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Lei do mercado vs. lei da selva

Wifredo Lam (1902-1982), “A Selva”
Museu de Arte Moderna, Nova York

Por
mais que se argumente e se mostre as ineficiências da intervenção estatal e a
superioridade econômica do capitalismo, ainda assim as doutrinas do
intervencionismo e do socialismo levam vantagem ao apelar ao senso ético que
existe em cada um. Não porque sejam de fato moralmente superiores, mas porque
são vistas dessa forma. E enquanto o forem, não há índice de pobreza ou cifra
de mortos que mudará a opinião pública.

A
oposição ao capitalismo foi muito bem sucedida em pintá-lo como um sistema
baseado no egoísmo, no qual indivíduos antissociais são induzidos a competir e
agir de forma predatória, numa verdadeira luta de todos contra todos em que os
poderosos ditam as regras e os fracos não têm vez. Homem primata, capitalismo selvagem. No sistema de mercado,
imperaria a “lei da selva” ou “lei do mais forte”. Suas alternativas, por outro
lado, projetam a ideia de um mundo mais solidário, fraterno e menos
competitivo, no qual cada um tem sua chance e, mesmo se falhar, encontra algum
amparo.

Para
piorar as coisas, certos defensores
do capitalismo não só aceitam tal descrição como se orgulham dela. O homem,
dizem, é egoísta por natureza e tem mais é que competir; só os fortes
sobrevivem — e o resto, bem… azar
deles
. Quero, neste artigo, mostrar como essa visão está completamente
equivocada. A lei do mercado é oposta à lei da selva.

Princípios opostos

Comecemos
com uma descrição da vida sob a lei da selva. Na selva, os recursos são
escassos, e nada é de ninguém. Se quero algo, pego. Se alguém mais quiser a
mesma coisa, brigamos; só um será bem-sucedido. Tudo o que um consegue para si ou
foi tirado de alguém ou privou alguém mais de tê-lo. Desavenças resolvem-se
pela violência; os vencedores ficam com tudo e os perdedores perecem. Uma
árvore deu frutos; quero-os para mim, você também. Lutamos, eu venço, fico com
a árvore e ainda faço churrasco do seu cadáver; game over.  Quem é menos
capaz — menos forte ou menos astuto — dança.

Nesse
ambiente, o foco de todos os indivíduos é no consumo. O ambiente é muito
incerto para que alguém se dedique a projetos de longo prazo. Todas as
associações são frágeis. Os indivíduos veem uns aos outros como inimigos,
competidores potenciais. Fora da tribo ou do clã sanguíneo, vive-se em guerra.

Agora
pensemos no mercado. No mercado, os recursos também são escassos, mas cada
coisa tem um dono. A árvore e seus frutos são, por direito, de alguém. Disso
decorre que, se eu quiser um dos frutos, tenho que oferecer algo em troca ao
dono atual. E essa minha oferta tem que ser considerada vantajosa ao dono dos
frutos.  Em outras palavras: cada um,
para alcançar seus próprios objetivos, tem que ajudar os demais a alcançar os
seus. Parece injusto com os que não têm propriedade? Mas existem duas
propriedades que todo mundo tem, e que são as mais valiosas de todas: sua mente
e seu corpo, com os quais se trabalha. “Dê-me alguns dos seus abacates que eu
te ajudo a tirar uma pedra da sua caverna”. Civilizações nascem assim.

O
foco na selva, como foi dito, é no consumo: comer para viver um dia a mais. No
mercado, embora o objetivo final ainda seja o consumo, o foco é na produção:
trocando uns com os outros, produzimos mais e ficamos todos melhores. Cada um
tem maior quantidade de bens à sua disposição do que teria se não trocasse com
os demais. Se na selva o próximo é um rival no consumo, no mercado ele é um
potencial parceiro na produção. Na selva, o encontro com um desconhecido traz
consigo um impasse ameaçador: “O que posso tirar dele e o que ele pode tirar de
mim?” — duas alternativas excludentes. No mercado, o mesmo encontro levanta
uma outra pergunta: “O que posso fazer por ele e o que ele pode fazer por mim?”
— possibilidades que se concretizam simultaneamente.

Uma
famosa tirinha narra a história
aparentemente real das renas na ilha St. Matthew. As renas, animais
irracionais, viviam sob a lei da selva. Para elas, o campo de líquen era um
vasto campo de consumo; e quem não consumisse, ficaria com menos. Por isso
comeram e se reproduziram desenfreadamente até extinguir sua própria fonte de
sustento. Para os homens, supondo que tivéssemos a mesma dieta das renas, o
campo de líquen, dividido em lotes, representaria oportunidades de produção e
de cultivo. Posso arrasar meu campo em uma semana, consumindo-o completamente,
ou posso restringir um pouco meu consumo presente, trabalhar no campo, e
garantir o sustento duradouro. E quem não tem um campo de líquen, morre de
fome? Não, pois nem só de líquen vive o homem! Todo homem é dono de sua força
de trabalho, e pode prestar serviços a qualquer outro: ajudando a cultivar um
campo, a construir uma casa, transportando mercadorias, fazendo freelas de design gráfico etc. Essa divisão das tarefas gera um ganho para a
sociedade como um todo, pois a produtividade de cada trabalhador especializado
é muito maior do que seria se cada um tivesse que fazer um pouco de tudo para
si mesmo.

A
lei do mercado é a lei do benefício mútuo. Para um subir, precisa ajudar outro
a subir. É o exato oposto da lei da selva, em que o ganho de um vem em
detrimento do outro. Como os desejos de todos são harmonizados, torna-se
possível pensar no longo prazo. Na selva, só existe o presente; amanhã alguém
pode roubar a caça que você tanto se esforçou para capturar. No mercado, curto
e longo prazo se equilibram, cada um adiantando ou postergando o consumo de
acordo com seu melhor julgamento.

Analogias insustentáveis

Com
o que foi exposto, vemos como uma das principais relações da selva, a entre
presa e caçador, simplesmente não existe no mercado. A vida do consumidor
melhora ao comprar os bens do produtor; e é por isso mesmo que ele compra. A
vida do empregado está melhor graças à vaga oferecida pelo empregador; e é por
isso que ele aceita o emprego. A vida do empregador, por sua vez, também está
melhor graças aos serviços do empregado. Ninguém é caçador e ninguém é presa nesse
processo; todos cooperam.

Mas
espere um pouco: sempre ouvimos dizer que o traço principal do mercado é a
concorrência. E numa concorrência, um ganha e outro perde, exatamente como
ocorre na concorrência selvagem. Quando uma onça caça uma anta, a onça mais
fraquinha passa fome, morre antes e se reproduz menos. Quando uma empresa lança
um produto de sucesso, outras perdem vendas, demitem funcionários, fecham as
portas etc. É a lei da selva, ou não é?

Todo
mundo sabe que no mercado existe competição acirrada. Ela é uma consequência, e
não um princípio, de sua estrutura organizacional, isto é, do respeito à
propriedade privada que resulta na necessidade de se ajudar os outros para se
ser ajudado (daí o equívoco de se definir o mercado primariamente pela concorrência,
fenômeno que ocorre em todo tipo de ordenamento social e institucional).

A
concorrência de mercado tem a mesma origem da concorrência da selva: a
escassez. A diferença entre elas, contudo, é significativa: na selva,
compete-se pelo consumo dos recursos disponíveis. No mercado, compete-se para
oferecer o melhor ao resto da sociedade. O que é produzido não é o bastante
para satisfazer plenamente a demanda de todos os consumidores (em outras
palavras, as pessoas têm renda e tempo limitados para gastar). Por esse motivo,
os consumidores têm que exercitar certa seletividade em seu consumo: seu
dinheiro e seu tempo vão para aquilo que melhor satisfizer seus desejos. Além
disso, os produtores (e lembrem-se: produtores e consumidores são as mesmas pessoas)
não são oniscientes, e não sabem perfeitamente o que os consumidores querem;
suas escolhas e decisões sempre envolvem uma aposta que pode dar errado.

Os
que melhor se adequarem à demanda dos consumidores receberão destes os recursos
necessários para sustentar sua atividade. Os menos eficientes receberão
recursos insuficientes e precisarão encontrar outro meio de se sustentar; isto
é, procurar outra maneira de servir aos demais.

Nesse
processo de perdas e ganhos, ocorre que uma pessoa, que estava empenhada em
servir às demandas dos demais de um modo específico pode perder os consumidores
que julgava “possuir”. É só pensar no ocaso da maioria dos técnicos de vitrola
na virada dos anos 1980 para os 1990, ou dos funcionários de uma fábrica
nacional cuja competição com empresas chinesas tornou obsoleta. Por mais
sofrida que essa transição possa ser, o próprio envolvido, se tiver uma correta
leitura do que se passa, concordará que seu desemprego temporário é benéfico:
“Minha atividade não usa os recursos disponíveis para melhor servir às demais
pessoas. Quero ser remunerado por efetivamente servir e ajudar os outros ou
quero tirar deles meu sustento sem lhes oferecer algo equivalente em troca?”.
Esse é o dilema: o dilema entre pautar-se pela lei da cooperação mútua (o que
eventualmente requer sacrifícios) e a tentação de impor a lei da selva, ou
seja, de impor que os outros te sirvam sem lhes oferecer uma contrapartida.

Não
fosse por esse aspecto difícil do processo de mercado (os prejuízos de quem não
se adequa à demanda e portanto obriga mudanças dolorosas de percurso),
estaríamos todos muito mais pobres. Imaginem um mundo em que a remuneração de
cada um não tivesse nada a ver com o quanto essa pessoa contribui para a vida
alheia. O aparente ganho de alguns (que teriam seus empregos garantidos
independentemente da demanda) resultaria na perda de todos, já que a sociedade
estaria globalmente mais pobre: as necessidades humanas não dariam mais a
finalidade à atividade produtiva.

Inclusão natural

A
seleção natural elimina os indivíduos menos aptos. A seleção do mercado,
igualmente não planejada (embora, diferentemente da seleção natural, fruto de
ações humanas), elimina apenas ideias
erradas sobre como servir às demandas dos demais. Embora isso possa trazer algum
sofrimento para os indivíduos que apostaram nessas ideias, ela é, no longo
prazo, boa inclusive para eles: uma sociedade mais rica e com mais
oportunidades de criação de valor é boa para todos e é a única capaz de
sustentar mesmo os que têm menos a contribuir. Do ponto de vista dos indivíduos
no mercado, faz mais sentido falar de inclusão
natural
. Um indivíduo bem-sucedido beneficia os demais, ou melhor: seu
sucesso só ocorre porque ele os
beneficia. E embora possa ser difícil competir com ele na exata atividade que
ele desempenha, enquanto houver demandas humanas não atendidas haverá campo
aberto para que mais pessoas trabalhem e ajudem a satisfazê-las (e quando não
houver mais demandas humanas não atendidas também não haverá mais motivo para
trabalhar ou procurar emprego).

São
apenas a afluência e a produtividade que a lei do mercado proporciona que
tornam viável que um indivíduo sustente a si mesmo durante um período de
desemprego, ou que seus parentes e amigos possam sustentá-lo se necessário.
Nesse sentido ,aliás, cumpre notar que, na sociedade de mercado, mesmo aqueles
realmente incapazes de produzir e trocar com os demais (os muito doentes, muito
idosos, seriamente deficientes etc.) podem ser sustentados. Na lei da selva
seriam os primeiros na fila do descarte, sacrificados ao imperativo de
sobrevivência do clã. Hitler estava coberto de razão ao apontar que a sociedade
liberal que ele tanto odiava permitira a sobrevivência de inválidos,
deficientes e “não aptos” em geral; não aptos — é preciso frisar o ponto — à lei da selva; no mundo capitalista
liberal, sua sobrevivência não apresentava problema algum.

O
mercado, assim, é a antisselva. Se na
selva impera a inimizade e a seleção natural, no mercado vigora a cooperação
universal e a criação de oportunidades até mesmo para os menos favorecidos. Na
selva uma pessoa a mais é mais uma boca para alimentar; no mercado, é mais uma
potencial criadora de valor. A selva é o consumo autônomo e voraz dos recursos
escassos; o mercado é o uso dos mesmos recursos para a produção conjunta, e na
qual o recurso mais valioso de todos se faz valer: a inteligência humana. Não
há nada de “selvagem” no capitalismo; e é justamente sua destruição gradual que
pode nos levar de volta à guerra de todos contra todos da lei da selva.

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46 comentários em “Lei do mercado vs. lei da selva”

  1. Muito bacana o texto. Às vezes costumo pensar num paralelo entre a seleção natural e a mão invisível em um mercado livre, sendo que a segunda seleciona positivamente o empreendedor mais apto a servir.
    Duas elegantes teorias que explicam a realidade.

  2. Duas considerações:
    1. Numa sociedade onde as empresas estão livres de estatismo, trabalhadores que sofrem acidente de trabalho e só têm como fonte de renda este trabalho, teriam que aceitar o perecimento, uma vez que não haveriam “direitos trabalhistas”?

    2. Supondo que um trabalhador produz R$ 2,60 por hora, ele mereceria rebeber o salário de R$ 2,60 por hora, mas que tipo de “princípio” impediria a empresa de pagar menos que isso, ou seja, um valor objetivamente inferior ao adequado?

  3. A sociedade está passando por um processo de “parasitização” das relações sociais. Não sou mais otimista: só vejo o crescimento do estado e, como o diagnóstico é majoritariamente errado e a força política dos intervencionistas é crescente, esse pessoal consegue mudar mentalidades disseminando o analfabetismo econômico e moral em detrimento da lógica.\r
    \r
    O pior é que parte de intenções nobres: a caridade, quando é feita de forma espontânea e de forma a cobrar resultados, é altamente benéfica para todos. Estimula a solidariedade e a coesão social. É uma opção legítima de ação.\r
    \r
    Quando a caridade vota e gera sua demanda via política as coisas mudam drasticamente. O objetivo da caridade muda de ajuda ao próximo para um “direito inalienável” que, pelo formato da política, jamais conseguirá cobrar resultados efetivamente sobre a eficácia do gasto. Caso alguém faça isso, será uma espécie de suicídio político. Assim, as “demandas sociais” se tornam cada vez mais crescentes e os povos vão pagando pelos seus erros sem identificá-los. Os parasitados se percebem indefesos e, em certo momento, passam também a demandar para sí esses “direitos inalienáveis” e não sem razão, pois eles também deveriam receber por algo que pagam segundo a lógica de mercado. Assim, conflagra-se uma grande cooptação social que ignora a moral e traz o germe da destruição da prosperidade.\r
    \r
    A sociedade, agora menos produtiva pois os integrantes estarão pensando em uma forma de sobreviver pelo esforço alheio, gera cada vez menos riqueza e a economia nesse contexto realmente se aproxima de um jogo de soma zero, em que para um ganhar o outro realmente precisa perder. O fim da prosperidade traz consigo o fim da paz. Regredimos enquanto sociedade partindo de uma boa intenção. Para quem acredita em diabo, eu não vejo um plano mais bem elaborado.\r
    \r
    É claro que esse é um processo gradual, mas não se pode negar que ele é crescente. Se pegarmos o discurso do Nobel de Hayek veremos, entre muitas outras coisas, que o comportamento humano é propositado e que esse fato nos impede de diagnosticar corretamente, via procedimentos quantitativos, as consequências da ação humana. Ou seja, esse tipo de contexto não pode ser apreendido correta e completamente pela matemática. Por essa restrição da realidade, só poderemos utilizar a lógica através da linguagem usual. Como todos, pelo menos uma vez na vida, já foi tapeado com métodos de retórica, passamos a desconfiar de tudo o que é dito, principalmente a tudo aquilo que nos conduz a um maior esforço pessoal. Assim, por uma dificuldade da própria realidade, deixamos de usar uma linguagem que é significativamente mais dificil de abusar da lógica (apesar de nada impedir de chegarmos a resultados errados partindo-se de premissas erradas na contituição de modelos econômicos) e esse fato sempre nos colocará sob suspeita de estarmos representando os “malvados egoístas”.\r
    \r
    Não mantenho mais dentro de mim qualquer esperança de reversão desse quadro letárgico. Procurarei fazer minha parte da melhor forma possível e jamais usarei a força para obter um resultado agregado próspero. Mas não acredito que a humanidade, de forma agregada, poderá captar pela lógica o funcionamento da economia, até porque o formato da especialização das funções age inclusive sobre os saberes. Quando a lógica de mercado age sobre a moral nesse sentido específico (especialização que aumenta a produção), esquecemos que todos produzem ações condizentes com alguma moral. Não há concorrência envolvida, ou seja, a ação de um não impede a ação de outro pelo mecanismo da concorrência. Assim, os indivíduos com maior conteúdo moral (que é um conhecimento) são minoria e extremamente especializados, mas não mudam a opinião pública.\r
    \r
    Esse texto é uma espécie de desabafo e reconheço que é extremamente pessimista. Espero que eu esteja errado, que a engenhosidade humana supere essa questão, que outros produzam conhecimento que mude a moral e a deixe mais adequada a prosperidade e consequentemente a paz, e que a dissemine pelo mundo. Espero que revertamos esse quadro geral.

  4. André Luiz S. C. Ramos

    Joel,\r
    parabéns por mais esse texto.\r
    Seu talento para enfrentar consensos errados de forma clara e sucinta é invejável.\r
    Forte abraço.

  5. O mundo atual é uma selva, sim. Quem quiser te sobrepujar, te sacaneia, e pronto. Ninuém se importa com ninguém. Enquanto não resgatarmos os valores morais tradicionais necessários para manter a sociedade civilizada, o mundo será assim… Vamos botar os CONSERVADORES e o Libertários no poder (51% da CÂmara da CÂmara ser conservadora, 49% ser libertária, o q acham?).

  6. Existe uma coisa, ignorada por vcs austríacos, chamada rigidez de preços e salários que torna o mercado livre uma grande dor de cabeça. No modelo austríaco preços e salários são dotados de grande flexibilidade. Porém a realidade prática comprova que isso não é verdade. Eis um dos calcanhares de aquiles de vossa teoria.

  7. Em tese, corretísssimo; o problema é que esse livre mercado não existe em lugar nenhum. Todo Estado regula mercado, favorece uns e desfavorece outros, prioriza determinadas mercadorias e carreiras em detrimento de outra, mais ou menos propositadamente – aqui no Brasil, mais. No nosso caso, parece-me que a as leis trabalhistas, CDC e tutti quanti são distorções que corrigem distorções – ou pelo menos, equilibram distorções. Ou, resumindo: não há mercado livre e eu também quero o meu.

  8. LIVIO LUIZ SOARES DE OLIVEIRA

    Parabéns Joel pelo seu consistente e esclarecedor artigo.

    Estava lendo o Valor online hoje e me deparei com um artigo do Prof. Yoshiaki Nakano. Ali o ilustre prof. escreve pérolas como:

    “Com a ascensão do neoliberalismo, a partir dos anos 1980, o mercado transformou-se no princípio dominante de organização da economia capitalista, com retração da função Estado. Entretanto, com a crise, se não fosse a massiva intervenção e socorro prestado pelo Estado todo o sistema financeiro americano e europeu teria praticamente desaparecido. Para a sobrevivência do próprio capitalismo, o Estado-nação está retomando a sua função reguladora e controladora dos mercados, num processo adaptativo, diante da ameaça maior da crise”

    “O paradigma liberalizante que vigorava desde 1980 entrou em crise e passou a ser questionado pelos fatos, pela necessidade de respostas pragmáticas e rápidas do governo para salvar o sistema.”

    “Entretanto, quanto maior for a resistência e o período de dominância das velhas ideias e do mercado livre como princípio de organização da economia, maior será a crise necessária para que o princípio adaptativo funcione e reestabeleça a nova ordem.”

    Leia mais em:
    http://www.valor.com.br/brasil/2834998/oportunidade-para-o-brasil-tornar-se-protagonista#ixzz26x0G15Pe

    É impressionante como o keynesianismo e quejandos tem a capacidade de distorcer a realidade dos fatos. A partir de afirmações como estas acima, dentre outras, o Prof. Nakano coloca a culpa da crise econômica atual sobre o mercado, e aponta o aumento da intervenção estatal como a solução da crise que o próprio intervencionismo criou.
    Segundo o prof., estamos vivendo a presente crise porque, pasmem, as elites políticas e econômicas insistem em defender o mercado. Isso a despeito, em praticamente todos os países, do brutal aumento dos gastos estatais nos últimos anos, elevação contínua da carga tributária como proporção do PIB, excesso de emissão de moeda, baixa artificial da taxa de juros, lançamento contínuo de pacotes fiscais, aumentos das tarifas protecionistas e de todo tipo de intervencionismo. Se isso reprenta a manutenção dos princípios de mercado e o exercício de politicas econômicas liberais, então eu sou Napoleão Bonaparte em pessoa.

    Em outras palavras, o dr. Nakano informa, com seus argumentos keynesianos, que a volta à selva é a solução para todos os problemas econômicos da atualidade.

    E se forem ler os comentários ao artigo, verão que há pessoas parabenizando o prof pela sua lucidez.

    Com diagnósticos como o do dr. Nakano para debelar a crise, não é de se espantar que não veja saída à vista para o descalabro econômico atual.

  9. muito bom texto, Joel…

    podemos resumir na seguinte frase
    capitalismo selvagem é uma contradição em termos

    e a natureza humana realmente é diferente, há um componente divino na alma humana

  10. Honestamente, isso é Economics 101. Agora põe o atrito e vê se o foguete voa.

    Bens publicos sendo explorados privadamente, assimetria de informação, perigo moral. Sem falar que o atributo da cooperação que é, por você, atribuído ao mercado na verdade não é inerente ao mercado. Ele é resultado de leis e do arcabouço institucional que pautam o mercado.

    Tanto os neo liberais como os austríacos deveriam ver como a teoria econômica é como a física teórica, enquanto que política pública é como a engenharia.

    A grande sacada do John Nash foi mostrar como um abiente competitivo de mercado pode levar à um resultado pior do que um planejado.

  11. @Ricardo, @Bruno Rodrigues,

    O Bruno está certo: em uma situação em que todos os participantes estão cientes da estratégia de todos os demais e tomam a melhor decisão para si, essa decisão pode levar a um estado menos satisfatório do que o “ideal”.

    O que não está considerado no equilíbrio de Nash é que a realidade impõe que a informação não está sempre disponível e que os participantes não precisam informar as suas estratégias (e se o fazem, podem mentir). O que o equilíbrio de Nash mostra é que a competição pode levar a resultados piores individualmente caso todos os participantes conheçam as estratégias uns dos outros e essas estratégias não forem fictícias.

    Como podemos ver, uma situação como essa não reflete muito bem o que sabemos da vida real. É uma teoria interessante. Uma anedota muito boa de se escrever artigos científicos e garanto que muito pesquisador sério ganhou grande reputação e prestígio investigando o equilíbrio de Nash. Mas não passa de um caso particular.

    Por ter trazido o equilíbrio de Nash a discussão, posso inferir que Bruno Rodrigues é estudante de economia. Poderia até arriscar que é dos primeiros semestres, mas não farei isso uma vez que pessoas mais adiantadas no curso e até mesmo professores tem um deslumbramento irracional com o equilíbrio de Nash. Não desanime Bruno! A vida real não é como estudamos na faculdade, mas não é motivo para desânimo viu? Força!

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