Voltar

Mises e sua decepção com o movimento conservador

Em
meados da década de 1950, a revista libertária The Freeman
havia conseguido cumprir seu objetivo de reagrupar e revigorar várias forças
libertárias distintas e bem diferentes, formadas por liberais da Velha Direita
americana (Old Right) que pregavam o
não-intervencionismo estatal tanto em questões nacionais quanto internacionais
— “os Remanescentes”, como Albert Jay Nock os
apelidaria. 

No
entanto, as dificuldades financeiras e organizacionais da revista acabaram
abrindo espaço para o surgimento de um outro periódico não-esquerdista, o qual
viria a consolidar as forças da direita americana em torno de um ponto de vista
bem menos libertário do que o da revista The
Freeman
.

A
revista National Review surgiu no cenário
americano no segundo semestre de 1955. 
Sua força-motriz estava centrada na jovem figura de seu editor-chefe, William F. Buckley,
Jr.
, formado em Yale e com um forte pedigree anti-comunista: durante seus
anos de estudo, ele coletara informações sobre professores e alunos para o FBI.[1]  Buckley absorveu todo o talento editorial que
não havia encontrado um lar na revista The
Freeman
, em particular a feminista libertária Suzanne La Follete
e o historiador William
Henry Chamberlin
, mas também homens do calibre de Russell Kirk, Frank
Meyer
, Max Eastman e
Erik von
Kuehnelt-Leddihn
.

Quando
Buckley anunciou que a National Review
seria “francamente conservadora”,[2]
homens do velho mundo como Mises devem ter pensado que, francamente, Buckley
não tinha a menor ideia do que estava falando. 
Mises chegou a contribuir com alguns artigos para a revista ao longo dos
primeiros anos de sua existência.  No
entanto, em mais de uma ocasião, ele enfatizou a diferença entre
libertarianismo e conservadorismo.  Em
resposta a saudações pelo seu aniversário em 1957, ele escreveu para seu amigo,
o liberal-clássico alemão Volkmar Muthesius: “Infelizmente, isso não pode ser
mudado.  Sou um remanescente
contemporâneo de Karl Marx, Wilhelm I e Horatio Alger.  Em suma, sou um paleo-liberal [Paläo-liberaler]”.[3]

Em
outubro de 1954, Mises recusou um convite da Universidade de Yale para
participar de um seminário intitulado de “Palestras Conservadoras”, o qual foi
promovido com a promessa de que “cada palestrante irá conscientemente trabalhar
em prol da restauração … do poder da palavra ‘conservador'”.  Mises observou que a palavra “conservador”
não possuía raízes políticas nos EUA e que, na Europa, ela significava o exato
oposto dos princípios apoiados pelos EUA:

Conservar significa preservar o que
existe.  Trata-se de um programa vazio,
meramente negativo, que rejeita qualquer mudança. … Conservar o que existe
nos EUA da atualidade é o equivalente a preservar aquelas leis e instituições
que o New Deal e o Fair Deal legaram à nação.[4]

A
súbita aparição da palavra “conservador” ressaltou um desconforto mais
generalizado presente nas forças contra-revolucionárias nos EUA.  Tais pessoas sabiam perfeitamente contra o
que lutavam: comunismo, fascismo, socialismo, o New Deal, o Fair Deal etc.  Mas o que elas defendiam?  O fato é que,
mesmo entre a liderança do movimento, conhecimento econômico e sólidas
convicções libertárias eram algo raro.  O
refúgio buscado em palavras como “conservadorismo” refletia um desconforto
generalizado em adotar qualquer tipo de mensagem claramente positiva.

Era
mais fácil ser evasivo do que afirmar claramente que no cerne da agenda deste
novo movimento estava a defesa da propriedade privada, como faziam os
libertários.  Consequentemente, outros
termos também começaram a ser utilizados, tais como “governo limitado”,
“federalismo” e “descentralização”. 
Quando Mises enfatizou, em uma monografia, a crucial importância de se
ter um aparato judicial independente, um que “proteja o indivíduo e sua
propriedade contra qualquer tipo de agressor, seja este agressor um rei ou um
assaltante comum”[5], o
secretário da Fundação
Earhart
[uma fundação privada que
financia pesquisas e estudos acadêmicos
] ponderou se isso não poderia soar
um tanto radical.  Afinal, todos os
juízes nos EUA eram nomeados e pagos pelo governo.

Mises
retrucou dizendo que os juízes americanos eram independentes apenas na medida
em que eles não podiam ser afastados ou processados mesmo que suas decisões não
fossem palatáveis para o poder executivo. 
Por outro lado, a insistência em um governo limitado era, na melhor das
hipóteses, útil apenas “na atual luta americana contra as tentativas do governo
de ir gradativamente se tornando mais totalitário”.  E Mises prosseguiu:

Mas não há dúvidas de que, fora deste campo
específico, o termo “governo limitado” é inexpressivo, pois ele não indica em
qual aspecto o governo deve ser limitado. 
Líderes sindicais poderiam, por exemplo, recorrer a este slogan para
justificar a não-interferência do governo sempre que grevistas cometerem atos
de violência e sabotagem contra a propriedade de seus empregadores.

Era,
portanto, de vital importância a defesa clara e irrestrita da supremacia da
propriedade privada e de suas ramificações: o capitalismo e a economia de
mercado.  A insistência apenas no
federalismo e na descentralização não bastaria:

A descentralização em nível federal não
oferece, por si só, nenhuma garantia de que a liberdade será preservada.  O feudalismo medieval também apresentava
essas duas características, descentralização e federalismo; no entanto, apenas
os senhores feudais eram livres (e isentos de impostos); burgueses e camponeses
não tinham acesso a um sistema judiciário, não tinham participação no governo,
e apenas eles pagavam impostos.[6]

Estas
eram ótimas razões para não se adotar o rótulo “conservador” para descrever
este novo movimento americano que rejeitava o comunismo, o socialismo e o New
Deal, e que lutava contra o crescimento de uma mentalidade anti-mercado
capitaneada por uma mídia cada vez mais estatista. 

Mas
a decisão já havia sido tomada.  Quatro
anos após a criação da National Review,
o rótulo “conservador” já era comum na arena do debate público.

Naquela
época, Mises provavelmente já havia abandonado todo o otimismo que ele sentira
nos primórdios da criação da The Freeman.  Ele regrediu a uma perspectiva pessimista, a
qual passaria a ser quase que instintiva em sua personalidade.  Quando seu aluno George
Reisman
lhe disse ter a impressão de que o número de liberais laissez-faire estava crescendo, Mises
respondeu dizendo que essa era a impressão natural de uma pessoa que ainda
estava no processo de conhecer os outros indivíduos dispersos entre os
“Remanescentes”.  Tal pessoa pode
genuinamente crer que o número de indivíduos que compartilham de sua visão de
mundo está crescendo simplesmente porque ela passa a conhecer vários outros
destes indivíduos.  Mises acreditava que
o crescimento era apenas em termos de encontros pessoais e não em termos de números
absolutos. 

Em
uma outra ocasião, ele comentou que seus escritos eram como os Pergaminhos do
Mar Morto: algo que alguém iria encontrar apenas dali a mil anos.[7]

Mas
o pessimismo não impediu Mises de lutar a boa luta, e nem de seguir encorajando
outras pessoas a serem fortes e inflexíveis na batalha das ideias.  Em uma carta a Hayek, que também havia
vigorosamente rejeitado o rótulo de “conservador”, Mises escreveu:

Concordo completamente com sua rejeição ao
conservadorismo.  No livro Up
from Liberalism
, Buckley — um cavalheiro fino e educado — definiu
claramente seu ponto de vista: “O conservadorismo é o reconhecimento tácito de
que tudo o que é decididamente importante na experiência humana já está no
passado; que as explorações cruciais já foram empreendidas e que é dado ao
homem saber quais são as grandes verdades que emergiram delas.  O que quer que advenha de tudo isso não pode
superar a importância de tudo o que já ocorreu antes”. (p. 154).  Marcus Porcius Cato, Santo Agostinho e São
Tomás de Aquino já haviam dito a mesma coisa com outras palavras.  É uma triste realidade constatar que este
programa seja mais atraente do que tudo o que já foi dito sobre liberdade e
sobre os benefícios idealistas e materialistas da economia livre.[8]

Quais
foram os motivos para esta triste realidade? 
Mises sentia que havia aí uma pergunta inexplorada.  Ele prosseguiu:

Suponho
que você, assim como eu, não escreve apenas para se consolar a si próprio com o
provérbio Dixi et salvavi animam meam [Falei e assim salvei minha
alma].  Logo, há a pergunta: como é
possível que a elite de nossos contemporâneos seja absolutamente ignorante em
relação a todas essas coisas?  Como é
possível que, por exemplo, a política adotada pelo governo americano de
encarecer artificialmente o preço do açúcar raramente seja contestada, mesmo
que de cada 500 ou 1.000 eleitores haja no máximo um que possa se beneficiar
deste encarecimento institucionalizado?

O
problema que tenho em mente não é o comportamento nem da massa de
“intelectuais” e nem daqueles que se consideram intelectuais.  Tenho em mente aqueles escritores, tanto de
ficção quanto de não-ficção, que, por exemplo, falam simultaneamente sobre afluência
e sobre uma superpopulação que periga levar a humanidade para perto da
inanição.  Também tenho em mente a ONG União
Americana pelas Liberdades Civis
, que, de um lado, move céus e terras
quando descobre que um clube de tênis só admite negros em seus recintos na
condição de convidados, negando a eles a condição de sócios, e de outro,
declara que ninguém tem o direito civil de trabalhar sem pertencer a um
sindicato.

 

O artigo acima é um trecho extraído do magistral livro Mises
— The Last Knight of Liberalism



[1] Ver Sigmund Diamond, Compromised
Campus: The Collaboration of Universities with the Intelligence Community,
1945–1955
 (New York: Oxford University Press, 1992).

[2] Ver a
carta de intenções de Buckley, datada de 4 de novembro de 1955; Grove City
Archive: Buckley file. A carta não contém nenhuma definição para o termo “conservadorismo”.

[3] Mises
para o liberal-clássico alemão Volkmar Muthesius, carta datada de 3 de outubro
de 1957; Grove City Archive: Muthesius files.

[4] Mises
para John Belding Wirt, carta datada de 23 de outubro de 1954; Grove City
Archive: Conservatism files. Ver também declarações similares na carta de Mises
para Richard Cornuelle, carta datada de 1º de novembro de 1965; Grove City
Archive: Richard Cornuelle file.

[5] Mises, “Economic Freedom
in the Present World,” Economic Freedom and
Interventionism: An Anthology of Articles and Essays
 (Irvington-on-Hudson, N.Y.:
Foundation for Economic Education, 1990), cap. 47. Ver também a
exortação de Henry Hazlitt em prol de uma mudança na “excessivamente rígida”
Constituição Americana em sua carta ao editor do The New York Times (8
de fevereiro de 1942); Grove City Archive: Hazlitt files. Ver também Henry Hazlitt, A New
Constitution Now
 (New York: McGraw Hill, 1942)

[6] Mises para Richard Ware, carta
datada de 24 de outubro de 1957; Grove City Archive: Earhart Foundation files.

[7] Jeffrey A. Tucker, “Mises as Mentor: An
Interview with George Reisman
,” Austrian Economics Newsletter 21,
no. 3 (Fall, 2001): 4.

[8] Mises
para Hayek, carta datada de 18 de fevereiro de 1960; Grove City Archive: Hayek
files. Ver também F.A.
Hayek, The Constitution of Liberty (Chicago: University of
Chicago Press, 1960), nota de acréscimo.

Últimos Artigos

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

43 comentários em “Mises e sua decepção com o movimento conservador”

  1. “Conservar significa preservar o que existe. Trata-se de um programa vazio, meramente negativo, que rejeita qualquer mudança. … “

    “O conservadorismo é o reconhecimento tácito de que tudo o que é decididamente importante na experiência humana já está no passado; que as explorações cruciais já foram empreendidas e que é dado ao homem saber quais são as grandes verdades que emergiram delas. O que quer que advenha de tudo isso não pode superar a importância de tudo o que já ocorreu antes”.

    Isso NÃO É conservadorismo.
    Nenhum pensador conservador, de Burke a Russell Kirk afirmou que o conservadorismo se trata de um fundamentalista e insensato Argumentum ad Antiquitatem.
    O conservadorismo se opõe ao PROGRESSISMO, ao culto e às ilusões messiânicas que colocam o progresso como um fim em sí mesmo.
    Não sei qual pode ser a razão de bater num espantalho desses.

  2. O livro “Mises — The Last Knight of Liberalism” está em vias de tradução para o português, catelhano ou romeno? Alguém tem esta informação?

  3. ‘O problema que tenho em mente não é o comportamento nem da massa de “intelectuais” e nem daqueles que se consideram intelectuais. Tenho em mente aqueles escritores, tanto de ficção quanto de não-ficção, que, por exemplo, falam simultaneamente sobre afluência e sobre uma superpopulação que periga levar a humanidade para perto da inanição. Também tenho em mente a ONG União Americana pelas Liberdades Civis, que, de um lado, move céus e terras quando descobre que um clube de tênis só admite negros em seus recintos na condição de convidados, negando a eles a condição de sócios, e de outro, declara que ninguém tem o direito civil de trabalhar sem pertencer a um sindicato.’

    Achei essa parte meio confusa, pra mim esses escritores e ONGs são parte desses pseudo intelectuais, não?

  4. ‘Quando seu aluno George Reisman lhe disse ter a impressão de que o número de liberais laissez-faire estava crescendo, Mises respondeu dizendo que essa era a impressão natural de uma pessoa que ainda estava no processo de conhecer os outros indivíduos dispersos entre os “Remanescentes”. ‘

    Fico imaginando se não é esse o ponto onde os liberais brasileiros estão agora

  5. Boa tarde!

    Sem querer desviar o assunto mas já desviando:

    Tenho a impresao que o liberalismo pode levar ao Feudalismo.

    Evidentemente que sao coisas muito diferentes, mas o ponto que me intriga é se o propietario tem direito completo sobre a sua propiedade (Igual que no feudalismo), até de determinar quem pode pasar por ela: Nao poderia prejudicar outro propietario?, por exemplo impedindo que escoa sua producao através dela?.
    Se eu sou propietario das terras que cercam o porto de Santos, sem fazer nada poderia me beneficiar da situacao ao nao deixar opcao nenhuma ao porto: Quer passar, paga pedagio. Nao tem concorrencia, entao nao tenho por que investir em estrada.
    Posso no longo praco me prejudicar porque outros portos ficariam viaveis, ou mais interessantes, mas igual acho que estou afetando a liberdade do dono do porto.

    Outro exemplo. Faz poucos anos ganhei um estado inteiro do nordeste que herdei. Está na familia ha 500 anos, quando meu antepassado ganhou uma capitania hereditaria. É propriedade privada hoje em dia. Ao invés de vender os terrenos para interessados em trabalhar a terra, decido ceder direitos de trabalhar ela, tipo aluguel, e sobre ela cobrar uma percentagem da producao.
    O resto pode ser permitido, liberdade de ir e vir (nas minhas terras, portanto ao preco que eu decidir), garantias judiciais para quem mora na minha terra,etc mas nao estaria transformando a regiao em um lugar com caracteristicas feudais?. Qual a alternativa? Concorrencia de outras regioes?.

    Obrigado

  6. A visão de mundo libertária é bem superior a dos conservadores, não resta dúvida. Quando contestados contra suas idéias errôneas, os conservadores são tão histéricos quanto os socialistas.

  7. Deixe-me começar discutindo dois possíveis significados para o termo conservador. O primeiro significado é para referir como conservador alguém que geralmente apoia o status quo; isso é, uma pessoa que quer conservar quaisquer leis, regras, regulamentos, moral e códigos comportamentais que acontecem de existir em determinado ponto no tempo. Como diferentes leis, regras e instituições políticas estão em vigor em momentos diferentes e/ou locais diferentes, o que um conservador defende depende e muda com tempo e lugar. Ser um conservador não significa nada em específico exceto gostar de uma ordem existente, seja ela qual for. O primeiro sentido pode ser descartado, então. O termo conservador deve possuir um diferente significado. O que significa e, possivelmente, só pode significar, é isto: Conservador se refere a alguém que acredita na existência de uma ordem natural, um estado natural que corresponde à natureza das coisas: da natureza e do homem. Essa ordem natural pode ser e é perturbada por acidentes e anomalias: por terremotos e furações, doenças, pestes, monstros e bestas, por cavalos de duas cabeças ou humanos de quatro pernas, aleijados e idiotas, e pela guerra, conquista e tirania. Mas não é difícil distinguir o normal a partir da anomalia, o essencial do acidental. Um pouco de abstração remove toda a desordem e permite que quase todos "vejam" o que é e o que não é natural e de acordo com a natureza das coisas. Além disso, o natural é ao mesmo tempo o estado mais duradouro de coisas. A ordem natural é antiga e sempre a mesma (apenas anomalias e acidentes passam por mudanças), e, daí, ela pode ser reconhecida por nós em todos os lugares e em todos os momentos.

    Conservador se refere a alguém que reconhece o antigo e natural através do "ruído" das anomalias e acidentes e que defende, apoia e ajuda a preservá-los contra o temporário e anômalo. Dentro do reino das ciências humanas, incluindo as ciências sociais, um conservador reconhece famílias (pais, mães, filhos, netos) e lares com base na propriedade privada e em cooperação com a comunidade de outros lares como as mais fundamentais, naturais, essenciais, antigas e indispensáveis unidades sociais. Além disso, o lar familiar representa também o modelo da ordem social em geral. Assim como existe uma ordem hierárquica em uma família, também existe uma ordem hierárquica dentro de uma comunidade de aprendizes, servos e senhores, vassalos, cavaleiros, mestres e até mesmo reis – ligados por um elaborado e intricado sistema de relações de parentescos; de crianças, pais, sacerdotes, bispos, cardeais, patriarcas ou papas e, finalmente, o Deus transcendente. Das duas camadas de autoridade, o poder físico terreno dos pais, senhores e reis é naturalmente subordinado e sujeito ao controle da autoridade espiritual-intelectual dos padres, sacerdotes, bispos, e em última instância Deus.

    Conservadores (ou mais especificamente conservadores ocidentais greco-cristãos), se eles defendem algo, defendem e querem preservar as famílias e as hierarquias sociais e camadas de autoridade material e espiritual que surgem de laços familiares e relações de parentesco.

    POR HANS-HERMANN HOPPE

  8. Emerson Luís, um Psicólogo

    As palavras são muito sinuosas e temos que explicar o que queremos dizer com determinados termos para prevenir maus entendidos. Às vezes pode ser melhor evitar certas palavras com certas pessoas, inicialmente.

    Se eu sou “conservador”? Depende. Conservador é aquele que conserva, a questão é o quê. Sou conservador quanto a princípios e valores elevados, mas não necessariamente quanto a paradigmas, métodos e metas.

    Da mesma forma, “progresso” significa literalmente “andar para frente”. Pode ser bom ou pode ser ruim, depende de para onde vamos e de como vamos lá. Se faço um curso, espero progredir; se estou doente, espero regredir. O problema é que muitos que se intitulam “progressistas” são defensores do intervencionismo, quando os maiores progressos são feitos quando existe liberdade e responsabilidade.

    * * *

  9. Conservadorismo não é sinônimo da manutenção indiscriminada de tudo. Trecho interessante dos Dez Príncípios Conservadores de Russell Kirk:

    “A necessidade de uma mudança prudente, recordada por Burke, está na mente de um conservador. Mas a mudança necessária, redargúem os conservadores, deve ser gradual e descriminativa, nunca se desvencilhando de uma só vez dos antigos cuidados.”

  10. Eu ainda estou enfrentando uma batalha intelectual para saber o que é viável e mais moral: conservadorismo (no sentido clássico do termo, inglês) ou anarcocapitalismo. Deixando isso de lado, eis aqui 2 artigos do Olavo sobre essa dicotomia:

    Por que não sou liberal

    E especialmente este (mais detalhado e profundo):
    O patinho feio da política nacional

    Prestem atenção à distinção que ele faz entre liberalismo econômico, que é o tradicional, e o liberalismo político, que é a social-democracia. Os trechos a seguir foram retirados do último artigo supracitado.

    Vejam só:
    O "liberalismo" brasileiro, unificado exclusivamente por um programa econômico, é um saco de gatos no qual têm de conviver em harmonia abortistas e anti-abortistas, adeptos e inimigos da liberação das drogas e da eutanásia, fiéis religiosos ao lado de discípulos de Voltaire e Richard Dawkins empenhados em banir a religião da vida pública. Durante algum tempo, essas divergências podem parecer desprezíveis em face da luta mais imediata contra a economia estatista. Mas isso é uma ilusão mortal. Há tempos a esquerda internacional e local já decidiu que a estatização da economia pode ser adiada indefinidamente, se não sacrificada de vez em favor da fórmula mista chinesa — e que muito antes dela vem o combate no campo cultural, a luta contra a civilização judaico-cristã. Nessa luta, bandeiras como a liberação das drogas, a proibição da "homofobia" ou a legalização da eutanásia são prioritárias. Como se pode combater o esquerdismo concentrando o ataque num objetivo hipotético de longo prazo e cedendo ao inimigo todo o campo de batalha real e imediato onde ele já conquistou a hegemonia e tem quase o controle completo da situação?

    Aqui o Olavo trata da questão da liberdade e a propriedade serem tratadas como princípios, o que, na opinião dele, é o grande erro dos liberais nacionais. Para ele (apoiando-se num outro autor, verificar o artigo na íntegra para mais detalhes), o liberalismo é um método que precisa de “molduras”. Tais molduras podem ser os princípios conservadores – liberalismo clássico – ou revolucionários:

    Para qualquer pessoa não intoxicada do preconceito kantiano, o direito à vida é que é fundamento da liberdade e da propriedade. Reconhecem-no implicitamente todos os códigos penais do mundo (exceto o velho código penal soviético) ao prescrever penas mais graves para o homicídio do que para a mera subtração da propriedade ou da liberdade. Fundamentar o direito à vida com base na liberdade e na propriedade é torná-lo tão ambíguo quanto elas. E aí a única solução possível é transformar o "Não matarás" num "imperativo categórico", isto é, em algo que é assim só porque o fulano sente que deve ser assim.

    Um liberal pode ter princípios, sim, e a maioria dos que conheço os têm, mas os têm enquanto indivíduos concretos e não enquanto "liberais". A incongruência da situação reside em que o método liberal, posto a serviço de princípios e valores substantivos tradicionais, constitui precisamente aquilo que nos EUA se chama "conservatism". Nesse sentido, nem Friedrich Hayek nem Ludwig von Mises jamais foram liberais: e nos EUA não há quem não os considere anjos tutelares do movimento conservador. Porém o mesmo método, separado da moldura tradicional e erigido ele mesmo em princípio, se torna uma arma terrível nas mãos do movimento revolucionário, que através dele põe a serviço da mutação cultural gramsciana milhões de idiotas úteis liberais dispostos a ceder em tudo o que não lhes pareça limitar diretamente a liberdade e a propriedade (ou, pior ainda, em tudo que pareça fomentá-las mersmo à custa de dessensibilizar moralmente a população). Muitos desses, na verdade, não são propriamente idiotas: são liberais no sentido estrito e espanhol do termo, empenhados em destruir a civilização judaico-cristã e em implantar universalmente o império do niilismo por meio da radicalização da economia de mercado transfigurada em molde e princípio para a conduta humana em todas as áreas da vida. Não é sem razão que alguns deles se gabam de ser mais revolucionários que os socialistas.

    É aquilo que já disse em outro artigo daqui do IMB. No mundo real, via de regra os libertários e alguns liberais têm sido apenas idiotas úteis a serviço da agenda esquerdista (destruir os valores e a moral, para depois dominar a sociedade).

  11. O problema do debate Conservador x Libertário é que ambos são, na maioria das vezes, pessoas que se identificam com a busca da verdade. É por isso que não conseguimos nos unir. Nos prendemos no menor nuance observável e debatemos a exaustão a correlação entre a palavra e a realidade. Enquanto isso a esquerdalhada, que só tem m… na cabeça passa o tempo todo se auto-felando e cuspindo nos outros.

  12. Este tal conservadorismo precisava de um nome melhor. Dá para associar a palavra conservador a muitas coisas que muitas hoje nada parecem com o conservadorismo de Burke. Conservar o que? Sendo que a sociedade não é estática o que um momento os conservadores queriam conservar pode não existir mais em outro momento. Alguém que não queria a abertura política e econômica da URSS era um conservador? Com um termo podendo referenciar tanta coisa fica fácil cair num espantalho quando debatendo contra um dito conservador.

    Todavia não vejo o conservador como alguém que preze somente pelo status quo. Está mais para uma mentalidade de “no time que está ganhando não se mexe”. É olhar com cautela, não com desdém, para as ideias progressistas – nem tudo que é novo é melhor. Nessa visão um conservador não apoia golpes, logo nunca que a ditadura militar brasileira poderia ser conservadora(mas a mesma não tinha muitos traços nitidamente progressistas?).

  13. Guilherme Silveira A. Santos

    Acreditar na honestidade do movimento conservador ( expresso no periódico The Nation e nas análises de autores como Russell Kirk) é tão taticamente ingênuo quanto acreditar que o Khmer Vermelho foi um bom sistema político.

  14. Guilherme Silveira A. Santos

    Os intelectuais da American Left são denunciados pelo conservador David Horowitz ( curiosamente, ele foi anteriormente um comunista). Mas uma das melhores fontes de informação sobre a guerra fria é o documentário da CNN Cold War, de 1998.

Rolar para cima