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Rio de Janeiro, royalties do petróleo e ciclos econômicos

Um
leitor atento me manda por e-mail uma pergunta muito interessante, e percebi que
respondê-la detalhada e publicamente seria de muito mais valia (sem referências
ao alemão).

Referindo-se
à minha postagem no blog
em que eu disse que seria bom para a economia fluminense caso o estado do Rio
de Janeiro perdesse o dinheiro oriundo dos royalties do pré-sal (numa
coincidência mórbida, as recentes tragédias causada pelas chuvas comprovam o
ponto: o que interessa é capital e infraestrutura, e não papel-pintado), ele faz
a seguinte pergunta, a qual tomei a liberdade de reformular:

“Considerando-se que esse
dinheiro dos royalties vem “de fora” – isto é, a Petrobras extrai os barris em
alto-mar, vende-os para todo o país e, do valor total dessa receita, entrega
10% para o governo do Rio, totalizando R$ 7,5 bilhões -, não teria esse
dinheiro o mesmo efeito, sobre a economia fluminense, de uma injeção monetária feita
pelo Banco Central?  Ou seja, não seria
como se houvesse um banco central imprimindo dinheiro e jogando-o na economia
fluminense?  Sendo assim, a economia
fluminense não deveria estar sujeita à formação de bolhas e a constantes ciclos
econômicos?”

É
de fato uma pergunta bastante interessante e, principalmente, extremamente
importante, pois sempre é fonte de muita confusão.

A
resposta direta é: embora tal “injeção” possa levar à formação de bolhas, ela
não irá provocar os ciclos econômicos.

A
explicação está no fato de que esse fenômeno – grosso modo, equivalente a um
helicóptero sair jogando dinheiro sobre uma dada localidade – possui um
mecanismo de expansão diferente do de uma expansão monetária feita pelo Banco
Central.

Os
ciclos econômicos ocorrem porque o dinheiro recém-criado entra direto no
mercado de crédito – isto é, o banco central o injeta diretamente no sistema
bancário, aumentando as reservas dos bancos e, consequentemente, diminuindo os
juros no mercado interbancário.  Assim,
esse dinheiro novo, ao entrar primeiro no mercado de crédito, faz com que os
juros caiam, o que consequentemente provoca uma expansão na estrutura de
produção. 

Essa
expansão é justamente a fase do boom econômico. 
A injeção de dinheiro faz com que haja uma distorção na estrutura de
preços relativos da economia: o mercado de bens de capital, por causa dos juros
mais baixos, torna-se mais atraente do que o mercado de bens de consumo.  Logo, todo o investimento será direcionado
para aquele setor.

Essa
alteração na estrutura econômica durará até o momento em que os juros começarem
a subir novamente.  Nesse momento, essa
estrutura de produção expandida será obrigada a se contrair, que é quando
começa a recessão.

Ou
seja: se o dinheiro novo entra na economia por meio do mercado de crédito,
haverá uma distorção na taxa de juros, o que gerará os ciclos econômicos.

Porém,
o que ocorre no Rio de Janeiro com os royalties do petróleo é diferente.  O dinheiro despejado na economia do estado
não chega primeiro no mercado de crédito: ele vai direto para o governo do
estado, que então passa a gastá-lo de acordo com sua conveniência. 

Ludwig
von Mises chamou esse fenômeno de “inflação simples”.  Se o dinheiro novo entra na economia por meio
de gastos estatais, o efeito será o da inflação de preços apenas.  Ele não vai gerar novos investimentos, como
ocorre no exemplo da inflação via mercado de crédito.

Este
é um fenômeno ao qual se dá pouca atenção, e apenas a Escola Austríaca o
aborda.  O efeito de um aumento na oferta
monetária vai depender de onde o dinheiro recém-criado entrará na economia: se
entrar por meio do mercado de crédito (banco central comprando títulos
diretamente dos bancos), haverá uma distorção nos juros e uma consequente
expansão nos investimentos – algo que, no final, inevitavelmente levará a uma
alta de preços e a uma consequente contração econômica.  Porém, se o dinheiro entrar na economia via
gastos estatais, haverá apenas inflação de preços, sem novos investimentos.

Um
exemplo histórico ocorreu na Espanha, quando o ouro pilhado das Américas foi
todo descarregado no país.  Esse ouro
caiu direto nos cofres do governo, que o utilizou para financiar um aumento nos
gastos do estado.  Tudo o que houve na
Espanha foi inflação de preços (enorme). 
Outro exemplo foi o da mania das tulipas, na
Holanda do século XVII.  Houve um enorme
influxo de metais para aquele país, provocando um aumento na demanda por
ativos, como as tulipas da época. 

Outro
economista que explicou bem o mecanismo desse fenômeno, só que com mais detalhes, foi Friedrich Hayek, em
seu livro Prices and Production.  Quando o dinheiro recém-criado entra direto
na economia por meio de gastos estatais, há um aumento na demanda por bens de
consumo.  Esse aumento repentino da
demanda fez com os lucros no setor de bens de consumo aumentem em relação aos
lucros do setor de bens de capital, fazendo com que o investimento seja
direcionado para aquele setor (bens de consumo).  Consequentemente, a produção e o investimento
no setor de bens de capital declinam, junto com o emprego – entretanto, sem que, diferentemente da inflação via mercado de crédito, tenha havido uma
expansão anterior deste setor.

Repetindo:
se o dinheiro recém-criado cai na economia e vai direto para o setor de bens de
consumo, a estrutura de produção se contrai, mas sem que tenha havido uma expansão anterior.  (O que explica também por que todas as políticas
de estímulo à demanda provocam o efeito oposto do esperado).

No Rio

Embora
os royalties do petróleo definitivamente se enquadrem na classificação de
“inflação simples”, não é necessariamente verdade que a economia fluminense irá
sofrer uma inflação de preços maior que a do resto do Brasil, nem mesmo que sua
indústria de bens de capital irá contrair em relação ao setor de bens de
consumo.

Afinal,
esse dinheiro despejado na economia fluminense pode ser perfeitamente
“exportado” para outros estados, em troca de produtos produzidos por esses
outros estados.  Esse cenário, aliás, é o
mais provável.

É
exatamente por isso que os primeiros a receber esse dinheiro indubitavelmente
ganham: seu poder de compra aumenta e eles passam a poder adquirir bens antes dos
outros consumidores (de todos os outros brasileiros, no caso).  Isso faz com que haja menos bens no mercado,
cuja consequência mais óbvia é o aumento de preços e uma consequente queda no
padrão de vida.

Portanto,
caso o estado do Rio perca os royalties (algo que eu duvido muito que vá
acontecer), os grandes perdedores seriam aqueles que recebem esse dinheiro em primeira mão e
que ficam mais ricos em detrimento do resto da população – relegada a uma
“concorrência desleal” com os recebedores privilegiados desse dinheiro.

O Brasil é ainda um melhor exemplo

Entretanto,
o melhor exemplo do fenômeno da “inflação simples” é mesmo o Brasil,
principalmente o da década de 1980 e 90.

Poucos
sabem, mas foi apenas em 2000, com a Lei de Responsabilidade Fiscal, que o
Banco Central ficou proibido de comprar diretamente do Tesouro os títulos da
dívida do governo.  Está escrito lá, nos artigos 35
e 39
:

Art. 35. É vedada a realização
de operação de crédito entre um ente da Federação, diretamente ou por
intermédio de fundo, autarquia, fundação ou empresa estatal dependente, e
outro, inclusive suas entidades da administração indireta, ainda que sob a
forma de novação, refinanciamento ou postergação de dívida contraída
anteriormente.

[…]

Art. 39. Nas suas relações com
ente da Federação, o Banco Central do Brasil está sujeito às vedações
constantes do art. 35 e mais às seguintes:

I – compra de título da dívida,
na data de sua colocação no mercado, ressalvado o disposto no § 2o
deste artigo;

§ 2o O Banco
Central do Brasil só poderá comprar diretamente títulos emitidos pela União
para refinanciar a dívida mobiliária federal que estiver vencendo na sua
carteira.

O
que isso quer dizer?

Até
o ano 2000, o Tesouro emitia um título da dívida que podia ser comprado
diretamente pelo BACEN.  Tal medida fazia
com que o dinheiro criado pelo BACEN fosse diretamente para o Tesouro, e dali
para toda a economia, sem passar pelo mercado de crédito.  Inflação simples.

É
por isso que os mais iniciados na Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos têm
uma certa dificuldade em estudar os ciclos econômicos no Brasil: aqui
predominou o fenômeno da inflação simples, e não o da inflação via mercado de
crédito.  É por isso que na década de
1980 e 90 houve hiperinflação, mas não houve ciclos econômicos, com expansão
industrial seguida de contração.  A
depressão era constante.

Mesmo
de 1995 a 2000, após a criação do Real, não se observou um ciclo de forte
expansão industrial seguida de uma contração. 
Com efeito, o primeiro ciclo econômico genuinamente austríaco no Brasil
só aconteceu agora, como detalhado aqui.

Conclusão

Os royalties fluminenses não
provocam ciclos econômicos na economia local, tendo apenas o potencial de
causar inflação no setor de bens de consumo, muito embora tal fenômeno não se
distinga do que ocorre no resto do Brasil devido ao fato de o estado poder
exportar para outros estados essa inflação.


no Brasil, até o ano 2000, foi exatamente esse fenômeno da inflação simples que
predominou na economia – o que explica a relativa escassez de ciclos
econômicos austríacos.

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26 comentários em “Rio de Janeiro, royalties do petróleo e ciclos econômicos”

  1. Então se não gera ciclos economicos, apenas uma inflação de preços exportavel, tanto faz para o estado ficar ou não com os royalties, visto que se não fosse o Rio, outros estados receberiam esses royalties.

  2. Porém, os “habitantes” da máquina pública carioca perderiam a capacidade de adquirir bens antes de todo o resto. Eles seriam os grandes prejudicados.

    Já quando esses royalties são diluídos para todo o país, o efeito é nulo, pois não está havendo criação de dinheiro – apenas redistribuição de renda.

  3. Leandro, você não acha que se a petrobrás vender parte do petróleo pro governo (com seus mega programas brontossáuricos de investimento) e este pagar “no cartão” (emitindo dívida), há duas tendências contrárias, assim como na TACE tradicional?

    O preço dos títulos cai e tende a aumentar a taxa de empréstimos (tendendo a encurtar a estrutura produtiva), e por outro lado o governo tenta expandir a mesma via seus PACS? Assim chegaríamos na crise da TACE convencional…

  4. Rafael, deixe-me raciocinar por partes:

    Se o governo emite títulos para comprar petróleo, os juros aumentam (os preços dos títulos caem) e não há criação de dinheiro. As pessoas passam a emprestar mais pro governo. Até aí, em tese, temos um efeito contracionista na estrutura de produção.

    Com o PAC, o governo amplia gastos, mas aí é preciso ver como se dá esse aumento. Inflação? Endividamento? Tributação?

    Confesso que não consigo enxergar o pulo do gato, e ver como isso poderia ativar uma TACE.

  5. Olá!

    Por que os royalties são inflação simples? Eles são uma parte da produção vinda da extração do petróleo… essa produção é real, não é mera impressão de moeda de curso forçado. Não seria apenas uma transferência forçada de renda, como todos os impostos? (ok, a inflação também é uma transferência de renda, mas é como um “caso particular”, no qual eu não colocaria esse caso dos royalties…)

    E a hiperinflação da década de 80 não foi conseqüência do “milagre econômico” das décadas anteriores? Sempre achei que fosse, o que faria dela uma instância da TACE na qual os juros nunca subiram…

    Abraços

  6. Tiago, a produção é real e com recursos de todo o país, mas o dinheiro é despejado em uma localidade definida. Sim, é uma transferência de renda. Porém, é fácil ver que, se toda a renda for transferida para uma determinada cidade, por exemplo, haverá o fenômeno da inflação simples nessa cidade (ao passo que poderá haver deflação de preços no resto do país, caso a oferta monetária seja fixa).

    Mesmo que o país estivesse sob um padrão-ouro rígido, haveria um influxo de ouro para o Rio, o que obviamente provocaria deflação de preços nos outros estados.

    Sobre a inflação da década 1980, seus detalhes foram explicitados neste artigo:
    http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=313

  7. A tendência contrária é o governo tentando expandir na marra a estrutura produtiva, construindo mega pólos de inovação, petroquímicas e pontes, sem que o público tenha uma queda na preferência temporal… O petróleo até caiu de paraquedas… Mas os recursos complementares serão obtidos via poupança forçada…

  8. Parabéns Leandro,\r
    \r
    O Estado não merece absolutamente no royalties do petróleo brasileiro. Deixe que o mercado livre se apodere de tudo pois quem merece os benefícios é a própria wall street. O brasileiro que se dane.\r
    \r
    Hermes

  9. Hermes, até onde se sabe, riqueza é algo diferente de dinheiro confiscado. Dinheiro confiscado não gera riqueza, exceto para quem recebe o esbulho.

    No caso, você quer dar o dinheiro para a ALERJ, e acha que isso será ótimo. Direito seu.

    Quanto a Wall Street, realmente não entendi como você fez a ligação entre ela e a Petrobras. Talvez você saiba de mais detalhes escusos e queira nos informar.

    Por fim, se você realmente acha que Wall Street – uma entidade totalmente ligada ao governo – é representante de livre mercado, então eu sugiro mais estudos e menos afetação de superioridade.

    Abraços

  10. Carlos Alexandre

    Prezado Leandro:\r
    \r
    Se o nosso Bacen pratica a mais alta taxa de juros no mundo, porque ainda temos inflação? Por acaso, apesar deste fato, ainda se pratica expansão monetária? e como seria possível inflação monetária coexistir com juros elevadíssimos?\r
    \r
    Um abraço.

  11. Carlos,

    Eis aí um fato que poucos compreendem. É perfeitamente possível haver grande expansão monetária em um ambiente de juros altos, bem como haver desprezível (ou até mesmo nula) expansão monetária com juros baixos.

    Um exemplo de cada caso é justamente o Brasil, para o primeiro caso, e a Suíça, para o segundo.

    Embora soe estranho a princípio, o problema fica mais fácil quando se analisa os fundamentos da política monetária.

    Por exemplo, pela teoria, se a oferta monetária fosse congelada, essa repentina “escassez” de moeda geraria um aumento de juros muito alto no mercado interbancário. Isso de fato é verdade no curto prazo – afinal, se a impressão de dinheiro cessou, a quantidade a ser emprestada entre os bancos parou de aumentar, e essa súbita paralisia pode gerar um aumento temporário de juros.

    Entretanto, uma vez entendida que a quantidade de dinheiro não vai mais aumentar, os agentes econômicos (desculpe o jargão economicista) perceberão que de nada adiantará cobrar juros nominais altos: afinal, como eles seriam pagos? Em um cenário de quantidade de moeda fixa, se você emprestar 100 reais e cobrar 10% de juros, não haverá como receber 110 reais, pois não está havendo aumento na oferta monetária. Assim, se você não cobrar juros (muito) menores, simplesmente não fará empréstimo algum. Esse raciocínio, aliás, não é exclusividade austríaca. Milton Friedman – monetarista convicto que no final da vida passou a defender a extinção do banco central – também concluiu que era isso que ocorreria.

    Esse cenário descrito acima ocorre, por exemplo, na Suíça, país de banco central tradicionalmente conservador (no sentido de incorrer em baixíssimas expansões monetárias) e de juros (no caso, refiro-me à Selic deles) também baixos.

    Já o cenário inverso ocorre no Brasil. Se o BC pratica expansões monetárias mais vultosas e a economia é fechada (o que significa que as pressões inflacionárias não podem ser abrandadas pelas importações), então grande parte dessa expansão irá se traduzir em grande aumento de preços. Sendo assim, os bancos embutem essas expectativas inflacionárias no valor dos juros que eles cobram. Ou seja: a maior expansão monetária gerou, ao contrário do imaginado, um aumento nos juros.

    Logo, é perfeitamente possível haver juros altos concomitantes a grandes expansões monetárias, e juros baixos concomitante a pequenas (e até mesmo nulas) expansões monetárias.

    Caso algo não tenha ficado claro, por favor não hesite em perguntar.

    Abraços!

  12. Carlos Alexandre

    Leandro:\r
    \r
    Achei que tinha entendido tudo, mas aí fiquei reflatindo, refletindo…e me deparei com uma outra dúvida; estaria certo se extraísse da sua resposta a conclusão de que, no Brasil, existem duas causas para a constante elevação dos preços: os elevados níveis de injeção monetária e o caráter fechado da economia ?

  13. Carlos, seu raciocínio está correto, mas, como tudo em economia, cabem outras observações.

    Por exemplo, se a economia fosse bem mais aberta, e fosse mantido o mesmo nível de injeções monetárias, os preços dos bens tradables de fato não subiriam tanto.

    Porém, veja só o que aconteceria: como a oferta monetária está aumentando, e o influxo de produtos externos faz com que os preços não possam subir no mesmo ritmo, então os ganhos reais (quando se desconta a inflação) deste setor estão sendo prejudicados. Há mais dinheiro na economia, mas as receitas estão constantes. Logo, está havendo uma redução do poder de compra de todas as pessoas envolvidas nesse setor. Os ganhos tornam-se deprimidos.

    Ao passo que em outros setores (mais protegidos), os preços sobem de maneira a manter o poder de compra dos que lá estão. E essa subida de preços vai prejudicar exatamente as pessoas daquele setor que está reprimido, pois estes são consumidores daqueles.

    Ou seja: enquanto um setor tem de se conter, o outro pode se expandir. No setor contido, haverá menos investimentos e menores salários. No setor que pode se expandir, as coisas continuam boas (donde se entende por que todo mundo quer protecionismo).

    Apenas mais um exemplo de como a inflação distorce as coisas, produzindo vencedores (aqueles que têm boas conexões políticas) e perdedores (aqueles que estão sob forte concorrência).

  14. Me parece haver uma falha no raciocínio deste artigo… Se a Petrobrás vender todo o petróleo no exterior e “trazer” 10% para o governo do Rio, isso não é uma injeção monetária de forma alguma!

    Obviamente não se usa dólares americanos no Brasil, então para “trazer” dinheiro para o país, é necessário passar pelo câmbio; então o efeito deste dinheiro extra sendo negociado por reais será meramente um aumento da taxa de câmbio entre Reais x Dólar.

    Não haverá aumento algum na quantidade de dinheiro em circulação, a meu ver.

  15. Alan,

    Não há falha alguma. Para esse cenário por você descrito, as coisas funcionariam exatamente da mesma maneira. Observe, inclusive, que a teoria é válida mesmo para o caso de o Brasil estar sob uma oferta monetária fixa – a quantidade de dinheiro aumentaria no estado do Rio e diminuiria no resto do país.

    Assim, mesmo na hipótese (irreal) de a Petrobras exportar 100% da sua produção e mesmo na hipótese (irreal) de o Banco Central não intervir de modo algum no câmbio – o que significa que a oferta monetária não se alteraria -, ainda assim os 10% das receitas da Petrobras seriam entregues para o governo do Rio, que as gastaria da maneira que mais lhe aprouvesse. Consequentemente, haveria uma diminuição da quantidade de dinheiro no resto do país e um aumento da quantidade de dinheiro no estado do Rio.

    Repito: Você está certo ao dizer que não haveria nenhum aumento da quantidade de dinheiro em circulação. Porém haveria um aumento da quantidade de dinheiro no estado do Rio. E é disso que a teoria fala.

  16. Leandro,deixando a polítcia monetária teórica um ouco de lado e falando nos royalties como um efeito social para o país, pelo que entendo no seu artigo, a injeção dessa quantia de dinheiro provinda dos recursos do petróleo é em certo ponto maléfica ao estado do Rio, pois gera um certo poder de comprar deste em relação ao país.Isso também, dado que o dinheiro vai diretamente para o governo do estado, e segundo alguns dados do Ipea não tem sido convertido em desenvolvimento social paa a região.Ou seja, eles sofre (a população) um duplo efeito negativo.
    Porém,redistribuir os royalties por todo país, como você mesmo disse,seria apenas reditribuir a renda.Mas não seria essa uma política inócua?? Pois (deixando de lado se é justo ou não, e debates fervorosos sobre “o petróleo é nosso”), é uma política que fere o pacto federativo e também inconstitucional.Sendo que a fatia de royaties para cada municipiou e estado seria mto pouca, oque ou iria “acabar indo pro ralo”,ão resolvendo nenhuma problema social.
    Ao meu ver, enviar todo esse dinheiro(e não so parte dele) a uma Fundo Social (como um fundo soberano de estabilização), seria o mai correto a se fazer. Pois, o dinheiro não causaria os impactos negativos no Rio, e tbm não se perderia na redistribuição do mesmo pelo país.Assim, o dinheiro não causaria a inflação simples, pois geraria desenvolvimento industrial,mitigando o efeito cambial de se exportar mtos recusros (doença holandesa), e também desenvolvimento social, atráves de programas e projetos de saúde, cutltura e tecnologia.
    Gostaria de saber sua opnião sobre isso
    grata!!!

  17. Olá, Mariana, muito obrigado pelo comentário de alto nível, coisa rara quando se trata de assunto tão polêmico. Permita-me ir por partes.

    (…)falando nos royalties como um efeito social para o país, pelo que entendo no seu artigo, a injeção dessa quantia de dinheiro provinda dos recursos do petróleo é em certo ponto maléfica ao estado do Rio, pois gera um certo poder de comprar deste em relação ao país.

    Só pra deixar claro e não dar margem a dúvidas: esse dinheiro vai aumentar o poder de compra daqueles que o receberem primeiro – governo e seus funcionários -, em detrimento daqueles que o recebem por último. Os primeiros a receberem esse dinheiro sem dúvida vão se beneficiar; já os últimos serão os prejudicados. Portanto, o mais correto seria dizer que ele é ruim para as classes menos favorecidas do estado do Rio, mas ótimo para aqueles com conexões diretas com o governo do estado.

    Isso também, dado que o dinheiro vai diretamente para o governo do estado, e segundo alguns dados do Ipea não tem sido convertido em desenvolvimento social paa a região. Ou seja, eles sofre (a população) um duplo efeito negativo.

    Correto.

    Porém, redistribuir os royalties por todo país, como você mesmo disse, seria apenas reditribuir a renda. Mas não seria essa uma política inócua??

    Penso que sim.

    Pois (deixando de lado se é justo ou não, e debates fervorosos sobre “o petróleo é nosso”), é uma política que fere o pacto federativo e também inconstitucional.

    Aí é mais nebuloso. Alguns grupos dizem que, como o petróleo é extraído no mar, e o mar é propriedade da união (pare de rir!), isso significa que nenhum estado em específico pode pleitear o monopólio desses recursos.

    Já outros grupos dizem que o estado do Rio já se beneficia tremendamente com essa atividade da Petrobras – a qual gera investimentos e empregos –, e, sendo assim, não teria o “direito” de pleitear ainda mais do que isso, sendo “justo” que redistribuísse para o resto do Brasil todos esses royalties.

    Pra mim, o problema principal continua sendo ausência de propriedade privada.

    Sendo que a fatia de royaties para cada município ou e estado seria mto pouca, o que ou iria “acabar indo pro ralo”, não resolvendo nenhuma problema social.

    Concordo.

    Ao meu ver, enviar todo esse dinheiro(e não so parte dele) a uma Fundo Social (como um fundo soberano de estabilização), seria o mai correto a se fazer.

    O problema é que isso seria concentrar ainda mais dinheiro nas mãos do estado. E não há e nem nunca houve nenhuma evidência de que ele seja um bom gestor. Ademais, por melhor que seja a intenção, ficar criando fundo social serve apenas para fomentar mais desvios, corrupção e clientelismo.

    Pois, o dinheiro não causaria os impactos negativos no Rio, e tbm não se perderia na redistribuição do mesmo pelo país.

    Quanto a isso eu concordo.

    [ b] Assim, o dinheiro não causaria a inflação simples, [/b]

    Só pra enfatizar, apenas o Rio teria esse problema.

    pois geraria desenvolvimento industrial,

    Apenas direcionar dinheiro não gera desenvolvimento industrial. Para tal é necessário haver acumulação de bens de capital e mão-de-obra capacitada. Oferta de dinheiro pode atrair a segunda, mas não necessariamente gera a primeira.

    É verdade que uma área qualquer que passe a receber dinheiro poderá comprar bens de capital de outros estados e, assim, iniciar um processo de industrialização. Mas essa disputa por bens de capital (que foi gerada artificialmente, apenas por desvio de dinheiro) geraria um aumento dos preços destes bens para o resto do país. E esse encarecimento de insumos dificultaria ainda mais a expansão industrial de todo o país.

    Ademais, tal processo de redistribuição iria fazer com que estes bens de capital fossem direcionados para os locais onde há mais dinheiro, mas não necessariamente mais poupança.

    Ou seja, é complexo. Qualquer intervenção gera consequências não intencionadas. Não é questão de ideologia; é ciência econômica pura.

    mitigando o efeito cambial de se exportar mtos recusros (doença holandesa),

    Isso vale apenas para os países que exportam maciçamente seus recursos e, como consequência, sofrem forte apreciação cambial. Não é necessariamente o caso dos royalties do petróleo.

    e também desenvolvimento social, atráves de programas e projetos de saúde, cutltura e tecnologia.

    Aí eu repito o que eu disse: ficar delegando ao estado essas funções e, principalmente, ficar enchendo-o de dinheiro para tal, é o caminho mais curto para a corrupção, o clientelismo e a perpetuação de escroques no poder.

    Minha opinião? Deixem esses recursos para a Petrobras. Dos males, o menor.

  18. Entrei no artigo, pois deparei com a Lei da Responsabilidade Fiscal de 2000. Eu estava acompanhando os presidenciáveis e acabei me deparando com esse trecho a respeito de José Luis Fevereiro (possível ministro da fazenda do PSOL):

    Na contramão do pensamento de Lisboa está José Luis Fevereiro, economista do PSOL, que deve ter como candidato o líder do movimento dos sem-teto, Guilherme Boulos. "Não há nenhuma emergência fiscal, ao contrário do que diz o governo", afirmou Fevereiro, a sério. "Nós emitimos nossa própria moeda, portanto, não há risco de insolvência."

    epoca.globo.com/economia/noticia/2018/02/quem-sao-os-conselheiros-economicos-dos-pre-candidatos-presidencia.html

    O que o tal economista está defendendo então é a mesma coisa do que foi feito na década de 80/90? Eu não quis questionar isso em um debate para não ser um “espantalho”, pois acho inacreditável que isso seja defendido ainda hoje, até porque é proibido (como mostra o artigo). Mas é isso o que ele defende então?

    Outro ilustríssimo economista do PSOL defendeu quase a mesmo coisa, dizendo que não tem sentido termos uma dívida com nossa própria moeda, sendo nós produzimos a tal moeda. Ao ser ridicularizado ou rebatido, ele cita uma tal teoria que eu até então desconhecia, que é a MMT. Poderiam explicar o motivo dessa teoria ser uma “furada”, e como ele se encaixa com o que o cara defende?

    Abraço.

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