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Economia

Agito financeiro

21/10/2009

Agito financeiro

Foi um dia agitado no mercado financeiro essa terça-feira, 20 de outubro.

Nos EUA, a S&P 500 e a NASDAQ caíram 0,6%.  O dólar, após dias seguidos de queda, apresentou uma ligeira valorização.  Com isso, vem se consolidando uma tendência, a única que é repetida com regularidade: quando o dólar sobe, as bolsas caem (americanas inclusive), e vice versa.

O setor imobiliário continua deprimido - ao contrário do que os entusiastas da mídia vinham dizendo.  O relatório de setembro sobre a construção de novos imóveis trouxe números abaixo do esperado, e os números de agosto também foram revisados para baixo.  Ademais, as autorizações para novas construções, um indicador da saúde do setor imobiliário, caíram pela segunda vez nos últimos três meses.

Ou seja: apesar de todos os esforços contrários do governo americano, os preços dos imóveis seguem em queda - como tem de ser. 

Com isso, os ativos dos bancos - que têm papeis do setor imobiliário em suas carteiras - seguem se desvalorizando, o que inevitavelmente forçará um ajuste futuro.  Exatamente para evitar isso, o mais provável é que o governo americano continue dando subsídios ao setor imobiliário (na forma de créditos tributários para aqueles que estão comprando imóveis pela primeira vez) - o que ajudará a ofuscar a realidade desse mercado também em 2010.

Outra notícia interessante veio da Austrália: o presidente do Banco Central australiano, Glenn Stevens, disse ser "imprudente" manter as taxas de juros daquele país em seu atual nível de 3,25%, o mais baixo dos últimos 50 anos.  Sua intenção é encarecer o custo dos empréstimos a fim de se evitar um aumento da inflação.  O atual nível dos juros australianos está pondo em risco a meta de inflação daquele país, que é de 2 a 3%.  O núcleo da inflação anual australiana está em 4,2%.

A palavra "imprudente" surpreendeu os investidores, que agora dão como certo que o BC australiano seguirá aumentando os juros.  Isso significaria que aquele BC não está ligando para a apreciação de sua moeda, que está no nível mais alto dos últimos 14 meses.

Vale lembrar que o Banco Central da Austrália foi o primeiro e único banco central do G-20 a aumentar (em 0,25%) a taxa básica de juros desde o início da crise.

Brasil

Assunto esse que nos traz ao Brasil. 

O governo decidiu impor uma tarifa de 2% (IOF) sobre o influxo de capital estrangeiro destinado à compra de ações e títulos públicos.  A justificativa oficial é que se quer evitar a formação de uma bolha na bolsa.  Previsivelmente, houve muita inquietação com essa decisão repentina e a Bovespa caiu 2,9% e o dólar subiu 1,86%, cotado a R$ 1,745.

Algumas considerações:

1) Sim, se houver uma enxurrada de dólares, é bem possível que haja uma "bolha do Real" - o real poderia se valorizar muito e, no evento de uma fuga de dólares, se desvalorizar repentinamente.  Tal instabilidade deixa tanto os exportadores quanto os importadores à deriva, sendo obrigados a adivinhar seu futuro. 

2) Desnecessário dizer que tal instabilidade monetária é totalmente oposta ao que ocorreria num livre mercado, no qual uma commodity que não pode ser criada do nada (como o ouro) seria utilizada como meio de troca, fornecendo assim uma unidade de conta estável. 

3) Esse atual arranjo, em que cada banco central imprime seu dinheiro e daí eles ficam flutuando entre si no mercado financeiro internacional, é inerentemente instável e incontrolável.  Paliativos como taxação e controle de capitais não trazem efeitos de longo prazo, pois acabam no final entrando nos cálculos dos agentes financeiros - ademais, no atual arranjo global, não se pode impor barreiras eternas ao capital estrangeiro.

4) Assim, é duvidoso que essa medida esteja visando conter o fluxo de dólares.  Sua intenção parece ser muito mais a de aumentar a arrecadação (em queda) do que a de conter a valorização do real, algo impossível no longo prazo.

5) Caso o Banco Central do Brasil não estivesse imprimindo reais para comprar dólares, ele não precisaria se preocupar com inflação e nem com uma bolha na bolsa.  Dados do BACEN mostram que as torneiras estão abertas.  A base monetária, que vinha apresentando um aumento bem contido até agosto, disparou em setembro e agora na primeira quinzena de outubro, aumentando em mais de R$ 9 bilhões.  O mesmo ocorreu com o M1.  A intenção clara é proteger os exportadores, como já explicado aqui.

6) É fácil entender por que não haveria uma bolha na bolsa caso o governo não imprimisse reais para comprar dólares.  Considere o seguinte e muito simples exemplo a seguir:

Imagine, apenas para facilitar as contas, que houvesse no Brasil apenas 100 reais e 50 dólares em circulação.  Nesse exemplo simples, a cotação de 1 dólar seria de 2 reais.  Agora suponha que houve uma entrada de mais 50 dólares na economia.  Se o BACEN não fizer absolutamente nada, teremos 100 reais e 100 dólares na economia, o que fará com que a cotação do dólar pule para 1 real, certo?

Mas como você só pode comprar ações em reais, então não teria como haver uma bolha de ações.  Afinal, o meio de compra - as cédulas de real - não aumentou.  Se não houve aumento da quantidade de moeda, então não tem como haver bolha.

Porém, se o BACEN decide intervir imprimindo reais para comprar dólares, o arranjo muda.  A economia passa a ter, digamos, 200 reais e 50 dólares (os outros 50 dólares que entraram foram para as reservas do BACEN).  Nesse caso, como houve um aumento da quantidade de reais em circulação, é bem provável que esse novo dinheiro recém-criado seja aplicado na bolsa, o que de fato gerará uma bolha.

E é exatamente isso que está acontecendo atualmente em todo o mundo.  As bolsas estão subindo como consequência dos pacotes de estímulo financeiro adotados pelos governos ao redor do mundo.  Esse dinheiro que foi impresso está sendo aplicado nos mercados financeiros ao redor do mundo.  Quando uma moeda estrangeira chega num país qualquer, o banco central desse país imprime dinheiro para comprá-la (essa impressão monetária conjunta explica os baixos juros mundiais).  A bolha financeira está sendo reinflada.

Jim Rogers e Peter Schiff preveem que essa atual fase altista dos mercados financeiros pode durar um ou dois anos no máximo.  Quando os BCs mundiais - principalmente o Fed - começarem a apertar os juros, haverá um novo colapso, ainda mais forte que o atual.

Conclusão

A intenção principal do governo brasileiro com essa tarifa de 2% sobre o capital estrangeiro destinado à compra de ações e títulos públicos parece ser a de aumentar a arrecadação.  Como efeito colateral, dá-se uma mãozinha aos exportadores.  Mas se levarmos em conta o que está sendo feito com a base monetária e com o M1, a bolha na bolsa continuará em formação.

Logo, o BACEN está numa encruzilhada: se os dólares chegam e ele não os compra, o real se valoriza e os exportadores perdem.  Se ele imprime reais para comprar dólares, haverá problemas com a inflação e com uma provável bolha financeira (vale lembrar que a Bovespa já subiu mais de 100% desde outubro de 2008).  Se ele vende títulos para adquirir reais e com isso comprar dólares, não há perigo de inflação e nem de bolha financeira, mas há aumento da dívida e dos juros (algo nada bom em período eleitoral).

Sobre o autor

Leandro Roque

Leandro Roque é editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.

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