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Por que viver ficou mais caro?

Nota do Editor:

Em parceria com o Instituto Mises Brasil, o Students For Liberty Brasil (SFLB) lançou o Concurso de Artigos da LibertyCon 2026, com o objetivo de incentivar a produção intelectual dos coordenadores do SFLB.

O tema do concurso foi “Por que viver ficou mais caro? O custo econômico, institucional e social das decisões políticas”. O concurso buscou artigos para explicar por que decisões políticas, institucionais e econômicas tornaram a vida cotidiana mais cara — e quais são as consequências disso para a liberdade, a prosperidade e a autonomia individual.

O artigo abaixo foi um dos mais destacados do concurso.


O custo econômico, institucional e social das decisões políticas

Basta um olhar atento às prateleiras dos supermercados ou às faturas de serviços essenciais para perceber que o poder de compra do brasileiro está sendo triturado por uma “engrenagem” criada por escolhas políticas equivocadas.

A pergunta central não é apenas quantitativa, mas qualitativa: por que o ato de existir no Brasil tornou-se um fardo financeiro crescente? A resposta reside no fato de que sobreviver em solo nacional exige enfrentar uma tríade perversa: leis feitas para encher os cofres públicos, burocracia que confisca salários e decisões de cúpula que encarecem a vida das pessoas para favorecer negócios de aliados do poder.

O aumento do custo de vida no Brasil não é uma fatalidade econômica, mas o reflexo de um desenho institucional que prioriza o estado e suas “castas”, em detrimento da autonomia individual e da prosperidade da população.

Como ensina a tradição da Escola Austríaca, a economia não é algo “inventado” por políticos em gabinetes acarpetados, mas algo “descoberto” na natureza humana e na lógica da ação individual.

A patologia do contencioso tributário

Nessa senda, ao revisitarmos a teoria de Montesquieu sobre a natureza das leis sob a ótica da Escola Austríaca, percebemos que, no Brasil, o “espírito” que anima o legislador é a expropriação sistemática descrita por Murray Rothbard. Desse modo, o estado opera como uma instituição predatória que obtém sua renda não pela produção, mas pelo confisco coercitivo.

A legislação tributária brasileira não busca ordenar a sociedade, mas maximizar a arrecadação através do absurdo ilógico da bitributação. É o IPI compondo a base de cálculo do ICMS, o ICMS integrando o PIS e a Cofins (a famigerada “Tese do Século“), e o ISS sendo devorado por contribuições federais.

É basicamente o cidadão pagando tributo pela “ousadia” de já estar sendo tributado.

Essa sanha arrecadatória produz um fenômeno epistemológico perverso: o maior contencioso tributário do planeta. No Brasil, o volume de disputas judiciais sobre impostos alcançou a marca de R$ 5,4 trilhões, o equivalente a cerca de 75% do PIB nacional. Para que se tenha a dimensão deste descalabro, a média de contencioso nos países da OCDE gira em torno de 0,28% do PIB.

Ou seja, enquanto o mundo civilizado resolve suas lides fiscais com celeridade, o Brasil vive uma guerra civil jurídica permanente. Isso, na prática, é conhecimento empresarial desperdiçado em burocracia defensiva, elevando o preço final de cada produto nas prateleiras.

Falsa proteção ao trabalhador

A retórica estatal insiste em vender os pesados encargos trabalhistas como “conquistas”. Contudo, sob a ótica de Frédéric Bastiat, o que “se vê” é o suposto benefício depositado; o que “não se vê” é o salário que deixou de ser pago e a autonomia que foi subtraída. Esses encargos representam um abismo quase que intransponível entre o custo de contratação e o salário líquido. Um funcionário que custa R$ 4.000 para uma empresa recebe, na prática, pouco mais de R$ 2.500.

O símbolo máximo dessa asfixia é o FGTS. O estado obriga o trabalhador a entregar 8% de sua remuneração para um fundo gerido pelo próprio governo. O escárnio reside na rentabilidade: historicamente, o FGTS rende 3% ao ano, um valor que, sistematicamente, perde para a inflação (atualmente está em 4,9%), sendo, até pouco tempo, um investimento com retorno negativo compulsório.

Portanto, viver ficou caro porque o estado retira da mão do trabalhador o capital que ele usaria para enfrentar a carestia, devolvendo apenas uma fração desvalorizada após décadas de uma “tutela” ineficiente.

Amigos do rei?

Ludwig von Mises alertava que cada intervenção estatal gera distorções que o governo tenta “corrigir” com ainda mais intervenções, criando uma espiral de caos. O caso da Âmbar Energia é a materialização dessa tese. Através da Medida Provisória 1.232/2024, o governo teria aberto caminho para que um grupo assumisse o controle da Distribuidora de Energia Elétrica logo após uma “limpeza” em suas dívidas bilionárias.

Essa dívida não desapareceu; ela foi simplesmente transmutada em encargos na conta de luz de todos os brasileiros através do Encargo de Energia de Reserva. O consumidor comum, que já enfrenta dificuldades para equilibrar o orçamento doméstico, passa agora a socializar prejuízos assegurados por uma simples canetada de Brasília.

É a negação do livre mercado em favor de um corporativismo de estado onde o prejuízo é socializado e o sucesso é garantido pela proximidade com o poder — o exato oposto da cooperação social representada pelo Caduceu.

Efeito Cantillon

A insegurança institucional brasileira atinge contornos de tragédia com os investimentos dos fundos de pensão estaduais e municipais (RPPS) no Banco Master. Para entender essa dinâmica, recorremos ao Efeito Cantillon: aqueles próximos à fonte de poder beneficiam-se primeiro, enquanto as perdas são empurradas para a ponta final da cadeia. Pelo menos 18 regimes de previdência aportaram cerca de R$ 1,86 bilhão em ativos de uma instituição que colapsou.

Como é possível que o suor de professores e policiais seja jogado em “papéis podres” de alto risco? Isso revela um risco moral sistêmico. Quando o rombo se materializa, a casta política permanece impune, enquanto o servidor vê seu futuro ameaçado e o contribuinte é convocado para tapar o buraco via novos impostos.

Escassez planejada

Morar em São Paulo tornou-se um luxo proibitivo, com o preço médio do metro quadrado ultrapassando os R$ 11.000. No entanto, essa carestia não é fruto apenas do progresso, mas de uma arquitetura legal que odeia a eficiência.

O Plano Diretor de São Paulo é a prova viva da “arrogância fatal” descrita por F.A. Hayek: burocratas acreditando que podem determinar o crescimento de uma metrópole melhor do que a interação espontânea de seus habitantes.

Operando sob o slogan de que “São Paulo não pode crescer”, a prefeitura impõe limitações draconianas de altura (gabarito) e taxas elevadas como a “outorga onerosa”. Ao restringir a oferta de metros quadrados por decreto, o estado gera uma escassez artificial que faz os preços explodirem.

A atual lei de zoneamento não protege a cidade; ela encarece o abrigo para quem busca ascensão. O metro quadrado caro é o preço pago por uma burocracia que prefere o controle à acessibilidade urbana.

Conclusão

Viver no Brasil tornou-se caro porque o estado cobra um pedágio extorsivo sobre cada etapa da produção humana. A análise técnica e institucional apresentada demonstra que o encarecimento da vida é o resultado deliberado de um modelo de extrativismo fiscal e corporativismo estatal. Não há acidente na carestia brasileira: há um método.

Apesar disso, assim como a flor Edelweiss, que cresce em altitudes elevadas e condições hostis, o cidadão brasileiro demonstra uma resiliência heroica ao sobreviver em um terreno minado por intervenções.

Contudo, a prosperidade real só será possível quando houver uma ruptura com a mentalidade fiscalista. É urgente o fim da bitributação, a desoneração real da folha de pagamento e a abertura dos mercados para a livre concorrência que derruba preços.

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