Nota do Editor:
Em parceria com o Instituto Mises Brasil, o Students For Liberty Brasil (SFLB) lançou o Concurso de Artigos da LibertyCon 2026, com o objetivo de incentivar a produção intelectual dos coordenadores do SFLB.
O tema do concurso foi “Por que viver ficou mais caro? O custo econômico, institucional e social das decisões políticas”. O concurso buscou artigos para explicar por que decisões políticas, institucionais e econômicas tornaram a vida cotidiana mais cara — e quais são as consequências disso para a liberdade, a prosperidade e a autonomia individual.
O artigo abaixo recebeu a primeira colocação no concurso.
Quem percorre hoje os corredores de um supermercado brasileiro com alguma memória dos preços de poucos anos atrás experimenta uma sensação difusa de perplexidade. O pacote de café, o quilo de carne, o litro de leite: todos parecem ter sido tomados por uma febre inflacionária que não encontra correspondência proporcional nos reajustes salariais. A classe média, que há duas décadas sonhava com a casa própria e o carro na garagem, hoje hesita diante do aluguel que consome metade do rendimento e do financiamento que escraviza por trinta anos. Os jovens que ingressam no mercado de trabalho descobrem, com amarga surpresa, que seus salários compram menos que os de seus pais compravam na mesma idade. O fenômeno é tão disseminado que já se tornou lugar-comum nas conversas de padaria e nas queixas das redes sociais: a vida ficou cara demais.
Mas por quê? A resposta instintiva, repetida com maior ou menor sofisticação por economistas de televisão e políticos em campanha, aponta para a inflação. Os preços sobem porque o dinheiro perde valor, e o dinheiro perde valor porque o governo imprime demais. Até aqui, nenhuma mentira. A explicação monetária é verdadeira, mas incompleta. Ela captura apenas a superfície de um problema cuja raiz se estende por décadas de decisões políticas acumuladas, formando um emaranhado de causas que vão muito além da política do Banco Central. Compreender por que viver ficou mais caro exige descer aos subterrâneos da máquina estatal brasileira, onde se encontram os verdadeiros mecanismos de extração de riqueza e destruição de oportunidades.
Comecemos pelo óbvio, ainda que o óbvio precise ser dito. O Brasil atravessou, nos últimos vinte anos, ciclos de expansão monetária que deixariam envergonhado qualquer banqueiro central minimamente ortodoxo. Durante os governos petistas, o crédito subsidiado pelo BNDES e pelos bancos públicos injetou trilhões de reais na economia sem correspondência com a produtividade real. O resultado foi uma bolha de consumo sustentada por dívida, seguida pelo inevitável colapso quando a festa acabou. Os déficits públicos crônicos, financiados pela emissão de títulos que pressionam a dívida pública para além de 80% do PIB, obrigam o Banco Central a malabarismos constantes entre controlar a inflação e não inviabilizar o financiamento do Tesouro. A chamada “repressão financeira”, pela qual o governo força investidores institucionais a carregar papéis públicos a taxas reais baixas ou negativas, transfere riqueza dos poupadores para o estado de forma silenciosa mas implacável. E quando os juros sobem para conter a espiral inflacionária, o brasileiro comum descobre que financiar um apartamento ou um automóvel se tornou um exercício de masoquismo financeiro.
Porém, a inflação monetária, sendo grave, é apenas o sintoma mais visível de uma doença mais profunda. O custo de vida no Brasil não decorre apenas do quanto o real perde o seu poder de compra, mas do quanto custa produzir, transportar e comercializar qualquer bem ou serviço neste país. E aqui entramos no terreno das regulamentações, das licenças, das normas sanitárias, ambientais, trabalhistas e tributárias que transformam qualquer atividade produtiva em uma via crucis burocrática.
Considere o setor da habitação: o déficit habitacional brasileiro é estimado em cerca de seis milhões de moradias. Enquanto isso, construir um prédio residencial em qualquer cidade média do país exige dezenas de licenças, alvarás, estudos de impacto, aprovações em múltiplas instâncias, negociações com cartórios, taxas de habite-se, adequações a normas de acessibilidade que mudam a cada gestão municipal e uma infinidade de outras exigências que consomem tempo e dinheiro. Todo esse custo burocrático se incorpora ao preço do metro quadrado. O construtor não absorve o prejuízo por filantropia; ele o repassa ao comprador final. A família que poupa por anos para dar entrada no primeiro imóvel está, sem saber, pagando pela voracidade da máquina estatal.
O mesmo raciocínio se aplica à alimentação: o agronegócio brasileiro é um dos mais produtivos do mundo, capaz de alimentar quase um bilhão de pessoas nos cinco continentes. Mas entre a porteira da fazenda e a gôndola do supermercado há um abismo de custos regulatórios e logísticos. A malha rodoviária precária, resultado de décadas de investimento público mal direcionado e da resistência ideológica a concessões privadas, eleva o frete a patamares extorsivos. A legislação trabalhista, herdada da era Vargas e nunca verdadeiramente reformada, encarece a contratação de funcionários em toda a cadeia. Os tributos sobre combustíveis, sobre a circulação de mercadorias, sobre os insumos importados, sobre a folha de pagamento, sobre o lucro presumido ou real: tudo isso se acumula em camadas sucessivas que, ao final, multiplicam o preço daquilo que o consumidor leva para casa.
A carga tributária brasileira oscila em torno de 34% do PIB, patamar comparável ao de países europeus desenvolvidos, mas sem a contrapartida de serviços públicos de qualidade equivalente. Essa discrepância já seria grave por si só. O problema, contudo, não está apenas no quanto se tributa, mas em como se tributa. O sistema tributário brasileiro é um labirinto kafkiano de impostos federais, estaduais e municipais, com regimes especiais, isenções condicionadas, substituições tributárias e uma legislação que muda ao sabor das necessidades arrecadatórias do momento. Estima-se que uma empresa brasileira gaste, em média, quase duas mil horas por ano apenas para cumprir suas obrigações fiscais acessórias. Esse tempo não produz riqueza; ele apenas alimenta a burocracia. E o custo dessa complexidade, naturalmente, também se reflete nos preços.
Há ainda a dimensão institucional, mais difícil de quantificar, embora seja igualmente real. A insegurança jurídica brasileira afasta investimentos de longo prazo, exatamente aqueles que poderiam ampliar a oferta de bens e serviços e, assim, reduzir preços pela concorrência. Quando um empresário não sabe se o contrato que assinou será respeitado pelos tribunais, quando uma reforma trabalhista aprovada pelo Congresso pode ser revista pelo Supremo, quando regras tributárias mudam retroativamente por medida provisória, o cálculo econômico se torna impossível. O empreendedor prudente embute um prêmio de risco em seus preços, uma precaução razoável contra a arbitrariedade do poder público. O empreendedor imprudente quebra. Em ambos os casos, o consumidor paga a conta no final.
O protecionismo comercial, defendido por décadas como estratégia de desenvolvimento nacional, é outro vilão oculto. Tarifas de importação elevadas, exigências de conteúdo nacional, barreiras não tarifárias disfarçadas de normas técnicas: tudo isso encarece produtos que poderiam chegar ao consumidor brasileiro a preços internacionais. O automóvel popular brasileiro custa o dobro do equivalente europeu ou asiático, não porque nossos trabalhadores sejam menos produtivos, mas porque a cadeia automotiva opera sob um regime de reserva de mercado que protege a ineficiência à custa do consumidor. O mesmo se pode dizer da eletrônica, dos eletrodomésticos, dos medicamentos e de incontáveis outros setores onde o interesse de produtores organizados prevalece sobre o interesse difuso de milhões de famílias.
E os subsídios? O BNDES, durante seu apogeu, distribuiu centenas de bilhões de reais a taxas subsidiadas para os “campeões nacionais” escolhidos pelo governo. Frigoríficos, construtoras, petroleiras, empresas de telecomunicações: todos foram agraciados com crédito barato, financiado pelo pagador de impostos através do Tesouro Nacional. Essa política de escolha de vencedores não apenas desperdiçou recursos públicos com investimentos de retorno duvidoso, como distorceu a concorrência e impediu que empresas mais eficientes, porém menos conectadas ao poder, ocupassem seu espaço legítimo no mercado. A má alocação de capital se traduz em menor produtividade, menor oferta e, inevitavelmente, preços mais altos.
As consequências de tudo isso transcendem a conta do supermercado. Elas moldam o horizonte de possibilidades de toda uma geração. A mobilidade social, tão celebrada nos anos de bonança artificial, estagnou ou retrocedeu. O jovem brasileiro de classe média baixa enfrenta hoje obstáculos que seus pais não conheceram: um mercado de trabalho rígido que premia o vínculo formal, mas torna a contratação arriscada para o empregador; um sistema educacional público degradado que não prepara para a economia do conhecimento; um custo de vida que consome qualquer margem de poupança antes que ela possa ser investida em formação ou empreendimento. A promessa de que o trabalho honesto conduz à prosperidade soa cada vez mais como ironia cruel para quem a leva a sério.
Nada disso era inevitável. Cada regulamentação, cada tributo, cada barreira comercial, cada subsídio, cada decisão de política monetária resultou de escolhas humanas, tomadas por agentes políticos em contextos específicos, frequentemente sob pressão de grupos de interesse organizados. O encarecimento da vida brasileira não é uma fatalidade meteorológica; é o produto acumulado de décadas de intervencionismo bem-intencionado (quando não francamente clientelista) que ignorou as lições mais elementares da ciência econômica. Bastiat já advertia, no século XIX, que o bom economista considera não apenas o efeito imediato e visível de uma política, mas também suas consequências remotas e invisíveis. O Brasil, ao longo de sua história republicana, preferiu sistematicamente o caminho oposto: colher os benefícios políticos imediatos e deixar os custos para as gerações futuras. Essas gerações somos nós.
Há esperança? Talvez, se estivermos dispostos a abandonar as ilusões reconfortantes do estatismo. A saída não virá de mais intervenção, de novos planos de desenvolvimento nacional, de mais crédito direcionado ou de regulamentações supostamente protetoras. O caminho aponta na direção contrária: simplificar tributos, abrir mercados, limitar a expansão monetária, respeitar contratos, permitir que indivíduos livres tomem suas próprias decisões econômicas sem a tutela onipresente do estado. Roberto Campos, que conhecia como poucos as entranhas do Leviatã brasileiro, costumava lembrar que o Brasil nunca perde a oportunidade de perder uma oportunidade. Romper esse ciclo exige coragem política, maturidade intelectual e, sobretudo, uma sociedade civil que compreenda a origem verdadeira de seus males. A vida ficou cara porque permitimos que ficasse. A pergunta que resta é se teremos a lucidez de exigir algo diferente, ou se continuaremos a pagar, em silêncio, o preço de nossa própria servidão.
Que texto brilhante! Parabéns!
Excelente e verdadeiro é o texto. Conseguiu resumir o porquê de estarmos pagando mais caro no Brasil.