha interessere responder abaixo para conversar.

    Abraços!

  7. FILIPE OLEGÁRIO DE CARVALHO

    O que nos faz viver em comunidade não é qualquer faculdade racional, mas sim um instinto animal. O gênero Homo formava bando muito antes de nos tornamos racionais. Como sempre, Mises peca ao reduzir tudo à análise econômica. Viver em sociedade é um fim para o ser humano. Isto é um juízo de valor. Algo que não pode ser encontrado na praxeologia, como o próprio Mises avisou. No entanto, ele ignora a própria advertência e age inadvertidamente ao afirmar isso. Mas, no mais, ótimo artigo.

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