Voltar

É possível fazer concessões a ideias socialistas?

A
distinção entre propriedade privada dos meios de produção (economia de mercado
ou capitalismo) e propriedade pública dos meios de produção (socialismo,
comunismo ou “planejamento central”) é bastante nítida.  Cada um desses dois sistemas de organização
econômica da sociedade pode ser descrito e definido de maneira precisa e sem
ambiguidades.

Não
podem jamais ser confundidos um com o outro; não podem ser misturados ou
combinados; não podem transitar gradualmente de um para o outro; são mutuamente
incompatíveis.  Um fator de produção ou é
de propriedade privada ou pública.  

Se,
no contexto de um sistema de cooperação social, alguns meios de produção são de
propriedade pública, enquanto os demais são controlados por entidades privadas,
isto não configura um sistema misto combinando socialismo e propriedade
privada.  O sistema continuará sendo uma
sociedade de mercado desde que o setor socializado não se tornar inteiramente
separado do setor não socializado, passando a ter uma existência estritamente
autárquica.  (Neste último caso,
estaríamos diante de dois sistemas que coexistem independentemente lado a lado
— um capitalista e outro socialista).

Empresas
estatais funcionando em um sistema no qual existam empresas privadas e um
mercado — assim como países socialistas que trocam bens e serviços com países
não socialistas — estão integradas em um sistema de economia de mercado.  Estão sujeitas às leis do mercado e têm a
possibilidade de recorrer ao cálculo econômico.

Se
quisermos considerar a ideia de colocar lado a lado a estes dois sistemas, ou
entre eles, um terceiro sistema de cooperação humana baseado na divisão do
trabalho, teremos necessariamente de partir da noção de economia de mercado e
não da noção de socialismo. A noção de socialismo, com seu monismo e centralismo rígidos,
em que uma só vontade tem o poder de escolher e agir, não dá margem
a qualquer tipo de acordo ou concessão; não é um sistema passível de ajustes ou
alterações.

Mas
o mesmo não ocorre em relação à economia de mercado.  Neste sistema, a coexistência do mercado com o
poder de coerção e compulsão do governo dá margem a diversas possibilidades.  Seria realmente necessário ou conveniente,
perguntam-se as pessoas, que o governo se mantenha fora do mercado?  Não seria uma tarefa do governo interferir e
corrigir o funcionamento do mercado?  Será
que não há uma terceira alternativa entre capitalismo e socialismo?  Será que não existem outros sistemas viáveis
de organização social que não sejam nem o comunismo e nem a pura economia de
mercado?

Em
resposta a essas questões já foram arquitetadas várias soluções — também
chamadas de terceira via — que,
segundo os seus criadores, estariam tão distantes do socialismo como do
capitalismo.  Alegam esses autores que
tais sistemas não são socialistas porque preservam a propriedade privada dos
meios de produção, e não são capitalistas porque eliminam as
“deficiências” da economia de mercado.  

Um
tratamento científico dessa questão deve necessariamente ser neutro em relação
a quaisquer julgamentos de valor — e, portanto, não pode condenar de antemão nenhum
aspecto do capitalismo como sendo prejudicial, defeituoso ou injusto.  Consequentemente, não faz sentido recomendar,
em bases puramente emocionais, o intervencionismo.  Cabe à ciência econômica analisar essas
questões e buscar a verdade; não pode ser invocada para louvar ou condenar a
realidade a partir de postulados preconcebidos e de preconceitos.  Em relação ao intervencionismo, cabe à ciência
econômica apenas perguntar e responder: como é que funciona?

O
intervencionismo

Existem
duas maneiras de se chegar ao socialismo.

A
primeira (podemos denominá-la de modelo leninista ou russo) é puramente
burocrática.  Todas as fábricas, lojas e
fazendas são formalmente estatizadas; passam a ser departamentos do governo
dirigidos por funcionários públicos.  Cada
unidade do aparato de produção mantém com o órgão superior central a mesma
relação que uma agência local dos correios mantém com a central dos Correios.

A
segunda maneira (podemos denominá-la de modelo alemão ou de Hindenburg)
preserva nominal e aparentemente a propriedade privada dos meios de produção,
fazendo parecer que continuam a existir mercados, preços, salários e juros.  Entretanto, já não existem empreendedores, mas
apenas gerentes de empresas (Betriebsführer na terminologia
nazista).

Esses
gerentes de empresa parecem estar efetivamente no comando das empresas que lhes
foram confiadas; compram e vendem, contratam e dispensam trabalhadores, fixam
remunerações, contraem dívidas, pagam juros e amortizam empréstimos. Mas, ao
exercer a sua atividade, são obrigados a obedecer incondicionalmente às ordens
emitidas pela agência central do governo encarregada de dirigir a produção.

Essa
agência (a Reichswirtschaftsministerium na Alemanha nazista)
instrui os gerentes das empresas sobre o que e como produzir, de quem comprar e
a que preços, e a quem vender e a que preços. 
Especifica o emprego de cada trabalhador e fixa o seu salário.  Decreta a quem, e em que termos, os
capitalistas devem confiar os seus fundos.  Em tais circunstâncias, as trocas de mercado
tornam-se meramente uma farsa. Os salários, preços e juros são fixados pelo
governo; são salários, preços e taxas de juros apenas na aparência; na
realidade, são meramente as expressões quantitativas das ordens do governo, as
quais determinam o emprego, a renda, o consumo e o padrão de vida de cada
cidadão.

O
governo de fato dirige toda a atividade econômica.  Os gerentes das empresas obedecem às ordens do
governo e não à demanda dos consumidores e à estrutura de preços do mercado.
Isso é socialismo, só que disfarçado pelo uso da terminologia capitalista.  Alguns rótulos da economia de mercado
capitalista são mantidos, mas com um significado inteiramente diferente do que
têm na economia de mercado.

É
necessário salientar este fato a fim de evitar que se confunda socialismo com
intervencionismo. O intervencionismo — ou a economia de mercado obstruída — difere
do modelo alemão de socialismo pelo simples fato de ainda ser uma economia de
mercado.  As autoridades interferem no
funcionamento da economia de mercado, mas não desejam eliminá-la completamente.
 Querem que a produção e o consumo sigam
caminhos diferentes dos que seguiriam se não houvesse as obstruções, e querem
atingir esse objetivo por meio de ordens, comandos e proibições, para cujo
cumprimento contam com o respaldo do seu poder policial e de seu correspondente
aparato de compulsão e coerção.  

Tais
medidas, entretanto, são atos isolados de intervenção. Não
pretendem as autoridades integrá-las a um sistema que determinaria todos os
preços, salários e taxas de juros, colocando em suas mãos o controle absoluto
da produção e do consumo.

O
sistema de economia de mercado obstruída, ou intervencionismo, procura
preservar o dualismo de duas distintas esferas: a atividade do governo de um
lado e a liberdade econômica do sistema de mercado de outro.  O que caracteriza o intervencionismo é o fato
de que o governo não limita suas atividades à preservação da propriedade
privada dos meios de produção e à proteção contra as tentativas de violência ou
fraude; o governo interfere na atividade econômica através de ordens e
proibições.

A
intervenção é sempre um decreto emitido, direta ou indiretamente, pela
autoridade responsável pelo aparato administrativo de coerção e compulsão que
força os empreendedores e os capitalistas a empregarem alguns dos fatores de
produção de maneira diferente daquela que o fariam se estivessem obedecendo
apenas aos ditames do mercado.  Tal
decreto pode ser uma ordem para fazer ou para deixar de fazer alguma coisa.  

Não
é necessário que o decreto seja emitido diretamente pelo poder legitimamente
constituído e estabelecido.  Pode ocorrer
que algumas outras agências se arroguem o direito de emitir tais ordens ou
proibições, e as imponham por meio do seu próprio aparato de coerção e
opressão.  Se o governo legalmente
constituído tolera esse procedimento ou até mesmo o apoia por meio de seu
aparato policial, as coisas se passam como se a ordem fosse do próprio governo.
 Se o governo se opõe à ação violenta
dessas outras agências, e, embora o desejando, não consegue evitá-las nem com o
emprego de suas forças armadas, advém a anarquia.

É
importante lembrar que intervenção do governo significa sempre ou ação violenta
ou ameaça de ação violenta. Os fundos
gastos pelo governo em qualquer de suas atividades são obtidos por meio de
impostos.  E os impostos são pagos porque
os contribuintes não se atrevem a desobedecer aos agentes do governo; eles
sabem que qualquer desobediência ou resistência seria inútil.  Enquanto perdurar esse estado de coisas, o
governo tem a possibilidade de arrecadar tanto quanto queira para suas
despesas.

Governo
é, em última instância, o emprego de homens armados, de policiais, guardas,
soldados e carrascos.  A característica
essencial do governo é a de impingir os seus decretos por meio do espancamento,
do encarceramento e do assassinato. Quem pede maior intervenção estatal está,
em última análise, pedindo mais coerção e menos liberdade.

Últimos Artigos

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

80 comentários em “É possível fazer concessões a ideias socialistas?”

  1. Erik Frederico Alves Cenaqui

    Prezada equipe do IMB\r
    \r
    Inicialmente gostaria de dizer que os textos do site que são conceituais e/ou principiológicos, como este que estou comentando, são muito bons porque estabelecem critérios para identificar o mercado e o estado.\r
    \r
    Dentro da Escola Austriaca é inegável a superioredade dos textos do Ludwig Von Mises, que são sempre muito claros e objetivos.\r
    \r
    O texto ora comentado trata de um dos pontos mais interessantes da obra do LVM: a impossibilidade da existência de uma “terceira via” na forma de organizar a economia.\r
    \r
    Eu já havia percebido isso quando eu li o livro “As Seis Lições”.\r
    \r
    O intervencionismo é uma técnica de transformação do capitalismo em socialismo, nada mais do que isso.\r
    \r
    observando-se a forma como o LVM apresenta suas idéias não é a toa que a obra deste grande pensador não aparece para o grande público.\r
    \r
    Os diversos livros do Ludwig Von Mises deixam claro que o mundo todo é há muito tempo socialista.\r
    \r
    Os marxistas tem conseguido obter vitórias importantes em todos os países do mundo.\r
    \r
    O capitalismo e o liberalismo clássico estão quase mortos no mundo, o que é lamentável.\r
    \r
    Eu tenho aprendido muito com o Instituto Ludwig Von Mises Brasil.\r
    \r
    Abraços\r
    \r

  2. O estado pode ter e deve ter propriedade. É impossível haver mercado sem estado. O estado deve regular o tamanho da propriedade, o salário mínimo(para limitar o mercado), imposto único para os direitos negativos, e serviço que são impossíveis para o setor privado realizar por completo ou com justiça, como luz, gás, agua… O setor privado não pode parar um rio para fazer um represa pois ninguém é dono do rio senão o estado.

  3. Concodo, PJ. E a primeira propriedade que o estado deve regular e limitar o tamanho deve ser a sua casa. Após limitá-la, acho correto que ele a exproprie, pois, afinal, o estado não pode ficar sem propriedade. Melhor ainda seria se ele tomasse a propriedade de toda a sua família para construir uma represa. Fechou?

  4. http://www.pampalivre.info/noticias.htm\r
    \r
    Polícia Federal brasileira recebe mensalão do governo dos Estados Unidos\r
    27 de dezembro de 2009\r
    \r
    Carlos Costa, que chefiou o FBI no Brasil por quatro anos, fala sobre como os EUA “compraram a Polícia Federal” e como a “ABIN se prostitui…”. Uma das contas bancárias secretas utilizadas para receber o mensalão é a de número 284002-2, na agência 3476-2 do Banco do Brasil, em Brasília. O valor do mensalão depende do cargo que o indivíduo ocupa (delegado, etc.), mas em média gira em torno de 800 dólares por mês por cabeça.\r
    \r
    \r
    \r
    No Brazil só bandido pode portar armas\r
    POLÍCIA FEDERAL ATACA DIREITO DAS PESSOAS HONESTAS À ARMAS DE DEFESA\r
    11 de junho de 2011\r
    \r
    Há poucos dias a Polícia Federal, uma das mais corruptas do mundo, foi denunciada por estar, de forma arbitrária e ilegal, negando TODAS as solicitações de registro de armas de fogo. No dia 6 de junho, o chefe da quadrilha no comando do Serviço Nacional de Armas, delegado da Polícia Federal (PF) Douglas Saldanha, confirmou a denúncia dizendo que “desenvolveu uma interpretação rigorosa do conceito de efetiva necessidade" \r

  5. O segredo está em combinar os acertos do socialismo com os da economia de mercado, pois nenhum nem outro é de todo mal ou de todo ruim, cada um tem suas vantagens e desvantagens.

  6. “O capitalismo e o liberalismo clássico estão quase mortos no mundo, o que é lamentável.”\r
    \r
    A melhor ideia, trabalho, esforço não serão recompensados, vencerá o que for melhor para a coletividade, se o seu produto for superior, não importa.\r
    \r
    E você será obrigado a utilizar o produto escolhido pela coletividade, suas opiniões, escolhas, ideias serão aniquiladas em benefício da coletividade. \r
    \r

  7. Fiz aniversário no domingo passado (01 de janeiro) e recebi de presente – talvez o melhor que já recebi – ‘Ação Humana’ – de minha namorada, pasmem, marxista! Fantástico! Todos os dias olho aquele calhamaço com profunda admiração. Como não admirar a ousadia e generosidade intelectual de Mises, para não dizer de sua genialidade em desnudar os véu de mistério por trás do que realmente é o capitalismo – ao contrário do velho aloprado e histérico Marx. E foi além, ao tratar de compreender a natuzera da ação humana. E o admirável é sua capacidade de explicar ideias que me pareciam tão complexas em economia e questões ontológicas de maneira clara e pedagógica, sem qualquer necessidade de usar subterfúgios e discursos obscuros para enganar os menos atentos – como fizeram Hegel e o velho barbudo. Simplismente fantástico. Comecei a ler, e sinto que somente irei parar quando minhas faculdades mentais já não me permitirem a cognição.

    E vejo as ideias da escola austríaca com otimismo, vislumbrando o dia em que o grande mal gerado pelas ideias socialistas-marxistas-leninistas-keynesianas-estatistas forem finalmente bombardeadas no atacado, pois infelizmente ainda estamos no varejo.

  8. Meus Caros,

    Como ainda li muito pouco das palavras de Mises, se possível me tirem algumas dúvidas:

    Era ele um minarquista ou um anarcocapitalista? Acreditava na possibilidade de alguma função para o Estado ou defendia sua total extinção, deixando à livre iniciativa o caminho livre?

    E quanto a vocês do Mises Brasil? Me parece que são todos anarcocapitalistas, mas gostaria de saber a opnião de vocês sobre essas questões de tamanho do estado e suas defesas. Se a resposta a primeira pergunta for que Mises foi um Minarquista, como vocês lidam com essa posição?

    PS: Vejam que em minhas perguntas não fiz juizo de valor sobre Minarquia ou Anarquia capitalista, apenas coloquei-as antes da exclamação.

  9. Falando de concessões, espero que ninguém atire pelo que vou escrever aqui, mas eu apóio regulamentação governamental do mercado e (horror!) a participação do
    estado na economia. Também considero que direitos de propriedade devem (pânico!) serem relativos. Quem não teve um enfarto lendo isso, continue abaixo que e
    u explico porque essas ideias são bem-vindas e podem ajudar o desenvolvimento da economia — mas adianto que são bem diferentes do que vemos no Brasil e um p
    ouco mais próxima do que vemos em alguns países europeus (especialmente a Alemanha):

    Da regulamentação do mercado: para mim é aceitável, e faço concessões, que o governo use sua máquina para:

    – manter leis de defesa dos consumidores (isso é sagrado!);
    – impedir monopólios, cartéis, trustes e afins (eles invariavelmente levam a um desempenho sub-ótimo do mercado);
    – regulamentar publicidade (se ninguém me matar por isso, um exemplo do que *eu* considero justo para, por exemplo, anúncios na TV: toda a publicidade de um
    empreendedor tem valor legal de contrato. Tudo que foi anunciado deve ser cumprido. Toda informação para ser válida deve estar acessível para o consumidor no anúncio (se não está visível por pelo menos ‘x’ frações se segundo ocupado no mínimo ‘y’% do espaço na tela, a informação pode ser oficialmente ignorada pelo comprador sem perda dos seus direitos perante o vendedor. Leis semelhantes para outros tipos de publicidade. A consequência é que o consumidor sabe sempre o que estará consumindo e faz as tentativas de enganá-lo causarem MUITO prejuízo para o comerciante/fabricante/etc.);
    – regulamentar a ocupação do espaço (coisas como destinação de terrenos e tal. Assim o cidadão que compra ou constroi uma casa seguindo os ditames governamentais terá a garantia que as condições iniciais serão respeitadas depois. Ele não terá surpresas como uma refinaria de petróleo sendo construída ao lado da casa de campo idílica que ele acabou de comprar);
    – manter um sistema de patentes, copyright e registro de marcas (mas longe da aberração do sistema americano; o sistema europeu é um bom começo. Nenhum dos direitos assegurados por esses sistemas poderá ser usado para impedir a concorrência legítima entre negócios. Nada de patentes de software ou de modelo de negócio. O sistema de copyright deve privilegiar os criadores/artistas/escritores/etc. e não os distribuidores/editoras/etc.);
    – regulamentação e validação de produtos/serviços perigosos ou delicados (alimentos, remédios, serviços médicos, ou qualquer coisa que possa ser um risco à saúde ou à propriedade dos cidadãos);
    – controle do acesso aos recursos naturais para evitar que a influência nociva das externalidades ou a exaustão dos recursos do meio-ambiente levem a sociedade a um colapso;
    – regulamentação se serviços imprescindíveis para o funcionamento da sociedade e da economia (energia, abastecimento de água, telecomunicações, etc.). Em especial para evitar monopólios nessas áreas;
    – regulamentação do sistema educacional e de classes profissionais (assim o cidadão sabe que está contratando uma universidade confiável e que o diploma emitido por ela tem boa base. Esse cidadão não será prejudicado quando comparado com outro que estudou em uma instituição menos séria e que forneceu um diploma dito equivalente).

    O governo pode ter participação no mercado quanto à:
    – fornecer serviços de educação, saúde, etc. *paralelamente* aos fornecedores privados. Serviços governamentais desse tipo serão cobrados com base no uso, não em impostos (ex. “se quero usar uma escola do governo, pago por ela. Se não quiser, pago para um empresário do setor mas não subsidio o governo com meus impostos”). A questão aqui é que o governo, ao contrário do empreendedor, *precisa* ter a capacidade de fornecer esses serviços para todos os cidadãos que os desejarem.
    – manter certos serviços culturais e de entretenimento que são importantes para a sociedade mas nem sempre lucrativos — bibliotecas públicas, parques, museus, etc.
    – agir como concorrente em áreas onde a oferta é insuficiente;
    – manter obras de infraestrutura importantes para a sociedade que não são especialmente atraentes para o empreendedor privado (estradas, portos, etc.). Mas jamais ele poderá ter monopólios dessas áreas.

    Aceito que a propriedade é relativa em casos como:
    – direitos de animais. Animais são entes dignos de direitos e o cidadão, mesmo dono de um animal, mas não pode infligir sofrimento além daquele estritamente necessário;
    – objetos, prédios, documentos e locais de valor histórico ou cultural (ex. se eu tenho uma casa enxaimel tombada como patrimônio histórico, não posso destrui-la ou fazer outra ação danosa a sociedade que também é co-proprietária de bens culturais);
    – uma ação sobre um bem pode prejudicar diretamente o direito de outro (ex. não posso represar um rio da minha fazenda e privar o dono da fazenda logo abaixo no curso do rio);
    – certas questões urbanísticas são suficientes para limitações do direito de propriedade (ex. a “lei cidade-limpa” de SP. Sério, alguém imagina defender ela entre anarco-capitalistas? Meu raciocínio é que a cidade pertence aos seus cidadãos e ações que tornam ela desagradável aos seus donos são sujeitas a regulamentação);
    – o uso de informações coletadas de terceiros é limitado (por ex. sou obrigado a ter a autorização dos usuários do meu site se eu quiser usar as informações fornecidas por eles para qualquer finalidade diferente da especificada);

    Essas são algumas concessões que faço aos governos (e algumas eu faço questão de *exigir* dos governos). Espero que dê algum bom debate e não me xinguem (muito) aqui.

  10. Prezado Leandro,

    Então Mises seria um minarquista? Se assim o for, como vocês lidam com essa posição? O que você acha da posição minarquista de Mises? Como li em um artigo aqui, minarquismo, segundo o artigo, culminaria fatalmente num estado gigante. Então teria Mises sido ingênuo ou a posição dele pode ser logicamente bem defendida?

  11. Não, não. Justamente por não seguir líderes intelectuais que a pergunta me pareceu importante ser feita aqui. Concordo plenamente que grandes intelectuais tem lacunas sim, e seus sucessores buscarão preenche-las.

    “Prezado Vinci, não entendi por que teríamos de “lidar” com a posição de Mises…”

    “O fato de Mises não ter concluído que um estado mínimo logicamente leva a um estado máximo (e os EUA são um perfeito exemplo prático dessa teoria) pode sim ser considerado uma, digamos, lacuna em sua teoria, a qual já foi perfeitamente remediada por seus principais seguidores, como Murray Rothbard e Hans-Hermann Hoppe. E estes sempre fizeram questão de enfatizar que só perceberam esta lacuna justamente porque estavam se apoiando sobre os ombros do gigante austríaco. Sem ele, nada seriam.”

    Pronto, é assim que você lida com a posição de Mises. Não perguntei por ironia.

    De qualquer forma, fico grato pela resposta.

  12. Srs.

    Não precisa explicar muito, vejam as séries de reportagem que o Fantástico está mostrando (mesmo a idiota da reporter levando em conta o viés aquecimentista, ela deve estar uns 5 anos atrasada) sobre o problema da Infraestrutura nesse pais.

    Vejam como a Petrosauro é a campeã na lambança! Vejam o que ela esta fazendo em relação as refinarias de caetité na BA e aqui no RJ em São Gonçalo é um desperdício de dinheiro e notariamente mais um case of faluire do que a mão estatal pode fazer.

    A vcs socialistas meu muito bom dia aos srs. Começem bem sua semana mais com essa!

  13. Srs.

    Curiosidade pura e simples:

    Existe em algum lugar do planeta onde existe instituído a verdadeira economia de mercado?

    Sem intervenção estatal alguma?

    Att

  14. Ótimo texto exemplificando a luta de classes. Surpreendo-me com a capacidade do senhor Mises de questionar as maiores conquistas do socialismo ao mesmo tempo que as louva.

    “Governo é, em última instância, o emprego de homens armados, de policiais, guardas, soldados e carrascos. A característica essencial do governo é a de impingir os seus decretos por meio do espancamento, do encarceramento e do assassinato. Quem pede maior intervenção estatal está, em última análise, pedindo mais coerção e menos liberdade.”

    O senhor Mises realizou a incomparável façanha de descrever o pensamento burguês desde Locke em apenas um parágrafo. Permita-me satirizá-lo:

    “Mercado é, em um última instância, o emprego de homens necessitados para a realização das piores tarefas sob os piores salários possíveis. A característica essencial do mercado é a de impingir os seus decretos através da alienação, da propaganda e da exploração. Quem pede maior liberdade econômica está, em última análise, pedindo mais pobreza e menos igualdade”

    O problema não está, Senhor Mises, no emprego do policial, do guarda e do encarceramento; está na motivação. Quando tais ações são tomadas visando o bem comum, ou seja, a justiça social; não há dano ocorrido à sociedade além da eliminação da pobreza. Entretanto, quando são utilizadas para favorecer a burguesia, a tragédia está feita. Muito além da definição de abstração ou loucura um indivíduo, por mais “liberal” que seja, ser oposto à saúde pública de qualidade a todos(Incluindo à burguesia); não é inteligente ou ético. Ser contra o soldado do Estado quando esse apenas visa tirar alguns centavos de um bilionário é irracional, independente de quantas abstrações e retóricas em “economês” sejam a mim direcionadas – não faz o menor sentido no mundo real.

    Enfim, rompendo com minha refutação à retórica do senhor Mises, aplaudo sua tentativa. Porém, ela não funciona e não decola além do discurso, assim como todas as características dos cientistas reacionários. Passar bem.

  15. 2 erros de Ludwig von Mises

    erro 1

    tanto no leninismo qto no intervencionismo ocidental, o mercado ainda existe de alguma forma ainda q reprimido. Se existe livre arbitrio na mente humana existe mercado.

    Portanto qualquer tipo de intervencao do Estado caracteriza socialismo. A morte do mercado é impossivel (ainda bem)
    Mas se existe Estado, por menor q seja, a economia pode ser chamada de planificada

    erro 2

    mesmo um Estado q se atenha a funcoes de defesa e justiça está interferindo nos meios de produção (meios de producao de defesa e justiça) e está distorcendo preços

    se existe Estado existe socialismo

  16. Poderíamos dizer que a nova medida Venezuelana de prender empresários que não vendam a quantidade de produtos que o governo quer no preço que eles querem (inclusive invadindo galpões para checar estoques) uma prova de que a Venezuela não é mais uma economia de mercado?

  17. Acho que um grande problema para o avanço das ideias libertárias é que as pessoas veem as crises causadas pelo governo e as atribuem ao livre mercado!

    Quando ocorre uma crise, 90% (ou mais) das pessoas pedem mais regulamentações!

    Para quem tiver estômago, fica o link de um sociólogo polonês criticando a atual situação devida a medidas “neoliberais”:

    http://www.youtube.com/watch?v=4S71MSAEwhU

    E a sua maior pérola: “O capitalismo é, na essência, um sistema parasitário. Como todos os parasitas, pode prosperar durante algum tempo uma vez que encontra o organismo ainda não explorado do qual pode se alimentar, mas não pode fazê-lo sem prejudicar o hospedeiro nem sem destruir cedo ou tarde as condições de sua prosperidade ou até de sua própria sobrevivência.”

    Ugh!

  18. Bom, há uma enorme confusão com relação ao Estado .

    Deixando de lado , por hora, a demonização do mesmo, posso definir o Estado em algumas palavras; O Estado é um aparato que em última instância é a amálgama dos vários setores da sociedade , em maior parte os que defendem o status quo, uma vez que sendo o capitalismo o sistema dominante, nada mais óbvio que o Estado ter os representantes da burguesia, latifundio e religiosos e etc, em predominância, uma vez que esses detêm dinheiro, e poder em consequência.

    Ok, vejo a grande parte dos comentários desprezar esse perfil estatal, e apenas demonizá-lo como um câncer, porém a causa do Estado ser um mal e não um bem são as forças que tomam a liderança dele, e não o Estado em sí enquanto seu sentido de existência . Como já disse o capitalismo que prega o livre mercado e concorrência, está ali presente exercendo sua influência nas esferas do poder e reforçando todas as vantagem monopolistas as quais são inerentes ao capitalismo.

    Bom, se pedir a intervenção do estado, é pedir coerção e violência, ela é provocada pelos defensores da virtuosidade “natural” do mercado e das leis da concorrência, o detentor dos meio de produção, o Capitalista. Nunca vi um capitalista , na prática, obstruir sua expansão para priorizar o livre mercado, mas vejo a totalidade infiltrada nos poderes estatais para suprimir a população e suas demandam em prol de aumento de lucro e influências.

    Por fim, advogo que o estado tem a função maior de defender o capitalismo, e se há pretensão de acabar com ele, o modo de produção precisa mudar também.

  19. maurício barbosa

    B, o capitalismo é uma expressão criada por marx.Mises prega a liberdade de empreender,portanto não é uma questão de rótulo,esquerda,direita,capitalista ou seja lá quem esteja a frente do estado,acontece é que esta instituição beneficia quem se apodera dela seja esquerdista,direitista,socialista ou capitalista ou seja lá quem for,ou seja esta é uma instituição demoníaca sim,pois ela favorece quem só quer roubar,matar e destruir,pois quem quer fazer o bem sofre todo tipo de pressão e constrangimento,de maneira que desiste de fazer carreira politica por coerência ética.

  20. Eu tenho a apreço tanto por causas libertarias como prinicipio da não agressão,liberdade individuais como marxistas como trabalho é a essencia do homem e a sociedade burguesa não realiza a essencia do homem,é o conceito de super estrutura ideologica que legitima a desigualdade para a super estrutura economica,meu pensadores preferidos são Marx e Nozick,alguem esta disposto a me convencer que eu estou errado,não posso ser um libertario marxista?,pretendo entrar para o LIBER.

  21. Olá, gostaria de saber de que ano é este artigo. Como faço para descobrir isso com relação aos artigos do IMB? Seria interessante dados como este para se situar melhor na leitura, mesmo sendo relativamente atemporal o artigo do Mises.

  22. Hoje em dia temos estatais de propriedade privada. Algo que alguns chamam de neoliberalismo. É tudo feito com dinheiro estatal, é controlado pelo estado junto com alguns amigos, é protegido pelo estado – que lhes asseguram um monopólio…
    Tá ai um bicho que é publico e privado, e mais, com um nome terminado em liberalismo.

Rolar para cima