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Não importa a intenção: gastos do governo sempre geram lucros privados e prejuízos socializados

Eis algo que ainda não foi devidamente compreendido: quando o governo  implanta um determinado programa que envolve novos gastos — desde a distribuição “gratuita” de absorventes até a construção de uma estrada —, os maiores beneficiados são alguns empresários privilegiados (ou ineficientes).  

E os maiores prejudicados são os pagadores de impostos, da classe média ao pobre.

Por isso, defender aumento de gastos do governo — ou ser contra sua redução ou mesmo contra sua contenção — é o equivalente a defender privilégios aos empresários favoritos do governo. 

Isso vale para todo e qualquer tipo de aumento de gastos. 

Se o governo disser que irá gastar mais com assistencialismo, os bancos irão financiar o déficit orçamentário do governo e os pagadores de impostos ficarão com os juros. 

Se o governo disser que irá gastar mais com programas de saúde, além dos bancos, as empresas do ramo médico — desde as grandes farmacêuticas, passando pelas fornecedoras de equipamentos, até os mais simples vendedores de máscaras, gazes e luvas de borracha — também irão lucrar mais. 

Se o governo disser que irá gastar mais com obras e investimentos públicos, além dos bancos, todas as empreiteiras selecionadas serão beneficiadas.

Se o governo disser que irá gastar mais com subsídios, além dos bancos, empresários e pecuaristas serão os privilegiados.

Se o governo disser que irá gastar mais com cultura, os grandes artistas e produtores serão os grandes ganhadores.

É exatamente por isso que “fazer lobby” — isto é, ir ao congresso e “convencer” políticos a votarem e implantarem uma determinada medida — é uma atividade econômica extremamente rentável.

Esta atividade é conhecida na literatura econômica como “rent seeking” — ou “busca pela renda” — e envolve conquistar privilégios e benefícios não pelo mercado, mas pela influência política. A criação de uma emenda orçamentária que irá beneficiar alguma empreiteira que será agraciada com a concessão de alguma obra pública (uma simples obra de recapeamento em uma estrada pode ser decorrente de um lobby de uma empreiteira para conseguir aquela obra) é um exemplo clássico.

Mas os privilégios variam e não se restringem apenas a aumentos de gastos do governo: a imposição de tarifas de importação que deixam concorrentes estrangeiros fora do páreo, a criação de regulamentações (inclusive profissionais) que irão dificultar a entrada de novos concorrentes em um mercado específico, e leis mais lenientes para mineradoras também são exemplos corriqueiros.

Adicionalmente, o rent-seeking está longe de se restringir à esfera federal. Os contratos superfaturados, por exemplo, estão presentes em todas as esferas de poder. Se uma prefeitura decide recapear uma rua ou avenida, são enormes as chances de que a empreiteira que faz aquela obra conseguiu o contrato via propina. No caso, o empreiteiro paga propina aos burocratas da prefeitura, que então escolhem essa empreiteira e, no final, em troca da propina, a empreiteira faz uma obra superfaturada, a qual será paga pelos seus impostos. Empresa, burocratas e políticos ganharam, e você perdeu.

Para ser justo, essa constatação de que gastos do governo são lucros privados é tão óbvia, que até mesmo keynesianos defensores dos gastos estatais a reconhecem. Um dos mais brilhantes representantes do keynesianismo, Hyman Minsky, deixou bem claro em que consistia todo esse teatro keynesiano: endividar o contribuinte para engordar o capitalista.  

Veja o que ele disse em um de seus livros mais importantes, Estabilizando uma Economia Instável:

Se o déficit público aumentar quando os investimentos privados e os lucros estiverem diminuindo, os lucros empresariais não irão diminuir tanto quanto diminuiriam na ausência deste déficit.  Com efeito, um Governo Grande serve para consolidar os lucros das empresas.

Direto ao ponto. Sem embustes nem rodeios. 

Para piorar, a pressão inflacionária

A verdade é que não há nenhum mistério nisso. E é estranho que poucos abordem as coisas desta maneira. 

O estado, quando decide gastar mais com algum programa, pode fazer duas coisas: ou ele pode comprar bens e serviços de uma empresa privada, a qual receberá uma injeção de dinheiro público na veia; ou pode executar seus dispêndios por meio de alguma estatal, o que inevitavelmente também gerará toda uma série de lucros privados, não apenas em prol de seus empregados, mas também e principalmente em prol de fornecedores, clientes etc. 

E, novamente, em ambos os cenários, os ganhadores serão os destinatários destes gastos. O eventual déficit do governo será financiado pelos bancos, e os pagadores de impostos arcarão com os juros.

Mas tudo pode piorar: há também o efeito inerentemente inflacionário dos déficits. Os déficits orçamentários do governo são financiados pela emissão de títulos do Tesouro, os quais são majoritariamente comprados por uma lista exclusiva de bancos privilegiados, os chamados dealers primários. E estes bancos privilegiados compram títulos do Tesouro por meio da pura e simples criação de dinheiro.

Déficits, portanto, também podem ser uma medida inflacionária, a qual gera uma pressão direta sobre os preços. E inflação de preços, como já comprovado, desorganiza toda a economia e ainda prejudica o poder de compra dos pequenos.

Prejudicando o resto

Não há escapatória: quando o estado implanta um determinado programa (seja “social” ou voltado para a infraestrutura), o que em última instância ele está fazendo é garantindo lucros a seus empresários favoritos. 

E, pior, estará aumentando o custo de vida dos indivíduos que não foram beneficiados por esse programa. 

Por exemplo — e aproveitando a mais recente celeuma —, se o governo anunciar um programa de “compras governamentais de absorventes”, o preço das unidades saltará. Sempre que o governo cria um programa de demanda garantida, produtores aumentam os preços (isso é economia básica). Consequentemente, aquelas mulheres que não forem contempladas pelo programa serão as grandes perdedoras.

Igualmente, se o governo anuncia um programa de volumosas obras de infraestrutura, os preços dos insumos — minério, aço, cimento, vergalhões, argamassa, retroescavadeiras, tratores, cobre, níquel, alumínio etc. — irão subir e, como consequência, todos os bens que utilizam esses itens em sua construção (como imóveis e carros) ficarão mais caros. Todo o resto do setor da construção civil e todas as demais indústrias do país terão agora de pagar mais caro para conseguir a mesma quantidade destes insumos.

A grande ironia

No fim, não há diferença prática entre o estado aumentar seus gastos — seja para “estimular a economia” ou para implantar algum novo programa social — e o estado socorrer bancos ou mesmo terceirizar a gestão de algum serviço público para uma empresa privada em regime de monopólio. Em todos eles está havendo transferência de recursos públicos para mãos privadas.

A única diferença teórica é que, nestes dois últimos exemplos, vemos com clareza como o dinheiro está sendo transferido dos pagadores de impostos para alguns capitalistas específicos, ao passo que, com os estímulos ou novos programas sociais, muitos se limitam a aplaudir sem perceber que eles próprios estão sendo espoliados.

Por fim, eis a ironia: quem defende contenção dos gastos e déficit zero são aqueles que, no final, se recusam a enriquecer vários capitalistas por meio da espoliação dos pagadores de impostos; e também se recusam a socializar os prejuízos privados. Já os “defensores do povo” e “justiceiros sociais” são os principais aliados dos grandes empresários que obtêm grandes lucros simplesmente porque se beneficiam das consequências do aumento dos gastos do governo e do déficit público.

Gastos públicos são lucros privados. Sempre. É uma lástima que algumas pessoas ainda não tenham entendido de que lado realmente estão e quais interesses privados estão defendendo.

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64 comentários em “Não importa a intenção: gastos do governo sempre geram lucros privados e prejuízos socializados”

  1. Essa questão dos gastos do governo privilegiarem uns poucos à custa de todos me lembrou de uma frase que vi há um tempo, quando a esquerda ainda dominava as ruas:

    “Brasil: país em que a definição de “cidadania” é sair às ruas pra protestar para que políticos corruptos te prometam serviços públicos péssimos e “grátis” pagos com dinheiro roubado de você mesmo.”

  2. “Por fim, eis a ironia: quem defende contenção dos gastos e déficit zero são aqueles que, no final, se recusam a enriquecer vários capitalistas por meio da espoliação dos pagadores de impostos; e também se recusam a socializar os prejuízos privados. Já os ‘defensores do povo’ e ‘justiceiros sociais’ são os principais aliados dos grandes empresários que obtêm grandes lucros simplesmente porque se beneficiam das consequências do aumento dos gastos do governo e do déficit público.”

    Eu só faria uma correção: corporações que se beneficiam do estado não são capitalistas e sim corporativistas.

    De resto, o artigo é simples, direto e explicativo sobre o mal que há no estatismo.

    E o mais irônico é que a esquerda, que supostamente não gosta das grandes corporações (e pior, supostos liberais), apoiar uma medida de distribuição de absorvente que irá beneficiar não apenas toda uma burocracia mas também a empresa que for contemplada por esse programa de compra governamental. Nenhuma diferença disso para o Convênio de Taubaté… Sendo isso o Brasil, não demorará para descobrirmos a farra que estará por trás disso.

    Sobre esse trecho, fiquei com uma dúvida:

    “Se uma prefeitura decide recapear uma rua ou avenida, são enormes as chances de que a empreiteira que faz aquela obra conseguiu o contrato via propina. No caso, o empreiteiro paga propina aos burocratas da prefeitura, que então escolhem essa empreiteira e, no final, em troca da propina, a empreiteira faz uma obra superfaturada, a qual será paga pelos seus impostos. Empresa, burocratas e políticos ganharam, e você perdeu.”

    Esse arranjo estatista de fazer e/ou consertar ruas e avenidas existe no mundo todo? Em países de moeda forte como Suíça, Japão e Alemanha, a qualidade das ruas e estradas é infinitamente maior que as daqui. Por aqui, além desse arranjo corporativista, na maioria das vezes será aquele recapeamento mal feito e com aqueles tapa-buracos que acabam se tornando um novo problema para a suspensão do veículo…

  3. é verdade que há uma relação inversa entre o volume de poupança interna e a taxa de inflação, ou seja, quanto menor a inflação mais poupança e vice-versa?

    Pergunto isso porque noto nos gráficos do ibge essa relação inversa entre a fatia da poupança no PIB e a inflação anualizada.

  4. Pessoal,

    os governos, principalmente dos países desenvolvidos, vão conseguir continuar se endividando e honrar os compromissos do welfare state relativos à saúde e à aposentadoria da população?

    Em algumas décadas, veremos cortes profundos nesses governos?

  5. Resumindo, um liberal (ou genuíno conservador) é aquele que é contra o uso do estado para enriquecer artificialmente, pela coerção, os magnatas amiguinhos do governo, mas que defendem que o cara que enriqueceu produzindo valor para a sociedade merece ficar com o seu dinheiro. E sabe que não tem cabimento ficar taxando o cara produtivo só por ele ser rico.

    Um esquerdista é aquele cujas idéias intervencionistas idiotas têm por consequência (que uns percebem, e outros não) enriquecer artificialmente os ricaços poderosos com conexões políticas. E aí ele olha esse arranjo, conclui que os ricos (que muitas vezes são beneficiados pelo intervencionismo esquerdista) têm dinheiro demais, e defendem que todos os ricos (sem distinção, inclusive os que geram valor) sejam taxados para compensar essas injustiças.

    De um lado temos um arranjo em que o poder de parasitas é limitado, e os frutos do trabalho de pessoas capazes é recompensado. E do outro temos um arranjo em que o governo e amigos do governo vão ficando cada vez mais ricos e poderosos às custas do resto da população.

  6. Desenvolvimentista

    Pode até ser que ocorra tudo isso (eu nem ligo) mas a única alternativa é o desenvolvimento econômico dirigido pelo estado com a parceria com a iniciativa privada assim como foi com os EUA industrializando através do protecionismo com as altas tarifas alfandegárias, portanto o país se tornou essa superpotência em que se tornou.

  7. Não acredito que um estado muito menor, no sentido de excessiva desregulamentação seja positivo. Daria no mesmo, empresários sem controle algum iriam fraudar produtos, enganar consumidores, explorar trabalhadores. Tem que ter um meio termo.

  8. É inevitável essa dinâmica. Se eu recebo.meu salário e vou ao mercado também estou enriquecendo alguém. Dinheiro só troca de mãos …

    Creio que, se inevitável for a intervenção do estado e o fim for social, o mais barato é por o dinheiro na conta do beneficiado final.

    Quando o estado gasta dinheiro do contribuinte ele, em tese, funciona como uma cooperativa onde todos “dão” uma fração em dinheiro para comprar/produzir/construir algo de interesse comum.

    O sistema de licitação precisa ser 100% digital e transparente onde algoritmos vasculham o mercado e fazem comparações numéricas…

  9. Livre concorrência e livre iniciativa são coisas muito arriscadas. Já capitalismo de estado é muito melhor. No capitalismo de estado seu sucesso é garantido pelo governo. É algo certo. Você está sempre protegido. Você tem subsídios e pacotes de socorro. Você dificilmente vai à falência.

    Já no liberalismo você tem de suar para agradar os consumidores. Não há nenhuma garantia de lucros. Há concorrentes por todos os lados. Se você fracassar, você vai à falência. Ninguém irá lhe socorrer. Você não receberá subsídios nem pacotes de socorro.

    Não há nenhuma chance de o povo como um todo trocar o atual arranjo (mercantilismo) pelo outro (livre mercado). Até porque ele nem sabe que é ele que banca essa farra toda.

  10. O livro “Por que o Brasil é um país atrasado?” fala muito sobre isso, mas ele usa muito o termo oligarquia, e explica que no Brasil só cresce quem tem privilégio estatal, do governo e de burocratas. Ele explica que no Brasil existem tantas regulamentações que, ao invés de ajudar os trabalhadores, só da autonomia para o Estado controlar mais ainda a nação, e impede que existam novos empreendimentos. E isso consequentemente mina a economia nacional. Leiam esse livro, é do descendente real Luiz Philippe de Orleans e Bragança.

  11. Marionete do Nego Ney

    O que este site e outros veículos libertários sempre dizem mais uma vez se mostra verdadeiro, deem uma olhada nisso:

    http://www.msn.com/en-us/tv/news/cnn-loses-nearly-half-its-viewers-in-post-trump-network-ratings-bloodbath/ar-AALBCKu

    Mídias tradicionais estão cada vez mais minguando e perdendo relevância, as pessoas cada vez mais enxergam que a verdade morreu à tempos nesses meios (se é que se pode dizer que já houve qualquer preocupação com a verdade por ali) e que hoje servem apenas como ferramentas de propaganda de causas progressistas idiotas eu patetices da direita. Enquanto isso, mídias descentralizadas online seguem conquistando espaço. Apenas reparem o nível da coisa, a matéria tem a cara de pau de dar à entender que o Homem Laranja Mau é o culpado disso…

  12. Jairdeladomelhorqptras

    Vai aqui um comentário “provocativo” pessoal.

    Mas antes de ser devidamente apedrejado, digo que sempre fui anarquista, daqueles antigos, obviamente, alijando a parte violenta e terrorista do antigo “anarquismo raiz”.

    Uma dúvida e que ainda não consegui uma explicação é a razão do capitalismo ter surgido após a formação do Estado-nação na Europa. E não antes. De alguma forma a industrialização capitalista só foi capaz de surgir após os modernos estados terem se formado. Tem gente que diz que já existia capitalismo na “propriedade de terras” do feudalismo ou que as corporações de ofício já eram organizações capitalistas na IdadeMédia. Mas o fato é que o moderno capitalismo industrial só surgiu após a formção do Estado-Nação. Acredito e apoio as idéias do Mises. Mas esta “contradiçao” me incomoda. Solicito auxílio do pessoal daqui. Abraços.

  13. Eu li o estudo do Nobel recente sobre salário minimo. E ele me fez mudar minha opinião sobre ele gerar desemprego sempre.

    As redes de fast food americanas subiram os preços dos alimentos pra comportar o novo custo salarial.. Ai a margem delas não caiu necessariamente e não precisaram demitir.. Lucro, como todo bom austríaco conhece, é a diferença entre os custos e os preços de mercado no tempo. Se ela subiu os preços com facilidade pra compensar os custos maiores.

    Vi um monte de austríaco atacando esse estudo sem lerem direito. Pra mim ele pode mudar a visão que minimo vai gerar desemprego setorial sempre. Mas eu não vejo como isso ataca a economia de mercado.

    Obviamente, é problematico se os preços não subiram pra compensar os custos. Ai a conclusão que não afetou taxa de investimento setorial é problematica

  14. YURI SAO CARLENSE

    Muitos liberais tentam justificar o programa de distribuilção de absorventes usando argumento de externalidades.

    Envocam a ideia de que os custos do programa são mais do que compensados pelos benefícios.

    Meninas com absorventes deixariam de faltar as aulas –> aumenta o desempenho escolar —> melhora a qualificação da mão de obra a longo prazo.

    Mas esse argumento serviria pra tudo que é básico. Por que não fazer programas de fornecimento estatal de leite, internet, geladeiras, energia elétrica, etc ?

    Fornececimento estatal gratuito de leite: aumenta a segurança alimentar –> crianças mais bem alimentadas tem melhor desempenho escolar –> melhora qualidade da mão de obra. Crianças mais bem alimentadas –> combate a desnutrição –> evita doenças –> menores gastos com saúde pública

    Fornecimento estatal gratuito de internet –> gera mais acesso a informação –> ajuda no desempenho escolar. Maior acesso a informação –> ajuda na prevenção de doenças –> menores gastos com saúde pública.

    Fornecimento estatal gratuito de geladeiras –> ajuda no padrão alimentar –> pessoas mais bem alimentadas –> combate a desnutrição –> evita doenças –> menores gastos com saúde pública.

    Energia elétrica estatal gratuita: ajuda no padrão alimentar–> e tudo mais. Ajuda no acesso a informação–> tudo mais.

    Não percebem que este argumento serve para justificar todo tipo de intervenção estatal possível. Até o dia que virar uma URSS.

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