Voltar

A ascensão do capitalismo

EC_Issues_Economy_lg.jpgO
sistema pré-capitalista de produção era restritivo.  Sua base histórica era a conquista
militar.  Os reis vitoriosos cediam a
terra conquistada aos seus paladinos. 
Esses aristocratas eram lordes no sentido literal da palavra, uma vez
que eles não dependiam de satisfazer consumidores; seu êxito não dependia de
consumidores consumindo ou se abstendo de consumir seus produtos no mercado.

Por
outro lado, eles próprios eram os principais clientes das indústrias de
processamento, as quais, sob o sistema
de guildas
, eram organizadas em um esquema corporativista (as corporações
de ofício
).  Tal esquema se opunha
fervorosamente a qualquer tipo de inovação. 
Ele proibia qualquer variação e divergência dos métodos tradicionais de
produção.  Era extremamente limitado o
número de pessoas para quem havia empregos até mesmo na agricultura ou nas
artes e trabalhos manuais.  Sob essas
condições, vários homens, para utilizar as palavras de Malthus, descobriram que
“não há vagas para eles no lauto banquete da natureza”, e que ela, a natureza,
“o ordena a dar o fora”.[1]  Porém, alguns destes proscritos ainda assim
conseguiram sobreviver e ter filhos.  Com
isso, fizeram com que o número de desamparados crescesse
desesperadoramente. 

Mas
então surgiu o capitalismo.  É costume ver
as inovações radicais que o capitalismo produziu ao substituir os mais
primitivos e menos eficientes métodos dos artesãos pelas fábricas
mecanizadas.  No entanto, esta é uma
visão bastante superficial.  A feição
característica do capitalismo que o distinguiu dos métodos pré-capitalistas de
produção era o seu novo princípio de distribuição e comercialização de
mercadorias.

O
capitalismo não é simplesmente produção em massa, mas sim produção em massa
para satisfazer as necessidades das massas. 
As artes e os trabalhos manuais dos velhos tempos eram voltados quase
que exclusivamente para os desejos dos abastados.  E então surgiram as fábricas e começou-se a
produzir bens baratos para a multidão. 
Todas as fábricas primitivas foram concebidas para servir às massas, a
mesma camada social que trabalhava nas fábricas.  Elas serviam às massas tanto de forma direta
quanto indireta: de forma direta quando lhes supriam produtos diretamente, e de
forma indireta quando exportavam seus produtos, o que possibilitava que bens e
matérias-primas estrangeiros pudessem ser importados.  Este princípio de distribuição e
comercialização de mercadorias foi a característica inconfundível do
capitalismo primitivo, assim como é do capitalismo moderno.

Os
empregados são eles próprios os consumidores da maior parte de todos os bens
produzidos em uma economia.  Eles são os
consumidores soberanos que “sempre têm razão”. 
Sua decisão de consumir ou de se abster de consumir determina o que deve
ser produzido, em qual quantidade, e com que qualidade.  Ao consumirem aquilo que mais lhe convém,
eles determinam quais empresas obtêm lucros e quais sofrem prejuízos.  Aquelas que lucram expandem suas atividades e
aquelas que sofrem prejuízos contraem suas atividades.  Desta forma, as massas, na condição de
consumidores no mercado, estão continuamente retirando o controle dos fatores
de produção das mãos dos empreendedores menos capazes e transferindo-o para as
mãos daqueles empreendedores que são mais bem sucedidos em satisfazer seus
desejos.

Sob
o capitalismo, a propriedade privada dos fatores de produção por si só representa
uma função social.  Os empreendedores, os capitalistas e os
proprietários de terras são os mandatários, por assim dizer, dos consumidores,
e seus mandatos são plenamente revogáveis. 
Em um mercado livre e desimpedido, no qual não há regulamentações,
subsídios ou protecionismos estatais, para um indivíduo ser rico, não basta ele ter
poupado e acumulado capital.  É
necessário que ele invista, contínua e repetidamente, naquelas linhas de
produção que melhor atendam aos desejos dos consumidores.  O processo de mercado torna-se um plebiscito
que é repetido diariamente, e que inevitavelmente expulsa da categoria dos eficazes
e rentáveis aquelas pessoas que não empregam sua propriedade de acordo com as
ordens dadas pelo público. 
Consequentemente, em um mercado livre de protecionismos e privilégios concedidos pelo governo, as grandes empresas — sempre o alvo
do ódio fanático de todos os governantes e de pretensos intelectuais —
adquirem e mantêm seu tamanho unicamente pelo fato de elas atenderem aos
desejos das massas.  As indústrias
voltadas para satisfazer os luxos de poucos jamais adquirem um tamanho
significativo.

A
principal falha dos historiadores e políticos do século XIX foi terem se mostrado
incapazes de perceber que os trabalhadores eram os principais consumidores dos
produtos das indústrias.  Na visão deles,
o assalariado era um homem trabalhando árdua e exaustivamente para beneficiar
unicamente uma classe ociosa e parasítica. 
Tais pessoas estavam sob a ilusão de que as fábricas haviam prejudicado
todos os trabalhadores manuais.  Tivessem
eles prestado um pouco mais de atenção nas estatísticas, teriam facilmente
descoberto a falácia desta sua opinião. 
A mortalidade infantil foi reduzida, a expectativa média de vida aumentou,
a população se multiplicou e o cidadão comum passou a usufruir confortos que os
mais abastados das épocas mais antigas sequer sonhavam existir.

No
entanto, este enriquecimento sem precedentes das massas foi meramente um
subproduto da Revolução
Industrial
.  Sua principal façanha foi
retirar a supremacia econômica das mãos dos proprietários de terra e transferi-la
para a totalidade da população.  O
cidadão comum não mais era um servo que tinha de se satisfazer com as migalhas
que caíam das mesas dos ricos.  As três
castas párias que caracterizaram as épocas pré-capitalistas — os escravos, os
servos, e aquelas pessoas a quem os autores patrísticos e escolásticos, bem como
a legislação britânica dos séculos XVI ao XIX, se referiam como ‘os pobres’ —
desapareceram.  Seus descendentes se
tornaram, neste novo arranjo econômico, não apenas trabalhadores livres, mas
também consumidores.

Esta
mudança radical se refletiu na ênfase que as empresas passaram a dar aos
mercados.  O que uma empresa necessita
acima de tudo é de mercados e mais mercados. 
‘Atender ao mercado’ passou a ser o lema das empresas capitalistas.  Mercados — isto significa clientes,
compradores, consumidores.  Sob um
capitalismo genuíno, livre de privilégios estatais, há apenas uma forma de enriquecer: servir aos consumidores de uma
maneira melhor e mais barata do que fazem as outras pessoas, os concorrentes.

Dentro
das empresas e indústrias, o proprietário — ou, nas grandes corporações, o
representante dos acionistas, o presidente — é o chefe.  Porém, este controle é apenas aparente e
condicional.  Ele está sujeito à
supremacia dos consumidores.  O
consumidor é o rei, é o verdadeiro chefe, e o produtor estará acabado caso ele
não supere seus concorrentes na disputa de melhor servir aos consumidores.

Foi
esta grande transformação econômica que mudou a face do mundo.  Ela rapidamente transferiu o poder político
das mãos de uma minoria privilegiada para as mãos do povo.  À emancipação industrial seguiu-se o direito
ao voto para os adultos.  O cidadão
comum, para quem o processo de mercado havia dado o poder de escolher os
empreendedores e os capitalistas, adquiriu o poder análogo no campo
governamental.  Ele se tornou um eleitor.


foi observado por eminentes economistas, creio que primeiramente por Frank A.
Fetter, que o mercado é uma democracia na qual cada centavo dá direito a
votar.  Seria mais correto dizer que um
governo representativo escolhido pelas pessoas é uma tentativa de se arranjar
as questões constitucionais de acordo com o modelo do mercado.  Porém, tal intento jamais pode ser
completamente realizado.  No campo
político, será sempre a vontade da maioria que irá prevalecer, de modo que as
minorias devem se limitar apenas a aquiescer. 
Já no mercado, as minorias também são servidas, desde que elas não sejam
tão insignificantes em número a ponto de se tornarem negligenciáveis.  A indústria de vestuário produz roupas não
somente para pessoas normais, mas também para os obesos, e as editoras não
publicam somente romances policiais para as massas, mas também livros para
leitores específicos e exigentes.


uma segunda e importante diferença.  Na
esfera política, não há como um indivíduo ou um pequeno grupo de indivíduos
desobedecerem à vontade da maioria. 
Porém, no campo intelectual, a propriedade privada faz com que rebeliões
sejam possíveis.  O rebelde tem um preço
a pagar por sua independência; não há prêmios neste universo que possam ser
conquistados sem sacrifícios.  Porém, se
um homem estiver disposto a pagar o preço, ele é livre para divergir e se
afastar da ortodoxia ou da neo-ortodoxia dominante.

Quais
teriam sido as condições, nas comunidades socialistas, para heréticos como Kierkegaard, Schopenhauer, Veblen ou
Freud? Para Monet, Courbet, Walt Whitman, Rilke ou Kafka?  Em todas as épocas, os pioneiros e
desbravadores das novas formas de pensamento e atitude só puderam atuar porque
a propriedade privada tornou possível que indivíduos pudessem expressar seu
descontentamento para com a maioria e, consequentemente, pudessem praticar sua
desobediência.  Apenas alguns poucos
destes separatistas eram economicamente independentes o suficiente para
desafiar o governo perante as opiniões da maioria.  Os outros tiveram de procurar (e encontraram)
na livre economia pessoas preparadas para ajudá-los e lhes fornecer
suporte.  O que teria sido de Marx sem
seu patrono, o industrial Friedrich Engels?

 

Este artigo foi extraído do livro Liberty &
Property
.



[1] Thomas R. Malthus, An Essay
on the Principle of Population

(Ensaio sobre a População), 2nd ed. (London, 1803), p. 531.

 

Últimos Artigos

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

110 comentários em “A ascensão do capitalismo”

  1. Foi o capitalismo que deu o poder para o povo… A esquerda pira!

    PS: Há um pequeno erro no penúltimo parágrafo: ” na há prêmios neste universo…”

  2. Bom dia Pessoal, sou novato por aqui.
    Venho em busca de conhecimento e gostei demais da filosofia liberal. Ainda estou cru e tentando me desvencilhar das amarras mentais criadas em mim pela educação e sociedade estatista. Li diversos artigos aqui nos últimos dias e me surgiram algumas dúvidas a respeito deste sistema político-econômico.

    Alguém poderia me iluminar para as seguintes questões?

    1) Como seria o processo de criação de leis numa sociedade liberal? (anarcocapitalista)

    (as perguntas a partir daqui, talvez sejam respondidas ao tirar minha dúvida da pergunta 1)

    2) Como seria solucionado, numa sociedade anarcocapitalista, o problema do silêncio em certas horas do dia? Por exemplo, meu vizinho liga seu aparelho de som à meia noite e passa a incomodar todos os vizinhos.
    3) Você passa na frente da casa de alguém e o vê espancando seu cachorro até a morte, o que poderia ser feito?
    4) Um “cidadão” porco jogando lixo e mais lixo na praia, o que os outros cidadãos poderiam fazer?
    5) Um casal de namorados decide tirar as roupas e fazer sexo em espaço público (por exemplo uma praça).
    6) Você vê um comerciante vendendo drogas à crianças de 6 anos.

    Talvez seja meu pífio entendimento do sistema como um todo e por isso peço humildemente a contribuição de vocês para me ajudar. Ainda não tenho muitos argumentos para, em discussões, defender o posicionamento liberal.

    Obrigado e abraços!

  3. ótimas perguntas, também gostaria de saber as respostas.
    No entanto, para cada um desses problemas HOJE o Estado simplesmente não faz porra nenhuma. Ou alguém vai preso/é multado por jogar lixo na praia?
    A polícia aparece quando seu vizinho liga o som às duas da manhã e você liga 190? Não?
    A polícia não sabe onde ficam as cracolândias, com crianças usando drogas na frente de todos?
    já vivemos numa sociedade sem lei, a diferença é que pagamos por ela…
    O que eu entendo do anarcocapitalismo é que não haveria este conceito de “terra de ninguém”, ou seja, a praça, a rua, o bairro até a praia seriam privados. E os donos jamais deixariam o povo ofender os bons costumes no meio da rua, usar drogas no seu espaço, ou ligar o som às duas da manhã. Exceto nos condomínios específicos para pessoas barulhentas, ou para libertinos, mas aí elas teriam que conviver/suportar pessoas iguais a eles.

  4. Legal saber que não sou o único em dúvida aqui André, rs.

    Com certeza tenho consciência da ineficiência do Estado em me prover soluções para tais perguntas. Mas sabe como é, o Estado pelo menos faz as pessoas pensarem falsamente que têm solução pra tudo. Se a solução do Estado vai funcionar ou não (abrir um BO e arquivar e não dar em nada, por ex), ai já entra no mérito da ineficiência do Estado em efetivar as soluções previstas em teoria. O que acontece em 99% das vezes, sabemos disso. Mas pelo menos o Estado tem a teoria da solução. Isso é largamente usado como argumento contra liberais, já que os estatistas usam o “terrorismo” da “terra-sem-lei” numa sociedade libertária.

    E como o anarcocapitalismo responde a essas questões?

    abraço

  5. Olá pessoal,
    eu não sou novo aqui.

    Mas, o texto acima me surpreendeu negativamente.

    Muito fraco já de início. Ora, até parece que o mundo surgiu há 100, 200 ou 300 anos. Mas, de jeito nenhum dá para concordar com este início.

    Afirmar que o sitema pré-capitalista era a conquista militar cujos “reis” vitoriosos cediam a terra…, é incompleto e, portanto, falso.

    Antes disso, muita “água rolou” . Que reis que nada! A força física prevalece durante centenas, milhares, milhões de anos.

    Antes dos reis é bem provável que quem mandava mesmo eram as “rainhas”.

    Na regra “natural” da força física, meus caros, tudo é possível. Até atravessar o mar caminhando tranquilamente pela superfície, sem qualquer equipamento, desafiando leis realmente naturais ( da física).

    O capitalismo é o sistema vencedor. Cheios de falhas, mas vencedor. Digamos que seja um “Aranha” da vida. Grande vencedor! Mas, pode perder como perdeu.

    De qualquer forma, é o sistema que prevalece hoje. Não nesses moldes aqui expostos, é claro. Isso é utopia. ( todos precisamos de utopia , não é mesmo?)

    Mas, mesmo não sendo novo por aqui, gostaria de uma explicação de vocês sobre as duas grandes guerras do século passado ( 1ª e 2ª).

    É claro que há dezenas de outras, mas, tenho interesse em compreender o porquê destas duas numa visão libertária , aos moldes “Mengerianos”.

    Saudações

  6. A verdadeira surpresa negativa está na aprovação de um comentário como este seu, completamente vápido, insosso e sem nenhum conteúdo. Começa prometendo expor e demolir a “fraqueza” do artigo, mas é incapaz de apresentar um único argumento contrário ao texto. Nenhum! Não mostrou por que o texto é fraco e nem apontou erros.

    Serviu apenas para poluir a seção de comentários.

    E, pra piorar, ainda vem querer fazer pose de superior e questionar dos livre-mercadistas a causa das duas grandes guerras, obras únicas e exclusivas de governos. Ora, por que são os livre-mercadistas que têm de explicar o motivo das guerras? Pergunte para os defensores do estado, único ente que inventa guerras e manda inocentes para a morte.

    Como diria Marco Aurélio Mello, logo se nota que é um novato.

  7. Daniel,
    “vc precisa entender que as leis existem por causa de direitos naturais e elas se estabelecem tb no anarcocapitalismo (talvez numa esfera mais local);”

    Mas as leis naturais (propriedade e liberdade) já são asseguradas no liberalismo, e as outras leis? Falo destas, pois nós aprendemos a viver em sociedade e terminamos criando certas “leis” para boa convivência. Por isso mostrei exemplos de agressões (talvez seja visto como agressão no cenário atual, pois podemos acionar a ‘justiça’) não físicas, como agressão sonora, agressão visual, agressão verbal, agressão olfativa (seu vizinho começa a criar ratos e baratas no terreno que é colado com o seu, hoje a vigilância sanitária poderia ser acionada, e com a transição?)

    “existem em 2 níveis: contratuais e consuetudinários. Em ambos os casos o violador é sujeito a sanções privadas e sociais.”

    Nem sei o que é consuetudinário rsrs, vou pesquisar.
    Mas veja que isso é no caso de ser uma violação à propriedade ou agressão física certo? E em outros casos de convivência?

    “As ruas podem ser entregues aos moradores locais como forma de condomínio.”

    Mas “podem” ou “serão” entregues? Eu sei que a ideologia não prega regras pra esses casos, mas qual a resposta padrão? Assim que houver a transição, quem tomará posse da rua da minha casa? Inicialmente ninguém? O primeiro que sair e comprar a rua ganha? O cenário que descrevi nos comentários acima é possível?

    “Empresas privadas (escolhidas pelos moradores locais) podem comprar pontes e espaços públicos, restituindo os moradores pelos impostos pagos ou dando uma carência para instituição de pedágios, enfim, mto pode ser feito.”

    Escolhidas pelos moradores? Qual a chance de todos os moradores individualmente chegarem num consenso que TAL empresa pode comprar? Se 1, apenas 1 bater o pé e não quiser nenhuma das empresas, o que aconteceria? Os outros vizinhos nada poderiam fazer?

    “Se alguém está preocupado com grandes áreas verdes pode adquiri-las e protegê-las com suas próprias condições financeiras. Se ninguém morar lá, vc pode inciar qualquer obra, cercar e ela será sua.”

    Essa aqui é uma ótima solução. Na verdade, se eu comprar uma área verde, dou certeza que cuidarei melhor que o Governo. Mas ainda resta uma dúvida, eu posso estar preocupado com o verde do mundo e não ter dinheiro para comprá-lo. Se os poderosos acumuladores de capital comprarem, podem transformar todo o verde em novas instalações de sua empresa? Ou seja, não vai existir compromisso ambiental?
    As pessoas preocupadas com o verde devem comprar o verde, as pessoas preocupadas com rios, devem comprar os rios, e assim por diante?

    Veja que um dos meus medos é: Os atuais acumuladores de capital, são justamente os que se beneficiam da máquina estatal. Então no caso de uma transição, eles de fato teriam maior poder de compra que o resto da sociedade. A riqueza não seria equalizada, e eles poderiam comprar quase todos os terrenos postos à venda. Qual a chance deles, com a transição, perderem a influência/poder que possuem atualmente? O que garante que os que hoje dominam a sociedade pelo dinheiro e poder, não vão continuar dominando a sociedade com o dinheiro acumulado no sistema atual?

    Se o Eike Batista simplesmente comprar a AES Eletropaulo (ou outro setor atualmente monopolizado), ele pode escolher não entregar energia a NENHUM dos investidores que se recusaram a fazer negócio com ele previamente. O que aconteceria com estes investidores que atualmente dependem da energia da eletropaulo? (imagina uma empresa de TI situada em SP que trabalhava com ele e rompeu contrato, como ela sobreviveria em SP sem energia?). E a represa que gera energia? O tempo que demoraria para um concorrente aparecer deve ser grande.

    Nossa, cada vez mais tenho dúvidas rsrs

    abraços

  8. Muito bom este texto sobre “A ascensão do capitalismo”, esclarecedor.

    Porém o que mais me chamou a atenção foi ‘as questões propostas pelo Marcelo Pereira, e as respostas que lhe foram dirigidas. Em minha visão o anarco capitalismo não tem nada haver com o liberalismo. Penso que o liberalismo caminha na direção da existência de um estado, por minimo que seja, mas enxerga a necessidade da existência dele.

    As conclusões que se pode tirar destes diálogos é que o anarco capitalismo não difere muito da servidão do comunismo/socialismo. São extremos opostos que produzem resultados iguais. Se uma sociedade é estatista em alto grau é indesejável por uma serie de inconvenientes, da mesma forma uma sociedade entregue a uma total falta de organização e ordem, onde impera a lei do mais forte, então eu não sei o que é pior, se a servidão do socialismo e do estado baba, ou se a selvageria do domínio do mais forte sobre o mais fraco e toda a sorte de desordem e uma interminável luta pela ordem.

  9. Achei muitíssimo interessante o artigo e gostaria de adicionar algumas reflexões:

    “… As indústrias voltadas para satisfazer os luxos de poucos jamais adquirem um tamanho significativo.”

    O que seria um tamanho significativo? Empresas de carros de luxo por exemplo (Ferrari, Porsche, etc) não são enormes?

    Não vai de encontro à este outro trecho abaixo?

    “… Já no mercado, as minorias também são servidas, desde que elas não sejam tão insignificantes em número a ponto de se tornarem negligenciáveis.”

    —–

    Outro adendo seria sobre o conceito do mercado ser o regulamentador de preços e produtores. Em um mundo de livre concorrência, isto seria muito benéfico para a sociedade, porém não está desconsiderando certos mecanismos que as próprias empresas podem realizar? Como cartéis ou algum outro tipo de conluio que não permite uma disputa ética?

    —–

    Abraços!

  10. O que mais assusta é notar como pode pessoas tão inteligentes não perceber que um sistema ‘anarco capitalista’ não surgirá por encanto, assim também como uma sociedade socialista e comunista não surgiu por encanto, e ainda permanece em muitas mentes como um sonho a ser alcançado. É incrível notar que mesmo os resultados das ideias construtivistas e experimentais que a historia recente nos mostra, como a revolução Russa, por exemplo, para verificar a monumental ruptura sofrida naquela sociedade e o imenso sofrimento causado e a perda de vidas humanas.

    É evidente que os teóricos do anarco capitalismo sonham com algo totalmente desconhecido, assim como também os socialistas russos não sabiam bem ao certo os rumos a tomar. O ser humano não é rato de laboratório para ser experimentado no laboratório social. Se assusta a experiencia socialista russa, a cubana, etc, um anarco capitalista também assusta, basta observar as respostas…

  11. Tenho perguntas também:

    1) Assim falando pontualmente parece que o anarcocapitalismo é viável no dia a dia porque estamos analisando uma situação por vez, mas e se eu tiver que viver nessa realidade em que tudo tem um dono e eu tiver que negociar com ele para praticamente qualquer coisa que eu for fazer tiver um custo maior do que o do Estado mínimo (que eu defendo)?

    2) Para o problema da poluição sonora. Caso um vizinho meu faça barulho eu posso recorrer ás regras do meu condomínio, mas e se o vizinho morar no condomínio ao lado que tem suas próprias regras e que eu não sou membro, estou condenado a aturar o barulho a qualquer hora? Ampliando o raciocínio eu não chegaria na necessidade de um controle, pelo menos a nivel municipal, do comportamento das pessoas?

    3) Quem pagaria pelos bens públicos puros (justiça, defesa nacional e polícia, para obrigar as pessoas a seguir as decisões judiciais)? Como fica o problema do carona (eu posso fingir que essas coisas não me interessam e deixar para outras pessoas pagarem, e ainda me beneficiando dos resultados)?

    Enfim, acredito que o custo associado à propriedade privada (em termos de ter de negociar com o dono) junto com a existência de bens públicos puros fez com que a sociedade anarcocapitalista tribal fosse substituída pela do Estado mínimo, que depois acabou inchando e chegando ao nível atual, sendo inviável o caminho de volta simplesmente porque a sociedade atual é complexa demais e os indivíduos limitados demais em tempo e paciência para viver dessa maneira.
    É como se as pessoas delegassem aos governos o controle de algumas áreas simplesmente porque elas não querem ser aborrecidas o tempo inteiro com decisões que seriam necessárias em um mundo anarcocapitalista e por isso elas apoiam algum grau de controle externo em suas vidas, não por que elas gostam de obedecer e serem podadas, mas porque elas estão melhor assim. O problema é que o Estado já cresceu demais nos últimos séculos, talvez até como resposta para compensar a maior complexidade da vida contemporânea.

  12. Bob,
    Claro, imperfeições existem e são realidades em qualquer cenário de mercado. A diferença é: o mercado se ajusta à essas imperfeições, mesmo que lentamente.

    Nem falo que existam imperfeições no modelo atual, pois esse modelo por si só é contraditório. Quem vai decidir sobre desavenças entre um cidadão e o governo? O próprio governo. Este cenário é só um exemplo de quão paradoxal é determinar alguém para dominar qualquer coisa exclusivamente. Além disso, o pobre consegue se defender nesta situação? Hoje, o rico sempre vence, pois existe uma máquina chamada Estado que, por possuir monopólio das coisas, pode “distribuir” privilégios que, somente ele possui, em troca de propina. Coisa que os maiores acumuladores de capital tem de sobra a oferecer. Logo um rico pode sempre comprar a justiça. Num esquema estatista as pessoas simplesmente não tem opção de trocar de jurisdição, então ela (pobre) tem de se conformar com a sentença imposta pelo Estado, que é “amigo” do acusador.

    E numa sociedade libertária?

    Bem, nada garante que NÃO haja injustiça no julgamento do Tribunal X, mas assim que começarem as injustiças, isso vai desmanchar toda reputação de X. Pense no exemplo que dei do Mercado Livre. Um golpista até consegue realizar golpes, mas em pouco tempo é desmascarado e perde espaço na sociedade. Ai você pensa que é possível que o rico compre TODOS os tribunais, ou seja, o pobre não teria escolha.

    Bem, é possível que isso aconteça, mas não é provável.

    Depois do primeiro caso injusto no Tribunal X, você Bob, iria levar seus casos para este tribunal? Não. Não iria mais nem mesmo assinar contratos sob o poder daquela jurisdição. Isso é geral, ninguém no Mercado Livre ao saber de um golpista, volta lá e compra mais um produto dele. Não dá. Ai você fala: “Mas se todos forem golpistas?”. Ai repito, é possível, mas é improvável. E meu argumento é:

    Bem, um mercado onde só tem bandidos é sempre um mercado em potencial para futuros empresários. Oferecer um serviço justo num mercado 100% injusto é muito lucrativo, pois TODAS as pessoas que não têm o poder de comprar as outras justiças que foram já compradas, vão arbitrar seus casos neste novo tribunal. Veja que se todos forem golpistas no mercado livre, então se você, honesto, entrar lá pra vender um tijolo que seja (honestamente) vai instantaneamente receber uma fatia de mercado gigantesca. Sua imagem na sociedade está limpa e você vai usufruir disso.

  13. Emerson Luis, um Psicologo

    A primeira vez que li a expressão “democracia liberal”, pensei ser um pleonasmo. Mas depois aprendi que teoricamente existe a “social-democracia”. Porém, como o artigo explica, foi o liberalismo que produziu a genuína democracia e na prática ela precisa dele para não se degenerar em uma ditadura camuflada ou explícita.

    * * *

Rolar para cima