Hayek e outros economistas austríacos demonstraram que,
se os meios de produção se tornarem propriedade do governo, o caminho para a
pobreza será inevitável. Não obstante
essa constatação, o planejamento centralizado ainda hoje permanece
sendo a norma em uma área crucial: as cidades.
Tudo começou nos EUA, ainda na década de 1920, quando a
Suprema Corte, no caso Euclid
vs Ambler, estabeleceu o precedente de que as cidades poderiam designar
porções de seus territórios para tipos específicos de projetos de
desenvolvimento urbano. Desde então, em
todas as grandes cidades do mundo, as regulamentações sobre o uso do território
passaram a ser constantemente expandidas até chegaram ao atual ponto em que
especificam de tudo, desde limites de altura até número de vagas de garagem,
passando por diretrizes de design.
Atualmente, urbanistas e políticos determinam as regras de
uso do terreno e os tipos de exploração permitidos dentro de suas
jurisdições. Em última instância, eles
possuem o poder de veto sobre todos os grandes projetos nessas cidades. Se
Hayek estivesse vivo, ele certamente concentraria seu trabalho na questão do uso do conhecimento no
planejamento urbano.
Nos Estados Unidos, no início do século XX, planejadores urbanos
progressistas começaram a defender restrições na altura e na densidade das
construções com o objetivo de promover luz e ar. Naquela época, esses objetivos eram
considerados importantes à saúde pública. Rapidamente, os proprietários de imóveis e as
autoridades perceberam que essas leis de zoneamento poderiam ser utilizadas
para proteger o valor dos imóveis, uma vez que elas impediam a construção de
habitações de alta densidade e de baixo custo.
Hoje, esta política é mundial. Proprietários e incorporadoras apóiam uma
ampla gama de políticas destinadas a limitar a oferta habitacional e, com isso, aumentar
o valor de seus ativos. Essas políticas
incluem tamanho mínimo de lotes, limites de densidade e vagas de garagem. Embora haja uma vasta literatura econômica que
descreva perfeitamente os efeitos negativos das regulamentações de zoneamento, o
fato é que tais políticas permanecem quase onipresentes no mundo ocidental. Essa sua onipresença é perfeitamente explicada
pela Teoria da Escolha Pública: os poderosos incentivos que levam os
legisladores a favorecer doadores de campanha e eleitores específicos, e a prejudicar
todas as outras pessoas que não têm conexões políticas e que, por causa destas
regulamentações que restringem o uso dos terrenos, não têm como se mudar para
bairros ou municípios que lhes sejam mais cômodos ou atraentes.
Embora o panorama institucional favoreça a continuidade destas
restritivas leis de zoneamento, a imposição de regulamentações sobre o uso do
espaço não é a maneira adequada de moldar o desenho das cidades. Desenvolvimento urbano é um processo de coleta de informações, e
essas informações dependem de um fluxo ininterrupto e crescente de conhecimentos
e de dados que estão em posse de todos os empreendedores da cidade. É exatamente igual ao que ocorre em todos os outros
processos de mercado.
Como descreveu Hayek em seu artigo “O uso do conhecimento na sociedade“,
mesmo que os planejadores urbanos fossem imbuídos da melhor das intenções, eles
ainda assim seriam incapazes de obter todas as informações que os orientariam a
direcionar recursos e a utilizar a terra da melhor maneira possível, assim como
o sistema de preços faz em um livre mercado.
Diferentemente de incorporadores do setor privado,
urbanistas não têm de se preocupar com o sistema de lucros e prejuízos. Isso faz com que eles não se guiem pela única
ferramenta capaz de direcionar, da melhor maneira possível, a alocação de
recursos em uma cidade ao longo do tempo. Israel Kirzner explicou
claramente a importância do lucro e do prejuízo no processo de mercado:
A única
diferença entre um dia de negócios e o dia seguinte é que os planos feitos para
os negócios do segundo dia são baseados nas estimativas de preços aprendidas por
meio das experiências de mercado obtidas no dia anterior.Sendo assim, tendo
em mente que a experiência de mercado continuamente espalha cada vez mais
informações e repetidamente indica novas oportunidades para empreendimentos
lucrativos, quaisquer agitações que porventura venham a ocorrer no mercado serão
causadas por bruscas mudanças de planos feitos pelos seus vários participantes.
Quando, a este já
complicado quadro, adiciona-se um determinado padrão de imprevistas alterações nas
preferências individuais e na alocação de mercadorias, tudo se torna muito mais
complexo.
Tendo acesso a essa poderosa ferramenta que é o sistema de lucros e prejuízos,
proprietários, incorporadores e consumidores são capazes de melhorar a alocação
dos terrenos de uma cidade ao longo do tempo.
A cada dia haverá novas oportunidades de compra, venda e reconstrução. Esse processo gera uma cidade que irá incessantemente
atender à demanda de seus consumidores, pois é justamente no atendimento da
demanda que empreendedores veem oportunidades de lucro.
Pelo fato de esta ferramenta estar disponível somente àqueles que de fato
atuam no mercado e que se guiam pelo sistema de preços, planejadores urbanos
nunca serão capazes de implementar um desenvolvimento urbano tão bem sucedido
quanto o de um livre mercado. A ausência
de uma resposta fornecida pelo sistema de lucros e prejuízos e a natureza
dispersa do conhecimento — que é o que gera oportunidades de lucro — são as
razões pelas quais uma alocação eficiente de recursos é impossível sob um
planejamento centralizado.
A teórica urbanista Jane Jacobs identificou, para a
questão do planejamento urbano, o mesmo problema que Hayek havia identificado
para a questão do planejamento econômico. Em seu clássico de 1961, The
Death and Life of Great American Cities, Jacobs utilizou uma
linguagem similar à de Hayek, explicando “o conhecimento de situações
particulares de tempo e espaço” (Hayek) como sendo um “conhecimento local”
(Jacobs). Por exemplo, os moradores de
um determinado bairro podem ter ótimas ideias sobre como utilizar melhor e mais
eficientemente todo o espaço disponível ao seu redor, mas os urbanistas não
conseguem ter acesso a essas informações dispersas porque até mesmo os
urbanistas mais bem intencionados não são oniscientes.
As ideias de Jacobs influenciaram profundamente os planejadores
urbanos, particularmente aqueles dos movimentos “Smart Growth” (que querem
concentrar tudo no menor espaço possível para evitar dispersões) e “Novo Urbanismo“. Eles absorveram as críticas de Jacobs às formas
tradicionais de regulamentação do zoneamento, que limitam a densidade urbana e
impedem vizinhanças mistas (comercial e residencial). Esse zoneamento tradicional resultou em
cidades em que caminhadas são impossível e levou ao colapso do emergente “balé
da calçada” observado por ela em Greenwich Village,
em Nova York.
Contudo, naqueles ramos do planejamento urbano que
absorveram as observações de Jacobs sobre os benefícios de bairros densos e de
uso misto, os urbanistas normalmente são incapazes de perceber que o sucesso de
uma ordem natural nas cidades acontece quando proprietários de imóveis, donos
de comércio e residentes agem livremente de acordo com seu próprio interesse. Em vez disso, os urbanistas progressistas dos
dias de hoje se esforçam para impor um tipo peculiar de desenvolvimento urbano recorrendo
ao uso de ferramentas legislativas como fronteiras ao crescimento urbano,
limites máximos de vagas de garagem e gastos em transporte público.
Os urbanistas adeptos do “Smart Growth” e do “Novo Urbanismo”
tentam corrigir as falhas dos governos passados recorrendo a novas
regulamentações e a novos programas governamentais. Eles não entendem que o segredo para o
surgimento de ordens naturais nas cidades é a desregulamentação das leis de
zoneamento, permitindo que os proprietários dos terrenos construam o que for
necessário para atender às demandas dos consumidores. Em “Direito, Legislação
e Liberdade“, Hayek demonstra a importância de se permitir que os
indivíduos possam recorrer ao seu próprio conhecimento para tomar decisões:
Uma condição de
liberdade em que todos possam usar seu conhecimento com vistas a seus propósitos,
limitados apenas por regras universais de conduta, tenderá a propiciar-lhes as
melhores condições para a consecução de seus objetivos; e um sistema assim é
possível de ser alcançado e mantido somente se toda autoridade — nela
compreendida a da maioria do povo — for limitada, no exercício de seu poder de
coerção, por princípios gerais com os quais a própria comunidade tenha se
comprometido.
Ao tentar apenas projetar cidades que se encaixam em suas
visões, urbanistas de todas as ideologias violam esse princípio de liberdade e,
ao fazê-lo, impedem que os indivíduos se aproveitem de oportunidades mutuamente
benéficas de interação para melhorarem o desenho da cidade.
Se Hayek fosse vivo hoje,
ele traçaria um paralelo entre mercados e cidades como sendo processos
dinâmicos, demonstrando os erros que os planejadores urbanos cometem sempre que
tentam implantar a visão urbanística de Jacobs por meio de regulamentações e
decretos. Mises, Hayek e Kirzner mostram
de forma convincente que economias não são arranjos estáticos ou mecânicos, e
que o crescimento econômico não pode ser conduzido centralizadamente de cima
para baixo.
Pelo mesmo raciocínio,
cidades não são máquinas; elas são mercados dinâmicos que fornecem o componente
espacial para a atividade empreendedora. Tentar comandar de cima para baixo o
crescimento urbano é algo que restringe a capacidade de uma cidade de facilitar
o comércio e o empreendedorismo, e impede que seus habitantes aprendam
corretamente o funcionamento do processo de mercado.
Hoje, questões como
política monetária, orçamento do governo e desenvolvimento da economia nacional
recebem mais atenção daqueles que estudam o livre mercado do que as regulamentações
sobre o uso da terra. Contudo, é difícil
exagerar o impacto que as regulamentações sobre uso da terra têm na vida dos
indivíduos e no crescimento da produtividade. Pesquisadores do Santa Fe Institute demonstraram
que o espaço urbano está relacionado tanto com o crescimento econômico quanto
com o uso eficiente da infra-estrutura pública e privada. Similarmente, a extensa gama de pesquisa do
economista Edward Glaeser, de Harvard, mostra
que a densidade urbana é vital para o desenvolvimento econômico e que, sem
liberdade para se construir, o custo dos imóveis aumenta e acaba afetando
negativamente as oportunidades para o crescimento da produtividade.
Em um arranjo de livre mercado, as cidades se moveriam
continuamente em direção a um ponto de equilíbrio no qual elas se tornam mais capacitadas
para satisfazer as necessidades de seus residentes. No entanto, no mundo real, as regulamentações
sobre o uso da terra interrompem esse processo. Dado que são as cidades que proporcionam o
componente espacial da aprendizagem empreendedora, impedir que elas se aperfeiçoem
ao longo do tempo é algo que gera um alto custo para o crescimento econômico. Assim como os mercados, cidades de sucesso se
crescem e prosperam, mas não podem ser fabricadas. Hoje, Hayek estaria escrevendo sobre a
importância do processo de desenvolvimento urbano que fornece o espaço onde o
empreendedorismo ocorre.
Será por isso que as cidades europeias antigas são, em geral, tão belas e práticas? Porque deram a sorte de surgirem antes da ideia de zoneamento?
Esse é um assunto complicado.
A possibilidade de interferir na sua vizinhança é um argumento bem sedutor para quase todo mundo. Ninguém quer que sua rua que era tranquila se torne extremamente movimentada, que comece a ter barulho, confusão. Assim como querem manter aspectos que lhes eram atraentes, como uma praça próxima. Com grande frequência, as pessoas já pagaram mais caro justamente por esses benefícios e, obviamente, vão brigar para manter daquele jeito.
Parte desses interesses são legítimos. Afinal, o barulho de uma rua movimentada ou a poluição gerada por algum empreendimento não deixam de ser invasões na propriedade. Apesar de termos teorias de como compensar essas externalidades negativas, nenhuma delas é efetiva atualmente. Ou seja, na prática, a grande maioria só iria enxergar os malefícios de acabar com as leis de zoneamento. Como lidar com os problemas gerados por um Shopping Center ou um grande empreendimento em uma região que até então era mais "calma"? Esse texto (goo.gl/d9jjQS) é só mais um exemplo.
Zoneamento privado é atraente e seria a solução para boa parte desses problemas, mas a proposta, infelizmente, ainda mora no mundo da imaginação para a grande maioria dos casos. Em qualquer situação, regras precisam ser definidas na utilização dos recursos compartilhados para evitar a Tragédia dos Comuns e abusos por partes de alguns usuários. O melhor que consigo imaginar é, pelo menos, reduzir muito o escopo dessas leis de zoneamento, tentando dar mais autonomia a cada comunidade para definir as suas regras.
Dá muita angustia em admitir que premissas erradas sejam usadas pelos nossos pseudos adminstradores (politicos) que regulamentam tudo, detalham tudo, e colocam o empreededor em uma camisa de força que inibem sua capacidade de inovação,impedem a ação do mercado. Devido a sua suas teorias ultrapassadas mas comodas que permitem a gastança infinita, que é o mecanismo de compra de votos, eles fornecem benesses a maioria da população e perpetuam no poder e desprezam a realidade. Milton Friedman certa vez declarou que o governo jamais poderá imitar a variedade e a diversidade das ações humanas. Tudo que é feito fora do mercado inevitavelmente perderá seu uso futuro, desperdiçará recursos escassos tornando improdutivo. Por isto é que muitos acham que o processo de mercado é o maior produtor de bens e serviços. Até quando teremos de viver sob a tirania dos governos? O que deve ser feito? Espero que o inovador bitcoin nos livre da coerção monetária do governo.Federação real e efetiva autonoma do poder central e direito a secessão. As infinitas experimentações exigem liberdade total.
Esse assunto muito me interessa, mandei uma mensagem para o instituto liberal do rio de janeiro perguntando sobre um encarte de politicas publicas em telecomunicações mas até agora não me responderam se esse artigo esta disponível na biblioteca Mises lá ano IL-Rj;
Existe uma lenda de que devido a poluição dos espectros de frequências nos EUA na década de 20 criaram o que seria hoje a FCC (o que equivale a Anatel lá)os EUA diferente da europa sempre relutaram em criar esses órgãos públicos para delimitação de serviços, um órgão público a mais para ter aquele fiscal acharcando e piorando os serviços claro, a Anatel no brasil é uma tragédia.
Gostaria muito de saber quais são os autores liberais que escreveram sobre o assunto.
Off topic: Alguém sabe de que lugar é essa foto do artigo?
Na cidade de Piracicaba-SP, um ex prefeito do PT, decretou uma lei proibindo o desmembramento de lotes, ou seja antes as pessoas se juntavam e comprovam um lote de 250 m2 e dividia-os em lotes de 125m2. Construíam as suas casas e criavam seus filhos tranquilamente, a alegação era que as casas construídas eram muito pequenas. Agora as pessoas vivem em apartamento da MRV de 45m2 e da empresa municipal de 43m2.
Tudo isso feito com ajuda do poder público, a consequencia foi o aumento dos preços dos lotes, com as novas leis exigindo cada vez mais loteamentos planejados, asfalto, iluminação pública e tudo mais, deixou os lotes ainda mais caro. Os casais novos, os pobres agora não conseguem adquirir esses lotes, ficando cada vez mais clientes das empresas como a MRV. Onde ela vende apartamento de 45m2.
Tudo isso com as leis públicas.
LEI COMPLEMENTAR Nº 144, DE 25 DE NOVEMBRO DE 2002, alterações na Lei nº 2643/85.
É impressionante que outros já tenham estabelecido um paralelo entre o uso do conhecimento em sociedade e espaçamento urbano. Aparentemente, eu não sou especial por constantemente denunciar o planejamento central nas cidades como um obstáculo para seu desenvolvimento. Utilizava termos semelhantes à autora e à Jane Jacobs, estabelecendo uma relação entre o planejamento euclidiano (sempre focava minhas análises no centro das cidades) e os engarrafamentos.
Entretanto, receio já ser tarde. Há uma vasta literatura anti-urbana abrangendo desde o romantismo nostálgico “tory” do século XIX até os delírios pseudo-científicos da escola de Frankfurt a educar os planejadores sobre o quão imprescindível é sua ação para impedir a dinâmica no espaço urbano. Não carecemos de “Típicos Urbanistas” em cursos de geografia, arquitetura e psicologia.
Recomendo o site “Arquitetura da Liberdade” aos interessados no artigo e que desejam conhecer mais paralelos entre praxeologia e urbanismo.
arquiteturadaliberdade.wordpress.com/
Mesmo um condomínio em um país liberal possui normas internas. Assim, o maior problema não é a existência de normas de zoneamento, mas delas serem instituídas à revelia dos moradores da respetiva região.
* * *
O que acontece em Piracicaba-SP, acontece em outras cidades também o mercado imobiliário está muito aquecido em todo o Brasil, mas com essas regras, delimitações e imposições governamentais acabam ficando piores. Tempos atrás na cidade sempre abriam loteamentos em regiões bastante afastadas da cidade sem muita infra estrutura, esses lotes tinha preços acessíveis as classes mais pobres da sociedade, pois estes lotes não tinham muita infra estrutura ao seu redor, os vendedores não podiam pedir preços altos para esses loteamentos. Bastou se criar as empresas de habitação(governamental) e mais e mais regras de urbanismo e exigências por parte da prefeitura que estes loteamentos ficaram cada vez mais caro. Assim as pessoas recém casadas ou querendo comprar algum terreno para construir suas casas ficam cada vez mais sendo empurradas para empreendimentos da MRV e casas/apartamentos populares. Essas moradias possuem áreas úteis de 43 a 45m2.
Isto é o poder público.
Molecada,
fui dar uma pesquisada sobre essa sun city e cheguei neste link:
suncityposse.org/services/services/services.html
Acho que rola muita coisa extremamente voluntária numa comunidade dessas e vejam que nível de qualidade de vida e de organização se alcançou!
Vi casas a venda no local por menos de 200.000 dólares. Muito mais barato que muita casa/apê por aqui!!
O IMB parece que adivinha no que ando pensando. Estive em Brasília (cidade planejada) este final de semana e observei justamente este fato.
O apartamento onde fiquei localiza-se numa cidade satélite que mais parece um bairro, sem praticamente nada à volta que não outros edifícios residenciais. Não havia próximo um único posto de gasolina, mercadinho, banco ou caixa eletrônico, praça, restaurantes ou lanchonetes (só vi uma pizzaria). Acredito que nenhum morador trabalhe próximo dali.
Não há praticamente nada que possa ser feito sem tirar o carro da garagem e dirigir vários quilômetros até o setor comercial ou “quadra comercial” mais próxima. Quem gosta de cozinhar como eu e costuma esquecer um ingrediente no meio da receita sabe da praticidade de se ter um simples mercadinho por perto (em Manaus chamamos de tabernas, e há praticamente uma em cada esquina).
As estradas e avenidas, largas e rápidas, tem um imenso canteiro central onde só há grama (espaço completamente desperdiçado), nenhum estabelecimento à beira da pista e raros retornos, te obrigando a dirigir mais alguns quilômetros inutilmente caso precise voltar ou perca uma entrada.
Em um bairro nobre margeando o lago, com várias embaixadas e residências de políticos (ninhos de cobra) não são permitidos muros, e a repetição dos complexos comerciais e postos de gasolina (todos idênticos) a distâncias regulares dá uma sensação de constante déjà vu. Não são permitidos edifícios com mais de 6 andares (pq???).
Posso até ter tido uma impressão errada por estar habituado com Manaus, onde ruas e quadras seguiram a “geografia do igapó” e cresceram do jeito que deu (com invasões e margeando os igarapés). Aqui moro num bairro antigo próximo à faculdade, e a menos de 3 quadras de distância (a pé) tenho acesso a 4 agências bancárias (2 Bradesco, Itaú e Caixa), 1 supermercado, 1 loteria, 2 padarias grandes, 1 feira, uns 5 ou 6 postos de gasolina com conveniência 24h, inúmeros restaurantes, lanchonetes, farmácias, pequenas lojas, mercadinhos entre outros. Já morei em 7 locais em 4 bairros distintos de Manaus (vida de universitário) e em todos essa abundância de serviços na vizinhança é parecida, em maior ou menor grau. Ou seja, raramente preciso sair do bairro pra fazer qualquer coisa pois as casas, comércios e empresas misturam-se “anarquicamente” na vizinhança e isso (na minha humilde opinião) é excelente.
Manaus apesar de não ser muito grande é um bocado complicada de circular, mesmo as principais avenidas não fazem muito sentido (acabam repentinamente p. ex.), principalmente para recém chegados. Talvez por incompetência, nossos políticos não conseguem implementar seu planejamento urbano adequadamente (ainda bem!).
Os novos conjuntos residenciais nas periferias de Manaus já estão querendo imitar as Brasílias da vida, distantes de tudo e perto de lugar nenhum.
Imagino a dificuldade dos brasilienses que não tem carro, pois mesmo tendo eu achei um saco.
Mais uma vez, perdão pelos excessivos parênteses (eu tento evitar mas não consigo).
“Se Hayek fosse vivo hoje, ele traçaria um paralelo entre mercados e cidades como sendo processos dinâmicos”. Rsrs.
Se Hayek fosse vivo hoje, ele teria muito mais com o que se preocupar.
E quando os moradores tentam aproveitar melhor o espaço de suas moradias, a mãozona do governo desce um tapa brutal:
tj-am.jusbrasil.com.br/noticias/100569420/decisao-da-justica-irregularidades-no-conjunto-ayapua-terao-de-ser-corrigidas
Sou a favor de regras de zoneamento, desde que elas sejam flexíveis (bairros residenciais onde estabelecimentos comerciais sejam permitidos, desde que respeitem um layout estabelecido, para não gerar caos visual).
Nosso país e quase toda a América latina são exemplos de lugares que não possuem nenhuma ordem urbana, onde cada um constrói como quer e onde quer, acredito que esse modelo não deu certo; Afinal vivemos num completo caos, e nossas cidades se parecem como as cidades da idade antiga;
De que adianta trabalhar a vida toda para comprar uma casa e morar num lugar onde o vizinho divide a sua parede, e existe uma “lavação” na direita, e um prédio de 20 andares na frente; Estabelecimentos sobre a calçada (isso quando existe calçada, sendo que cada uma segue seu próprio estilo, verde, branca, com desenhos);
Uma boa solução para o urbanismo são as cidades privadas. Alphaville, localizado no município de Barueri/SP é administrada por uma empresa, a Alphaville Urbanismo,sendo esta empresa a responsável pela manutenção dos postes, avenidas, canteiros, praças, calçadas… Temos até mesmo um policiamento próprio. A prefeitura de Barueri não toca um dedo na região.
Muitas empresas migraram de São Paulo para cá. Eu recomendo que o Mises divulgue um artigo a respeito de Alphaville, que é um belo exemplo de como podem existir cidades privadas.
A cidade de Curitiba, onde moro ha 18 anos, eh um excelente exemplo de planejamento urbano equilibrado, onde o zoneamento misto respeita as necessidades dos moradores, misturando comercios, empresas e moradias, bem como o valor dos imoveis -voce compra uma casa e tem a seguranca juridica de que a fisionomia do bairro nao vai mudar radicalmente no futuro. Como ja morei em cidades que cresceram ao sabor do livre mercado e nao deram certo (Asuncion, Paraguay eh um exemplo disso, mas na America Latina sao a maioria), discordo do texto. Alem de Curitiba, tem muitos excelentes exemplos de cidades nas quais o planejamento inteligente e organizado trouxe imensos beneficios economicos e de qualidade de vida. Cito apenas duas: Paris e Barcelona.
Não concordo com a autora visto a condição de muitas cidades latinas que se regendo por esta visão. O Rio de Janeiro está adensando em nome das vantagens de acumuladores de áreas nitidamente estocadas ao longo de mais de 30 anos, como exemplo no Porto Maravilha. Tudo foi devidamente planejado entre poucos e, inclusive contando com a extinção dos direitos de herdeiros não encontrados, ou mesmo os deserdados pelo novo zoneamento imposto. O Projeto do Porto não trabalha com a opinião dos ocupantes e nem dos desejos do entorno e da cidade como um todo. Outros sitios da cidade atendem um adensamento espraiado como no caso das Vargens, Sepetiba e Campo Grande, que significam áreas de pulmões verdes da cidade e ponto de contato do homem e do ambiente natural. As áreas verdes não estão cumprindo o papel proposto na Lei Organica e Uso do Solo existentes há mais de 20 anos e reorganizados no Estatuto da Cidade que, do contrário, hoje transformam áreas que já estavam em domínio de particulares, em espaços de especulação para residencial de classes emergentes vindos de áreas já muito adensadas e supervalorizadas. Isso vem inviabilizando a fluidez de transportes inter-moldais e impondo um único meio de deslocamento por vias expressas ou sistemas BRTs, que impõe um modelo único para todas as necessidades de deslocamentos. A circulação de mercadorias e serviços, possíveis somente sobre rodas, vem sofrendo desajustes e projetando o repasse de valores exorbitantes de serviços e bens de consumo. Não há interações, inter-relações e sim, limitações entre os produtos e serviços gerados nos nucleos urbanos da própria cidade, já afetando a relação desta com as demais circunvizinhanças.
A única liberdade para decidir numa cidade é para quem tem dinheiro.
Thomas Sowell tambem faz uma analise interessante sobre as restricoes imobiliarias.Atraves de dados e argumentacao excepcional ele mostra como esta restricao afeta o preco dos imoveis(obviedade,ja que a oferta e restringida),e como ela influencia na vida das pessoas.