O Boletim Focus de meados de maio de 2026 não trouxe apenas projeções. Trouxe a fotografia incômoda de uma economia obrigada a conviver com a contradição entre discurso social e indisciplina fiscal. Para 2026, o mercado esperava inflação de 4,92%, Selic de 13,25% ao ano, crescimento de apenas 1,85% e déficit nominal de 8,50% do PIB. No mesmo ambiente, o noticiário econômico apontava que as medidas eleitorais do governo Lula, entre estímulos, renúncias, crédito dirigido e novos programas, já somavam cerca de R$ 140 bilhões.
O dado relevante não está em cada medida isolada. Está no método. O governo distribui alívio imediato, retarda a cobrança e transforma o custo difuso em problema de outra instância: do Orçamento futuro, do Banco Central, do contribuinte ou do consumidor que descobre a política econômica no preço do arroz, da carne, do aluguel e do crédito. A linguagem oficial fala em proteção. A mecânica revela antecipação eleitoral de riqueza ainda não produzida.
A tradição econômica que vai de Menger a Mises ajuda a explicar por que essa estratégia costuma fracassar. Preços e juros são sinais de coordenação entre escassez, poupança e investimento. Quando o governo tenta substituir esses sinais por vontade política, a economia se desorganiza. O crédito favorecido anima alguns setores por um momento, mas deixa atrás de si inflação mais resistente, investimento cauteloso e uma percepção crescente de risco.
A lógica lulista, nesse ponto, é menos original do que parece. O estado cria dificuldades por meio de gasto, regulação, dívida e inflação. Depois, reaparece como benfeitor, oferecendo curativos financiados pela própria ferida. A expansão de programas de crédito, subsídios e renegociações oficiais funciona politicamente porque produz gratidão visível. Seu custo, porém, chega fragmentado, sem rosto e quase sempre tarde demais para ser associado à decisão que o provocou.
É aqui que a crítica de Hans-Hermann Hoppe à democracia de mandatos curtos se torna útil. O governante temporário tende a tratar o futuro como uma reserva de saque. Com a eleição à porta, a tentação é simples: antecipar benefícios, amortecer dores presentes e deixar para depois a reconciliação entre promessa e realidade. Lula encarna esse incentivo com precisão brasileira. Sua política econômica opera como se o calendário eleitoral tivesse precedência sobre o cálculo econômico.
O socialismo eleitoral não precisa abolir formalmente a propriedade privada. Basta formar uma sociedade em que grupos suficientes passem a depender da mediação estatal para consumir, investir, refinanciar dívidas ou sobreviver ao mês. O cidadão autônomo é politicamente menos manejável. O cidadão endividado, pressionado por preços altos e habituado à próxima rodada de socorro oficial, torna-se mais vulnerável ao favor. A dependência deixa de ser acidente social e passa a ser tecnologia de poder.
Mises descreveu o mecanismo geral do intervencionismo: uma intervenção cria distorções, essas distorções geram novas dores, e a dor seguinte serve de justificativa para outra intervenção. O governo estimula artificialmente a demanda, o Banco Central segura juros em patamar elevado para conter a inflação, o custo da dívida cresce e a política volta a prometer alívio para os efeitos que ajudou a produzir. O círculo ourobórico é o modo de funcionamento de uma economia politicamente conduzida.
Em O Cálculo Econômico sob o Socialismo, Mises apontou o problema central de sistemas que substituem preços genuínos por comando político: sem sinais reais de mercado, a alocação racional de recursos se deteriora. O Brasil continua tendo empresas privadas, contratos e mercado de consumo, mas os sinais se tornam menos confiáveis quando bancos públicos, renúncias setoriais e exceções orçamentárias passam a orientar decisões relevantes. O empresário deixa de perguntar apenas onde há demanda real e passa a calcular onde há acesso ao favor. O capital, que deveria perseguir produtividade, aprende a procurar abrigo político.
Murray Rothbard fornece a camada moral e monetária da crítica, argumentando que inflação é confisco. Ela chega como perda silenciosa de poder de compra. Quem recebe primeiro o crédito favorecido ainda consegue se mover, vide efeito Cantillon. Quem vive de salário, aposentadoria ou pequena poupança recebe a conta depois, já convertida em preços maiores e moeda mais fraca. O governo se apresenta como defensor dos pobres, mas a inflação é justamente um imposto cruel sobre quem tem menos meios de se proteger.
Diante disso, Henry Hazlitt nos traz uma lição indispensável: boa análise econômica observa efeitos posteriores e vítimas invisíveis. A propaganda mostra o beneficiário do programa. A análise séria pergunta quem pagará pela encenação. Um subsídio habitacional pode aliviar uma família e, ao mesmo tempo, pressionar preços em um mercado travado por oferta insuficiente. Uma renegociação oficial pode dar fôlego ao devedor e, simultaneamente, alterar incentivos de adimplência. Uma linha barata de crédito pode produzir manchete favorável e deslocar capital para uso politicamente conveniente, não necessariamente produtivo.
A advertência hayekiana nos lembra que, ao escolher setores, dirigir crédito e premiar grupos, o estado interfere nos meios pelos quais as pessoas perseguem seus próprios fins. A dependência econômica se converte em método político. A liberdade não desaparece de uma vez, mas se dissolve em concessões sucessivas, todas embaladas como cuidado social.
Por isso o Focus deve ser lido como mais do que um boletim de expectativas. Ele registra a desconfiança de uma economia diante de um governo que deseja popularidade barata em moeda cara. Inflação resistente, juros altos, crescimento baixo e déficit nominal expressivo não são fenômenos desconectados. São a assinatura de uma política que tenta comprar o presente com parcelas lançadas contra o futuro.
Quando a conta chegar, o governo culpará o mercado, os bancos, o Banco Central, os empresários, a oposição ou o cenário externo. Essa dramaturgia já faz parte do método. A economia, contudo, preserva memória causal. O gasto usado para fabricar popularidade retorna como inflação. O subsídio convertido em gratidão retorna como distorção. O crédito dirigido vendido como dinamismo retorna como risco, inadimplência e juro alto. O socialismo eleitoral pode adiar a cobrança, mas não consegue revogar a fatura.