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Bitcoin: melhor que ouro e papel-moeda? (Parte 2)

Na primeira parte desta série sobre o projeto Bitcoin, descrevemos o nascimento da moeda digital e como ela em nada contraria a teoria da regressão de Ludwig Von Mises. Vamos agora aprofundar-nos um pouco mais na teoria e na prática procurando comparar o sistema monetário atual — seja ele baseado em papel-moeda, seja baseado em ouro — com um sistema baseado em bitcoins. É preciso ressaltar, sem embargo, que essa comparação se dá no campo conceitual, pois Bitcoin ainda não está no estágio avançado de vasta aceitação.

Melhor que ouro e papel-moeda?

Pelo bem da argumentação, assumamos que a infraestrutura do Bitcoin, bem como a inelasticidade de sua oferta (lembrem-se do limite de 21 milhões de bitcoins), são invioláveis e não impõem risco algum de fraude, roubo, etc., aos usuários — tratarei desse tema mais adiante.

Somente podemos entender Bitcoin e contestar a crítica de Gertchev utilizando-nos da abordagem austríaca sobre a origem catalática do dinheiro. Em outras palavras, é entendendo que a origem do dinheiro se dá no mercado por meio de trocas voluntárias que podemos compreender a essência do fenômeno Bitcoin. Nesse sentido, se faz necessário destacar que a introdução ou evolução do dinheiro reduz os custos dos intercâmbios. Isto é, ao resolver o problema da dupla coincidência de desejos (tenho uma vaca, quero pão e o padeiro quer um terno), o dinheiro vem a reduzir os custos envolvidos em uma simples troca de produtos. É o que os economistas chamam de “custos de transação”. Da mesma forma, em um entorno de competição, preponderará no mercado aquele dinheiro que mais reduz tais custos.

Em sua tese, Surda elenca três elementos principais que influenciam na escolha de uma moeda: liquidez, reserva de valor e custos de transação. No momento, liquidez é a maior desvantagem do Bitcoin em relação às demais moedas, por não ser amplamente utilizado — ainda que cada vez mais pessoas e empresas aceitam transacionar com a moeda.

No quesito reserva de valor, a sua escassez relativa, por sua vez derivada de sua oferta inelástica (atualmente em 11 milhões, com limite máximo de 21 milhões), lhe permite ser considerada uma ótima alternativa na manutenção (e possivelmente elevação) do poder de compra. Ademais, por ser um meio de troca eletrônico, a moeda pode ser preservada indefinidamente — sim, dependemos da internet e da eletricidade.

É na redução dos custos de transação, porém, que entendemos as enormes vantagens e superioridade do Bitcoin. Para começar, não há fronteiras políticas à moeda digital. Você pode enviar e receber bitcoins de qualquer lugar a qualquer pessoa, esteja ela onde estiver, sem ter que ligar ao gerente de banco, assinar qualquer papel, comparecer a alguma agência bancária ou ATM. Nem mesmo precisa usar a VISA, ou um PayPal qualquer. Você pode ter domicílio no Brasil, estar de férias em Xangai e enviar dinheiro a uma empresa na Islândia com a mesma facilidade com que envia um e-mail pelo seu iPhone. Ainda em Xangai, você pode receber em bitcoins o equivalente a quilos de prata (ou ouro, ou milhares de dólares), sem pesar um grama no seu bolso nem mesmo precisar contar as suas cédulas ou pesar o seu metal. Tampouco precisa se preocupar em guardá-lo em algum armazém ou banco. Mais ainda, nem precisa se preocupar se seu banco guardaria de fato 100% do seu dinheiro ou acabaria especulando-o em aventuras privadas.

Dessa forma, e de acordo com Surda, é plenamente possível que, com o passar do tempo, o Bitcoin venha a superar tanto moedas fiduciárias quanto ouro e prata como meio de troca, e finalmente tornar-se dinheiro (meio de troca universalmente aceito). A questão chave será a liquidez, que por sua vez depende da ampliação da aceitação da moeda. “Sem liquidez suficiente, Bitcoin enfrentará obstáculos significantes para evoluir a estágios mais maduros de meios de troca e, finalmente, dinheiro”, conclui Surda.

Explicado tudo isso, resta claro que a crítica de Gertchev carece de fundamento. Considerando o atual arranjo monetário de moedas fiduciárias de papel, mais de 90% da massa monetária são meros dígitos eletrônicos no ciberespaço; dígitos estes criados, controlados e monitorados pelo vasto sistema bancário sob a supervisão de um banco central. Dinheiro material ou físico é utilizado apenas em pequenas compras do dia a dia — eu, por exemplo, nem lembro a última compra que fiz usando papel-moeda. O cerne do nosso sistema monetário  é digital.

Sei que Gertchev não julga esse arranjo como desejável, afinal de contas não há lastro algum além dos PhDs que controlam a impressora de dinheiro. Mas mesmo em um sistema monetário lastreado 100% em um dinheiro material ou commodity, como o ouro, não escaparíamos do mundo virtual e eletrônico. Afinal de contas, carregar ouro (ou prata) por todo lugar não é nada eficiente, além de ser altamente perigoso em um país como o Brasil. Dessa forma, embora reconheça o mérito de um sistema monetário baseado no ouro — e efetivamente o considero como superior à desordem atual –, jamais poderíamos prescindir do sistema bancário digital no presente estado da divisão internacional do trabalho.

Mais ainda, Gertchev parece não perceber que não é somente o atual sistema monetário que depende das tecnologias digitais e da internet, mas na verdade toda a economia globalizada e interconectada que conhecemos hoje. Bitcoin nasce nesse entorno, nasce da revolução digital e, certamente, não poderia sobreviver na ausência das tecnologias que hoje dispomos. Tampouco poderia sobreviver a economia mundial, no estágio avançado em que se encontra, na ausência dessas mesmas tecnologias.

E não nos esqueçamos que ouro ou papel-moeda também são formas de dinheiro que dependem de outras tecnologias. Ouro não cai do céu. Você precisa minerá-lo, cunhá-lo e transportá-lo. Quanta tecnologia e capital são necessários para desempenhar essas funções? E o que dizer dos altos custos com fretes e seguros envolvidos na movimentação de ouro de país para país, de continente a continente? Que eu não seja mal compreendido, pois sou a favor do metal precioso, sem dúvida alguma. Mas julgo que a sua grande qualidade como meio de troca jaz na sua escassez relativa, na sua oferta inelástica. Ouro é excelente como reserva de valor, mas sem um sistema eletrônico de pagamentos, o metal seria muito pouco eficiente no quesito “transportabilidade”. A grande revolução do Bitcoin é capacidade de replicar a inerente escassez relativa do ouro, mas sem incorporar a grande desvantagem do metal no que tange ao manuseio e transporte, especialmente em longas distâncias.

Outra vantagem sem precedentes reside em uma tecnicalidade, à primeira vista trivial, mas de implicações extraordinárias. Primeiro, você não depende do sistema bancário no mundo dos bitcoins. Você é seu próprio banco. E isso não é tudo. Pela lógica e programação do sistema, é impossível duas pessoas gastarem a mesma moeda digital (double-spending). Isso quer dizer que somente uma pessoa detém o direito de propriedade de uma unidade monetária e somente essa pessoa a controla. E isso ainda não é tudo. No mundo atual de papel-moeda fiduciária, os dígitos da sua conta bancária são substitutos de dinheiro físico. O dinheiro mesmo é o papel-moeda. Ou melhor, uma fração dos seus depósitos é dinheiro físico.

No caso do Bitcoin, a unidade monetária (1 BTC) é o próprio equivalente ao dinheiro físico (no caso, virtual). E é nesse ponto que surge algo de consequências singulares. Substitutos de dinheiro emergem somente quando estes oferecem uma redução nos custos de transação. Isso quer dizer que os substitutos de dinheiro serão demandados quando proporcionarem ao usuário algo que o dinheiro próprio (dinheiro commodity) não é capaz de lhe oferecer. Pela sua natureza e propriedades digitais, os bitcoins já propiciam muitos dos serviços normalmente restritos aos substitutos de dinheiro. Seus custos de transação são suficientemente reduzidos, tornando altamente improvável o surgimento desses substitutos. Certamente, você já compreendeu as implicações. De uma só vez, o Bitcoin não só tem o potencial de tornar o sistema bancário em grande parte irrelevante e obsoleto, como também reduz substancialmente a probabilidade do aparecimento das reservas fracionárias e, portanto, a expansão artificial de crédito, evitando assim a formação de ciclos econômicos.

A grande sacada do Bitcoin, talvez uma de suas maiores vantagens, é que a moeda digital dispensa o middleman, o “terceiro” na transação. É um sistema peer-to-peer (de igual para igual, ou de par a par). Não é necessário confiar em um banco que guardará seu dinheiro. Você tampouco precisa assegurar-se de que uma empresa de liquidação de pagamentos processará corretamente o seu pedido. Acima de tudo, você não precisa rezar para que um banco central não deprecie a moeda. “Um ponto comum nos atributos avançados do Bitcoin é a reduzida necessidade de confiança no fator humano,” observa Surda; “a confiança é substituída por comprovação matemática”.

banner_associacao2.jpgAdemais, o caráter dual do método de pagamentos pode ser visto como a combinação das características do dinheiro (commodity) com o sistema de liquidação (serviço). “Enquanto a commodity oferece uma oferta estável e controle físico, o serviço permite baixos custos de transação, serviços de liquidação e registros históricos”, conclui Surda; “antes do Bitcoin, essas duas funções estavam separadas”. Logicamente, ainda não estamos nesse estágio avançado do Bitcoin, porque sua liquidez ainda é baixa e ainda dependemos bastante das “casas de câmbio” — os pontos de contato entre a rede Bitcoin e o mundo de moedas fiduciárias (abordaremos essa questão nos próximos artigos). Mas o sistema permite que esse ideal seja alcançado.

Por todos esses motivos, pode-se dizer que o Bitcoin é o arranjo monetário que mais se aproxima daquele idealizado pelos economistas da Escola Austríaca. Como muito bem destaca Surda, “É, historicamente, a primeira oportunidade de se atingir a mudança e a manutenção de uma oferta monetária inelástica sem reformas legais e sem precisar endereçar as reservas fracionárias”.

Seria o Bitcoin o Santo Graal da ordem monetária? Conceitualmente, a resposta tende a essa direção. Mas não há consenso. No próximo artigo, discutiremos algumas das objeções filosóficas e práticas à moeda digital.

Leia aqui a terceira parte da série Bitcoin.

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Artigo originalmente publicado em O Ponto Base

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83 comentários em “Bitcoin: melhor que ouro e papel-moeda? (Parte 2)”

  1. ‘e como ela em nada contraria a teoria da regressão de Ludwig Von Mises. ‘

    Não acredito que li isso.Nem os bitcoinzistas negam que o troço tinha utilidade zero antes da troca.

  2. Neto e Luiz, o interessante do projeto Bitcoin (independentemente de sua posição), é que ele tem forçado economistas a recorrer aos fundamentos e às lições mais básicas da economia.
    Ora, é preciso diferenciar entre utilidade objetiva(ou valor de uso objetivo) e subjetiva (ou valor de uso subjetivo). As primeiras pessoas que compraram bitcoins, (seja por dinheiro fiduciário, seja trocando por algum outro bem) o fizeram porque a troca satisfazia algum desejo seu. Nenhum terceiro pode “observar” qual desejo foi esse. É subjetivo. Se você está tentando encontrar um “valor de uso objetivo”, pode ser bem difícil. Assim como no passado o valor de uso do ouro era bastante difícil de encontrar, fora como adorno, joia, enfeite, etc.

  3. mauricio barbosa

    Fernando Ulrich perdoe minha ignorância e me esclareça uma dúvida: Por exemplo se eu resolver vender meu notebook usado pela internet e quiser receber em bitcoin como seria essa operação e mais como eu irei transformar esses bitcoins em reais.Desde já agradeço ansioso a resposta e parabéns pelos artigos.

  4. Costumava tomar distância de qualquer discussão a respeito da natureza do Bitcoin e de sua validade como moeda. Na realidade, atenho-me em demasia ao que é antigo e tradicional: Ouro. Entretanto, principalmente sob a abordagem precisa e clara de Fernando Ulrich, não pude evitar o crescimento de um interesse a respeito da quase-moeda e de seu surgimento de muitas formas análogo ao ouro.

    Como antes faziam as elegantes mulheres e reis da Antiguidade com seus colares de ouro, ostentaram inúmeros “Geeks” suas coleções de moedas alternativas, em sua inocência anunciando seu apego às novas tendências tecnológicas e manifestando sua admiração para com a grande capacidade criativa da metabiologia. Tal discreta comparação é essencial para que entendamos o surgimento do Bitcoin e sua ascensão.

    Sobre a ausência de formato físico do Bitcoin, não julgo como obstáculo; façamos como os renascentistas: Criemos certificados físicos de depósito da moeda independentemente e mais resistentes às farsas através da competição entre tais “impressores”. Assim como feito com o ouro presente nos cofres da renascença, será mais vantajoso realizar o comércio do dia-a-dia através do uso de tais certificados de papel. Alguma contestação a isso, Ulrich?

    Perdoem-me por ousar dizê-lo, porém recuso-me a compreender a motivação de tamanho alarde a respeito do Bitcoin. Como aprendi através da análise tanto do papel moeda como o uso do sal para fins comerciais, a principal e quase única característica para que um bem seja utilizado de forma espontânea como meio intermediário de comércios é que tenha valor para a maioria dos agentes de troca em uma sociedade. Desde que o Bitcoin seja aceito por uma comunidade, ele é, ao menos sob minha humilde perspectiva, uma moeda válida em tal grupo.

  5. Como ficaria a questão de os governos mundiais, ao se depararem com o suposto sucesso das transações realizadas com bitcoins, adotarem medidas reguladoras, ou mesmo proibitivas, já que as “empresas” e “famílias” usariam essa moeda para “fugir” dos impostos? Coisas do tipo, diante o futuro “sucesso”: estabelecimentos não podem mais receber em bitcoins etc. Ela não tenderia a se tornar uma moeda para mercados “proibidos”?

  6. Andre Cavalcante

    De fato a esse encaminhamento.

    Mas o bitcoin, como moeda, pode sim ser tributada. Por exemplo, imagine que o Brasil resolva adotar o bitcoin como moeda. Assim, todos os salários seriam pagos com bitcoins e, claro, o governo retiraria a sua parte na fonte, assim como ocorre hoje ocorre com reais.

    Idem para produtos que cheguem no aeroporto e pagos com bitcoins. Neste caso, nem precisaria o Brasil adorá-lo como moeda, uma simples conta de câmbio e você será gentilmente requisitado a deixar até 70% do preço do produto em impostos para o governo.

    O governo ainda não faz isso porque o bitcoin, como ainda não tem aceitação tão ampla não é considerado dinheiro pelo governo.

    Como o Fernando colocou: estamos vendo o nascimento de uma moeda do livre mercado. Temos que dar tempo para ela amadurecer…

  7. Essa moeda jamais vai se sustentar como moeda séria por algumas razões:

    1)Não há um Estado Nacional militar que possa impor a moeda e assegurar que seus possuidores a tomem de volta caso emprestem para alguém

    2)Ela não é de cunho forçado para compra e venda de qualquer mercadoria indispensável a existência humana tal como a conhecemos (como, por exemplo, o dólar é indispensável para compra e venda de petróleo que, por sua vez, é indispensável à existência da sociedade moderna).

    3)Não existe um sistema tributário que permita a arrecadação de bitcons, inviabilizando qualquer atividade administrativa coletiva, aspecto indispensável a existência em sociedade de forma civilizada (com a consequência da necessidade de existir um meio de troca) (Não vale argumentar com idéais anarquistas… se vc gosta de baderna, pode ficar longe de mim :>)

    4)Não há um sistema de pagamento de juros para os empréstimos feitos com essa moeda, ou seja, ela é apenas um instrumento de troca e de reserva de valor (como o ouro). O que, de imediato afasta o interesse em aceitá-la da maioria de nós.

    Ainda que se criasse um sistema para que empréstimos feitos por essa moeda pudessem ser devolvidos com juros; há de se observar que uma vez que a quantidade de bitcons é limitada (como o ouro), chegará um ponto que todo bitcon estará concentrado da mão de poucos pessoas, levando a moeda a exaustão. Tal como aconteceu no final do império romano com o ouro. Quando os imperados não tinham mais ouro para cunhar suas moedas (pois o ouro existênte a época estava na mão de poucos), tiveram que começar a falsear a quantidade de ouro nas suas moedas (ligas de ouro e outros metais)

    Daria para escrever outros motivos. Mas acho que estes já bastam.

  8. Você deu 5 motivos precários. Já basta para mim também.

    0) Que diabos é uma moeda séria?

    1) “Emprestei 3000 reais a um amigo há dois anos e não fui pago. Ele também não foi preso. Logo, a moeda é inválida.” (?)

    Diga isso aos cipriotas, que colocaram euros em suas contas bancárias e tiveram seus fundos bloqueados pelos devedores(Bancos). Onde está seu exército agora para forçar os bancos e o próprio governo a desbloquear os fundos?

    2) Não utilize cunho forçado quando o termo não é de fato correto. Três coisas: 1) Bitcoin pode ser convertido em dólar. 2) Apesar de o valor do barril de petróleo ser geralmente mensurado em dólar, podemos comprá-lo com o uso de qualquer moeda, até mesmo pesos mexicanos. 3) Qual a relação entre moeda e bens imprescindíveis? Por que para uma moeda ser “séria”, ela precisa ter o preço de bens essenciais sendo mensurados nela?

    3) “Não existe um sistema tributário que permita a arrecadação de bitcons, inviabilizando qualquer atividade administrativa coletiva, aspecto indispensável a existência em sociedade de forma civilizada.”

    Para piorar, você ainda disse que não vale utilizar idéias anarquistas para refutar. É como se eu dissesse que a terra é plana e não vale utilizar conceitos geográficos para refutar. Ou que 2 + 2 = 5 e não vale utilizar axiomas matemáticos para refutar.
    Tudo bem, não utilizarei idéias opostas às suas para discutir tal asneira proferida.

    Apenas pergunto-me: Apenas porque AINDA não existem métodos de invadir a conta dos usuários de Bitcoins e roubá-los para a formação de uma sociedade justa(?) e civilizada, esse não serve como moeda séria?

    Então, apenas porque ele não pode ser pilhado, significa que ele não serve como moeda séria? Nossa, maravilhoso! Longa vida à moeda de brincadeira! Abaixo a moeda séria!

    E outra: Por que eu preciso ter meu dinheiro pilhado por bárbaros legais para que exista uma sociedade civilizada? Responda-me você, pois deixou bastante explícito que por algum motivo eu não posso responder ao que você disse.

    4) Nossa, sinto muito, mas essa foi risível. Farei algumas perguntas a você e a seu conhecimento econômico infalível:

    a) Por que você acha que é possível penhorar bens? (Como em hipotecas, por exemplo)

    b) Utilizando o que aprendeu na segunda pergunta, não acha estranho que quando o valor de um empréstimo não pode ser pago, bens em hipoteca com valor de mercado semelhantes são dados pelo credor por terem sido garantidos no contrato?

    c) Não acha que existe uma certa relação estranha nisso? Uma espécie de “conversibilidade”? Não acha que caso tal situação apocalíptica supra-citada acontecesse, ninguém teria a brilhante ideia de possuir algum outro bem que tenha valor mensurado em Bitcoins, afinal, eles não são a única moeda existente.
    Outra: É um mistério mesmo. Como será que eram feitos empréstimos na época do ouro? Alquimia?

    Este artigo do Murphy é baseado no contexto atual, mas serve para seu “questionamento”:

    mises.org/daily/4569/What-Does-DebtBased-Money-Imply-for-Interest-Payments

    Eu espero que seu comentário recebe contestação não só por parte dos apologistas do Bitcoin, mas por gente como Fernando Chiocca, que com certeza amará seus questionamentos 3 e 4.

  9. O mises gringo está cheio de artigos de libertários que não acreditam no bitcoin
    Pra não dar a falsa idéia de que a conclusão de que ele não viola o teorema da regressão é consenso entre os libertários, como realmente não é, acho que o mises brazuca também devia publicar algum artigo desses.
    mises.org/community/forums/t/33232.aspx

  10. Sim! Eu sei que vou apanhar, mas não resisto!

    Aí vai o artigo do Paul Krugman:

    ————————————————————————————
    A rede antissocial dos ‘bitcoins’

    A oscilação exagerada do “bitcoin” pode não ter sido a notícia econômica mais importante das últimas semanas, mas foi a mais divertida, com certeza. Num período de menos de duas semanas, o preço da chamada “moeda digital” mais que triplicou. Em seguida, caiu mais de 50% em poucas horas. De repente pareceu que tínhamos voltado à era ponto.com.

    O significado econômico dessa montanha-russa foi basicamente nenhum. Mas o furor em torno do “bitcoin” serviu de lição útil sobre como as pessoas têm concepções equivocadas em relação ao dinheiro, e, em especial, sobre como se deixam enganar devido a seu desejo de divorciar o valor do dinheiro da sociedade à qual o dinheiro serve.

    O que é um “bitcoin”? Às vezes é descrito como uma maneira de realizar transações online –mas isso, por si só, não constituiria novidade num mundo de transações online com cartões de crédito e PayPal. Na realidade, o Departamento de Comércio dos EUA estima que até 2010, cerca de 16% das vendas totais efetuadas nos EUA já eram feitas no comércio eletrônico.

    Então de que maneira o “bitcoin” é diferente? Diferentemente das transações com cartão de crédito, que deixam um rastro digital, as transações com “bitcoin” são criadas para serem anônimas e impossíveis de ser rastreadas. Quando você transfere “bitcoins” a alguém, é como se tivesse ido a uma viela escura e entregado a alguém um saco de papel com cédulas de US$100. E, dito e feito: pelo que é possível saber, tirando seu uso como alvo de especulação, a principal utilização feita do “bitcoin” até agora vem sendo para versões online daquelas transações em ruelas escuras, com “bitcoins” sendo trocados por drogas e outros produtos ilegais.

    Mas os defensores do “bitcoin” insistem que este faz muito mais do que facilitar a realização de transações ilícitas. Os maiores investidores declarados em “bitcoin” são os irmãos Winklevoss, gêmeos ricos que moveram uma ação bem-sucedida para reivindicar uma parcela do Facebook e foram celebrizados pelo filme “A Rede Social”. E eles defendem o produto digital em termos semelhantes aos usados por defensores do ouro quando falam de seu metal favorito. Tyler Winklevoss declarou recentemente: “Optamos por investir nosso dinheiro e nossa confiança num quadro matemático que é imune à política e ao erro humano”.

    A semelhança com o discurso dos defensores do ouro não é coincidência, já que os entusiastas do ouro e dos “bitcoins” tendem a compartilhar uma posição política libertária e a crença de que os governos abusam profundamente de seu poder de imprimir dinheiro. Ao mesmo tempo, é muito peculiar, já que os “bitcoins” são, em certo sentido, o máximo possível em matéria de moeda fiduciária, com valor que não é baseado em nada concreto.

    O valor do ouro vem em parte do fato de esse metal ter utilizações não monetárias, como em obturações dentárias e na fabricação de joias; as moedas de papel têm valor porque são garantidas pelo poder do Estado, que as define como moeda legal e as aceita no pagamento de impostos. No caso dos “bitcoins”, seu valor, quando existe algum, se deve puramente à crença de que outras pessoas os aceitarão como forma de pagamento.

    Mas deixemos essa característica estranha de lado, além do processo peculiar de “garimpagem” empregado para fazer crescer o montante de “bitcoins” –na realidade, um processo de cálculo complexo. Foquemos, ao invés disso, duas grandes ideias equivocadas –uma delas prática, outra de cunho filosófico– que são subjacentes tanto à crença no valor fundamental do ouro quanto na aposta nos “bitcoins”.

    O equívoco prático em questão –e é grande– é a ideia de que vivemos numa era marcada pela impressão altamente irresponsável de dinheiro, em que a inflação galopante estaria prestes a chegar. É verdade que o Federal Reserve e outros bancos centrais ampliaram suas folhas de balanço em muitos, mas o fizeram explicitamente, como medida temporária em resposta à crise econômica.

    Eu sei que se diz que não é possível confiar em autoridades governamentais e tudo o mais, mas a verdade é que as promessas de Ben Bernanke de que suas ações não terão consequências inflacionárias vêm sendo cumpridas ano após ano, enquanto as previsões agourentas de inflação feitas pelos partidários do ouro insistem em não se concretizar.

    Mas me parece que o equívoco filosófico é ainda maior. Tanto os partidários do ouro quanto os dos “bitcoins” parecem ansiar por um padrão monetário puro, que seja intocado pelas fragilidades humanas.

    Mas esse é um sonho impossível. Como Paul Samuelson declarou certa vez, o dinheiro é um “expediente social”, não algo que exista fora da sociedade. Mesmo quando as pessoas usavam moedas de ouro e prata, a utilidade dessas moedas não estava nos metais preciosos que continham, mas na expectativa de que outras pessoas as aceitariam como forma de pagamento.

    Na realidade, poderíamos imaginar que os irmãos Winklevoss entendessem esse fato, já que, de certo modo, o dinheiro é como uma rede social: algo útil apenas na medida em que outras pessoas o utilizam. Mas acho que algumas pessoas simplesmente se incomodam com a noção de que o dinheiro é uma coisa humana e querem os benefícios da rede monetária sem a parte social dela. Lamento –isso é impossível.

    Será que precisamos de um novo tipo de dinheiro, então? Acho que esse argumento poderia ser apresentado se o dinheiro que temos estivesse apresentando problemas de funcionamento. Mas não está. Temos problemas econômicos enormes, mas as folhinhas de papel verde estão funcionando muito bem. Não deveríamos mexer com elas.

  11. Olhem só que interessante a mensagem de fechamento nesse site: http://www.igolder.com/

    É raro as pessoas reconhecerem tão bem que foram superadas.

    Adorei a passagem: “Since iGolder has a central point of failure (our server may be raided by thugs wearing some kind of uniform), we feel it is safer for us to cease operations.

  12. O autor afirma:

    “o Bitcoin é o arranjo monetário que mais se aproxima daquele idealizado pelos economistas da Escola Austríaca”

    Isso é mentira. Querer relacionar a escola austríaca a essa FRAUDE que se chama Bitcoin é muita leviandade.

    O BITCOIN É UMA FRAUDE. E NÃO VAI DEMORAR MUITO PARA ESTE CASTELO DE CARTAS DESABAR.

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