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A culpa é da alcatra

A
alcatra tem sido vítima de duras críticas nos últimos tempos.  Não só a alcatra, mas também arroz, feijão,
açúcar…  Até picanha!  Dizem os economistas, analistas, especialistas
de mercado e outros, que estes alimentos são os culpados pela inflação. “A
pressão inflacionária do setor agrícola está preocupante!  Mas o Banco Central não vai deixar isso sair
do controle.” — Na fértil mente destes economistas, a inflação é culpa dos
alimentos, e o Banco Central, em seu cavalo branco, chega para domá-la.

A
verdade — aquela que a maioria dos economistas não consegue perceber, e que os
burocratas do governo, que gostam de “mamar nas tetas”, preferem não perceber —
é que a inflação é um fenômeno que só ocorre quando o aumento da oferta de
dinheiro no mercado excede o aumento da oferta das commodities.  Ou seja, a autoridade monetária do país gera a
inflação, e os alimentos são meras vítimas indefesas.  Em uma economia saudável e em crescimento,
onde a base monetária não é inflacionada ao bel-prazer de uma instituição de
planejamento central (qualquer semelhança desta terminologia com o socialismo não
é
mera coincidência), a tendência é a deflação, diferente do que pregam
os atuais economistas keynesianos.  Isso
ocorre naturalmente como resultado dos constantes avanços nos processos
produtivos e consequente aumento da oferta dos produtos.

A
atual inflação se deve a fatores facilmente explicáveis, mas cuja solução
imporia rédeas curtas aos governos social-democratas habituados a se engajar em
gastos desenfreados em nome do “desenvolvimento nacional”.  Desde o começo da crise de 2008, o banco
central norte-americano, na figura de Ben Bernanke, vem inflacionando
severamente o dólar.  Essa política vem
inundando o mercado internacional com dólares, o qual facilmente encontra
compradores: outros bancos centrais espalhados pelo mundo.  A força que o dólar tem vem de seu uso como
reserva internacional, uma herança maldita dos tempos do acordo de
Bretton-Woods.  Sendo assim, Bernanke
confortavelmente imprime mais dólares, criando mais um produto de exportação
norte-americano: a inflação.

A
política mercantilista praticada por quase todos os governos, principalmente
aqueles de cunho social-democrata — e mais ainda aqueles
social-democratas-corporativistas que provêm gordas tetas para empresas bem
relacionadas politicamente (Brasil? Não, imagina!) — obriga os governantes a
manterem suas moedas artificialmente desvalorizadas para que as exportações não
sejam prejudicadas.  Veja, é mais
importante que as exportações sejam mantidas do que a população tenha poder de
compra.  Ou seja, é mais importante que a
população financie as exportações das empresas bem conectadas politicamente —
mediante o pior dos impostos: o imposto-inflação — do que a população ser
capaz de usufruir um poder de compra privilegiado.

Na
tentativa de manter o valor do dólar, o Banco Central atua diariamente no
mercado comprando uma moeda desvalorizada (e cuja tendência ainda é a
desvalorização), de forma a manter o real artificialmente desvalorizado e não
prejudicar os exportadores.  O Banco
Central faz isso criando reais do nada, o que gera a inflação de preços.

Porém,
poucos percebem o benefício que teríamos de um real mais valorizado.  Os recursos, atualmente ineficientemente
alocados para as indústrias exportadoras, seriam realocados para atividades
voltadas ao mercado interno.  A
valorização do real permitiria que este novo poder de compra do real fosse
alocado para investimentos saudáveis e sustentáveis.  A deflação natural (advinda do incremento no
valor do real) incentivaria a poupança, o que naturalmente diminuiria as taxas
de juros e liberaria capital para projetos e empreendimentos de longo prazo,
dando sustentabilidade para a economia.  Tudo
isso ocorreria de acordo com as preferências da população de um modo geral, sem
intervenções da autoridade monetária.  É a
preferência da população que modifica as taxas de juro, seja ela de poupança
(preferência para investir em projetos de longo prazo) ou de consumo
(preferência por colher agora os frutos de um investimento anterior).  Um país que produz é plenamente capaz de
consumir o que produz.

É
claro que isso tudo significa acabar com uma série de empresas tidas pelo
governo como as forças-motrizes de nossa economia.  A política protecionista, praticamente
xenófoba, imposta pelo governo brasileiro impõe ainda mais restrições ao
funcionamento saudável dos mercados, tudo em nome da proteção da indústria
nacional.

E
aí vem a dúvida: que indústria?  Desde
que eu nasci, escuto a frase “O petróleo é nosso”. Deve ser essa a nossa
indústria… Mas por que será que eu ainda pago uma das gasolinas mais caras do
mundo se o petróleo é meu também?  Eu
esperava que a Petrossauro (que, aliás, não me paga nenhum dividendo, mas
deveria, afinal o petróleo é nosso) colaborasse para tornar a nossa gasolina
mais barata…

Pobre
alcatra.  Levando a culpa pela inflação.  Pobre boi, quieto no seu pasto, sendo culpado
pela incompetência dos humanos.

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16 comentários em “A culpa é da alcatra”

  1. Excelente texto.
    O problema é que hoje o “estatismo” está tão arraigado em nossa cultura que até mesmo alguns empresários não conseguem entender como seria bom o fim do Leviatã.
    Quando acontecesse o que se afirma no antepenúltimo parágrafo, haveria um senso comum de que o governo não deveria deixar aquelas empresas quebrarem, blá, blá, blá…
    Tenho dois irmãos empresários, mas numa conversa recente eu – que sou servidor público – fui chamado de louco quando disse o Estado não tinha que socorrer empresas em crise. “Você tá doido? E o desemprego?”. Eu desisti da conversa quando um deles defendeu uma política de Evo Morales em favor de uma riqueza natural da Bolívia (que eu nem lembro o nome…), afirmando que a o Brasil, por meio da Petrobras, deveria fazer o mesmo. Santo Deus!
    Vejam a ironia: um servidor público tentando mostrar a dois empresários o mal que o Estado representa.

  2. Pior que colocar a culpa no alimento, é culpar o produtor pela alta dos preços (o que acontece amiúde nesse país), como se esse fosse obrigado vender por 50 o que comprou por 100. Quase ninguém associa a atual alta dos preços com a sua verdadeira causa, a gastança do governo.\r
    \r
    Mas ainda bem que temos os doutores do BC que vão ministrar o seu remedinho (amargo) e tudo vai ficar muito bem, e se não ficar, ainda haverá esperança: A Polícia Federal será mais uma vez chamada para laçar boi no pasto!

  3. Mas se a inflação dos preços é culpa da impressão de dinheiro, por que em determinados períodos da História em que a cunhagem de moedas, os preços cairam, e em periodos em que a cunhagem de moedas caiu, os preços subiram?

    Como explicam, por exemplo, que a inflação na Holanda do século XVII (do período 1610-1700), onde se adotava um sistema de reservas 100% era maior que a inflação de preços da Inglaterra, onde o Rei e os ourives criavam dinheiro do nada de várias maneiras?

  4. Ei! Lembrei de séculos atras, em que a carne de boi e afins estava tao cara que o frango virou o rei das marmitas.
    Mas feijão caro é osso hein….

    Bemmm…. provavelmente vão criar ou mudar alguns indicadores economicos retirando esses itens, e vao dizer que esta tudo bem, justamente como os americanos fazem.

  5. Há um grande paralelo entre esse artigo e o anterior sobre o futuro do liberalismo. Alguns objetam contra o anarcocapitalismo que há problemas que só o Estado pode resolver. Mas de fato, todos os problemas que só o Estado pode resolver são causados pelo próprio Estado (inflação, guerras, genocídios, etc). Eita círculo vicioso!

  6. Reportagem relacionada: The number of chronically hungry people is approaching 1bn, the level last seen during the 2007-08 food crisis, in the clearest sign yet of the humanitarian impact of rising agricultural commodities prices in poor countries…

    Não custa lembrar, a única causa da inflação generalizada (essa na qual o mundo está começando a surfar) é a intervenção do governo na economia, imprimindo dinheiro sem parar. Pense sobre isso: o número de pessoas famintas no mundo está aumentando por causa da ação estatal. Aposto que no tão famoso e nunca visto “contrato social” defendido pelos estatista há umas letras miúdinhas que permitem esse tipo de roubo, impedindo os contratantes de processar o contratado.

  7. klauber Cristofen Pires

    O texto está excelente. Não toca tudo em detalhes, mas vem a que diz: denunciar o verdadeiro culpado pela inflação. Parabéns ao autor.

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