Para definir os mercados, vamos
utilizar as palavras
do Prof. Ludwig von Mises, uma definição simples, completa, abrangente e
magistral, como praticamente tudo o que Mises escreveu e ensinou. A grandeza
dessa definição está em sua simplicidade, o que mostra que a economia é algo
simples, quando temos a humildade para reconhecer isso, atributo que só
gigantes como Mises costumam possuir.
A economia de mercado é o sistema
social baseado na divisão do trabalho e na propriedade privada dos meios de
produção. Todos agem por conta própria; mas as ações de cada um procuram
satisfazer tanto as suas próprias necessidades como também as necessidades de
outras pessoas. Ao agir, todos servem seus concidadãos. Por outro lado,
todos são por eles servidos. Cada um é ao mesmo tempo um meio e um fim;
um fim último em si mesmo e um meio para que outras pessoas possam atingir seus
próprios fins.Este sistema
é guiado pelo mercado. O mercado orienta as atividades dos indivíduos por
caminhos que possibilitam melhor servir as necessidades de seus semelhantes.
Não há, no funcionamento do mercado, nem compulsão nem coerção. O
estado, o aparato social de coerção e compulsão, não interfere nas atividades
dos cidadãos, as quais são dirigidas pelo mercado. O estado utiliza o seu
poder exclusivamente com o propósito de evitar que as pessoas empreendam ações
lesivas à preservação e ao funcionamento da economia de mercado. Protege
a vida, a saúde e a propriedade do indivíduo contra a agressão violenta ou
fraudulenta por parte de malfeitores internos e de inimigos externos.
Assim, o estado se limita a criar e a preservar o ambiente onde a
economia de mercado pode funcionar em segurança.
Prossegue o Professor Mises:
O
mercado não é um local, uma coisa, uma entidade coletiva. O mercado é um
processo, impulsionado pela interação das ações dos vários indivíduos que
cooperam sob o regime da divisão do trabalho. As forças que determinam a
— sempre variável — situação do mercado são os julgamentos de valor dos
indivíduos e suas ações baseadas nesses julgamentos de valor. A situação
do mercado em um determinado momento é a estrutura de preços, isto é, o
conjunto de relações de troca estabelecido pela interação daqueles que estão
desejosos de vender com aqueles que estão desejosos de comprar. Não há
nada, em relação ao mercado, que não seja humano, que seja místico. O
processo de mercado resulta exclusivamente das ações humanas. Todo
fenômeno de mercado pode ser rastreado até as escolhas específicas feitas pelos
membros da sociedade de mercado.O
processo de mercado é o ajustamento das ações individuais dos vários membros da
sociedade aos requisitos da cooperação mútua. Os preços de mercado
informam aos produtores o que produzir como produzir e em que quantidade.
O mercado é o ponto focal para onde convergem e de onde se irradiam as
atividades dos indivíduos.
Se você, depois desses quatro
parágrafos, ainda não entendeu o que são os mercados, então é porque não os leu
com atenção. Nesse caso, releia antes de prosseguir.
Bem, você está agora preparado
para tentar responder a uma importante questão: o que determina o valor de um
bem ou serviço no mercado?
Serão os custos para produzir
esse bem ou serviço? Não, porque uma pessoa pode ter que incorrer em altíssimos
custos para produzir alguma coisa, mas se os consumidores não quiserem comprar
essa coisa (na linguagem dos economistas, se eles não demandarem essa coisa), seu preço e seu valor será zero.
Bom, se não são os custos,
então não serão as horas de trabalho gastas para produzir o bem ou serviço?
Também não, pelo mesmo motivo! Você pode ter um trabalho incrível para produzir
algum bem, mas se ninguém quiser comprar esse bem, ele não terá valor.
Puxa vida, se não são os custos
e nem o trabalho, então será o valor moral? É claro que não, basta observar que
há bens e serviços que nada têm de morais e que têm valores muito altos no
mercado, porque sua demanda é grande.
Então é o valor estético?
Também não e pelo mesmíssimo motivo! Um ingresso para uma partida de futebol
pode custar mais caro do que uma entrada para assistir a um concerto para
fagote, oboé e flauta de Vivaldi, por exemplo.
Ai, ai, ai, então é o valor
técnico? Nada disso, Mané, muitos inventores não ganharam um centavo com suas
invenções, mas elas deixaram muitas pessoas ricas.
Será então a escassez? Pode
parecer que sim, mas também não é. A escassez depende da demanda, ela não é uma
quantidade aritmética específica do bem. Em minha casa tenho um desenho, um só,
que fiz há alguns anos e, no entanto, ele não tem valor, porque ninguém vai
querer comprar um desenho feito por mim.
Se não é a escassez, então é a
utilidade? Você está chegando lá, mas ainda não é essa a resposta! A utilidade
não significa nada no mercado se não estiver relacionada com a demanda. Há
coisas muito úteis, mas que não têm valor, como o ar que respiramos; um velho
livro de Economia pode ter um valor muito elevado para mim, mas para outras
pessoas ele pode não valer nada. Como você já pode notar, do ponto de vista do
mercado, o que importa não é a utilidade objetiva, mas sim a utilidade subjetiva, aquela que é
estimada pessoalmente, por cada indivíduo.
Valorar algum bem ou serviço no
mercado significa escolher entre esse bem ou serviço e bens e serviços alternativos.
Quando fazemos as escolhas, isto é, quando agimos,
o fazemos achando que aquela escolha, ou aquela ação vai nos proporcionar satisfação maior do que a satisfação que
os outros bens e serviços proporcionariam. Mas, como nossas escolhas são individuais
e subjetivas, como o nosso conhecimento não é perfeito e, ainda, como nossas
ações se dão no decorrer do tempo e este tende a incorporar novos
conhecimentos, corrermos sempre o risco de cometer erros.
Chegamos, então, à resposta que
procurávamos: o valor depende de uma combinação da utilidade com a escassez,
ou, na linguagem dos economistas, ele depende da utilidade marginal, entendida como a satisfação proporcionada pela
última unidade de um dado bem, em um dado momento do tempo.
Por exemplo, se você oferecer,
às três horas da tarde, uma bandeja cheia de copos com água para alguém que
está morrendo de sede, essa pessoa vai dar ao primeiro copo um valor maior do
que ao segundo, a este um valor maior do que ao terceiro, a este um valor maior
do que ao quarto e assim sucessivamente. Supondo que essa pessoa beba, às três
horas da tarde, seis copos seguidos e rejeite o sétimo, podemos dizer que o
valor do sétimo copo, às três da tarde, era zero. Mas se perguntarmos à mesma
pessoa, cinco horas depois, diante da mesma bandeja, se ela quer beber água e
ela responder afirmativamente, então o valor daquele sétimo copo (que agora
será o primeiro) já será positivo e maior do que o valor do oitavo (que, agora,
passa a ser o segundo), o valor do oitavo será maior do que o do nono (que,
agora, será o terceiro) e assim sucessivamente.
Vemos, assim, que o valor
depende de uma combinação entre utilidade
e escassez, combinação sintetizada
pelo conceito de utilidade marginal,
que foi descoberto em 1871 por Carl Menger, o fundador da Escola Austríaca e
por William Stanley Jevons e Leon Walras. Por que aquele primeiro copo com água
tinha um valor maior do que os valores dos copos seguintes naquele momento do
tempo (três da tarde)? Ora, porque era escasso, já que aquela pessoa estava
morrendo de sede, e também porque tinha muita utilidade. Mas, naquele ponto do
tempo, cada copo a mais que era bebido tinha uma utilidade (marginal, na
margem, daquela unidade adicional) menor do que a do anterior. Percebeu agora?
E o que dizer dos preços? Há
certos conceitos — como o de preço — que pensamos dominar, mas que, a rigor,
conhecemos apenas superficialmente. O que vêm a ser preços? Em sua essência, são o resultado da ação de indivíduos
e de grupos de indivíduos que, agindo intuitivamente em seu próprio interesse,
fazem suas escolhas econômicas, como já observamos, na suposição de que sejam, a priori, as melhores dentre todas as
possíveis, dados seu estado de conhecimento e suas motivações em cada momento
específico do tempo. Por isso, todos os preços que conhecemos são preços
passados, meros fatos da história econômica. Ao falarmos de preços atuais, está
implícito que estamos supondo — mesmo inconscientemente — que os preços do
futuro imediato não serão diferentes daqueles do passado recente. E tudo o que
dizemos sobre preços futuros não passa de simples inferência, de nossa visão
particular sobre eventos que ainda são incertos. Preços, portanto, resultam da
ação humana, das escolhas interativas de milhões de indivíduos no mercado, ao longo
do tempo e em condições de incerteza e, por isso, só podemos concebê-los como
tal quando são determinados livremente por essa interação.
Quando o governo intervém no
processo de mercado determinando qualquer preço, na verdade o que está fixando
não é um preço genuíno, mas um pseudopreço,
que não espelha o valor verdadeiro do respectivo bem ou serviço. Isso ocorre
com o Fed controlando a taxa de juros americana, com o Partido Comunista
impondo por mais de setenta anos a mesma tarifa para o metrô de Moscou, com os
congelamentos dos anos 80 e início dos anos 90 no Brasil ou com a Petrobras
fixando artificialmente o preço da gasolina e outros derivados de petróleo.
Cedo ou tarde, a realidade acaba vindo à tona e punindo a mentira, o castigo se
dando sob a forma de ausência de coordenação econômica, inflação, desemprego e
ciclos econômicos. Estes ensinamentos dos economistas austríacos, simples e de uma lógica irrepreensível, têm sido
negligenciados exatamente porque são
simples e conduzem os economistas a uma postura humilde em relação ao seu
próprio conhecimento, o que os leva a ver o intervencionismo como uma prática
de “engenharia social”, sempre equivocada e perniciosa.
Sugestões
de leitura:
Iorio, Ubiratan J. Ação, tempo e conhecimento: a
Escola Austríaca de Economia, Instituto Mises Brasil, 2011, São Paulo, cap.
2
Mises. L., Ação humana,
caps. XV e XVI
Mises, L., O que realmente é o mercado
Rockwell, Lew, O prodígio que é o mercado
Block, Walter., Mercado versus estado
Sugestões
para reflexão e debate:
1. Por que dizemos que os
mercados orientam as pessoas a melhor atenderem as necessidades de seus
semelhantes?
2. O que vem a ser o processo
de mercado?
3. Comente: “o valor depende da
utilidade marginal, uma combinação da utilidade com a escassez”.
4. Por que o valor subjetivo se
altera conforme o tempo passa?
5. Por que todos os preços que
conhecemos são preços passados?
1 Porque pelos preços elas sabem o que as outras pessoas estão querendo mais
2 A ação junta de vendedores e compradores negociando e se ajudando mutuamente
3 Se é útil mas abundante, não faz sentido cobrar caro por aquilo, já que o cara vai comprar mais barato na loja vizinha.Se é abundante mas inútil, quem é que quer algo inútil?
4 Porque as pessoas e as necessidades mudam
5 Porque nenhum vendedor pode adivinhar quantas pessoas vão querer o que ele vende no futuro, o preço se ajusta ao passado
Das quatro lições publicadas até agora, essa foi a melhor. Simples, didático, fácil de entender. Sinto que essas 10 lições do Professor Iorio vão dar uma boa “vitaminada” nos estudos da EA de quem frequenta este site, principalmente para quem está começando.
Estudei economia em 2 universidades, sendo uma delas federal, e juro que apesar de saber o conceito de utilidade marginal, nunca tinha me dado conta, da simplicidade por traz deste conceito: utilidade e escassez. O exemplo do copo d’agua é clássico, mas quase nunca é destacado que utilidade marginal é a utilidade subjetiva mais a escassez.
Obrigado Prof. Ubiratan e IMB.
O artigo é muito bom.
E o que acontece quando tudo for abundante,independentemente de ser útil ou inútil?
Hoje temos o exemplo da internet não existe stock físico (falando de conteudos digitais), o preço deveria tender para zero. No entanto os operadores estabelecem o preço segundo a concorrência , muitas vezes fazendo cartelização.
O problema dessa análise e, consequentemente da EA, é que ela é muito genérica. Embora correta, necessidades são diferentes.
Você não ter o que comer e querer um rango é diferente de você querer ter uma ferrari.
Se existem pessoas passando fome, o estado pode agir de forma a aumentar a demanda por alimentos, direcionando o mercado a produzir alimentos de forma suficiente para toda população.
Uma política de renda mínima, por exemplo, seria a ideal, na minha opinião. Uma espécie de bolsa família, só que por pessoa.
Se não me engano, Friedman ou Hayek tinham uma idéia dessas.
hugoalmeida, mesmo na internet, com bens digitais, há escassez. Basta ver o tamanho do bilionário mercado de webhosting. Capacidade de processamento, capacidade de armazenagem e banda são todos recursos escassos cujos custos devem ser cobertos por quem for disponibilizar downloads. Sem contar os custos do autor: tempo, custo do laptop, custo da própria banda e por aí vai.
Fornecedor estabelecer preço baseado na concorrência, sem um acordo ou um conluio entre eles, não é cartelização. A internet, creio eu, é um dos meios menos propícios a esse tipo de ação, já que a entrada é livre e a concorrência é nada menos que global. Na verdade, cartelização de verdade só é possível com restrições estatais à entrada de concorrentes.
Por fim, Pedro, vejo como roubo se disponibilizo um software ou conteúdo protegidos por DRM e alguém explicitamente gasta seu tempo “trabalhando” para quebrá-la, mesmo que seja para distribuir para terceiros. Qual a diferença conceitual para alguém que usa um pé de cabra para quebrar uma porta e roubar um comércio?
Esta lição foi boa, mas a primeira foi melhor (atacou o problema da excessiva regulamentação desnecessária, o mal maior do Brasil)… Esta, no entanto, ajuda a entender a base da teoria dos ciclos econômicos: os juros são um preço (do capital), tal como salários, e como tal, se manipulados, geram distorções (desabastecimento – se artificialmente baixos, ou super-oferta de capital – se artificialmente altos).
A abordagem do Prof. Ubiratan é, como sempre, impecável. Explica de maneira clara e simples o que se pode chamar de “valor” como resultado de utilidade subjetivas e os resultados do planejamento central coercitivo sobre as decisões pessoais e subjetivas do “agente homem”. Bravo!
Prof. Ubiratan explica de maneira realmente inteligível. Parabéns!
Prof Ubiratan trabalha na UERJ? Como é que pode?
Pô, até dever de casa agora? 🙂
Brincadeira, claro… Muito boa a aula…
Saudações, amigos do “site”, domingo, dia 23, o programa Canal Livre apresentou uma entrevista com o agrônomo Evaristo E.Miranda, o assunto foi sobre uso do solo brasileiro, sem entrar no assunto político o agrônomo mostrou o quadro tragicômico da ocupação nacional, na entrevista há comentários tremendamente abrangentes – escassez,área indígenas,dependência estrangeira da produção brasileira,código florestal, tecnologia,ONGs – , penso que todos deveriam ter acesso à entrevista disponível no sítio da Rede Bandeirantes de Televisão, tremendamente aconselhável, dentro do tempo disponível do programa foi excelente.
Abraços, como sói acontecer o professor Ubiratan dá um show de didática, aliás, toda a equipe IMB.
Se eu estiver certo a teoria da utilidade marginal também é capaz de explicar o lucro na revenda de produtos. Se eu comprar um bem em um supermercado e, ao invés de consumi-lo, revende-lo, em uma outra circunstância, para outras pessoas que atribuem maior valor à ele, conseguirei auferir lucro nesse processo.
Como os defensores de teoria do valor-trabalho e da mais-valia explicariam isso? A quantidade ou tempo de trabalho usada na produção do produto é a mais mesmo nas duas situações (compra e revenda), mas o valor mudou de acordo com as características da demanda em cada situação.
Alguém poderia confirmar se este raciocínio esta correto?
A teoria do valor-subjetivo e a teoria da utilidade marginal decrescente é a mesma coisa?
Muito bom professor iorio.
Tenho 16 anos e já está fixado na mente que irei fazer faculdade de economia, mas muito do que vejo aqui é críticas sobre a forma de ensino na maioria das faculdades de economia, e comecei a entender o porquê. Muitas das faculdades de economia que pesquisei infelizmente dão muito destaque a matemática e acabam não dando o merecido destaque a ciência humana envolvida na economia, além do ensino não ser muito imparcial, não mostrar os dois lados da moeda, entretanto tive a sorte de acidentalmente descobrir este site e ouvir uma segunda opinião, uma opinião fortemente baseada na ação humana.
Porém sei que hoje o diploma pesa muito, as vezes mais do que o próprio conhecimento, então vejo a necessidade de fazer a faculdade. De qualquer forma, sei que terei sempre ótimas fontes de estudo aqui no site.
Não me considero uma idealista austríaco, até porque sei pouquíssimas coisas, mas é até agora a escola econômica que mais atribuí um grande valor subjetivo(he)!
continuarei aprendendo.
Vocês tem algum outro exemplo de como a teoria do valor-trabalho está errada, que compare o que seria o valor segundo essa teoria e o valor subjetivo, além do exemplo do cavar buracos?