Voltar

Entendendo a recessão mundial do início do século XXI

Artigo originalmente escrito em julho de 2002

 


O traço singular das crises econômicas desde o início do século XIX é a dificuldade de entrever com precisão a causa ou causas que as deflagram. No passado, as depressões podiam ser imputadas claramente a guerras, revoluções ou catástrofes naturais. A economia capitalista moderna é diferente. Quando tudo parece estar indo bem, inexplicavelmente emergem estranhas convulsões de seu bojo, que não podem ser explicadas por esse ou aquele evento específico. Como não poderia deixar de ser, os estudiosos do assunto aventaram ao longo do tempo inúmeras hipóteses para a compreensão das flutuações econômicas.


Todos conhecem ao menos vagamente a teoria marxista que atribui ao capitalismo contradições imanentes e inexoráveis cada vez mais graves e que, ao fim e ao cabo, levariam à sua superação pelo comunismo. A hipótese de Marx pertence ao gênero das teorias da superprodução, segundo as quais o capitalismo seria tão produtivo que haveria um encalhe de mercadorias em vista da incapacidade das massas para adquiri-las. A outra teoria mais conhecida é a de Keynes, que integra o grupo do subconsumo. Para o inglês, que divisava contradições internas no capitalismo muito parecidas com as de Marx, as crises são o reflexo da insuficiência de poder de compra por parte da população. Os seguidores de Marx e os discípulos de Keynes divergem entre si em detalhes, mas concordam no principal: a economia de mercado é intrinsecamente instável e perversa. É imperativo para a felicidade geral da humanidade que ela seja abolida tout court, conforme os marxistas, ou reformada e estritamente controlada pelo estado, segundo os keynesianos.


Marx e Keynes diziam que sob certas condições a escassez — a impossibilidade de ter tudo ao mesmo tempo — poderia ser suprimida e os povos ingressariam então no nirvana terrestre da abundância. Bastava superar a propriedade privada dos meios de produção, no caso do alemão, ou reduzir a zero a taxa de juros, conforme o britânico, para que esse feliz estado de coisas substituísse o desnecessário vale de lágrimas de dura labuta que aflige os homens desde a expulsão do paraíso.


Em outras palavras, os dois mais famosos e influentes economistas dos últimos cento e tantos anos acreditavam em Papai Noel e no coelhinho da páscoa. Que sejam justamente esses embusteiros os dois mais famosos e influentes economistas sintetiza muito bem a confusão moral e o descalabro intelectual vigente.


Marx e Keynes não foram homens de ciência, e sim expoentes do grupo mais nefasto de todos os tempos, o dos intelectuais socialistas militantes, que superaram com folga os estragos pretéritos de conquistadores sanguinários como Átila, Tamerlão ou Cortez. Suas teorias acerca dos ciclos são tão desonestas e erradas que já nasceram refutadas. Num debate célebre na época, início do século XIX, o economista francês Jean-Baptiste Say conseguira demonstrar os erros cabais de seu colega inglês Malthus, que formulara uma teoria das crises econômicas que depois viria a ser requentada e enfeitada por Marx e Keynes, cada um a seu modo.


De sorte que, para quem quer compreender o que está ocorrendo com a economia global no presente, deve em primeiro lugar descartar in limine as explicações dos economistas marxistas e keynesianos. No Brasil, terra em que 99% dos economistas têm Marx no coração e Keynes na cabeça, isso significa desprezar quase in totum as análises dos pseudo-especialistas. Tampouco há como levar a sério os palpiteiros baratos e propagandistas vulgares como Veríssimo, Sader e similares. Para entender o que está se passando é preciso recorrer às análises e pesquisas de estudiosos sérios.


Como os chamados monetaristas da Escola de Chicago. Para eles, em resumo, a estabilidade econômica depende da relação entre a quantidade total de dinheiro em circulação e a quantidade total de bens e serviços produzida. Enquanto houver equivalência entre ambas essas magnitudes, de modo que uma terceira magnitude, o nível geral de preços, permaneça estável, tudo irá bem. Os problemas decorrem da queda ou do aumento excessivo da oferta de moeda, gerando deflação ou inflação. Para os monetaristas, a razão principal da grande depressão dos anos 1930 teria sido o mau gerenciamento monetário do Banco Central americano, que permitiu uma queda abrupta da quantidade de dinheiro — deflação — e assistiu a uma quebradeira geral de bancos (cujos depósitos à vista — dinheiro — deixaram de existir) sem nada fazer.


A crítica que se faz aos monetaristas é que eles raciocinam em termos de agregados, ou seja, adotam uma teoria macroeconômica dos ciclos que acaba não diferindo muito da macroeconomia keynesiana, e padece de limitações semelhantes. Ademais, tanto na crise americana atual quanto na corrente estagnação japonesa, velha de dez anos, a teoria monetarista falhou na previsão das crises, pois o nível geral de preços em ambos os casos estava mais ou menos estável, e também na correção delas, pois não houve quebras bancárias e deflação e mesmo assim o problema continuou.


Em defesa dos economistas de Chicago, contudo, deve ser dito que eles ajudaram a humanidade derrotando os keynesianos numa grande batalha teórica nos anos 1960 e 1970 centrada nas origens e causas da galopante inflação de preços da época, bem como que eles em geral criticam ferozmente o intervencionismo econômico do protecionismo, monopólios, subsídios, déficits e controle de preços.


Mas a economia não trata de agregados imaginários, meros entes de razão, e sim de seres humanos, suas ações e escolhas num mundo de escassez, imperfeições e incerteza. Nesse plano mais concreto, chamado de microeconomia, alguns teóricos, como Joseph Schumpeter, foram pesquisar a dinâmica das crises econômicas. Esse grande economista partiu do modelo conhecido como equilíbrio geral walrasiano para concluir que a única variável capaz de perturbar esse equilíbrio e deflagrar as crises seria a inovação tecnológica. A teoria da destruição criativa, como ficou conhecida, é muito interessante, mas peca por assumir os postulados irrealistas e insatisfatórios do equilíbrio geral e por concentrar a inovação em determinados períodos, seguidos de calmarias técnicas, quando se sabe que no mundo real ela está ocorrendo o tempo inteiro.


A teoria articulada por Ludwig von Mises sobre antigos insights da escola monetária inglesa do século XIX e sobre as investigações acerca do capital e do juro feitar por Bohm-Bawerk e Wicksell, e depois desenvolvida por Friedrich Hayek e outros, evita as armadilhas da macroeconomia e da microeconomia walrasiana.  Mais ainda: fornece a mais completa ilustração das flutuações econômicas. Passemos a testá-la.


A ênfase é na moeda, como é o caso dos monetaristas, porém a abordagem é primariamente microeconômica, concentrando-se nos efeitos que o advento de moeda-crédito nova provoca nos agentes econômicos. Os economistas austríacos notaram que as crises revelam subitamente que a maior parte dos empresários e investidores erraram em suas estimativas do estado futuro do mercado, de modo que suas expectativas de lucratividade foram frustradas. O erro empresarial é normal (afinal, errar é humano) e acontece o tempo todo, pois o futuro é, por definição, incerto. Mas a singularidade das crises está na enorme quantidade de erros de avaliação simultâneos por parte de empresários experientes e especuladores astutos. Entender a causa desse conjunto de erros é a chave para decifrar o mistério das crises.


Em um mundo em que tudo é heterogêneo, só o dinheiro é homogêneo. A moeda tem a função vital de expressar as razões de troca entre as mais variadas coisas — os preços — numa única unidade de conta apta a permitir o cálculo econômico racional. Os preços monetários transmitem informações aos agentes econômicos sobre a escassez relativa dos fatores de produção e dos bens de consumo; e com base nessas informações, os agentes traçam seus planos e tomam suas decisões. Caso esse delicado mecanismo de transmissão de informações via preços seja danificado, os agentes estarão mais propensos a planejar de acordo com dados fictícios e ilusórios de realidade e, portanto, a tomar decisões erradas.


Para haver investimento, é preciso antes ter havido poupança, a diferença positiva entre o que as pessoas produzem e o que consomem. A poupança agregada reflete uma inclinação geral das pessoas de adiar o consumo no presente em troca de mais consumo no futuro. Se, ao contrário, ocorrer uma preferência generalizada pelo consumo no presente, a poupança agregada é reduzida ou até mesmo substituída pelo consumo do capital existente, o que resultará em consumo futuro declinante e queda do padrão de vida.


Em uma economia de mercado desenvolvida, a poupança chega às mãos dos investidores mediante complexos sistemas de intermediação, e o preço que equilibra a procura e a oferta de poupança existente é o juro. Esse preço é absolutamente fundamental para o cálculo econômico dos empresários, que não investirão em linhas de produção cuja rentabilidade seja menor do que os juros que terão que pagar sobre os recursos tomados. O juro sinaliza a escassez de poupança e informa que não dá para produzir tudo no momento, mas apenas os bens de consumo mais urgentemente desejados pelos consumidores.


Outra informação vital fornecida pela taxa de juros é sobre o tempo a ser consumido no projeto de investimento até que os bens de consumo estejam prontos para serem oferecidos no mercado. Um projeto que consome tempo demais para sua maturação corre o risco de morrer na praia por falta de recursos para mantê-lo, pois até que se comece a vender e lucrar há que pagar os salários dos empregados, os fornecedores de insumos etc.


Se, porém, os bancos decidem emprestar além das suas reservas, eles falsificam dinheiro (pois depósitos sujeitos a cheque criados ex nihilo são dinheiro em circulação), criam uma pseudopoupança e consequentemente a taxa de juros, reduzida artificialmente, deixa de ser um sinal confiável. Os empresários e investidores são induzidos a acreditar que há mais poupança real do que efetivamente existe. Todas as crises são precedidas de períodos de prosperidade febril caracterizada por amplos investimentos em bens de capital e de maturação lenta. Por outro lado, o dinheiro falso bombeado pelos bancos na economia termina por alimentar grandes movimentos especulativos nas bolsas de valores e em outros mercados (como o de imóveis). O estimulante dessa febre ilusória de otimismo eufórico é o crédito artificialmente barato provido pelo sistema financeiro sob o comando dos governos.


A distorção na cadeia produtiva que se segue decorre do fato de que a criação de dinheiro falso não implica que os fatores de produção e bens de consumo também possam se materializar magicamente. Eles continuam limitados e escassos como antes. E como há mais dinheiro comprando as mesmas coisas, os empresários passam a disputar ferozmente entre eles os fatores de produção, cujos preços sobem.


De outro ângulo, a remuneração desses fatores, como os salários dos empregados, começa a ser despendida em bens de consumo, cujos preços tendem a subir. A inflação monetária pode ser contrabalançada por um aumento da produtividade (queda dos preços de alguns bens de consumo pelo aumento da oferta), de modo que o nível geral de preços permaneça relativamente estável, como ocorreu nos anos 1920 e nos anos 1990 nos Estados Unidos. Entretanto, a expansão do crédito fatalmente distorce, além da poupança real, também a alocação de recursos. O aumento da demanda por bens de consumo força os empresários dos setores mais próximos do consumo final a competir com os setores mais distantes pelos fatores de produção. A farra do crédito barato, contudo, gera inflação e estende demais o endividamento dos agentes econômicos, de modo que, mais cedo ou mais tarde, o governo e os bancos são forçados a elevar os juros e restringir a oferta de crédito.


Chega de emprestar; a hora agora é de cobrar as dívidas. O aumento dos juros e dos preços dos fatores subitamente deixa nus com a mão no bolso os empresários do setor de bens de capital. Eles se dão conta de que suas previsões estavam erradas, que não conseguirão recuperar o que investiram.  E aí começa o salve-se quem puder do corte de custos e demissões. As crises sempre começam nos setores da estrutura de capital mais afastados do consumo final, como nas indústrias pesadas, e só mais tarde vão derrubando o resto.


A recessão, na ótica da teoria austríaca, é o acerto de contas inevitável com o complexo de decisões erradas tomadas no passado com base no falso sinal dos juros baixos. Os empresários têm que ajustar seus planos ao nível de poupança efetivamente existente. Muitos quebram e são excluídos do rol dos empreendedores. Os assalariados empregados nas indústrias insustentáveis perdem seus empregos e têm que procurar outros em setores mais sólidos. O desemprego sobe dramaticamente. Os investimentos em bens de capital e terra não conversíveis são sacrificados. Não há outro jeito.


Quanto menor for a intervenção externa nesse necessário processo de regeneração do organismo econômico, mais rápida será a sua recuperação. A tremenda crise mundial de 1921 foi superada em apenas um ano. Já a crise similar de 1929 se prolongou por mais de dez anos e a convulsão japonesa de 1992 se arrasta até hoje. Isso porque os governos resolveram intervir e só agravaram os problemas. Medidas protecionistas para “preservar empregos”, gastos deficitários estatais para “gerar empregos”, barateamento do dinheiro com juros zero ou até negativos (“reflação”), controle de preços, subsídios às indústrias periclitantes, seguro-desemprego para sustentar a “demanda efetiva” e medidas do gênero impedem a recuperação e prolongam a recessão, transmutada desnecessariamente em depressão.


A economia de mercado é construída por milhões de contratos entre sujeitos livres, ou seja, pela cooperação voluntária e mutuamente vantajosa para as partes segundo suas valorações pessoais e intransferíveis. A base desse sistema incrivelmente complexo é uma atmosfera geral de confiança (daí “crédito”) em que os contratantes cumprirão as obrigações pactuadas. Ao contrário do que pregam os enfadonhos intelectuários socialistas, o capitalismo pressupõe uma moralidade social saudável. O elo que possibilita e liga economicamente todas essas relações privadas é o dinheiro. Ora, se o dinheiro é sujeito à manipulação fraudulenta pelos governos e bancos, violando a regra moral básica de não roubar, a imoralidade é infundida no próprio coração do sistema, corrompendo-o gravemente. A inflação é uma espécie de leucemia econômica, em que o sangue do corpo econômico é deliberadamente envenenado. É claro que mais cedo ou mais tarde os órgãos aparentemente saudáveis começarão a falhar e o paciente descobrirá de repente que está seriamente doente.


A propósito, é abordando o problema do ponto de vista ético que se constata mais facilmente o absurdo das propostas keynesianas para evitar ou curar as depressões. Para Keynes e seus sucessores, o estado se subtrai às regras morais válidas para as criaturas comuns, pois ele não só pode como deve gastar mais do que arrecada (onerando assim o patrimônio de terceiros contra a vontade deles) e falsificar dinheiro em bases permanentes. Essas falcatruas oficiais são conhecidas pelos eufemismos de “política monetária” e “política fiscal”. Ora, o estado é uma abstração. O que ontologicamente existe são indivíduos investidos dos poderes de governo. Não pode ser fecundo um sistema social em que vige uma moral para uns e outra inteiramente contrária para outros. A tendência é a imoralidade dos que estão por cima contaminar todo o corpo social, o que de fato tem acontecido sistematicamente.


A inflação é como as drogas. O primeiro passo para curar um viciado em drogas é parar de tomar a substância. Depois virão os sintomas da crise de abstinência que o indivíduo terá que suportar até limpar seu organismo para poder então levar uma vida sã. A medicina keynesiana, todavia, recomenda atulhar o paciente com a mesma droga em que ele se viciou além de outras igualmente nocivas! Não admira que tantos “pacientes” sujeitos a essa terapia charlatanesca tenham chegado perto de bater as botas. O Brasil é um desses pacientes e os charlatães keynesianos fervilham em torno dos candidatos à presidência, os já famosos quatro cavaleiros do apocalipse.


A crise americana do início da década de 2000


Encerrado esse breve esboço teórico das crises econômicas, passemos agora a examinar a atual recessão à luz dessa teoria. Os anos 1990 foram tempos de grande prosperidade nos Estados Unidos, a mais forte economia do mundo. No comando estava o “senhor dos mercados”, Alan Greenspan, chefe do Banco Central americano. É curioso que analistas sérios possam ter acreditado que a saúde econômica mundial dependesse da batuta de maestro de um único homem. Dá para crer que a inacreditavelmente intrincada complexidade da economia global pudesse ser conduzida intuitivamente por um super-homem, que quando sentia uma dorzinha ominosa nas articulações baixava os juros e quando ouvia uma misteriosa voz interior os aumentava? Pois é nisso que a mídia dominante quis que se acreditasse. A verdade é bem outra.


Greenspan pisou no acelerador da expansão monetária em meados dos anos 1990, aumentando a quantidade de dinheiro em 10% ao ano e depois em 15% ao ano. Por que fazer isso? Porque politicamente é interessante; os políticos têm horizonte de curto prazo e fazem qualquer negócio para que a economia cresça, mesmo que esse crescimento seja insustentável. Seus sucessores que se virem com a crise.


fredgraph (1).png


Gráfico 1: crescimento nominal da quantidade de dinheiro na economia americana (1995-2000)


Essa orgia de dinheiro barato desencadeou os investimentos de longo prazo insustentáveis previstos na teoria austríaca dos ciclos, bem como jogou gasolina nas brasas da especulação desenfreada. As ações da Nasdaq foram à estratosfera, muito embora fosse público e notório que as novas empresas “pontocom” levariam anos, e até décadas, antes que começassem a operar no azul. Greenspan começou a falar em “exuberância irracional” na época, mas era ele quem estava abrindo as comportas da irracionalidade.


Como reza essa teoria, a expansão monetária não pode durar para sempre, sob pena de a inflação destruir a economia. Greenspan então falava em “pouso suave” do nível de atividade econômica, excessivamente aquecido, e aumentou a taxa de juros em 1999, reduzindo o crescimento monetário para menos de 8% anuais. A contração nos setores de bens de capital prevista pelos austríacos já tinha se iniciado quando o pouso suave virou uma aterrissagem forçada assustadora. A bolha da Nasdaq estourou, reduzindo a pó as economias de milhões de investidores. Quase seiscentas empresas “pontocom” faliram. A recessão chegou para valer no ano de 2001 e continua bastante séria até o momento. É claro que a crise nos Estados Unidos afeta o mundo inteiro.


fredgraph (2).png


Gráfico 2: taxa anual de crescimento de quantidade de dinheiro na economia americana (1996-2000)


Outro ponto de comprovação da teoria austríaca é a corrente epidemia de fraudes contábeis em grandes empresas e bancos americanos. É óbvio que jamais aconteceu uma assembléia geral de grandes empresários para combinar uma maquiagem contábil generalizada. Essas coisas são feitas no maior segredo. Cada empresa tomou sozinha a decisão de mentir ao público. O fato de que tanta delas tenham feito a mesma coisa ao mesmo tempo reflete o desespero comum de cada um desses conglomerados diante do complexo de estimativas erradas induzidas pela política monetária traiçoeira de Greenspan.


Não se trata aqui de relativizar e desculpar os crimes cometidos por esse pessoal. Um erro não justifica o outro e a desonestidade deles tem de ser punida. Mas não se pode esperar que um sistema imoral gere moralidade. De maneira que a recente declaração de Greenspan contra a “ganância infecciosa” é farisaica e tem por meta tirar o dele da reta. E a grande imprensa mundial engoliu essa isca com a maior sofreguidão, pois, eterna cortesã do estado que é, não poderia admitir que o “senhor dos mercados” não passa de um super-trambiqueiro e fraudador emérito.


Por outro lado, a revelação das fraudes demonstra a superioridade da ordem de mercado, pois não se pode enganá-la por muito tempo. A triagem dos lucros e perdas é implacável, cedo ou tarde os prejuízos produzem seus efeitos. Já as maquiagens contábeis estatais são muito mais difíceis de detectar, muito mais vultosas e onerosas e no fim não dão em punição para os políticos e burocratas. Punição mesmo só para os contribuintes que pagam a conta.


O fato é que a crise está posta e seus desdobramentos para o bem ou para o mal dependerão das ações futuras do governo dos Estados Unidos. Seguir o caminho trilhado por Hoover e Roosevelt nos anos 1930 é receita segura para uma depressão de grandes proporções. Naquele tempo, o governo americano fez tudo o que se poderia imaginar de pior para abortar a recuperação. Instituiu altíssimas tarifas alfandegárias, arruinando o comércio internacional, duplicou os impostos, descarregou subsídios sobre setores ineficientes, desvalorizou o dólar, contraiu déficits fiscais enormes, inflacionou a moeda e interveio no mercado de trabalho. A recessão inicial então se eternizou como uma brutal depressão. Infelizmente, as autoridades americanas não aprenderam a lição do passado, pois estão seguindo trilha semelhante no presente.


Greenspan “reflacionou”, voltando a bombear crédito em doses cavalares na economia americana com juros de quase zero. Não adiantou nada, é claro. Bush e o Congresso estão unidos na política de subsídios e no protecionismo, o que vai naturalmente gerar retaliações dos outros países e blocos comerciais. Uma guerra comercial agora seria um desastre, como foi nos anos 1930. Adotando as indefectíveis recomendações dos keynesianos, que nessas horas sempre retiram o velho pangaré da “política fiscal” de suas nauseabundas estrebarias, Bush elevou dramaticamente os gastos públicos americanos, o que gera déficit, que tem que ser financiado via inflação ou endividamento, e a dívida pública americana não é baixa. Estimulados pelo abundante crédito ao consumo e pela ideologia keynesiana da gastança como meio de encorajar a “demanda agregada”, os americanos se endividaram muito e estão poupando pouquíssimo. Os investimentos estão muito dependentes de poupança externa, que está melindrada pela crise de credibilidade do mercado americano e ameaça fugir para pousos mais seguros. O déficit comercial está alto e aumentando. De resto, o belicismo do governo Bush pouco contribui para a estabilidade mundial. O cenário é lastimável e alimenta o pessimismo.


Para piorar, os políticos estão fazendo a costumeira demagogia lançando empresários fraudadores aos leões para encobrir sua própria culpa no cartório pela situação atual. Fala-se em regulamentações mais severas e draconianas, o que só pode entravar ainda mais um mercado que, ao contrário do que se pensa, já é excessivamente cerceado por copiosas leis e regulamentos. Tudo isso é fumaça. Fraudar a contabilidade sempre foi crime e já existem rígidos mecanismos de prevenção que falharam porque o banner_associacao2.jpgestado costuma falhar. É da natureza da burocracia ser ineficiente. Nem se fosse possível designar um policial para seguir como uma sombra todos os contadores do país daria jeito no problema, pois quem garante que os policiais não seriam por sua vez incompetentes ou sujeitos à corrupção? Teria que haver um fiscal do policial do contador, e depois um fiscal do fiscal do policial do contador e assim por diante.


Para não ficar somente na sinistrose, vale lembrar que aparentemente não há no horizonte próximo a ameaça de ideologias insensatas como o nazismo e o comunismo, que nos anos 1930 ainda tinham o frescor da novidade e não tinham sido testados e reprovados pela experiência histórica. A realidade ensinou duras lições aos políticos que se encantaram pelo marxismo e pelo keynesianismo, de modo que prevalece ainda um certo consenso de que a economia de mercado deve prevalecer, mesmo que pesadamente obstruída pelas “políticas públicas”.


O que se pode assegurar é que os ciclos econômicos continuarão a se repetir enquanto existir a manipulação política da moeda, e não há sinal de que isso possa mudar no futuro previsível. A arquitetura monetária do capitalismo moderno é um castelo de cartas sujeito a desmoronar parcial ou totalmente a qualquer momento.


_______________________________________


Leia também:


Manipular juros não gera crescimento econômico


Explicando a recessão europeia



Últimos Artigos

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

55 comentários em “Entendendo a recessão mundial do início do século XXI”

  1. Um Filósofo do PSTU

    Por favor, permitam-me mostrá-los a teoria marxista dos ciclos econômicos como uma forma alternativa de estudarmos o problema juntamente com a austríaca.

    As crises de superprodução

    O capitalismo é o único modo de produção em que existem crises geradas pela superprodução, ou seja, a produção de um excedente invendável. A crise não é gerada pela falta de produtos, mas pela sua grande oferta, que ultrapassa a demanda. Produz-se mais do que a capacidade das pessoas comprarem.
    Isso ocorre devido ao "caráter anárquico" da produção capitalista, ou seja, a produção atende unicamente ao objetivo de garantir lucro máximo aos capitalistas e não de atender às necessidades da população. Para enfrentar a concorrência, as empresas aumentam sua produtividade, ou seja, aumentam a quantidade de produtos produzidos em determinado período, para conseguir preços menores.

    Como isso ocorre? Para entender esse processo é preciso lembrar que, para Marx, o valor só é gerado através do trabalho humano na produção. Um trabalhador, durante seu tempo de serviço, agrega sua força de trabalho à mercadoria. O tempo gasto na produção da mercadoria é o que vai determinar o seu valor. No entanto, o trabalhador não recebe o valor de tudo o que produziu, mas apenas uma pequena parte na forma de um salário. O trabalho não-pago apropriado pelo capitalista vai constituir a chamada mais-valia: o lucro.
    O capitalista terá seu lucro concretizado após todo o ciclo de produção e venda da mercadoria. Primeiro, ele precisa de um capital. Marx dividia esse capital em capital constante e capital variável. Capital constante é o investimento que um industrial, por exemplo, vai fazer em maquinário e matéria-prima. Capital variável é o que é gasto com a força de trabalho, ou seja, com salários. A relação entre o capital constante e o capital variável constitui a chamada composição orgânica do capital.

    Para enfrentar a concorrência e aumentar a lucratividade, o capitalista amplia o investimento em máquinas e matérias-primas, No primeiro momento, isso pode elevar os lucros da empresa, por produzir mais barato que seus concorrentes. No entanto, isso significa a elevação dos custos com equipamentos e matérias-primas (ou seja, com capital constante) sobre a mesma quantidade de capital empregado no pagamento dos salários, o que leva ao aumento da composição orgânica do capital. Este provoca uma tendência à diminuição do lucro do capitalista. É a chamada queda da taxa média de lucro.
    A forma usada pelos capitalistas para tentar reverter essa tendência é através do aumento da extração da mais-valia, ou seja, através da redução dos salários dos trabalhadores. Consolida-se uma situação em que os gastos com a produção aumentam e os salários retrocedem.

    Os ciclos econômicos do capitalismo são regidos pela taxa de lucro das empresas. No período de ascenso do ciclo, as taxas de lucro estão crescendo. Quando as taxas de lucro caem, os burgueses param de investir e se precipita uma crise econômica.
    _____________________________________________________________________________________
    Ou seja, os ciclos econômicos são propositais e originados puramente pelo caráter imediatista do lucro capitalista e a irresponsabilidade da produção no sistema. É mister reconhecermos a importância da mais-valia na composição da crise e todo o sofrimento que é por ela concedido a todos antes e depois da quebra.

    Fonte: http://www.pstu.org.br/jornal_materia.asp?id=7431&ida=20

  2. Esse texto é antigo, mas muito bom.

    É incrível como as coisas são tão claras e lógicas quando se trata dos efeitos da política monetária e, mesmo assim, “especialistas” fazem questão de “não ver”.

    A premissa é básica: variações na oferta monetária variam os PREÇOS RELATIVOS.

  3. André Luiz S. C. Ramos

    Alceu Garcia (cujo nome real eu já descobri),
    onde está você? Por que parou? Parou por quê?
    Seus textos são excelentes!

  4. Prezado Alceu Garcia

    Se chegar a ler esse comentário, quero dizer que aprendi e aprendo muito com seus textos. Meu muito obrigado. Por seu talento, seu silêncio, hoje, é um crime. Pelo progresso da EA no Brasil, volte à ativa.

    saudações.

  5. Ótimo artigo!! o que me deixa triste é que nao ensinam essas teorias nas salas de aulas de faculdades de economia. Existem diversas cadeiras para se estudar Keynes e Marx, e nenhuma para se estudar a escola austríaca.
    Se eu ler 3 artigos no mises brasil aprendo mais do que um ano na faculdade de economia. É lamentável.

  6. Eu só gostaria de saber do camarada do PSTU o que é feito com esse maquinário todo?? Com todo esse capital produzido em excesso?? Foi pro espaço?? Sumiu??

    Produção é riqueza!!! Se ela foi produzida então estamos em um patamar melhor que antes. Não existem crises GENERALIZADAS de superprodução. Existe realocamento de capital em períodos recessivos. O que causa esse realocamento é o que os marxistas não entendem e nem entenderão.

    Afinal vocês ainda acreditam que o que gera valor em algo é SOMENTE o trabalho. Aí fica dificil sequer iniciar um debate produtivo.

    Começa por Menger camarada aí depois só depois vai dar pra debater!!! Abraços

  7. Um texto excelente e bem argumentado, como também o comentário(texto) do “Um Filósofo do PSTU” sobre o mesmo assunto. São correntes de pensamento econômico diferentes, mas o interessante para mim é que os dois tem uma mesma visão das consequências do que foi feito e o que esta se fazendo no presente pelos governos/estados, é que iremos entrar em uma crise maior que estamos HOJE! no Brasil e no mundo.

    Não desejo debater as causas agora, se elas são sistêmicas ou se são de fundamentos errados do sistema. E sim saber se os “dois mestres” tem a mesma visão que haverá uma crise maior?

  8. Enquanto isso, BC do Japão vai injetar US$1,4 tri na economia…

    noticias.br.msn.com/economia/bc-do-jap%C3%A3o-vai-injetar-usdollar14-tri-na-economia-em-est%C3%ADmulo-in%C3%A9dito-1

  9. Saiu hoje que o Banco do Japão vai injetar 1,4 trilhão de dólares e quase duplicar a base monetária até 2014. O que vcs estão achando disso? rs

  10. Um dos mais elucidativos artigos escritos para se entender pormenorizadamente uma crise relacionada a um ciclo economico desencadeado por expansao da oferta monetária.
    Parabens!

  11. Creio ser meio off topic:
    Qual a posição da Escola Austríaca de Economia sobre o aumento da super população mundial? Não falo de vagas de empregos ou escassez de comida, como alardeiam os esquerdistas. Falo sobre o espaço físico na Terra, literalmente. Como seria o mundo com trilhões de pessoas, dado que em um mundo de livre mercado a tendência é sempre a melhoria da qualidade de vida?

  12. Estou IMB adict e cada dia mais gosto de ler os artigos.E um verdadeiro site do saber. O X da questão é comvencer a maioria das pessoas a acreditar que a liberdade +a propriedade privada+ o mercado livre e desimpedido = forte produção de riquezas, que diminuem a pobreza via mercado e não na base da fraternidade, mas do self interesse,que incentivam a inovação, aumentam a oferta de trabalho e promovem a alegria de viver. Alceu na minha opinião voce é o cara, e não algum barbudo incapaz de enfrentar o bafometro. Tire um tempo para escrever para nós; que tal se voce fosse o nosso condutor quais as medidas de curto prazo e as de longo prazo politicamente incorretas, mas necessarias e transformadoras para o nosso pais? Alceu aquele abraço. A você e aos seus, paz, saude e amor.

  13. “A tendência é a imoralidade dos que estão por cima contaminar todo o corpo social, o que de fato tem acontecido sistematicamente.”

    Isso é de fato a grande tendencia, e dialeticamente até alguns criticos de tal tendencia nela se esfregam gostosamente.

    Sim, quando se afirma que não devemos nos conduzir pelo que é certo ou errado, mas sim pelo que se diz produzir o melhor resultado, o que parece ser mais benefico ou meramente nos apegamos em achismos interesseiros o resultado é a contaminação geral e o imperativo arbitrário fundamentado no achismo e no apoio comunitário. Bastando contar com apoio grupal para o individuo se permitir toda sorte de canalhices achistas.

    Ora, o dito consequencialismo liberalóide é exatamente isso. Me admira que os ditos consequencialistas se oponham moralmente a teorias alheias baseadas igualmente em alegado consequencialismo, desprezando assim qualquer reflexão moral e principalmente jogando a idéia de ética no lixo. Afinal em seus achismos se apoiam no assentimento de seus pares e não em reflexões da própria consciência em busca de um absoluto ético como uma idéia de justiça objetiva.
    O questionamento “isso é justo?” é algo que não se cultiva mais, preferindo-se “isso me pode ser conveniente?” …este comportamento é comum até mesmo aqui neste site por parte de pretensos defensores da liberdade. …Fazê oq????

  14. Mestre Alceu Garcia. Este texto foi o início da mais espetacular discussão em teoria econômica e teoria dos ciclos econômicos que eu ja li e vi, à epoca com o professor Adriano Benayon. Graças a Deus tenho ela impressa e encadernada, na íntegra.

  15. “Em um mundo em que tudo é heterogêneo, só o dinheiro é homogêneo. A moeda tem a função vital de expressar as razões de troca entre as mais variadas coisas — os preços — numa única unidade de conta apta a permitir o cálculo econômico racional. Os preços monetários transmitem informações aos agentes econômicos sobre a escassez relativa dos fatores de produção e dos bens de consumo; e com base nessas informações, os agentes traçam seus planos e tomam suas decisões. Caso esse delicado mecanismo de transmissão de informações via preços seja danificado, os agentes estarão mais propensos a planejar de acordo com dados fictícios e ilusórios de realidade e, portanto, a tomar decisões erradas.”

    Este trecho me lembrou o genial discurso de Francisco D’Anconia no livro A Revolta de Atlas. Excelente texto!

    A tempo, vocês viram isso aqui?

    Só um idiota útil, ou mau caráter mesmo?

  16. Já que tds os erros de 29 estão se repetindo, como e por que aquela crise chegou ao fim, apesar de os gastos estatais apenas aumentarem?
    Serão necessários outros 15 anos e mais alguns milhões de mortes numa guerrinha qualquer? Ou o Kim Jong Un é pequeno demais e precisaremos dele e de mais uns 25 anos?
    Só pra imaginarmos quando a atual chegará ao fim para podermos comprar ações da TecToy e da Gradiente com tranqüilidade…
    Abs amistosos.

  17. Parabéns, IMB!
    Excelente texto, como sempre.
    Tb foi muito interessante poder comparar a Teoria dos Ciclos da EA com a “lógica” do Marx que, a meu ver, não tem pé, nem cabeça!

  18. Desculpem a ignorância amigos, mas não consigo ‘visualizar’ uma situação concreta onde se lê:O aumento da demanda por bens de consumo força os empresários dos setores mais próximos do consumo final a competir com os setores mais distantes pelos fatores de produção. Poderiam me dar um exemplo? Abraços.

  19. “Naquele tempo, o governo americano fez tudo o que se poderia imaginar de pior para abortar a recuperação. Instituiu altíssimas tarifas alfandegárias, arruinando o comércio internacional, duplicou os impostos, descarregou subsídios sobre setores ineficientes, desvalorizou o dólar, contraiu déficits fiscais enormes, inflacionou a moeda e interveio no mercado de trabalho. A recessão inicial então se eternizou como uma brutal depressão. Infelizmente, as autoridades americanas não aprenderam a lição do passado, pois estão seguindo trilha semelhante no presente.”

    E hoje, em 2016, nossos iluminados governantes estão usando das mesmas ferramentas para resolver a crise que eles mesmos criaram…

  20. “Seguir o caminho trilhado por Hoover e Roosevelt nos anos 1930 é receita segura para uma depressão de grandes proporções. Naquele tempo, o governo americano fez tudo o que se poderia imaginar de pior para abortar a recuperação. Instituiu altíssimas tarifas alfandegárias, arruinando o comércio internacional, duplicou os impostos, descarregou subsídios sobre setores ineficientes, desvalorizou o dólar, contraiu déficits fiscais enormes, inflacionou a moeda e interveio no mercado de trabalho. A recessão inicial então se eternizou como uma brutal depressão. Infelizmente, as autoridades americanas não aprenderam a lição do passado, pois estão seguindo trilha semelhante no presente.”

  21. São 20 anos desde a recessão de 2000. FHC sofreu bastante com a desvalorização cambial nessa época. Hoje está meio esquecido por causa do real mais fraco em seu segundo mandato.

Rolar para cima