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“Governos nunca quebram, pois podem imprimir dinheiro!”, dizem. A Venezuela prova o contrário

“Um estado soberano que pode imprimir sua própria moeda
jamais irá quebrar”, dizem incessantemente vários economistas adeptos de
teorias heterodoxas, dentre elas a Moderna Teoria Monetária.

Segundo essa linha de raciocínio, a dívida pública não
representa nenhum problema insolúvel, pois, em última instância, caso o governo
não mais consiga investidores interessados em comprar os títulos públicos aos
juros oferecidos, ele pode simplesmente imprimir dinheiro para se autofinanciar
e, com isso, manter todo o arranjo econômico funcionando.

Essa, com efeito, é uma das principais críticas que
fazem ao euro: dado que os países-membros não podem imprimir euros livremente, eles
se tornam reféns dos investidores. Se os investidores não quiserem comprar a
dívida pública — ou exigirem juros extremamente altos para isso –, os
governos irão quebrar. Já se os países pudessem imprimir dinheiro, isso nunca
aconteceria.

Por tudo isso, para tais pessoas, a capacidade de um
governo poder imprimir dinheiro representa uma salvaguarda contra o
endividamento, impede que um governo efetivamente quebre e, acima de tudo,
permite que toda a economia possa funcionar sem solavancos. Por que se
preocupar com o tamanho da dívida se você pode recorrer à impressora de
dinheiro? Por que colocar em si próprio uma camisa de força que impossibilita
aproveitar todo o potencial financeiro?

Por tudo isso, preocupar-se com coisas como equilíbrio orçamentário e responsabilidade fiscal seria um vício de ortodoxos socialmente insensíveis.

A realidade, obviamente, é bem diferente deste conto
de fadas.

Evidentemente, se a dívida de um governo está
denominada em uma divisa que esse governo pode imprimir livremente, então, por definição,
ele sempre poderá evitar o calote. Ele sempre poderá imprimir dinheiro para
quitar esses títulos. Em termos técnicos, ele sempre poderá hiperinflacionar a
moeda para garantir que a dívida continue sendo paga. Só que isso garante
apenas que a dívida possa ser paga em termos nominais.

O verdadeiro problema é que esse governo, de maneira
nenhuma, poderá evitar que ocorra um calote em termos reais, isto é, que a dívida seja paga em uma moeda hiperinflacionada
que já não possui nenhum poder de compra. Neste caso, mesmo que o governo pague
sua dívida em termos nominais, o calote ocorreu em termos reais. Os credores
emprestaram dinheiro ao governo quando a moeda valia alguma coisa e, tempos
depois, receberam de volta uma moeda cujo poder de compra é muito menor do que
quando emprestaram.

Sabendo disso, e para evitar tomarem esse calote, há
duas opções para os investidores:

1) ou eles cobram juros nominais astronômicos como
forma de tentar compensar o risco da hiperinflação futura [no Brasil, no auge da hiperinflação,
os juros chegara a um pico de 800.000%
]; ou

2) deixam de comprar esses títulos e exigem que o
governo emita títulos em outra moeda, mais forte e fora do controle deste
governo.

A primeira opção obviamente afeta toda a economia e
é insustentável no longo prazo. Dado que o governo está hiperinflacionando a
moeda, então bancos e financeiras só irão emprestar dinheiro para pessoas e
empresas em troca de juros exorbitantes (muito acima da hiperinflação projetada
para o futuro), exatamente para se protegeram da profunda desvalorização que
ocorrerá com a moeda. Com juros astronômicos e uma moeda destroçada — o que desarranjo
todo o sistema de preços e impossibilita por completo qualquer cálculo econômico
sobre lucros e prejuízos para projetos de investimento –, toda a economia
entra em colapso e regride
ao estado de escambo
. Escassez e desabastecimentos se tornam rotineiros.

E isso, presume-se, é exatamente o oposto do que
intencionavam os defensores deste arranjo.

Por isso, a segunda opção acaba sendo a única mais
sensata para esse governo.

Já a Venezuela recorreu aos dois.

Imprimindo
até quebrar

A Venezuela está vivenciando uma galopante hiperinflação,
fruto da explosão da quantidade de dinheiro na economia.

Os gráficos abaixo mostram a evolução da quantidade
de cédulas de papel e de depósitos em conta-corrente na economia venezuelana
(agregado M1) de acordo com as estatísticas do próprio Banco Central
venezuelano. É necessário dividir em dois gráficos porque a explosão da oferta monetária
foi sem precedentes.

venezuela-money-supply-m1.png

Gráfico 1: evolução da quantidade de cédulas de
papel e de depósitos em conta-corrente na Venezuela, de janeiro de 2007 a
dezembro de 2015

venezuela-money-supply-m1 (1).png

Gráfico 2: evolução da quantidade de cédulas de
papel e de depósitos em conta-corrente na Venezuela, de janeiro de 2016 a novembro
de 2017

Apenas não perca as contas: no primeiro gráfico, a
oferta monetária em dezembro de 2015 é de quatro
trilhões
de bolívares. Já hoje, novembro de 2017, esse montante já está em quarenta trilhões de bolívares.

Isso significa que, em menos de dois anos, a
quantidade de dinheiro na economia simplesmente decuplicou. Ou seja, dinheiro, em si, nunca faltou.

Entretanto, o governo venezuelano acabou de se declarar
insolvente e incapaz de fazer frente
à sua dívida denominada em dólares. [Nessa, o Brasil levou um calote de US$ 262 milhões].

Desde 1999, quando Hugo Chávez chegou ao poder, a dívida
pública externa venezuelana subiu de 26 bilhões de dólares para 150
bilhões de dólares
. O que leva às inevitáveis perguntas: por que um estado tão
soberano e tão anti-imperialista quanto a Venezuela optou por emitir dívida em dólares
e não em bolívares? Como é possível que ele tenha cometido, durante tantos
anos, um erro tão elementar? Por que o país optou por renunciar à sua invejável
soberania monetária para submeter-se ao opressivo jugo do endividamento em dólares,
essa “moeda imperialista”?

Ora, tanto Chávez quanto Maduro multiplicaram a dívida
venezuelana denominada em dólares não por gosto, mas sim por pura necessidade:
a credibilidade de sua moeda nacional, o bolívar, era — e continua sendo — tão
nula, que nenhum investidor se mostrou disposto a comprar os títulos denominados
em bolívares. Quem é que gostaria de ser pago em uma moeda que nada vale?

Consequentemente, para que o regime bolivariano
conseguisse importar bens e serviços básicos do estrangeiro em um montante
acima daquele que era capaz de pagar com suas reservas internacionais, não havia
outra solução senão endividar-se em dólares. O bolívar é divisa non grata fora da Venezuela (ao contrário do que ocorre com
o dólar, o euro, a libra, o franco suíço e o iene fora de seus países de origem)
e é assim porque ao longo das últimas décadas o governo venezuelano o
administrou de maneira deliberadamente mal para conseguir se financiar
internamente pela via inflacionária.

Neste sentido, não é nenhuma casualidade que todos
os países com moeda forte contem com bancos centrais (relativamente) independentes
dos caprichos orçamentários de seus governantes. A independência serve para
sinalizar à comunidade investidora que tal país não irá abusar da multiplicação
inflacionária da moeda para financiar seus déficit fiscais.

Conclusão

A lição é simples e direta: um estado soberano que
abuse da criação indiscriminada de moeda para financiar seus déficits e, com
isso, tentar manter sua solvência financeira, rapidamente deixará de ser
soberano do ponto de vista monetária e se tornará insolvente.

Com a moeda nacional destroçada, nenhum estrangeiro
a aceitará em troca de moeda forte. Consequentemente, se esse país tiver de
importar bens e serviços essenciais, não haverá outra saída senão endividar-se
em moeda estrangeira — isto é, em uma moeda que o governo não será capaz de
manipular por estar fora do seu controle.

E, como acaba de nos demonstrar a socialista Venezuela,
um estado com soberania monetária e liberdade para imprimir dinheiro para
financiar seus déficits e pagar sua dívida pode sim quebrar.

Não se pode enganar todo mundo o tempo todo para
sempre.

 

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76 comentários em ““Governos nunca quebram, pois podem imprimir dinheiro!”, dizem. A Venezuela prova o contrário”

  1. ASÍ ÉS!

    De acordo com informações oficiais, a dívida atinge o montante exagerado de 150 bilhões de dólares, o que implica que cada cidadão deve 4.720 dólares pelo compromisso da dívida externa adquirida pelo governo venezuelano e Petróleos de Venezuela (Pdvsa). Isso é revisado por uma obra de Ana Díaz, publicada em El Nacional.

    Este cálculo é baseado em uma população de 31,7 milhões de pessoas.

    Aparentemente, de acordo com Alejandro Grisanti, diretor da Ecoanalítica, com a redistribuição da dívida, as condições do venezuelano serão substancialmente afetadas. Embora a inflação seja reduzida por 6 a 9 meses , o efeito da escassez e o desabastecimento será muito pior devido à falta de moeda estrangeira.

    Os cidadãos, por outro lado, comentam que, definitivamente, pela quantidade de dinheiro que a Venezuela tem que pagar, a medida e suas conseqüências o povo é que acabará “pagando”.

    ¿ME EXPLICO?

    https://maduradas.com/insostenible-cada-venezolano-debe-4-720-dolares-por-la-deuda-externa/

  2. No fundo, ainda tá cheio de economista diplomado e graduado que jura que dinheiro é riqueza. Ninguém fica rico com acúmulo de dinheiro e sim com acúmulo de riquezas. Dinheiro é tão somente um meio de troca, algo feito para precificar as riquezas que produzimos e assim conseguirmos troca-las com as riquezas que outras pessoas produzem. O dinheiro em si não vale nada. Do que adianta vc ter um baú com o equivalente a 1 bi de dólares no meio do deserto do Saara?

  3. O problema nem é governos quebrarem. O problema é que, quando quebram, levam junto todo o país, pois a moeda se esfacela por completo e, consequentemente, toda a divisão do trabalho se desintegra, a economia volta ao escambo e toda a poupança da população, acumulada durante uma vida inteira de trabalho, se esvai por completo.

  4. Claro que imprimir dinheiro sem limites é hiperinflacionário e não dá certo. Ok, todos sabemos.

    Mas há sentido no modelo atual em que o aumento da base monetária (necessário para alcançar a meta de inflação)necessita de emissão de dívida do governo (para o BACEN recomprar os títulos dos bancos)?

    Se há uma meta de inflação, uma impressão moderada de moeda não poderia, EM TESE (sei que políticos sempre tenderão a imprimir moeda sem limites), servir para atingi-la sem aumentar o endividamento do Estado?

  5. Mas e dai?

    Boa parte do mundo está praticando uma politica parecida, através de seus Bancos Centrais.

    Como o Brasil pode aplicar Mises se o mundo insiste em usar Keynes?

    Já li artigos aqui no Mises Brasil sobre a China e Japão que a décadas usam artifícios keynesianos para “alavancar” suas economias.

    Como podemos sair desse ciclo vicioso aparentemente mundial?

  6. O que os políticos condenados no mensalão e na lava jato tem em comum ?

    a) estão milionários ou bilionários

    b) estão soltos ou em “prisão domiciliar”

    c) continuam recebendo seus salários

    d) continuam praticando crimes

    e) todas as alternativas anteriores

  7. Basta o governo indexar tudo, cortar zeros periodicamente e às vezes algum plano econômico louco com efeitos temporários, dar bons incentivos aos setores exportadores principalmente primários para fazer frente á dívida em moeda forte enquanto mantém na rédea curta importações de bens de consumo e gastos no exterior de pessoas sem intenções de negócios.

    Brasil ficou de 1980 a 1994 com inflação acima dos 100% anuais e poderia ficar muitos mais se não fossem as intenções eleitoreiras do PSDB.

  8. Pessoal, o site é ótimo; mas a imagem do post está muito apelativa. Coloquem uma outra imagem que não remeta um momento de luto, independente das ideias que o outro lado está emitindo.

  9. Pior que li numa página do facebook que os investidores internacionais sabotaram o valor da moeda ao retirar os investimentos da Venezuela.

    Gente assim possui algum problema mental.

  10. http://www.defesanet.com.br/ghbr/noticia/26425/Comentario-Gelio-Fregapani—Manipulacao-da-informacao/

    http://www.defesanet.com.br/pensamento/noticia/22759/Comentario-Gelio-Fregapani—Assuntos–Politicalha–Divida-e-Juros—Uniao-Europeia-e-BREXIT/

    http://www.defesanet.com.br/crise/noticia/27577/Comentario-Gelio-Fregapani—-A-danca-das-cadeiras-na-politica-e-o-dinheiro–Doacao-do-Pre-sal–O-maior-roubo–E-IBAMA—um-tiro-no-pe—-/

  11. A única ética verdadeiramente aceitável é a ética Hoppeana de remoção física.

    Se todos fossem livres e vivessem no território que mais lhe agrada, a maioria dos conflitos no mundo estariam resolvidos.

    Mas graças a democracia, o mundo inteiro vai ser a mesma porcaria social-democrata homogênea.

  12. Eu estive pensando aqui com meus botões…

    Se a Venezuela tivesse um Pinochet hoje poderia daqui a algumas décadas chegar no nível do Chile de hoje.

    Como não tem, deve chegar no nível de Cuba ou Coréia do Norte.

  13. “A lição é simples e direta: um estado soberano que abuse da criação indiscriminada de moeda para financiar seus déficits e, com isso, tentar manter sua solvência financeira, rapidamente deixará de ser soberano do ponto de vista monetária e se tornará insolvente.”.

    Quando eu tinha 7 anos e me contaram que o governo cria dinheiro imprimindo eu pensei:

    “Hmmm, então é só imprimir para TODOS e ninguém mais precisará trabalhar!

    Hmmm, mas se ninguém trabalhar não haverá nada… Tem alguma coisa errada nisso…”.

    Já o Maduro é muito mais esperto do que eu com 7 anos, ele sabe perfeitamente que imprimir dinheiro não gera riqueza.

    Mas imprimir dinheiro e obrigar as pessoas a aceitarem o dinheiro que ele imprime permite a ele roubar de uma forma

    mais indireta o que realmente importa, que são os produtos, afinal de contas papéis coloridos não servem pra nada. Uma forma em que pessoas burras são incapazes de perceberem que estão sendo roubadas.

    O Maduro é genial!!!

    OBS: Estou ciente de que na Venezuela os papéis coloridos possuem uma real utilidade quando as pessoas vão ao banheiro. Apesar de que isso está se tornando menos frequente na Venezuela, pois quanto menos se come menos se vai ao banheiro.

  14. Tenho uma dúvida,

    Conhecendo a situação da Venezuela, o que diabos levava alguém e/ou algo á comprar títulos em dólares?

    Não era bem provável de se tomar calote? Igual ocorreu com o Brasil.

  15. viu amigo. so este seu raciocinio é publicado. por isto vivemos na miseria. sua sugestao vamos pedir dirnherio emprestado para outras moedas e pagar jurol. concordamos que se imprimir de mais da problema. mas no momento que ha um deficit por exemplo do previdencia. imprime e deixa la no banco que nao vai abalar o mercado. nao vai circular. vai sendo sacado aos poucos quando o pessoal se aposentar. eles vao receber de qualquer jeito . moeda nova ou de emprestimo.

  16. Lendo esse artigo nos idos de 2020, em meio ao Covid, uma pergunta: O que acontece quando o pais em referencia deixa de ser a Venezuela e colocamos em vista os Estados Unidos? Ele proprio emissor de dividas e de moeda forte e confiavel. Poderia emitir sem fim e ainda não gerar hiperinflação?

  17. A União Soviética fez o mesmo por muito tempo, ai quando viam que as coisas iam pro buraco rapidamente, tiveram a “brilhante” ideia de regular a comida do povo no lugar da grana.

  18. O que aconteceria caso o governo venezuelano simplesmente caloteasse por completo a dívida externa? Calotear não em atrasar pagamento ou pagar só uma parte, mas falar que não vai pagar mais nada aos credores estrangeiros e não se endividar mais externamente. Isso colocaria o regime em colapso?

    Acho que hoje o país está vivendo de ajuda externa, já que nem gasolina mais a Venezuela tem, precisando de ajuda do Irã.

  19. “1) ou eles cobram juros nominais astronômicos como forma de tentar compensar o risco da hiperinflação futura [no Brasil, no auge da hiperinflação, os juros chegara a um pico de 800.000%];”

    A imagem parece que não está mais disponível. Será que é possível achar as taxas de juros históricas do Brasil?

  20. Juan Ramón Rallo precisa atualizar esse artigo.

    Vejam a entrevista do Maduro ao Bloomberg desse mês de junho. Chama a atenção esse trecho da entrevista:

    “Se a Venezuela não pode produzir petróleo e vendê-lo, não pode produzir e vender seu ouro, não pode produzir e vender sua bauxita, não pode produzir ferro, etc., e não pode gerar receita no mercado internacional, como é que deveria pagar aos detentores de títulos venezuelanos?”

    Então, em resumo: com sanções impostas ao governo venezuelano, há menos financiadores estrangeiros para os títulos estatais venezuelanos. Com menos financiadores, há então menor oferta de dólares para o governo utilizar para importar bens básicos (já que a economia por completo está praticamente estatizada), e as reservas internacionais continuam em queda. Entendi corretamente?

    Maduro deve ter entendido economia básica (eu acho).

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