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A disputa pelo conhecimento

A complexidade da obra de Ludwig von Mises, como eu já discorri em outro artigo, ultrapassa a mera construção de uma teoria formal da ciência econômica. Aliás, a sua dimensão como um pensador epistemológico ultrapassa em muito a mera economia. Mises nesse sentido ofereceu muito mais que uma simples alternativa como método de pesquisa científica.

Ele inclusive reconhecia as limitações do termo Methodenstreit, que implicava em uma disputa sobre qual o método adequado para a ciência econômica (Mises, 1969). Para ele, a disputa não seria sobre um método científico, mas sim sobre o que é ciência.

Eu vou mais adiante: creio que a disputa não é apenas sobre a ciência, mas sim sobre o que é conhecimento. A ciência é uma sistematização de uma parte do conhecimento, o conhecimento científico, e envolve a compreensão dos fenômenos. Só que conforme explicado por Huerta de Soto (2009; 2010), o conhecimento humano não é só o conhecimento científico, englobando também o conhecimento de natureza empresarial.

Mises transformou o Methodenstreit em uma disputa sobre o conhecimento. A dita disputa pelo método ultrapassa o nome adotado. Não se pode discutir apenas o que é ciência, ou melhor, como o homem pode adquirir conhecimento científico. Para tal, se deve primeiro discutir o que é o conhecimento, com que tipos de conhecimentos o homem se depara e quais as formas que ele tem não só de absorver, mas também de criar conhecimento.

A visão epistemológica misesiana ultrapassou em muito o Methodenstreit, e ao longo da obra de Mises podemos encontrar diferentes construções que explicam não só a moldagem de uma teoria formal por meio do uso do pensamento lógico-dedutivo, mas também da própria filosofia da história, que nos explica como entendemos as ações alheias e consequentemente moldamos expectativas.

E nesse sentido está a Escola Austríaca, e em especial o ramo que seguiu a linha de pesquisa misesiana. A atenção dada a aspectos essenciais da ação humana, como o processo de compreensão timológico ou o processo de interpretação (Verstehen) que os indivíduos adotam da sociedade, é parte essencial de uma abordagem mais ampla sobre a ação humana e o caráter da racionalidade humana empregada nos processos sociais.

Discutir o processo de aquisição e uso do conhecimento é muito mais amplo que uma mera discussão sobre a ciência, até mesmo porque, conforme Huerta de Soto (2010) explicou, não existe somente uma dimensão formal do conhecimento, mas também uma dimensão tácita que é exclusiva ao empresário em determinado momento da história.

O conhecimento de tipo empresarial, que não pode ser centralizado, tem um papel preponderante na ação social, e a sua relativização pelo positivismo e pós-positivismo resulta não só no desrespeito aos direitos naturais do indivíduo, mas também ao próprio desenvolvimento da sociedade, já que constrangem o único meio pelo qual indivíduos conseguem exercer sua perspicácia: o livre mercado.

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