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Os irmãos Mises: o positivismo e as ciências sociais

Poucos lugares presenciaram tantas
contribuições à ciência, filosofia e artes como Viena no final do século XIX e
início do século XX. Ao contrário da maioria dos centros culturais, a
relativamente pequena elite responsável por esse florescimento não era formada
por comunidades dispersas de especialistas, mas por intelectuais que se
interessavam pelas novidades em todos os fronts
culturais — e as debatiam entusiasticamente nos famosos cafés da capital do
Império Austro-Húngaro[i].

Esse fenômeno permitiu o
desenvolvimento de um passatempo intelectual moderno: traçar as relações
pessoais entre grandes figuras do período. Considere uma pequena amostra dessa
atividade: Popper se tornou amigo de Hayek, que era primo de Wittgestein. Mises
era colega de escola de Hans Kelsen. Freud atendeu Gustav Mahler. A esposa
deste, Alma Mahler, depois de flertar na juventude com Gustav Klint, após a
morte do compositor foi sucessivamente esposa do famoso arquiteto Walter
Gropius e do escritor Franz Werfel, além do romance que desenvolveu com o
pintor Oskar Kokoschka.

A riqueza da cultura do império
austro-húngaro poderia ainda dar origem a outro passatempo: explorar as
diferenças de opinião, muitas vezes radicais, entre dois irmãos famosos. Poderíamos
analisar as diferenças entre as ideias socialistas do jurista Anton Menger e as
ideias liberais de seu irmão, o economista Carl[ii]. Na
esfera política, seria interessante ainda contrapor o liberalismo de Michael
Polanyi com o socialismo de seu irmão Karl. Neste artigo, trataremos das
irreconciliáveis opiniões a respeito da metodologia das ciências sociais
esposadas pelos irmãos Ludwig e Richard von Mises.

Ambos passaram para a
posteridade. Ludwig como o economista que sistematizou no século vinte as doutrinas
da Escola Austríaca de Economia e Richard como um matemático com contribuição
importante para a teoria da probabilidade. As teorias do primeiro são mais
conhecidas pelo leitor moderno e por isso podem dispensar apresentação, ao
passo que a obra do segundo requer algumas palavras. Richard, com formação de
engenharia e matemática, foi diretor na Universidade de Berlim do Instituto de
Matemática Aplicada. Com a proibição nazista a professores de origem judaica,
migrou para a Turquia e mais tarde para Estados Unidos, onde se tornou
professor em Princeton.
Em sua carreira, realizou contribuições em Mecânica dos
Fluidos, chegando a liderar um projeto para a construção de uma aeronave para o
exército durante a Primeira Guerra Mundial, além de publicar um livro sobre
teoria do voo. Suas contribuições mais conhecidas, porém, tratam da teoria da
probabilidade. Buscou basear tal teoria em dois axiomas: o primeiro define
probabilidade como o limite matemático da frequência relativa de casos
favoráveis, conforme tomemos mais observações e o outro que afirma que tal
limite deve ser o mesmo para qualquer subsequência de tentativas. Também ficou
conhecido como o autor que propôs o problema do aniversário, que indaga quantas
pessoas deveríamos ter em uma sala para que duas delas façam aniversário em uma
mesma data, com certa probabilidade. Com apenas vinte e três pessoas, teríamos
cinquenta por cento de chance de encontrarmos tal coincidência, cuja ocorrência
é praticamente certa em uma sala com cinquenta indivíduos. Além de suas
contribuições as ciências naturais e matemática, Richard tinha uma gama mais
ampla de interesses, assim como seu irmão mais velho: era uma autoridade na
obra do poeta Rainer M. Rilke, além de defensor, em filosofia, da visão de
mundo positivista.

É aqui que se situa o contraste
que nos referimos: os dois irmãos têm opiniões diametralmente opostas a
respeito da metodologia adequada para as ciências sociais. Richard[iii], como
defensor do positivismo, defende a tese da unidade do método ou monismo
metodológico: as ciências sociais deveriam adotar o método supostamente empregado pelas ciências
naturais, baseado na observação. Ludwig, em contraste, conhecido como o maior
inimigo do positivismo em Economia, defende a tese do dualismo metodológico[iv],
afirmando que a economia estabeleceria seus resultados pela dedução,
partindo-se de premissas válidas a priori.
O choque entre essas opiniões foi testemunhado por Rothbard[v]. Ao
perguntar a Ludwig o que achara do livro de seu irmão, o economista, de pose
severa, olhar faiscando, teria afirmado: “Eu discordo daquele livro, da
primeira à última sentença”.

O contraste entre as
ideias filosóficas dos irmãos Mises poderia ser colorido com material a
respeito das vidas pessoais dos envolvidos. Os psicólogos poderiam tentar
explicar as opiniões diametralmente opostas como mais um caso do fenômeno da
rivalidade entre irmãos. Para tal, poderiam invocar as teorias psicológicas de
mais dois austríacos famosos: Sigmund Freud e Alfred Adler, que viam a
rivalidade entre irmãos respectivamente como algo relacionado ao complexo de
Édipo ou como fruto da competição pela atenção na família. A despeito da
escassez de material sobre aspectos pessoais da vida dos irmãos Mises que
permitisse essa análise, Skousen sugere[vi], em tom
jocoso, que estaríamos exatamente diante de um caso de rivalidade entre irmãos:
Richard desenvolvia aviões para o exército enquanto Ludwig era apenas oficial
de artilharia e, ao contrário deste, o irmão mais novo sempre ocupou posições
prestigiadas em universidades importantes.

Da nossa parte, nos interessa
apenas as ideias em si mesmas, de modo que abordaremos a rivalidade somente no
que se refere as suas posturas filosóficas. Para tal, devemos dizer algo sobre
o positivismo lógico — essa doutrina universalmente criticada, mas estudada a
sério por poucos de seus detratores no campo
das ciências sociais.

O positivismo lógico do início do
século vinte deve ser entendido como uma reação racionalista ao obscurantismo
bastante presente no pensamento filosófico e social no mundo germânico. Um dos
alvos preferidos do positivismo era a inescrutabilidade do linguajar pomposo
típico do hegelianismo, prevalecente na Alemanha ou das ideias de Leibnitz, em
voga na Áustria. Na verdade, para o positivismo lógico, termos como “absoluto”
ou “enteléquia” simplesmente não significavam nada. No famoso manifesto do
Círculo de Viena[vii],
seus autores escrevem: “Nitidez e clareza são almejadas; distâncias escuras e
profundezas insondáveis rejeitadas. Em ciência não existem coisas ‘profundas'”
(p. 306).

A principal tarefa da filosofia,
para os membros do Círculo de Viena, consistiria na crítica da linguagem
corrente e desenvolvimento de outra mais clara, adequada para o pensamento
científico. Reduzidas as ambiguidades inerentes aos termos emprestados das
línguas naturais, que dão origem a toda sorte de pseudoproblemas e discurso
hermético, abre-se o caminho para o exercício da razão, através do entendimento
intersubjetivo e exame crítico das ideias.

Concretamente, os filósofos
positivistas buscaram um critério para separar as proposições conforme estas
tenham ou não significado. Das frases “Esta maçã é vermelha”, “Toda maçã é
cilíndrica” e “O absoluto é perfeito”, as duas primeiras teriam significado,
embora a primeira possa ser verdadeira e a segunda não, ao passo que a terceira
seria destituída de significado.

A ciência, para tal doutrina,
deveria expurgar as frases do último tipo, meramente metafísicas, em favor de
proposições significativas. Isso nos leva ao critério de significância sugerido
pelo positivismo lógico: o verificacionismo. Uma proposição teria significado
se puder ser verificada empiricamente. A ciência admitiria então dois tipos de
afirmações: a) proposições sintéticas — os “protocolos observacionais”, que se
referem a observações sensoriais, como a primeira frase listada no parágrafo
anterior e b) proposições analíticas — tautologias que, embora não digam nada
substancial sobre o mundo observável, são importantes no tratamento do material
empírico, como “uma maça ou é vermelha ou não é”.

A visão de ciência proposta pelo
positivismo lógico se encaixa assim na tradição empirista de Bacon, Hume, Mill
e outros: parte-se de observações impessoais, a partir das quais se realizam
generalizações de natureza indutiva, chegando-se assim a princípios básicos e
leis da ciência que relacionam esses conceitos, a partir das quais se derivam
previsões sobre fatos observáveis. O avanço da razão envolveria então a
exportação desse modelo, da física para as demais disciplinas, até ser
alcançado o ideal da “ciência unificada” almejado por Otto Neurath.
Cristaliza-se assim, em torno da tese da unidade do método, a eterna tensão
entre a receita positivista para a ciência e as práticas adotadas nas ciências
sociais. A teoria econômica, porém, era inicialmente vista com bons olhos. No
já mencionado manifesto do Círculo de Viena, Neurath e seus coautores saúdam
(p. 303) tanto a escola austríaca de economia quanto o austro marxismo como
desenvolvimentos compatíveis com o espírito científico, em contraste com a
escola histórica que dominava a Alemanha. Mais adiante (p. 315) no mesmo texto,
tanto os economistas clássicos, como Smith, Ricardo e Marx quanto os autores
marginalistas, como Menger e Walras são associados à tradição empírica. A
economia trataria, afinal, de coisas tangíveis, como exportações e importações,
se ocupando de “pessoas, objetos e suas relações”, em contraste com noções
metafísicas como “o espírito do povo”, que povoavam os escritos da escola
histórica alemã.

Essa opinião, porém, logo se
alteraria. As ideias, como mostraram Popper e Bartley[viii]
(f.n), também têm consequências não intencionais, e a metodologia positivista
de fato se revelará incompatível com a prática das ciências em geral e das
ciências sociais em
particular. Essa incompatibilidade, aliada a popularidade do
positivismo entre os cientistas, colocará os irmãos Mises em campos opostos no
assalto positivista às ciências sociais. Quando eles escreveram sobre o tema,
porém, o positivismo já entrara em declínio entre os filósofos da ciência,
transformando-se, sob o peso da crítica, na forma mais branda conhecida como
empirismo lógico. Richard von Mises pode ser classificado como um dos
empiristas lógicos, o que requer que dediquemos algum espaço a essa doutrina
antes de finalmente abordar as posturas conflitantes dos irmãos Mises.

Depois das críticas ao
positivismo efetuadas por diversos autores, entre os quais Karl Popper, tido
por Neurath como o opositor oficial do movimento, a visão de mundo positivista
entrou em declínio. O
critério de verificabilidade se revelou impraticável, já que seriam necessárias
infinitas observações para estabelecer proposições científicas universais (com
a frase “todo cisne é branco”). A adoção dos padrões positivistas para a
ciência, desse modo, excluiria até mesmo a física, já que esta também emprega
proposições não verificáveis. Do mesmo modo, é muito estrita a exigência de
que, excetuando-se operações lógicas, cada proposição de um sistema teórico
seja verificável. A despeito da relevância da crítica ao obscurantismo que
caracteriza boa parte da filosofia, considera-se exagerado a rejeição de
qualquer problema metafísico como mero pseudoproblema. Nesse sentido, os
críticos ironizavam, indagando qual seria a verificação empírica da própria
filosofia positivista. O indutivismo, inerente ao ideário positivista, foi
também duramente criticado. Constatou-se que todo dado empírico é impregnado de
teorias prévias, tornando impossível o ideal de observação isenta e impessoal
como alicerce para a construção de hipóteses. Diante dessa dificuldade e do
fracasso em justificar logicamente os procedimentos indutivos, prevaleceu um
modelo oposto de ciência, que dispensa indução: a ciência parte de problemas, a
partir dos quais hipóteses são sugeridas com o propósito de solucioná-los.
Dessas derivam-se consequências e previsões testáveis através de raciocínio
dedutivo, não importando se alguma hipótese inicial tenha sido sonhada ou
contaminada por ideologia: apenas seu poder explanatório conta. A racionalidade
da ciência repousaria então na severidade com a qual tais hipóteses seriam
submetidas à crítica e não na capacidade de estabelecer verdades de forma
conclusiva.

Diante de algumas das objeções, o
agora empirismo lógico substitui o critério verificacionista pelo critério
confirmacionista, que requer apenas corroboração parcial das hipóteses. Certezas
são substituídas por conhecimento probabilístico. Desenvolvem-se adicionalmente
modelos de ciência nos quais as teorias são avaliadas em termos de sua
capacidade de gerar um conjunto de proposições confirmáveis, abandonando-se a
exigência de que, executando-se as afirmações analíticas, todas as demais
proposições de uma teoria devam ser verificáveis. Ao caminhar nessa direção, a
tradição empirista oscila entre critérios de significado muito proibitivos e
critérios muito permissivos. Além da procura de critérios compatíveis com sua
concepção prévia sobre o que a ciência deveria ser, o empirismo lógico
prossegue no esforço de análise da linguagem, com o objetivo de desenvolver
formas mais precisas de comunicação, nas quais proposições sem significado não
teriam expressão.

Richard von Mises, em seu livro
sobre o filosofia[ix],
também busca uma nova formulação para o critério positivista de significado. O
objetivo é o mesmo: separar proposições com significado de coisas sem sentido
como, por exemplo, “o nada penetra o universo”, comuns no discurso filosófico.
Uma sentença como “em 34 de janeiro as quatorze horas da manhã” poderia ser
descartada por ser incompatível com as regras ou convenções relativas a duração
do mês e do dia. Mas a adoção de um critério baseado em acordo com as regras
aceitas de uma gramática lógica, como sugere Carnap, não seria satisfatória,
pois não podemos listar de antemão todas essas regras, o que exigiria todo o
conhecimento humano, passado e futuro. Assim, por exemplo, a raiz quadrada de
um número negativo seria algo sem sentido quando o operador raiz é definido
sobre números reais positivos, mas se tornou significativa quando a noção foi
estendida posteriormente para números complexos.

Essa dificuldade é contornada
pela sugestão do conceito de conectabilidade. Para Mises (1951, p. 73), uma
sentença é conectável se for compatível com um conjunto específico de sentenças
que regula o uso das palavras. Considere sentenças obscuras como “O ser puro e
o puro nada são portanto a mesma coisa”, de Hegel ou “The Nothingness itself
nothings”, de Heidegger. Embora a segunda sequer obedeça as regras da
gramática, elas não poderiam ser dispensadas sumariamente, pois podem ter algum
sentido considerando-se um conjunto próprio de regras criadas na respectiva
tradição intelectual. Entretanto, podemos ainda dizer que tais afirmações tem
uma conectabilidade extremamente limitada em relação à maioria dos conjuntos de
regras, como as regras gramaticais da linguagem comum.

No outro extremo, em ciência,
Mises procura associar o conceito de conectabilidade com um conjunto de regras
compatíveis com verificabilidade de proposições empíricas. Desse modo, depois de
avaliar de forma superficial as críticas feitas ao critério de verificabilidade
do positivismo lógico (p. 76), o mesmo critério é readmitido pelas portas dos
fundos, através da noção de conectabilidade, como nota Dettering (1953). Mises
adota então a visão empiricista clássica de ciência, com poucas alterações:
parte-se de “protocolos observacionais”, utiliza-se a indução para, a partir
desses protocolos, gerar proposições teóricas, que são organizadas em sistemas
axiomatizados, utilizados por sua vez para deduzir previsões significativas,
verificáveis empiricamente.

De posse desse modelo, Richard
von Mises defende a tese da unidade do método (cap. 17). Em vez de criticar o
dualismo metodológico de seu irmão mais velho, prefere expor e criticar o
dualismo em Dilthey e Rickert, cujas opiniões seriam dominantes na Alemanha.
Segundo essa concepção de dualismo, as ciências naturais almejariam a
simplificação, com o objetivo de generalizar o conhecimento, ao passo que nas
ciências sociais o objetivo seria o entendimento particular dos objetos de
estudo. As primeiras, desse modo, pretendem explicar tudo em termos de uma
física atomista, ao passo que as segundas, utilizando maior realismo, rejeitam
a redução dos fenômenos mentais a explicações mecanicistas. Mises nega essas
diferenças, apontando que a dinâmica populacional em Malthus seria um caso de
conhecimento social generalizador e que uma ciência natural como a geologia,
por outro lado, se interessa também por fenômenos únicos na história do
planeta. Além disso, a distinção entre fenômenos mentais e físicos não geraria
diferenças metodológicas significativas, na medida em que aprendemos sobre
estados mentais a partir da observação sensorial, lendo, ouvindo ou observando
as ações dos outros. Finalmente, a física não poderia ser reduzida a um
atomismo ultrapassado.

O autor minimiza a importância de
outras diferenças, como a impossibilidade de experimentos controlados (pois a
astronomia tampouco pode controlar corpos celestes) ou a diferença entre
esferas normativa e positiva (a engenharia seria uma forma de física
normativa). Apenas uma diferença preocupa o autor: a existência de proposições
influenciadas por visões subjetivas em ciências sociais. Para um positivista,
naturalmente, isso rouba o caráter científico de uma teoria, na medida em que
tal doutrina, pré-popperiana, ainda crê que a boa ciência parte de observações
sensoriais objetivas. Reconhecidas certas particularidades de cada disciplina,
Mises (p. 213) reafirma sua opinião: em qualquer área o método científico
deveria ser o mesmo, uma progressão da observação para a generalização teórica.

Convicto sobre a validez dessa
tese, Richard examina a área de especialidade de seu irmão: as ciências
sociais. Ali, podemos notar o contraste entre a admiração que o autor nutre
pela sociologia de Auguste Comte e o ceticismo com o qual avalia a teoria
econômica, antiga e moderna. Elogiando o projeto do antigo positivista de
construir uma ciência social a partir de uma metodologia empiricista, Mises
arrisca o palpite (p. 258) de que seria na sociologia que observaríamos o maior
progresso científico no futuro.

Quanto à economia, Mises compara
o desempenho da mecânica clássica com certas teses econômicas, como por exemplo
aquilo que ele denomina “espontaneidade da economia e a doutrina da função
necessária e suficiente do egoísmo” (p. 249). Embora a mecânica clássica ainda
explique boa parte dos fenômenos físicos, a segunda, embora defendida por
muitos autores, não foi provada através da observação. Além disso, o autor
aponta (p. 249, 364) para a existência simultânea de teorias rivais e a
existência de problemas econômicos nas sociedades como exemplos de fraquezas da
disciplina. O diagnóstico dessa situação, novamente, é atribuído ao uso de
linguagem imprecisa, por sua vez relacionada à falta de observações empíricas
(p. 250).

O empirismo sugerido resvala em
teses historicistas: “… como toda teoria é apenas uma descrição de
observações prévias e a experiência demonstra que ao longo do desenvolvimento
econômico e técnico todas as premissas, incluindo as disposições psicológicas
dos homens, mudam” (p. 364), resultados teóricos como aqueles sugeridos pelos
economistas não se sustentariam. O autor acredita que a existência do exército
ou da justiça pública, que excluiriam busca de lucros privados, refutaria o
“axioma de que apenas o egoísmo provê incentivos para ações desejáveis para o
interesse de todos”.

Ao avaliar a teoria moderna,
acredita que o problema principal da mesma se refere apenas a demanda, ou seja,
a maneira como os indivíduos avaliam tipos específicos de bens e que a resposta
a essa indagação, a noção de utilidade marginal, consistiria numa afirmação
vaga sobre a realidade (p. 251) e que não seria capaz de explicar o problema
econômico em sua totalidade.

Ainda sobre a teoria moderna,
Richard von Mises atribui aos economistas a crença em uma escala de mensuração
objetivas de valores dada pelo sistema de preços. Böhm-Bawerk, em particular, é
visto como um autor orgulhoso pela capacidade de se comparar bens presentes e
futuros. Isso não seria válido, segundo o autor (p. 257) se a tecnologia ou as
instituições mudarem.

Quanto à questão da matemática em
economia, embora seja cético sobre seu potencial, Richard considera que não
vale a pena avaliar a opinião daqueles que acreditam que tal método seria
contrário a essência da disciplina (seu irmão?), pois essa postura implicaria
que a soma ou subtração de preços seria ilegítima (p. 251).

Essas observações ingênuas
revelam pouca familiaridade com a teoria econômica. Isso nos leva a indagar se
Richard chegou a ler os escritos econômicos de seu irmão mais velho, cujas
contribuições nunca são mencionadas. Essa falta de menções diretas não torna o
contraste entre suas opiniões menos nítido. Consideremos então as opiniões de
Ludwig von Mises.

tres irmaos.pngAs opiniões deste
último sobre a metodologia das ciências sociais, porém, devem antes ser
situadas como mais um capítulo de uma antiga tradição de defesa metodológica da
economia dos ataques desferidos pelos seus críticos empiricistas. A economia,
de fato, sempre lidou com críticas dessa natureza, formuladas continuamente, desde
o século dezenove pela escola histórica alemã até a econofísica no século vinte
e um.

Um dos principais autores dessa
tradição de defesa da teoria econômica não é ninguém menos do que John Stuart
Mill, um dos santos patronos do empiricismo que, além disso, também era
economista. Mill contrapõe a metodologia empiricista, a posteriori, defendida por esse autor como apropriada para as
ciências físicas, com o método a priori,
adequado para as ciências sociais. O primeiro não seria aplicável neste último
campo devido à impossibilidade de conduzir experimentos controlados, aliada ao
grande número de fatores que afetam a conduta humana. Em última análise, a
diferença crucial reside na maior complexidade dos fenômenos sociais. Embora de
fato a astronomia não conduza experimentos controlados, é possível construir
modelos com poucas variáveis que geram previsões bastante precisas, ao passo
que o mais simples dos modelos econômicos envolve uma profusão de variáveis e
causas perturbadoras que impedem que isolemos um fenômeno de forma satisfatória.

Para Mill, barrada a via a posteriori, a economia procederia como
a geometria, partindo de pressupostos fundamentais verdadeiros sobre o
comportamento humano e deduzindo a partir dos mesmos resultados válidos. O
autor, no caso, parte do pressuposto do Homo
economicus
— o impulso referente ao acúmulo de riqueza material, sem negar
em absoluto a existência de outros fatores operando simultaneamente. Os
teoremas derivados da hipótese de que apenas aquele fator isolado ocorre seriam
constatados empiricamente se não houvesse a confluência simultânea de miríades
de fatores perturbadores. A presença destes faz com que, ao nos referirmos a
fenômenos concretos, possamos apenas falar em leis de tendência. A lei das
vantagens comparativas de David Ricardo, por exemplo, jamais poderia ser
confirmada ou refutada empiricamente, dada a impossibilidade de encontrar dois
países absolutamente idênticos a não ser pela sua política de comércio
exterior.

Carl Menger, o fundador da escola
austríaca de economia, utiliza o mesmo argumento quando condena a confusão
entre aquilo que denomina as orientações de pesquisa empirico-realista e exata
na teoria econômica[x]. Esta
última, partindo de princípios a priori
sobre a ação dos indivíduos, trataria exclusivamente dos efeitos de forças
econômicas atuando isoladamente, ao passo que a primeira, ao considerar a
realidade em toda sua complexidade, jamais seria capaz de estabelecer
correlações exatas entre fenômenos concretos. Menger não cansa de nos lembrar
de que as tentativas de substituir o “atomismo” e as simplificações empregadas
na teoria econômica por uma nova metodologia, calcada na observação da
realidade como um todo, como queria a escola histórica alemã, se mostrou
incapaz de gerar qualquer tipo de resultado.

Ludwig von Mises, um dos
herdeiros da tradição mengeriana no século vinte, também contribuiu com a
defesa da teoria econômica dos ataques positivistas. Suas teses sobre
metodologia podem ser encontradas em diversas de suas obras. O último livro[xi]
publicado durante sua vida, porém, trata exatamente de uma crítica do
positivismo em economia e por isso escolheremos tal obra para efetuarmos o
conteste com as opiniões de seu irmão. Do mesmo modo que Richard critica a
economia sob a ótica positivista sem fazer referências a Ludwig, este critica o
projeto positivista da ciência unificada sem fazer referências a seu irmão.
Apesar disso, a discordância entre eles se revela em cada argumento.

Já no prefácio de sua crítica,
Ludwig se queixa de que os cientistas naturais (entre outros, seu irmão?)
deveriam primeiro estudar as teorias econômicas antes de criticá-las. Esse
estudo revelaria que o projeto positivista para as ciências sociais, denominado
pelo autor de panfisicalismo, é fadado ao fracasso devido à sua incapacidade de
lidar com um dado fundamental dessas disciplinas: a ação humana proposital.
Embora a evolução das ciências naturais, como descrevem os positivistas, tenha
sido de fato marcado pelo expurgo de noções animistas, o empréstimo dos métodos
dessas ciências resultaria em um retrocesso no desenvolvimento das ciências
humanas:

O físico
pode hoje rir da doutrina que interpretava certos fenômenos como consequência de
um horror vacui. Mas ele falha em
perceber que os postulados do panfisicalismo não são menos ridículos. Se
eliminarmos qualquer referência a julgamentos de valor, é impossível dizer algo
sobre as ações dos homens. (MISES, L. 1978, p. 39)

Para Mises, um método que admite
apenas protocolos observacionais vetaria o entendimento do comportamento
humano. Ao contrário do que pensava seu irmão, Ludwig não acreditava que
aprendemos sobre os outros apenas por meio dos sentidos: as ciências sociais
seriam eminentemente teleológicas (págs. 7 e 37) e as explicações dos fenômenos
sociais necessariamente envolvem menção aos propósitos dos agentes, mesmo se
estes não forem declarados. O fracasso do behaviorismo — a tentativa de
substituir em psicologia categorias mentais não diretamente observáveis pelo método
pretensamente mais científico que considera apenas estímulos e respostas
observáveis — é apresentado por Mises (págs. 41, 121) como exemplo da
impossibilidade de eliminar o conceito de finalidade da ação humana das teorias
sociais[xii].

Não apenas o caráter subjetivo
dos fatos relevantes para as ciências sociais conspira contra as pretensões
positivistas nas ciências sociais. As tentativas de quantificação e mensuração
dos fenômenos sociais tampouco foram capazes de revelar regularidades que inspirassem
teorias satisfatórias sobre o assunto. Mises (págs. 26, 57, 63) não se cansa de
repetir que na esfera da ação humana não existem constantes como aquelas
encontradas na física. Ecoando Mill, Mises (43, 76) salienta que a experiência
na área social é sempre relativa a fenômenos complexos, de modo que
verificações ou refutações empíricas das teorias sociais não são possíveis.
Sendo assim, a coexistência de explicações rivais sobre o mesmo fenômeno
social, que tanto incomodava Richard, não poderia ser resolvida apenas pelo
apelo a mais observações ou ao expurgo de conceitos metafísicos e preconceitos
ideológicos.

Além de afirmar que inexiste uma
alternativa positivista ao método praticado nas ciências sociais, Ludwig crê
que o ataque dessa doutrina metafísica (p. 117) às ciências sociais teria
consequências perniciosas. Para Mises (40, 123-4), os representantes do
positivismo — velho e novo — não seriam conhecidos por qualquer contribuição
à ciência que tenham feito, mas sim por aquilo que querem proibir. Seus
defensores seriam efetivamente os defensores da intolerância e do dogmatismo.
Não existe assim nada mais emblemático sobre as diferenças entre Ludwig e
Richard von Mises do que suas opiniões sobre Comte: dogmático e
intelectualmente estéril para o primeiro e modelo de boa ciência para o
segundo. A transformação do positivismo nas mãos de Comte em uma seita
religiosa dogmática, algo acidental para Richard (p.360), é vista como fruto do
dogmatismo inerente ao positivismo, segundo Hayek[xiii], o
economista que sucedeu Ludwig no desenvolvimento da escola austríaca de
economia.

Revista a opinião de Ludwig sobre
o programa positivista para as ciências sociais, consideremos suas opiniões
sobre o método adequado para estas, denominadas ciências da ação humana. Mises
divide estas em dois ramos: teoria e história. Esta última utiliza os
resultados de todas as ciências teóricas para estudar sucessões particulares de
eventos no tempo. Para que isso seja levado a cabo, a história utiliza o conceito
de “compreensão” (Verstehen), o
esforço de tornar as ações de certos agentes inteligíveis em termos de seus
propósitos e planos.

As teorias sociais, por outro
lado, e a economia em particular, tratam de regularidades aplicáveis a todos os
casos. Como Mill, Mises defende a tese de que a teoria econômica utiliza o
método a priori, obtendo seus
resultados por meio de raciocínio dedutivo (p. 21), partindo-se de postulados
básicos. Ao contrário de Mill, Mises não adota como princípio fundamental a
hipótese restritiva do Homo oeconomicus.
Para ele[xiv], ao
contrário do que acredita seu irmão, a economia requer apenas a hipótese de que
as pessoas têm propósitos não atendidos, não importando sua natureza. Com essa
generalização, a tese historicista (defendida por Richard e até hoje por
críticos da teoria que não leram Mill ou Mises) de que a teoria econômica
dependeria da hipótese falsa de egoísmo ou impulso acumulador de riqueza
material perde seu significado.

Segundo a concepção misesiana,
não existiriam assuntos estritamente econômicos, mas apenas aspectos econômicos
em todo tipo de atividade para os quais é necessária a escolha entre fins
alternativos[xv],
seja a atividade artística, esportiva, espiritual ou de qualquer outra natureza.
Desse modo, as ciências sociais teóricas, para Mises, consistem no que ele
denomina praxeologia, o exame das consequências lógicas do postulado
fundamental que afirma que as pessoas agem quando imaginam situações mais
satisfatórias, meios para alcançá-las, obstáculos a sua adoção e incerteza
sobre o resultado.

Para Mises, todo teorema
econômico é derivado em última análise do postulado da ação humana (p. 45).
Esse postulado, por sua vez, consiste em conhecimento verdadeiro sobre o mundo,
derivado exclusivamente pela razão. Em termos kantianos, seria um exemplo de
conhecimento sintético a priori,
justamente a categoria cuja existência é negada pelo positivismo lógico. Para
Mises (p. 18), o caráter apriorístico do postulado da ação é derivado do fato
de que a ideia de ação proposital faz parte da estrutura da mente humana: não
conseguimos sequer imaginar a veracidade da sua negação. Sendo assim, o
conhecimento teórico em Economia seria sempre verdadeiro e tudo o que a
observação histórica pode fazer seria apenas determinar se certo teorema
econômico é aplicável ou não às condições existentes em certa situação
concreta.

Embora os livros dos dois irmãos
abordem inúmeras teses das mais variadas disciplinas, podemos resumir suas
opiniões opostas sobre o método das ciências sociais através de alguns rótulos.
Para Ludwig, as ciências sociais são marcadas pelo subjetivismo metodológico,
individualismo metodológico, dedutivismo e apriorismo, ao passo que para
Richard elas deveriam ser indutivistas e a
posteriori
. Essas recomendações, por sua vez, indiretamente implicam objetivismo metodológico, coletivismo metodológico e historicismo. Ou seja, sem
defender explicitamente esses preceitos, a lógica do argumento de Richard o
leva nessas direções[xvi].

Estabelecido o contraste entre as
teses dos irmãos, concluiremos com uma discussão sobre a importância das mesmas
para o desenvolvimento moderno da ciência econômica. Essa discussão pode ser
resumida como um conflito entre o desejado e o possível: desde a década de
trinta do século vinte, a evolução da economia sem dúvida foi inspirada pelo
programa positivista, mas os problemas inerentes a essa doutrina limitaram o
avanço desse programa.

O primeiro ponto a ser notado
mostra que, embora bastante influente entre os cientistas, o positivismo foi
progressivamente abandonado na discussão filosófica. Desse modo, hoje quase
ninguém crê que a ciência parta de observações impessoais sobre as quais se
efetuam generalizações indutivas: a maioria dos cientistas de fato defende
algum tipo de modelo hipotético-dedutivo. Ludwig von Mises, no entanto, ao
defender o dualismo metodológico, supõe que o positivismo seja descritivo dos
métodos das ciências naturais: esta seria baseada na observação (p.54) e
sujeito a verificação empírica[xvii]. Já
Hayek[xviii]
prefere atacar o que denomina cientismo, definido como a defesa para as
ciências sociais daquilo que erroneamente se considera o método empregado pelas
ciências naturais.

De fato, os economistas modernos
empregam teorias que partem de axiomas e utilizam dedução para obter seus
resultados. O clamor pela rejeição de hipóteses não baseadas em observação, em
especial aquelas relativas a racionalidade e maximização de lucros e utilidade,
sempre foi bandeira de grupos heterodoxos e de leigos, como os modernos
econofísicos.

A despeito disso, ideais
positivistas marcaram a economia moderna: o dito de Lord Kevin de que ciência é
mensuração talvez seja o mais citado pelos economistas[xix]. De
fato, boa parte do desenvolvimento da disciplina nos últimos cem anos se pautou
pela busca de modelos que possam ser testados empiricamente e formulação de
hipóteses operacionais, que utilizem variáveis que possam ser mensuradas em
princípio, como a teoria das preferências reveladas de Samuelson. Nesse ponto,
sem dúvida a profissão se afastou das opiniões de Ludwig von Mises, que, cético
sobre a possibilidade de encontrar constantes e confirmar ou refutar teorias
econômicas, considera a econometria como mera história econômica recente (p.
64). É famosa a afirmação de Samuelson de que “tremia pela reputação” da
economia quando lia as opiniões metodológicas de Menger, Mises, Robbins e
Knight[xx]. Estes
últimos representam de fato a ortodoxia no que se refere a questões
metodológicas antes da revolução positivista.

Essa ortodoxia, diante da
complexidade dos fenômenos sociais, adotava hipóteses com elevado grau de
generalidade para que regularidades teóricas fossem estabelecidas. Assim, por
exemplo, toda ação não reflexa era tida como racional para Mises. Para
economistas comprometidos com o ideal de testabilidade, esse tipo de definição
seria inadequado, se aproximando de meras tautologias. Desse modo, definições
amplas foram substituídas por hipóteses mais concretas e conceitos teóricos já
estabelecidos foram reinterpretados de forma mais operacional.

Assim, a busca por modelos
testáveis em um campo marcado por fenômenos complexos, cuja complexidade
conspira contra essa busca resultou em um interessante dilema metodológico: se
em um plano mais geral estar certo for visto como não científico, adotar
hipóteses específicas sobre fenômenos complexos faz com que essas hipóteses
sejam automaticamente refutadas, de modo que a alternativa é estar errado, mas
com método correto [xxi]!
Esse dilema explica a predominância moderna da postura metodológica conhecida
como instrumentalismo[xxii]: não
importa o realismo das hipóteses, mas seu poder preditivo. Isso permite
conciliar a demanda por hipóteses operacionais com a desagradável constatação
que essas tendem a ser refutadas facilmente, mantendo-se a ilusão positivista
de que teorias seriam comparadas pela capacidade de previsão de fenômenos.

A constatação de que teorias
cujas previsões fracassaram não foram descartadas, de modo que o critério
instrumentalista funciona principalmente como estratégia retórica para a
rejeição de explicações rivais, aliada a falta de progressos teóricos derivados
da adoção de uma economia mais empírica e o progressivo descrédito da filosofia
positivista, fizeram com que o desprezo pelas opiniões metodológicas de Ludwig
von Mises fosse revertido e suas opiniões reconsideradas. Afinal, segundo seu
irmão Richard, o positivismo lógico não seria apenas uma doutrina metafísica,
na medida em que o sucesso ou fracasso do projeto positivista poderia ser
constatado empiricamente. Talvez haja um fundo de verdade nessa afirmação…

Referências

BARTLEY III, W.W.
e Radnitzky,
G., (eds.) Evolutionary Epistemology,
Rationality and the Sociology of Science
. La Salle: Open Court, 1987.

CALDWELL, B.J. Beyond Positivism: economic methodology in the twentieth century.
Londres: George Allen & Unwin, 1982.

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“Conectibility”, 1953.

FRIEDMAN, M. The Methodology of
Positive Economics in Essays in Positive Economics, Chicago:
Univ. of Chicago Press, 1966.

HAYEK, F.A. The Counter-Revolution of Science: studies in the abuse of reason.
Indianapolis: The Free Press, 1979 [1955].

HAYEK, F.A. The Theory of Complex
Phenomena, in HAYEK, F. A. Studies in
Philosophy, Politics and Economics
. Londres: Routledge, 1967.

KIRZNER, I.M. The Economic Point of View: an essay in the history of economic thought.
Kansas City: Sheed & Ward , 1976.

MENGER, C. Investigations into the Method of Social Sciences. Grove City:
Libertarian Press, 1996 [1883].

MILL, J. S. Da Definição de Economia
Política e do Método de Investigação Próprio a Ela. Em: Os Pensadores. São
Paulo: Abril Cultural, 1984.

MISES, L. The Ultimate Foundation of Economic Science: an essay on method.
Nova York: Foundation for Economic Education, 1978 [1962].

MISES, L. Ação Humana. São
Paulo: Instituto Mises Brasil, 2011.

MISES, R. Positivism: a study in
human understanding
. Ney York: Dover Publications, 1951. Traduzido de Kleines Lehrbuch des Positivismus,
Hage: von Stockum, 1939.

NEURATH, O. CARNAP, R. e HAHN, H.  The Scientific Conception of the World: The
Vienna Circle [1929] In: NEURATH, M. e COHEN, R.S. (eds.) O. Neurath: Empiricism and Sociology, capítulo 9, 1973.

SCHORSKE, C. E. Fin-de-Siècle
Vienna: politics and culture
. New York: Vintage Books, 1981.

SKOUSEN, M. The Making of Modern
Economics
. New York: ME Sharpe, 2001.

ROTHBARD, M. Ludwig von Mises:
Scholar, Creator, Hero
. Auburn: L v Mises Institute, 1988.

 


[i]
Schorske, 1981, p. xxvii.

[ii] Carl
Menger, embora não tenha em seus tratados teóricos explorado as consequências
políticas de sua teoria, revela seu liberalismo no material utilizado quando
era tutor do príncipe herdeiro do Império, Rudolf, que mais tarde viria a
cometer suicídio.

[iii] Mises,
R. 1951.

[iv] Mises,
L. 2011 e 1979.

[v] Rothbard, 1988,  n.r. 34, p. 79.

[vi] Skousen, 2001, p. 290.

[vii]
Neurath, e outros, 1973.

[viii]
Bartley, e Radnitsky,  (eds.), 1987.

[ix] Mises,
R., 1951.

[x] Menger, 1996.

[xi] Mises, L, 1978.

[xii] Em
Economia, fracasso paralelo é ilustrado pela teoria da preferência revelada,
que pretendeu substituir a teoria da escolha do consumidor e seus conceitos
subjetivos de preferências e utilidade, por outra baseada apenas nas escolhas,
preços e rendas observáveis.

[xiii]
Hayek, 1979, segunda parte.

[xiv] Mises,
2011.

[xv]
Kirzner, 1976.

[xvi] Hayek,
1976, em sua penetrante análise do positivismo em ciências sociais, resume o
contraste de forma semelhante. Para esse autor, a economia metodologicamente
seria subjetivista, individualista e teórica, ao passo que o cientismo implica
as posturas opostas: objetivismo, coletivismo e historicismo.

[xvii] O
autor parece relutar sobre o ponto. Por vezes adota o verificacionismo, em
outras ocasiões ataca o falseacionismo. No texto em discussão, porém, o  autor afirma: “o princípio positivista de
verificabilidade como modificado por Popper é incontestável como um princípio
epistemológico das ciências naturais”. (p. 119-120).

[xviii] Hayek, 1979.

[xix] 
“When
you can measure what you are speaking about, and express it in numbers, you
know something about it, when you cannot express it in numbers, your knowledge
is of a meager and unsatisfactory kind; it may be the beginning of knowledge,
but you have scarely, in your thoughts advanced to the stage of science.”

[xx]
Caldwell, 1982, p. 118

[xxi] Hayek,
1967, afirma que embora devamos tornar as teorias o mais falseáveis possíveis,
quanto maior for a complexidade do objeto de estudo, necessariamente menor será
o seu grau de falsificação das teorias sobre esses fenômenos. Esse seria um
preço a pagar pelo estudo de tais fenômenos.

[xxii] O
texto de Friedman (1966) é representativo dessa postura metodológica.

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37 comentários em “Os irmãos Mises: o positivismo e as ciências sociais”

  1. Parabéns, Fabio! Excelente artigo e muito esclarecedor. Garanto que poucas pessoas sabiam da existência desse irmão do Mises.

  2. O artigo é realmente fantástico. Um dos melhores que já foram publicados pelo Mises Brasil. Ele será traduzido para o inglês para publicação por instituições parceiras no exterior.

  3. Excelente!!! Para quem gosta de História das Idéias esse artigo, com certeza, já entrou para o panteão dos grandes artigos do site!
    Há algum tempo, e agora não me lembro exatamente onde, li a respeito das relações tanto pessoais como intelectuais entre Mises e Weber… Seria muito interessante um artigo a respeito com a qualidade deste aqui. Por fim, gostaria de saber se há (houve) pensadores do Direito que desenvolvem sua teoria através do método de Mises para as ciências sociais.

    Um abraço e mais uma vez parabéns pela qualidade do artigo!

  4. Que legal, eu fiquei sabendo um tempo atrás que o irmão dele fazia parte do círculo de viena e sempre tive curiosidade de saber um pouco mais sobre o relacionamento (intelectual) dos dois. Ótima maneira de colocar as correntes epistemológicas para dialogar.

  5. Eduardo Bellani

    Ótimo artigo,

    Sugiro que o autor busque sua publicação em algum
    periódico, pois está a altura.

    Abraço, e continuem publicando conteúdo econômico de qualidade.

  6. ‘Os psicólogos poderiam tentar explicar as opiniões diametralmente opostas como mais um caso do fenômeno da rivalidade entre irmãos. Para tal, poderiam invocar as teorias psicológicas de mais dois austríacos famosos: Sigmund Freud e Alfred Adler, que viam a rivalidade entre irmãos ‘

    Não gostei dessa parte.Freud, psicanálise e cia, isso não é ciência, não é psicologia, é só literatura e ruim.

  7. Prezado Daniel, parece que você. FeZ confusão com John von Neumann que, com Oskar Morgenstein, desenvolveu mos anos 40 4 axiomas, que ficaram conhecidos como os axiomas da racionalidade. Fiz vários cursos de Estatística e Econometria e em nenhum deles estudei Richard von Mises.

  8. Rui Ribeiro de Magalhaes

    Boa noite.
    Gostaria de fazer uma sugestão: como cidadão europeu que sou, há todo um hábito de leitura enraizado que vai ao encontro da síntese e da divisão dos artigos por partes,capítulos. Sem querer falar na qualidade dos textos, entendo que a leitura é demasiado “pesada”!

    Não pretendo, de todo, criticar ou minimizar o excelente trabalho que é feito, apenas penso que estes textos são demasiado extensos.

    Sei que dá trabalho e não é qualquer um que tem capacidade de escrever tanto e com tanta qualidade mas, na minha humilde opinião, o utilizador comum iria aceder mais vezes a seus textos e a leitura sería, permitam-me o termo, mais fácil. E uma leitura mais fácil chegaria a mais pessoas e o impacto, que já é enorme, sería ainda maior.

    Agradecido pela boa informação que proporciona.
    Os melhores cumprimentos,

    André Ribeiro de Magalhães

  9. “O critério de verificabilidade se revelou impraticável, já que seriam necessárias infinitas observações para estabelecer proposições científicas universais (com a frase “todo cisne é branco”). A adoção dos padrões positivistas para a ciência, desse modo, excluiria até mesmo a física, já que esta também emprega proposições não verificáveis.”
    Excelente texto. Algumas coisas lembro do curso de História e Filosofia da Ciência,conduzido pela Profª.Dra.Irinéia do Departamento de Física da UEL, mas não me recordo dos irmãos Mises.
    Por outro lado, Carnap, Popper, …
    Ficou mais agradável a leitura deste texto após as aulas do Professor Alex Catharino.
    Abraços.

  10. Adhemar Ranciaro Neto

    Estudei algo sobre Richard von Mises quando estava vendo, em Finanças, a hipótese dos mercados eficientes e sua relação com a flutuação aleatória dos preços apresentada por Samuelson, Fama, Lo, Mackinlay e outros . Eu queria encontrar formas adequadas de se medir aleatoriedade em uma sequência de dígitos quando me deparei com a teoria de aleatoriedade de Richard von Mises. Apesar de não ser a mais apropriada, foi um belo início para a discusão de estatísticas para se verificar o comportamento randômico de sequências.
    Achei o texto fantástico e me ajudou a entender sobre a figura e a cobrir algumas lacunas em minha pesquisa sobre o Richard.

  11. Tenho algumas perguntas, a princípio, aos professores Barbieri e Iorio, pois suponho estarem mais familiarizados com o assunto. Mas qualquer um que saiba pode responder-me.

    [1] acerca dos axiomas de racionalidade de John von Neumann e Oskar Morgenstein. Eles mantém alguma relação com o subjetivismo metodológico e com o individualismo metodológico de L. von Mises? Ou com as versões de subjetivismo metodológico e individualismo metodológico de Hayek, Rothbard ou Hoppe? [1.1] Algum pesquisador que vocês conheçam já se debruçou numa análise conceitual desta relação? Vocês podem me recomendar alguma leitura a respeito? (artigo, livro, autor) [1.2] estes axiomas de racionalidade de von Neumann e Morgenstein foram publicados primeiramente no livro " Theory of Games and Economic Behavior" ou foi em alguma outra publicação?

    [2] na Polônia, no pós-segunda guerra, houve o desenvolvimento de uma linha de individualismo metodológico, que pelo pouco que sei, foi uma confluência de estudos da 'escola lógica polonesa' (um grupo de matemáticos e filósofos que estudavam temas ligados aos fundamentos da matemática, e que tinha amplos vínculos e colaborações com intelectuais vienenses, tanto os ligados ao círculo de Viena, quanto desvinculados deste grupo) com interesse por ciências sociais. Tadeusz Kotarbinski chamou-a de 'Praxiologia' (e não de Prax'e'ologia), e Adam Przeworski, por exemplo, a utiliza em ciências políticas contemporaneamente. – Vocês podem me dizer se esta "Prax'i'ologia" mantém alguma relação com o subjetivismo metodológico, com o individualismo metodológico, ou com a Praxeologia propostas por von Mises? Ou com as versões de subjetivismo metodológico, individualismo metodológico e Praxeologia de Hayek, Rothbard ou Hoppe? [2.1] Algum pesquisador que vocês conheçam já se debruçou numa análise conceitual desta relação? Vocês podem me recomendar alguma leitura a respeito? (artigo, livro, autor).

    Grato pela atenção.

  12. Marcos Adilson Rodrigues Júnior

    Antes de tudo gostaria de parabenizá-lo pelo excelente artigo e clareza das informações aqui prestadas. Sou estudante de Psicologia, principalmente da escola Behaviorista Radical fundada por B. F. Skinner e que tem influências do empirito criticismo de Ernst Mach, a seleção natural de Charles Darwin e o pragmatismo americano, e me interesso muito por economia e história e filosofia da ciência.

    Hoje não há proposta cientifica mais adequada no campo da Psicologia que a ciência baseada na filosofia do Behaviorismo Radical, e que gere resultados mais satisfatórios e verificáveis e preditivos.

    O seu postulado central, formulado através da constatação experimental de que todo comportamento é função de variáveis ambientais externas a ação, tem muito em comum com o postulado de Mises, embora que não aparentemente.

    Se para Mises o comportamento intencional é em função de um objetivo futuro e que a escassez do produto torna a busca por ele maior, podemos constatar experimentalmente que está certo, embora que tratemos esses termos como variáveis manipuláveis e testáveis e a inclusão do probabilismo.

    A subjetividade por nós pode ser entendida, não sendo uma caixa preta intransponível, não somos historicistas também porque não tratamos a história de modo mecanicista, mas adotamos o modelo selecionista de Darwin, de que as consequências das ações selecionam determinado comportamento aumentando assim a probabilidade dele ocorrer no futuro.

    Acredito que a crítica a escola Behaviorista seja direcionada a outras escolas como a Behaviorista Metodológica (Positivista Lógica) ou a Behaviorista Mediacional (Mecanicista).

    Embora venha gostado bastante dos escritos deste Site, mudei inclusive minha postura ideológico-política-econômica para o Libertarianismo. Creio que podemos ser complementares hoje e não excludentes. Os behavioristas de hoje abandonaram o positivismo lógico também.

  13. Bom dia!
    Alguem já assistiu este video falando sobre os juros, e pode dar uma opinião?
    blog.kanitz.com.br/2012/05/novo-video-queda-de-juro-%C3%A9-sustent%C3%A1vel.html?utm_source=feedblitz&utm_medium=FeedBlitzEmail&utm_campaign=0&utm_content=550671
    abs

  14. Getulio Malveira

    Poxa, eu não sabia que Hayek era primo de Wittgenstein… eta mundo austríaco pequeno!!!

    Excelente, artigo. Já tinha lido alguma coisa sobre o Richard, mas o artigo do professor Barbieri é realmente enriquecedor. Fico às vezes impressionado com a erudição dos especialistas da EA em epistemologia.

  15. Pra ser sincero, eu descobri esse site numa busca no google sobre von Mises há 3 anos atrás quando estava estudando Engenharia Mecânica. Nunca tinha ouvido falar do Mises da Economia. Eu gostava de Economia na época, mas só conhecia o Keynesianismo. Desde então sou leitor frequente desse site. Mudei completamente a maneira como vejo a Economia, Estado, Política, Filosofia, etc

  16. Ra%C3%83%C2%AD Teixeira

    Com certeza o melhor artigo que ja li aqui, foi uma viajem no tempo riquíssima. Muito bom ler os artigos e livros do barbieri. As palestras do youtube tbm sao riquissimas, fora que é engraçado ve-lo tentando sintetizar em um espaço curto de tempo todo o seu conhecimento, ele sofre uma metamorfose e se transforma numa meltralhadora de insights na mente dos alunos.

  17. Ra%C3%83%C2%AD Teixeira

    Como pode, eu aqui, nas profundezas do interior do fim do mundo, ter acesso a tanta coisa? Os livros, artigos, palestras, paginas pessoais, ainda posso interagir e palpitar. Fico imaginando, se um dia, chegar o boleto cobrando por uso de toda “propriedade intelectual”, seria eternamente escravo. So me resta a eterna gratidao.

  18. Hayek um liberal radical, odiava o positivismo e Auguste Comte,porque Comte dizia que o projeto liberal de economia e sociedade era um programa predatório e auto-destrutivo da humanidade como um todo,sugerindo que este(liberalismo),devia ser vigiado e controlado para impedir-se seu resultados nefastos ao mundo e a sociedade; Já o Ludwig v mises odiava o positivismo e Auguste Comte só pra fazer birra ao irmão mais novo e bem sucedido,pois se ele Lê-se Auguste Comte veria que nas obras de Comte ele recomenda induzir para deduzir e deduzir induzindo os resultados das observações e experimentações,além de Auguste Comte ser o verdadeiro autor da frase que muitos atribuem por má fé ou desinformação á Albert Einstein,que é a frase “Eis que tudo é relativo,este é o único princípio absoluto”,ou seja Comte estabeleceu a relatividade,isso em 1819,e voltou a defender esse princípio em outras obras,como no catecismo positivista por exemplo,a parte importante desse fato é que desmente um discurso comum de que o positivismo busca verdades absolutas ou dogmáticas,pelo contrário em Comte ele é interdisciplinar,relativista,laico,humanista e científico; e par desgosto e tristeza de Hayek e ludwig V Mises todas as ciências hoje buscam comprovação empírica/científica de suas ideias,só sendo aceito como válido o que se pode comtrovar,ficando as teorias no mundo das hipóteses teóricas

  19. Guilherme Silveira

    Não apenas o positivismo é uma filosofia falsa. A teosofia e a Nova Era também são revoltas contra a razão e o materialismo. São formas de obliterar o progresso.

  20. Guilherme Silveira A. Santos

    Jogos de palavras sem nexo e significado, truques em debates, são táticas comuns na tentativa de confundir o público com um jargão falso. Seja de forma explícita ou sub reptícia. Nítidos exemplos disso são a noção metafísica de infinito ( Cantor), a suposta conexão entre física e esoterismo ( David Bohm), a psicologia holotrópica ( Grof). Tudo isso mostra como o irracionalismo é vasto, mesmo disfarçado com termos técnicos.

  21. Guilherme Silveira A. Santos

    Acreditar no positivismo é tão errado como acreditar no princípio antrópico cosmológico, ou seja, acreditar que as leis da física foram ajustadas para tornar a vida não apenas possível, mas inevitável.

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