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Perguntas e respostas sobre a crise

Eis as minhas respostas a um jornalista que fez as seguintes perguntas:


1) De que maneira os bancos centrais contribuem para os problemas que vemos atualmente?


Foi o banco central americano quem criou o problema atual. As baixas taxas de juros e a garantia real de que ele socorreria financeiramente todos os bancos causaram a bolha imobiliária que, por sua vez, estimulou coisas como reduções no padrão de qualidade dos empréstimos, títulos lastreados em hipotecas e corrupção financeira.


2) Os governos ou os bancos centrais poderiam ou deveriam fazer alguma coisa para impedir o colapso do sistema bancário, a essa altura? Por que não?


Não, eles não deveriam fazer coisa alguma – exceto cancelar suas operações de socorro e retornar suas políticas ao normal. No melhor dos mundos, eles seriam extintos.


3) Quais serão as conseqüências das contínuas tentativas das autoridades de impedir mais quebras bancárias e o conseqüente congelamento dos mercados de crédito?


Políticas de salvamento financeiro são exatamente as medidas que transformam recessões normais em depressões. Veja os EUA nos anos 1930 e 1970 e o Japão durante toda a década de 1990. Em todos esses casos, cada governo empreendeu agressivas políticas de resgate financeiro designadas para salvar acionistas e administradores, sustentando-os com crédito farto e com políticas criadas para manter os preços artificialmente elevados. Essa foi uma das principais causas da duração e severidade da Grande Depressão. Em um exemplo típico de como o estado entende tudo ao contrário, o governo federal presumiu que a queda dos preços foi o que causou a depressão, quando na realidade a queda nos preços foi a conseqüência da depressão, e era algo necessário para se restaurar o equilíbrio econômico. Em suas tentativas de manter os preços agrícolas elevados, o governo federal começou a pagar agricultores para destruir suas plantações, enquanto pessoas desempregadas se amontoavam em estabelecimentos públicos em busca de um prato de sopa.


4) Um mundo sem bancos centrais é possível ou desejável? Por favor, explique.


Bancos centrais não apenas são desnecessários, como também são nocivos. É possível e desejável eliminá-los. Algumas de suas funções poderiam ser geridas por instituições de mercado, tais como as câmaras de compensação, por exemplo. A determinação das taxas de juros poderia e deveria ser feita também pelo mercado. Uma inflação persistente e errática da oferta monetária não é algo desejável, de forma que a incumbência dessa função aos bancos centrais seria eliminada e o controle da oferta monetária seria devolvido ao mercado na forma de mineração de ouro e prata, o que é algo muito consistente e difícil de ser manipulado, uma vez que é necessário haver “dinheiro real” para financiar a escavação de metais preciosos.


5) Como a ausência de um padrão-ouro contribui para o problema?


Um padrão-ouro é a parte mais importante da solução porque amarra as mãos do governo, impedindo-o de praticar déficits e de inflar a oferta monetária. Não obstante, o sistema bancário de reservas fracionárias também contribui enormemente para o problema da instabilidade monetária, da inflação e dos ciclos econômicos. É necessário abolir o sistema de reservas fracionárias para os depósitos em conta-corrente (depósitos contra os quais se pode emitir cheques) e retornar às leis relacionadas a depósitos e armazenagens que existiam antes do advento dos bancos centrais e que de fato continuam existindo hoje para todos os contratos que envolvem a armazenagem e a guarda temporária de qualquer bem. Isso significa que cada dólar depositado em conta-corrente teria de ser mantido como reserva pelo banco. Não haveria exigência de reservas para depósitos a prazo, como aplicação em títulos, certificados de depósito, entre outros. Isso acabaria com a alavancagem e a instabilidade do sistema monetário.


6) Como se poderia impedir que o padrão-ouro fosse abandonado aos primeiros sinais de problemas sérios, como foi o caso no passado – e também quando vários países tentaram atrelar suas moedas ao dólar americano?


O Tesouro e o Banco Central não deveriam ter a permissão de emitir papel-moeda sem qualquer lastro, apenas moedas de ouro e prata; e cunhadores privados também deveriam poder emitir moedas de ouro e prata, o que faria com que a oferta monetária fosse determinada pelo mercado (e também faria com que a proporção entre metais preciosos para uso monetário e para outros usos, como para a indústria, estivesse sempre em harmonia). Um padrão-ouro genuíno é aquele sistema baseado em moedas-commodity – cujo exemplo prático mais próximo foi aquele que existiu até 1913 -, e não um sistema baseado exclusivamente em trocas internacionais de ouro, como o que existiu entre 1933 e 1971, sistema esse que permite que o Tesouro e o Banco Central manipulem a oferta monetária.


Mais especificamente, o dólar deveria ser fixado em um peso determinado de prata, porque foi assim que o dólar surgiu no mercado (o ouro era usado como dinheiro em transações mais altas, mas os EUA só entraram num padrão-ouro porque os britânicos tomaram decisões monetárias ruins quando estavam em um sistema de razão fixa entre ouro e prata, o que fez com que a Lei de Gresham[*] entrasse em efeito). Não deveria haver uma razão fixa entre ouro e prata, e as pessoas deveriam ser livres para utilizar ambos como moeda. Cheques e cartões de débito continuariam existindo; aliás, os cartões de débito poderiam automaticamente transformar os valores em ouro depositados em conta-corrente em valores em prata para quaisquer tipos de compras. Esses princípios básicos deveriam ser escritos em todas as constituições de modo a bloquear as ações dos governos e não impedir as inovações do mercado.


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[*] A lei de Gresham – em homenagem ao financista e comerciante inglês Thomas Gresham – diz que o dinheiro ruim expulsa o dinheiro bom de circulação. Ou seja: em um sistema monetário em que há mais de uma moeda em circulação, a moeda de valor inerente mais baixo (uma moeda artificialmente valorizada) será a preferida para ser usada como moeda corrente, ao passo que a moeda de valor inerente mais alto (aquela que está artificialmente desvalorizada) será estocada para ser usada apenas em eventualidades ou contingências.


 

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12 comentários em “Perguntas e respostas sobre a crise”

  1. Muito bom. Parabéns! Sempre quis saber como a escola austríaca encarava os trustes e cartéis. Pra mim, sempre foram esses os entraves na lógica do livre-mercado. Se possível, façam mais um podcast falando mais sobre estes assuntos em particular, citando estudos de casos, informando sobre como os países com os mercados mais livres se comportam, etc.
    Um abraço

  2. Gosto muito dos casts do podcast Mises Brasil.

    Esse cast me deu um ponto diferente dos procedimentos antitrust mas a mim não convenceu. Peco uma segunda entrevista com o mesmo convidado mas que ele seja mais didático e explique de forma mais básica. Fiquei inclinado a acreditar nos argumentos, mas ainda não me convenci.

    Obrigado, tema muito interessante e gostaria que fosse mais explorado nos próximos casts

  3. Bom dia!

    Primeiramente, parabéns ao Bruno e ao IMB pelo excelente trabalho!

    Sempre questionei silenciosamente as teorias distópicas que aprendi na universidade, mas desconhecia autores que embasassem as minhas inquietações. Conheci o podcast há menos de um ano e me identifiquei de imediato com as idéias de Mises. Minha mente se expandiu desde então e tenho me dedicado a espalhar as idéias liberais àqueles que estiverem abertos ao diálogo. Sempre indico os artigos e podcasts do IMB, pois são uma fonte inesgotável de conhecimento!

    Sobre a entrevista do Dr. Andre Luiz Santa Cruz Ramos, gostaria de levantar fato que me causa dúvida e acredito que ele possa me ajudar. Talvez a matéria nem esteja relacionada ao que foi tratado na entrevista e desde já peço desculpas por eventual fuga do tema.

    Sou nascido em uma cidade do interior de São Paulo onde está sediada uma das maiores indústrias produtoras de laranja do mundo. Já ouvi diversas vezes que a empresa sofre um processo bilionário há mais de vinte anos, mas que nunca há comprovação e condenação. A acusação é a prática de Dumping para absorver a produção dos pequenos produtores da região ou até mesmo comprar suas propriedades e tirá-los totalmente do mercado. Ou seja, os produtores não conseguem vender aos supermercadistas o seu produto pelo mesmo preço da indústria e se vêem obrigados a aceitar o preço que lhes oferecem. A indústria, por sua vez, já tem suas propriedades e não depende da laranja destes produtores menores, movendo arbitrariamente as peças do tabuleiro.

    Sempre fui resistente ao que a maioria diz e, creio que até por certo preciosismo, me negava a acreditar que a empresa de minha cidade seria capaz de prática tão desleal. Além disso, tinha na mente o insucesso do produtor a mesma imagem de meu avô, que de um bem sucedido agropecuarista terminou sua vida miserável por má gestão de seus recursos.

    Nos anos de 2008 a 2010, trabalhei em um banco e justamente na concessão de crédito agrícola. Foi então que tive a oportunidade de me aproximar da outra ponta desta relação. Nas muitas visitas que fiz às propriedades, pude ver de perto o que estava acontecendo. A maioria dos produtores trocaram seus pés de laranja por cana de açúcar. Tiveram seus primeiros anos excelentes, que possibilitou a eles estabilizar suas finanças, mas a cada ano as usinas lhes pagavam menos pela tonelada e a história se repetia. Os produtores de laranja que persistiram, viam parte de sua produção apodrecer no pé por falta de compradores.

    Diante deste relato, eu gostaria de saber a opinião dos senhores: é justa a concorrência que está havendo neste cenário? Podemos realmente chamar de Dumping a estratégia da indústria? Qualquer tipo de intervenção estatal seria cabível neste caso?

    Muito obrigado e um forte abraço.

    Alex Martinelli

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