Nunca e em lugar algum do universo existe estabilidade e imobilidade. Mudança e transformação são características essenciais da vida. Cada estado de coisas é passageiro; cada época é uma época de transição. Na vida humana nunca há calma e repouso. A vida é um processo e não a permanência no status quo. Ainda assim, a mente humana tem sempre a ilusão de uma existência imutável. O objetivo declarado de todos os movimentos utópicos é o de dar fim à história e de estabelecer uma calma final e permanente.
Os motivos psicológicos desta tendência são óbvios. Cada mudança altera as condições externas de vida e de bem-estar e força as pessoas a se ajustarem de novo às modificações de seu meio. Ela atinge interesses velados e ameaça as formas tradicionais de produção e consumo. Atrapalha todos os que são intelectualmente inertes e faz com que revejam sua maneira de pensar. O conservadorismo é contrário à própria natureza da ação humana. Mas sempre foi o programa acalentado pela maioria, pelos inertes, que obstinadamente resistem a todas as tentativas de melhorar suas próprias condições, melhora essa que a minoria dos ativos iniciou. Ao empregar o termo reacionário, quase sempre faz-se referência apenas aos aristocratas e sacerdotes que chamavam seus partidos de conservadores. Mas os melhores exemplos do espírito reacionário foram dados por outros grupos: pelas corporações de artesãos que impediam o acesso à sua especialidade aos recém-chegados; pelos fazendeiros que exigiam proteção tarifária, subsídios e “equiparação de preços”; pelos assalariados hostis ao progresso tecnológico e que instigavam o sindicato a forçar o empregador a contratar mais operários do que o necessário para um determinado serviço, e outras práticas similares.
A inútil arrogância dos escritores e dos artistas boêmios considera as atividades dos homens de negócios como pouco intelectuais e enriquecedoras. A verdade é que os empresários e os organizadores de empresas comerciais demonstram maior capacidade intelectual e intuitiva do que o escritor e o pintor médio. A inferioridade de muitos intelectuais se manifesta exatamente no fato de eles não reconhecerem o quanto de capacidade e raciocínio é necessário para desenvolver e fazer funcionar com sucesso uma empresa comercial.
O surgimento de uma classe numerosa desses frívolos intelectuais é um dos fenômenos menos desejáveis da era do capitalismo moderno. Sua atividade importuna impede a discriminação das pessoas. São uma praga. Seria desejável que algo fosse feito para refrear sua confusão ou, melhor ainda, eliminar totalmente suas rodas e grupos sociais.
A liberdade é, porém, indivisível. Qualquer tentativa de restrição da liberdade dos importunos e decadentes literatos e pseudo-artistas iria investir as autoridades do poder de determinar o que é bom e o que é mau. Iria socializar o esforço intelectual e artístico. Talvez não excluísse as pessoas inúteis e discutíveis; mas é certo que iria colocar obstáculos insuperáveis no caminho dos gênios criativos. Os poderes vigentes não gostam de novas ideias, de novas maneiras de pensar e de novos estilos de arte. Opõem-se a qualquer tipo de inovação. Sua supremacia resultaria numa absoluta arregimentação; provocaria estagnação e decadência.
A corrupção moral, a licenciosidade e a esterilidade intelectual de uma classe de pretensos autores e artistas é o preço que a humanidade deve pagar a fim de que pioneiros inventivos não sejam impedidos de concluir seus trabalhos. A liberdade deve ser garantida a todos, até mesmo aos mais humildes, a fim de que os poucos que podem utilizá-la em benefício da humanidade não sejam impedidos. A liberdade de ação que tinham os miseráveis personagens do Quartier Latin foi um dos motivos que tornou possível o surgimento de alguns grandes escritores, pintores e escultores. A primeira coisa de que um gênio necessita é de respirar ar puro.
Afinal não são as frívolas doutrinas dos boêmios que causam o desastre, mas sim o fato de o público estar pronto a aceitá-las favoravelmente. O mal está na reação a essas pseudofilosofias por parte dos modeladores da opinião pública e, em seguida, por parte das massas mal-orientadas. As pessoas apressam-se a apoiar as doutrinas que consideram como modernas a fim de não serem consideradas ultrapassadas e retrógradas.
A ideologia mais perniciosa dos últimos sessenta anos foi o sindicalismo de George Sorel e seu entusiasmo pela action directe. Gerada por um frustrado intelectual francês, logo cativou os literatos de todos os países europeus. Foi fator de grande importância na radicalização de todos os movimentos subversivos. Influenciou o monarquismo francês, o militarismo e o antissemitismo. Desempenhou um papel importante na evolução do bolchevismo russo, do fascismo italiano, bem como no movimento alemão de jovens que finalmente resultou no nazismo. Transformou partidos políticos desejosos de vencer através de campanhas eleitorais em facções que acreditavam na organização de grupos armados. Conduziu ao descrédito o governo representativo e a “segurança burguesa”, e preconizou tanto a guerra civil como a guerra com outros países. Seu principal slogan era: violência e mais violência. O atual estado de coisas na Europa é em grande parte resultado da influência dos ensinamentos de Sorel.
Os intelectuais foram os primeiros a aclamar as ideias de Sorel; eles as tornaram populares. Porém, o teor do sorelismo era obviamente anti-intelectual. Era o oposto do raciocínio ponderado e da discussão sensata. O que conta para Sorel é exclusivamente a ação, ou seja, o ato de violência por amor à violência. Lutar por um mito, fosse qual fosse o seu sentido, era seu lema. “Se você se situa no campo dos mitos, ficará a salvo de qualquer tipo de contestação crítica.”[1]Que filosofia maravilhosa, destruir por amor à destruição! Não fale, não pense, mate! Sorel despreza o “esforço intelectual” até mesmo dos campeões literários da revolução. O objetivo essencial do mito é “preparar as pessoas para lutarem pela destruição do que existe”.[2]
Não obstante, a culpa pela propagação da pseudofilosofia destruidora não cabe nem a Sorel nem a seus discípulos Lenin, Mussolini e Rosenberg, nem aos bandos de literatos e artistas irresponsáveis. O desastre teve origem porque, por muitas décadas, quase ninguém se aventurou a examinar criticamente ou a acionar a consciência dos bandidos fanáticos. Até os autores que se abstiveram de endossar francamente as ideias da violência temerária estavam ansiosos por encontrar uma interpretação simpática para os piores excessos dos ditadores. As primeiras objeções tímidas só apareceram quando — na verdade, muito tarde — os cúmplices intelectuais dessas políticas começaram a perceber que nem mesmo o apoio entusiasta à ideologia totalitária os eximia da tortura e da morte.
Existe hoje uma falsa frente anticomunista. O que as pessoas — que se denominam “liberais anticomunistas” e que mais corretamente são chamadas de “anti-anticomunistas” pelas pessoas sensatas — estão desejando é o comunismo sem as características inerentes e necessárias ao comunismo, que ainda são insuportáveis para os norte-americanos. Elas fazem uma distinção ilusória entre comunismo e socialismo e — bem paradoxalmente — procuram reforçar sua escolha de socialismo não comunista com base no documento que seu autor chamou Manifesto Comunista. Julgam terem autenticado sua afirmação ao apelidarem o socialismo de planejamento ou de estado previdenciário. Fingem rejeitar as aspirações revolucionárias e ditatoriais dos “vermelhos” e, ao mesmo tempo, enaltecem em livros e revistas, escolas e universidades, Karl Marx, o líder da revolução comunista e da ditadura do proletariado, como um dos maiores economistas, filósofos e sociólogos, como eminente benfeitor e libertador da humanidade. Querem levar-nos a crer que o totalitarismo não totalitário, uma espécie de quadrado triangular, é o remédio reconhecido para todas as doenças. Sempre que levantam uma leve objeção ao comunismo, são levadas a insultar o capitalismo, usando termos tirados do injuriante vocabulário de Marx e de Lenin. Elas insistem em abominar o capitalismo de forma muito mais veemente do que o comunismo e justificam todos os atos indecentes dos comunistas com base nos horrores indescritíveis do capitalismo. Em resumo: Fingem lutar contra o comunismo ao tentarem converter as pessoas às ideias do Manifesto Comunista.

Um movimento “antiqualquer-coisa” demonstra uma atitude puramente negativa. Não tem a menor chance de sucesso. Suas críticas acerbas virtualmente promovem o programa que atacam. As pessoas devem lutar por algo que desejam realizar e não simplesmente evitar um mal, por pior que seja. Devem, sem quaisquer restrições, apoiar o programa da economia de mercado.
O comunismo teria hoje, após a desilusão causada pelas façanhas dos soviéticos e das lamentáveis falhas de todas as experiências socialistas, pouquíssimas chances de êxito no ocidente, não fosse esse anticomunismo falsificado.
A única coisa que pode impedir as nações civilizadas da Europa Ocidental, da América e da Austrália de serem escravizadas pelo barbarismo de Moscou é o amplo e irrestrito apoio ao capitalismo laissez-faire.
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[1] Cf. O. Sorel, Reflexions sur Ia violence, 3 ed., Paris, 1912, p. 49.
[2] Cf. Sorel, I. c. p. 46.
[Este artigo foi extraído do capítulo V do livro A Mentalidade Anticapitalista]
Lamentavelmente este último não anda acontecendo.
Em que ano o livro “A mentalidade anticapitalista” foi escrito?
“O surgimento de uma classe numerosa desses frívolos intelectuais é um dos fenômenos menos desejáveis da era do capitalismo moderno. Sua atividade importuna impede a discriminação das pessoas. São uma praga. Seria desejável que algo fosse feito para refrear sua confusão ou, melhor ainda, eliminar totalmente suas rodas e grupos sociais.”
Pela primeira vez, me deparo com uma idéia de Mises com a qual não concordo.
Não, eu não gosto destas pessoas maravilhosas, defensoras do pobres, amigas do povo e contra opressão das elites, blá blá blá.
Mas “eliminar totalmente…” não é um tanto autoritário e antiliberal?
“eliminar totalmente” ñ eh totalitario. é um modo de alocar recursos escassos p/ coisas + produtivas.
pense: corporações de oficio medievais desapareceram. a livre competiçao pos fim nelas. qual o problema de por fim, ñ a academia, mas ao academicismo?, exigindo uma postura + produtiva e responsavel dos intelectuais?
na minha humilde opiniao (vá lá! ela ñ eh humilde), estamos numa sociedade q atingiu um nivel de riqueza q permite criar um grupo voltado p/ a reflexão. isso custa caro. estas pessoas ñ compram sua subsistencia todo dia, como o professor do colegio católico, ou o fachineiro do predio. uma parte da produçao é destinada a mantelos a troco do investimento de longo prazo q eles são. Mas se o investimento se mostra ekivocado, improdutivo, ou um refugio p/ pessoas q se rebelam contra os criadores da rikeza q os mantem, é claro q podemos estinguir seus cargos. pq ñ?
note q esta falta de criterio, meritocracia, etc., acontece muito a custa de impostos. duvido q numa estrutura de livre mercado esses ‘frivolos’ possam prosperar. mesmo em grandes universidades privadas (como havard e princeton) esses carinhas existem, mas são financiados por verbas publicas (e tudo q é publico é uma meritocracia no reverso).
+ uma coisa: ‘eliminar totalmente’ ñ é criar campos de concentração. SE FOR SOU CONTRA! e tenho certeza q o Mises tb era. é apenas ñ empregar fanfarrões. é usar recursos escassos racionalmente, de modo q deem dividendos. fazer q o investimento se pague, gere capital, e possa ser reaplicado em mais melhorias. é ñ pagar a um historiador p/ afirmar q jesus era gay, e tentar provar isto com base em seus delirios. mas pagar a um historiador p/ refletir sobre erros historicos p/ ver se aplicamos este conhecimento no presente, nos poupando de novos absurdos (eu sei q ñ é um ex. muito bom; mas eu suponho q historia sirva p/ algo alem de empregar historiadores. mas ñ consigo um ex. melhor pq sou bronco mesmo).
eliminar totalmente um desperdicio evidente ñ é autoritarismo. autoritarismo é ñ eliminar
” O conservadorismo é contrário à própria natureza da ação humana. Mas sempre foi o programa acalentado pela maioria, pelos inertes, que obstinadamente resistem a todas as tentativas de melhorar suas próprias condições, melhora essa que a minoria dos ativos iniciou. “\r
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Por qual razão tanto temor dos liberais quanto aos conservadores e dos conservadores quanto aos liberais?\r
O mal é outro, os comunas. \r
Acredito que os Liberais algum dia tomarão consciência que a cultura judaico-cristã é de extrema importancia na luta contra o pensamento marxista cultural. Na minha opinião poderia haver um elo entre o liberalismo e conservadorismo.
Fernando Chiocca, \r
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Quero dizer que a mudança da estrutura cultural vigente nao depente apenas da visão político-economica, ela gira em torno de todo o processo educacional, cultural, além de político e economico. É comoo se fosse participar do UFC, no entanto o indivíduo(liberais) só fizeram malhação, nao treinaram artes marciais, ou seja, disputar só na briga economica é balela.\r
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Próprio comuna fala isso em outro artigo “A cultura burguesa está focada na conquista material do indivíduo. A cultura socialista, por sua vez, deve se concentrar na sua conquista moral ou espiritual.” – Robert Heilbroner.\r
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Bem, só queria entender por qual razão a separação dos libertários (Ex: liberal ateu passa é longe de um liberal-connversador)\r
Seria mais influente a união.\r
Fernando Chiocca, nao me leve a mal, sei da minha ignorancia, por isso mesmo procuro entender. Valeu pelos links foi de grande ajuda. A “Teoria sobre Socialismo e Capitalismo” estou lendo, logo logo chegarei lá no capítulo “O socialismo do conservadorismo”.\r
Obrigado pelas explicações (Marcos e Fernanco Chiocca)
Acho que Mises simplesmente foi honesto na sua frase: “Seria DESEJAVEL…”
Só isso. Depois ele contiua dizendo que apesar de ser desejável, a liberdade é um bem maior e, justamente por isso não pode ser refreada pelo Estado.
Além do mais, não podemos esquecer que Mises não era anarcocapitalista (pelo menos essa é a minha visão de sua obra).
Nas escolas e universidades brasileiras, para alguém se apresentar como defensor de um capitalismo laissez-faire tem de ter muita coragem, ser muito ousado e de preferência que esteja acompanhado de seguranças e não dependa da simpatia de professores e estudantes para obter sucesso profissional.
Não seria correto o IMB ter uma página com uma espécie de glossário para termos complicados como neoliberalismo, conservadorismo e neoconservadorismo? Quando algum autor se referir a algum termo com algum significado diferente por qualquer que seja o motivo, seria correto avisar como nota que o que o autor quis dizer não é o que consta no glossário do instituto. Isto parece simples e resolveria problemas futuros.
“Nunca e em lugar algum do universo existe estabilidade e imobilidade…”
Exceto no funcionalismo público, neh Misão? Especialmente a parte de “imobilidade”, afinal funça não se mexe para p…nenhuma.
Hohaeoheaoheoa
Do argumento de Von Misses eu pergunto: o que é “genio” para ele?
Ao ler a “Mentalidade Anti-capitalista” me ocorreu outra duvida…
Ele se vale do bem-estar conquistado pelo capitalismo como argumento da legitimação deste, mas ele não demonstrou como o capitalismo conquistou este bem-estar…Como o capitalismo atingiu a condição de bem-estar? Como chegamos a este estado de coisas onde o trabalhador goza de melhores condições de vida? As lutas sindicais foram irrelevantes nesse processo? Foram os empressários e grandes donos de fabricas que estabeleceram uma condição de trabalho mais humana para seus subordinados?
Pergunto isso pois não estou convecido que todas as lutas sindicais e operárias tenham origem no mero resentimento e inveja, mas antes, das condições nefastas de trabalho que os operários eram submetidos no século 18 e 19.
Desde de já agradeço.
Este artigo apresenta pontos muito interessantes para nós em 2019, sugiro que o republiquem.
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