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O Coringa e a ideologia da destruição

“É apenas um filme sobre um homem se afundando na
loucura”, disse ele. “Só isso”.

Assim me alertou o vendedor de ingressos na bilheteria
do cinema quando eu lhe disse qual filme queria ver: Coringa.

Muito estranho. Por que o bilheteiro foi instruído a
me alertar sobre o filme? Por que ele me apresentou esta análise prévia do
filme? Isso nunca aconteceu antes. A frase soou ostensivamente ensaiada, como uma
nota de advertência dada aos espectadores com o objetivo de prevenir algo que
vem preocupando as pessoas: a hipótese de que o caos fictício apresentado no
filme venha a inspirar
imitadores no mundo real
.

Ainda assim, sua mini-análise de fato me trouxe alguma
tranquilidade. Eu me vi obrigado a ir assistir ao filme sobre o qual todos
estão falando. As cenas
prévias que vi
já eram, por si sós, sinistras. A vida já é amarga o
bastante e não necessita de filmes nos introduzindo mais tristeza, e é
exatamente por isso que eu prefiro filmes mais edificantes. Mesmo assim, eu me
mobilizei para ir assistir a este filme.

O bilheteiro estava certo, mas apenas
superficialmente. É apenas um filme sobre um homem. Mesmo após sair do cinema,
eu ainda fiquei repetindo essa frase para mim mesmo. E, ainda assim, após o
término, vivenciei exatamente aquilo que muitas outras pessoas relataram. O
filme transmite uma aura da qual você não consegue se livrar. Você leva o filme
para casa. Você dorme com ele. Você acorda na manhã seguinte e vê aquele
maldito rosto novamente. Você
relembra, repassa e repensa várias cenas. E então você relembra
de mais coisas. E aí mais elementos passam a fazer sentido — não sentido
moral, mas sentido narrativo.

Assistir a este filme foi tremendamente
desagradável. Foram as duas horas cinematográficas mais difíceis das quais me
recordo. E foi assim porque cada quadro do filme é brilhante e emocionante. Você não consegue se desvencilhar. Não consegue se
desprender. A trilha sonora é perfeita. E o mais espantoso: a
atuação não parecia ser uma atuação.

Quanto à interpretação de que “é apenas um homem”,
ela é difícil de ser sustentada. As cenas nas ruas. Os metrôs lotados de
pessoas usando máscaras de palhaço para ir às manifestações. O empresário rico
e estabelecido concorrendo a prefeito e os protestos que isso gera. A maneira
estranha como esta figura perturbadora e violenta se torna um herói popular nas
ruas. Certamente, há
algo muito mais amplo aqui.

Sim, eu já li boa parte das resenhas e,
principalmente, todo o cabo-de-guerra no Twitter sobre qual seria a verdadeira
ideologia do filme. Para alguns, ele é de extrema-esquerda e faz apologia da ideologia antifa.
Para outros, trata-se de um filme conservador que faz um alerta sobre as
consequências de políticas extremistas. Alguns gritam que o filme é uma calúnia
direitista contra a forte guinada à esquerda do Partido Democrata. Outros juram
que o filme é uma apologia esquerdista da revolta dos trabalhadores contra as
elites, na qual há a defesa explícita da máxima socialista de que ovos devem ser
quebrados para se fazer uma omelete. E, por fim, não faltaram conservadores
anti-establishment idolatrando o filme
.

O problema é que nenhuma das narrativas explica as reviravoltas,
o desconforto e a ambiguidade que o filme cria dentro do espectador.

Eu demorei um dia inteiro para enxergar uma teoria
alternativa.

O
destrutivismo

A tese provavelmente diz respeito a todas as caracterizações
do Coringa tanto nos quadrinhos quanto no cinema, mas esta é particularmente
presciente porque se concentra exclusivamente na personalidade apresentada
neste filme, pois foi a primeira vez em que a história da vida desta personagem
é apresentada de maneira elaborada e detalhada.

Todo o problema começa com sucessivos fracassos na vida pessoal. Embora ele seja um homem
visivelmente perturbado, em alguns momentos você acredita que ele talvez não
tenha chegado ao ponto de se tornar um caso perdido. Ainda há cura. Ele pode voltar a funcionar bem. Ele
pode superar isso, assim como todas as outras pessoas aprendem a lidar com seus
próprios demônios. Joaquim Phoenix faz um excelente trabalho ao retratar a
personagem entrando e saindo da loucura, de maneira inconstante. Ele parece se
comportar bem ao lado da mãe e de sua breve namorada (aqui, não posso falar
mais do que isso para não gerar spoiler).
Ele possui interações que não são totalmente destruídas por sua excentricidade.

Entretanto, circunstâncias da vida continuamente o frustram
e lhe causam rancor, até que finalmente o empurram ao ponto em que ele perde
todo o amor pela vida que tem. E então ele renuncia a qualquer esperança e
passa a abraçar por completo a descrença e o niilismo como um meio de pensar e
de viver. Ele então passa a cometer atrocidades e descobre algo que lhe traz
poder e satisfação: sua consciência não lhe fornece um corretivo. Ao contrário:
as atrocidades que ele comete o fazem se sentir fortalecido, autoconfiante e
valorizado.

Revisando: sua vida não estava funcionando; ele
descobriu algo que finalmente passou a funcionar para ele; e então ele abraçou
essa descoberta.

E o que foi que ele descobriu e abraçou? Trata-se de
algo que possui um nome específico na história das idéias: Destrutivismo.

Não se trata apenas de uma predileção, de um pendor.
Trata-se de uma ideologia; uma ideologia que se considera capaz de moldar a
história e o sentido da vida. Esta ideologia diz que o único propósito da vida
de uma pessoa deve ser o de destruir tudo o que outras pessoas criaram,
inclusive a própria vida delas.

Esta ideologia se torna uma necessidade quando um
indivíduo passa a acreditar que não tem mais capacidade para fazer o bem;
quando ele acredita que fazer o bem se tornou praticamente impossível. E ele
adota esta ideologia porque ainda quer fazer alguma diferença no mundo, porque
quer sentir que sua vida ainda possui algum propósito, e porque fazer o mal é
fácil.

A ideologia do destrutivismo permite a um indivíduo
racionalizar que o mal que ele está praticando ao menos está preparando o
terreno para uma sociedade melhor no futuro.

Qual seria essa “sociedade melhor”? Pode ser
qualquer coisa utópica que se encaixe em sua mente. Pode ser um mundo no qual
todo mundo possui tudo igualmente. Pode ser um mundo sem felicidade ou um mundo
de felicidade plena e universal. Pode ser um mundo sem fé. Pode ser um mundo em
que todos vivem em autarquia sem nenhum comércio internacional. Pode ser uma
ditadura (uma sociedade em que todos obedecem a esta pessoa). Pode ser um mundo
que aboliu o patriarcado. Pode ser um mundo sem combustíveis fosseis. Pode ser
um mundo sem propriedade privada e tecnologia. Pode ser um mundo que aboliu a
divisão do trabalho. Pode ser um mundo de moralidade perfeita. Pode ser um
mundo de uma só religião.

Qualquer que seja o arranjo sonhado, ele é anti-liberal
e, consequentemente, é impraticável e inalcançável. Consequentemente, por ser
inexequível, seu proponente irá encontrar consolo e alívio não na criação de
algo, mas sim na destruição da ordem vigente.

A primeira vez que li sobre este conceito foi no
livro Socialismo,
escrito por Ludwig von Mises em 1922. Mises apresenta este conceito já ao final
da obra, após ter provado
que o socialismo é, em si mesmo, uma impossibilidade
prática
. Se não há nada de positivo a ser feito, nenhum plano real para se
alcançar um arranjo tido como “socialmente benéfico” — porque toda a idéia é
completamente insana –, então você deve ou abandonar a teoria ou encontrar
satisfação na demolição da sociedade vigente. Os socialistas optam pela
segunda. Mises diz que tal atitude é muito óbvia no comunismo. No entanto, diz
ele, tal atitude também é presente nas versões mais leves do socialismo, como a
social-democracia, pois o objetivo de se atingir
o ideal utópico por meio de etapas
é igualmente inalcançável na prática.

O destrutivismo, portanto, é uma psicologia de
escombros gerada por uma ideologia inexequível na teoria e na prática. O Coringa fracassou na vida.
Consequentemente, ele passa a ter como objetivo destruir a vida dos outros
.

O mesmo comportamento têm aquelas pessoas que são
consumidas por uma visão ideológica a qual o mundo teimosamente se recusa a
adotar.

É por isso que qualquer interpretação sobre o filme
ser de direita ou de esquerda é excessivamente limitada. Em nossa atual era,
estamos empanturrados de personalidades midiáticas e políticas com visões
insanas sobre como a sociedade deveria funcionar. Não deveríamos nos
surpreender quando esses visionários recorrem à raiva, e então à desumanização
dos oponentes, e finalmente à criação de planos voltados abertamente a destruir
tudo o que já existe, apenas pelo prazer da destruição. Esse “tudo que já
existe” pode ser qualquer coisa: bilionários, consumo de energia, exploração de
florestas, comércio internacional, consumo de carne, diversidade, escolhas
humanas, pessoas degeneradas, pessoas tradicionalistas, ou mesmo a simples frustração
de um indivíduo ao constatar sua ausência de poder total e efetivo.

O destrutivismo é a segunda etapa de qualquer visão inalcançável
e impraticável sobre como a sociedade deveria ser em contraposição a uma
realidade que se recusa a se conformar à sua utopia.

Por fim, vale ressaltar que o destrutivismo também é
estranhamente cativante para movimentos políticos de esquerda e de direita ansiosos
em exteriorizar seus inimigos e em destruir toda e qualquer força que esteja no
caminho impedindo sua retomada de poder. Com o tempo, tais movimentos sempre acabam
encontrando satisfação na destruição — como um fim em si mesmo –, pois é isso
que os faz se sentir vivos e que fornece algum sentido à vida.

Conclusão

O Coringa, portanto, não é apenas um homem, não é
apenas um indivíduo maluco, mas sim a incorporação dos perigos insanos e
mórbidos associados a contínuos fracassos pessoais, os quais são reforçados por
uma convicção de que, quando há um conflito fundamental entre uma ideologia utópica
e a realidade, este conflito só pode ser resolvido pela criação de caos e sofrimento.

Por mais desagradável que seja, Coringa é o filme que temos de ver para entendermos — e,
consequentemente, nos prepararmos para — os horrores que esta mentalidade descontrolada
(utópica e, por isso mesmo, vitimista e derrotista) pode desencadear no mundo.

Em outras palavras, o Coringa já inspirou imitadores,
e vem fazendo isso há séculos. No caso, é o filme quem está imitando a
realidade.

 

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119 comentários em “O Coringa e a ideologia da destruição”

  1. O filme é sensacional e eu concordo com cada palavra deste artigo. É um filme obrigatório para se entender o que mentalidades perturbadas podem fazer.

    Aliás, a esquerda vem criticando o filme. Jornais como The Guardian, revistas como a The New Yorker e sites como o Slate ficaram putos porque o filme destrói a idéia esquerdista de que pessoas cometem atrocidades apenas porque estão armadas (de modo que desarmamento seria a solução). Não. Como o filme mostra, pessoas cometem atrocidades porque são desequilibradas mentais. Ponto. Atribuir ao indivíduo a culpa por suas falhas não é uma atitude muito popular entre a esquerda.

  2. O filme O Cavaleiro das Treves Ressurge era abertamente conservador e anti-esquerda . Quanto ao Coringa, ainda não sei me posicionar.

  3. O filme é uma demonstração do que a anomia social e o ressentimento esquerdista podem fazer com uma mente perturbada. É um retrato desesperador das consequências do mundo sem Deus, sem propósito, sem transcendência e sem redenção que a geração de maio de 1968 tentou criar.

    O filme é muito bem feito da perspectiva artística e a atuação do Joaquin Phoenix é genial, mas o desconforto e a agonia que ele causa no telespectador lembram o incômodo e a aflição causados pelos filmes niilistas do Harmony Korine. O antídoto está em obras como Crime e Castigo.

  4. Vejam o filme e depois leiam “A Faca Entrou”, do Dalrymple. Tudo fará bem mais sentido.

    "O insight perturbador proposto pelo psiquiatra em seus escritos é o de que os grandes intelectuais da modernidade — de Coleridge a Cesare Battisti, passando por Virginia Woolf e Sigmund Freud –, criaram um discurso que, para fazer sentido na realidade alternativa que viviam, era fundamental abolir o que o filósofo alemão Hans Jonas descobriu como sendo "o princípio da responsabilidade". Trata-se do nexo causal que permite o ser humano perceber a si mesmo como alguém objetivamente responsável tanto por suas ações como por seus pensamentos e emoções.

    O resultado dessa percepção não o paralisa de forma alguma. Pelo contrário: é quando a pessoa tem plena noção desse princípio que ela pode tomar conta da sua própria vida — e enfim redescobrir a liberdade que lhe foi negada pelos poderes e potentados deste mundo."

    medium.com/@martimvasques/um-doutor-johnson-para-os-nossos-tempos-79e4f26ae9c3

  5. Chibata Austríaca

    O sujeito do artigo infelizmente não entendeu nada do filme rsrs

    É bom lembrar que não devemos confiar no Coringa. Pode ser que tudo que se passou no filme seja apenas um delírio da cabeça dele. Mas uma característica marcante do Coringa é a FALTA DE EMPATIA.

    Quando você lê os artigos do Mises e vê pessoas sendo condenadas porque não trabalham, que elas não merecem desfrutar das belezas da vida por não ter o dinheiro suficiente, quando você vê o pessoal do Mises indiferente ao sofrimento dos pobres, quando você vê o pessoal do Mises defendendo o armamento e a utopia do livre comércio, a defesa da propriedade privada que mais se confunde com um mero egoísmo tacanho.

    Lembrem-se o Coringa é como o site MISES…a gente lê os artigos mas não devemos confiar nele.

    Ele só quer destruir a ordem do Estado e bagunçar sua cabeça.

  6. O fator merecimento deve ser um determinador de preços? Um funcionário público deve ganhar 96% mais do que a média mais só porque se sacrificou? Ou é a necessidade?

  7. Vi ontem a noite. E esta foi a melhor análise que li sobre o tema. Sem lacração, sem viés ideológico, sem frases de efeito. Filme perturbador e muito bem feito. Obrigado.

  8. Ótimo diagnóstico. Vejam a história do Khmer Vermelho para entender o resultado de se querer criar uma nova sociedade baseando-se na violenta destruição da atual.

    Há uma cena em O Cavaleiro das Trevas onde Alfred tenta dar uma resposta a Bruce Wayne sobre o que motiva o Coringa: "Algumas pessoas simplesmente querem ver o mundo pegando fogo."

  9. Existe um grupo de pessoas em fóruns de internet e redes sociais que se encaixam exatamente neste perfil: os incels (sigla inglesa de celibatários involuntários).

  10. O artigo está correto. O filme “Coringa” é PERTURBADOR. Difícil assistir sem pensar nos Psicopatas do mundo real. Lembrei do Unabomber. Do assassino de John Lennon. E tantos outros monstros. No caso específico deste filme, fica difícil decidir: A Arte imitou a Vida ou a Vida imitou a Arte?

  11. Existe diferença de culturas. Um japonês quando fracassa pratica haraquiri, ou seja, se mata. Já um americano quando fracassa, vai pra um estabelecimento coletivo (seja escola, universidade, um restaurante ou um supermercado), mata trocentas pessoas e depois se mata.

  12. O filme “O procurado”.. tremenda de uma imbecilidade sobre um sujeito que não muda de vida, daí é forçado a descobrir que tem um dom de… assassino, que é obrigado a seguir ordens de um mestre da tradição medieval de interpretar informações binárias de uma máquina de tecelagem!!

    Aplicando decentemente a famosa frase da célebre filósofa infantil de nosso tempo: “How dare you?”

    Como ousaram induzir tamanha crueldade com a física, os mosquitos e os ratos, e isso passar impune rsrs.

    Prefiro o Hank, de “Eu, eu mesmo, e Irene”, além de divertido consegue ser mais honesto com sua “esquizofrenia ilusória avançada com ira narcisista involuntária” kkkkk.

  13. Psicóloga_natalia

    Muitíssimo interessante essa perspectiva da ideologia da destruição. É meio que uma projeção no mundo do efeito da auto destruição que a realidade e a loucura causam nele simultaneamente. É levar ao escárnio e externalizar toda destrutividade e perversidade ao qual está submetido numa sequência insana de tragédias, e sem outra opção de ajuste ou perspectiva de melhora, o botão da destruição fosse acionado levando-o a ações de cunho perverso e simplesmente impactante para o mundo. O coringa personifica a tentativa irracional de quebrar o paradigma de modo insano e altamente crítico da realidade.

  14. Esse filme é o ápice do vitimismo. Da mensagem esquerdista de vítima da sociedade. Esse não é o Coringa das histórias em quadrinhos e dos outros filmes. Assisti, mas já sabendo pelos comentários como seria, estava armado para não cair na narrativa e repetir o discurso. Tentei assirtir o filme imaginando como o vilão sempre foi, como Gotham City é, porque se não a gente fica com pena dele e torce por ele mesmo . O que me deu foi vontade de assistir Batman O Cavaleiro das Trevas de novo, para assistir a atuação impecável do Ledger. Se for para levar para vida real então, Gotham City é o Rio de Janeiro e traficantes são todos personificações do Coringa.

  15. vcs sabem que não adianta tentar justificar que o personagem esta errado e vocês estão totalmente certos, pq vcs não estão certos, da mesma forma que ele não esta certo, mas tanto na realidade quanto no filme, relações onde não há amor e afeto, a destruição gera alivio, o objeto de desejo que não pode ser alcançado , se for destruido, gera uma descarga emocional muito grande, e a pessoa que destrói para se libertar da carga, ela não se importa mais se é um objeto inanimado ou se é uma pessoa, apenas a imagem que importa , ela destruida e toda carga emocional vazando e esvaindo e libertando de toda dor e sofrimento , e isso é viciante …

  16. Acho que essa foi a primeira vez que não concordei com o que li aqui no site.

    Achei a análise do filme muito superficial e política demais.

    Estão polarizando até o filme…… me senti numa roda de pessoas que só sabem colocar “a culpa na esquerda ou direita”.

    O filme retrata sim a falência de uma sociedade, mas não dessa maneira colocada. Após assistir o filme todo vou tecer mais comentários sobre isso (ou não).

  17. Não assisti ao filme ainda, mas com todos os comentários, políticos ou não, sobre o mesmo e com toda a discussão em voga sobre a banalidade da violência e se o criminoso é uma “vítima da sociedade” ou não, lembrei de um filme dos anos 90 que muitos gostaram, e outros torceram o nariz, chamado Oito Milímetros, com Nicolas Cage. Guardadas as devidas proporções com qualquer película sobre violência, lembro que havia visto o filme sem qualquer pretensão. E achei muito interessante, afinal o tema era muito sério. Logo depois li um artigo num antigo Site chamado O Indivíduo onde o autor discorre sobre a participação do diabo em 04 filmes: um filme francês que não me recordo mais; O Advogado do Diabo; Seven Os Sete Crimes Capitais e o Oito Milímetros. Pois bem, logo após a leitura do artigo tive que assistir ao filme novamente e, claro, descobrir a essência a que o autor brilhantemente se referia, ou seja, que somos, sim, responsáveis pelos nossos próprios atos, por mais que a mídia, a justiça e a comunidade médica (psiquiatria, etc) tente caracterizar um criminoso como inimputável, devido à traumas de infância, loucura, etc. E a cena final, impactante, serve de exemplo. Cage derruba um dos assassinos e pede para que este tire sua máscara (ele a usava no momento do crime). Quando a tira, deixa transparecer uma figura simples, normal. Um rosto quase infantil. Ele inclusive coloca os óculos e diz: “O que estava esperando? Um monstro? Minha mãe nunca me bateu. Meu pai nunca me estuprou. Eu fiz porque eu quis! Eu fiz porque eu gosto!!” Bingo. Jean-Jacques Rousseau e seu “bom selvagem” não curtiria este filme.

  18. Esse filme, em vários momentos, é uma cópia de V de Vingança, só que voltado para a loucura como solução para o fim das manipulações (se é que isso realmente pode acontecer, pois ao meu ver, sempre haverá quem manipule e quem seja manipulado); enquanto V de Vingança caminha pela articulação das ações, um movimento orquestrado das peças no tabuleiro do poder

    Entre V de Vingança e Coringa (que é um bom filme), ainda fico, sem sombra de dúvidas, com o primeiro

  19. “Quando o indivíduo atribui seu fracasso pessoal ao fato de o mundo não ser como ele deseja”? Ego sobre alma/essência espiritual… o contrário do que temos por cumprir nessa existência, o mal sobre o bem.

  20. Esse chibata austriaca é um dos coringas,so que tem boquinha em estatal,por isso defende o mesmo. Pois sabe que fora da estatal tem que ser baderneiro pois nao consegue nada fora da boquinha em estatal. O tipico frouxo. Bem tipico de estatistas.

  21. O Coringa não é de esquerda, não tem convicção alguma de esquerda e é até o avesso de toda e qualquer pessoa que tem alguma ideologia de esquerda. A comoção social mostrada no filme se dá em função da criação de um falso episódio relacionado ao personagem: o de que ele tenha matado os três homens em função de eles serem ricos. Ele mata não porque é pobre e mal sucedido, ele mata frente a uma reação de extrema violência a qual se viu vítima. A mídia assim o faz para criminalizar as classes oprimidas e criar o alarde do quanto ela pode ser perigosa, marginalizando ainda mais os já marginalizados da sociedade. A massa apresentada pelo filme nada tem de política partidária, de ideologia, de organização, de consciência, de crítica; apenas vai se identificar com o falso homicida criado pela mídia sensacionalista. O fenômeno social presente no filme , é claramente fruto de uma criação da mídia , onde a população completamente desprovida de qualquer consciência política e crítica, bem como desprovida de qualquer liderança (isto é bem claro no filme) age irracionalmente. O Coringa nada tem a ver com estas ideologias de esquerda e de direita. O Coringa tem a ver com algo que é fundamental de qualquer ser humano: existir para o outro, ser reconhecido como semelhante pelo outro, de não ser invisível, de não ter a existência reconhecida pelo outro. Ocorre que de repente e acidentalmente (seu primeiro crime – se é que foi um crime, pois me pareceu tratar de legítima defesa), ele passou a existir , a ser considerado pelo outro, a ser visto, a ter importância. A pessoa principal do filme gostou de ter existido! E todos nós gostamos de existir tb! Não há mal nenhum nisto! É necessário e humanizador! É disso que o filme trata! FILME fANTÁSTICO!!! uM DOS MELHORES QUE JÁ VI!!!!

  22. O filme Coringa encontra respaldo na “teoria das massas” ou histeria das multidões. A mensagem que ele envia para as multidões retorna para ele como apoio e pela primeira vez ele se reconhece como Ser e passa a expressar o que o tempo todo procurava inibir, que era o desejo de matar e assim anular o que lhe causava dor e reprimia.

  23. Discordo.

    O filme não tem ideologia.

    A triologia de nolan tem, mas esse ai não.

    Tirando a ideia de que esse típo de problema é causado por todos, e afeta a todos.

    É a mídia, a classe política, os empresários, os trabalhadores, os estudantes, os professores e os desempregados.

    Todos causam o problema, e o filme nem diz se isso é evitável ou não, deixa em aberto.

  24. KKKKKKKKK… Cara, desta vez eu tenho que discordar com o autor disto e de metade dos comentários aqui. Vocês assistiram “Joker” mas não entenderam o vilão.

    Arthur Fleck fêz aquilo no metrô (Spoiler) porque ele estava cansado de sofrer com as doenças que ele tinha e com os problemas sociais que ela causava pra ele. O ato dele foi tão involuntário que ele fala “Eu achava que eu não existia, mas eu existo”. Isso significa que ele foi a fagulha pra Gotham explodir-se sozinha, sendo ele só o “doidão” que faltava pra começar com toda a anarquia.

    Eu acho engraçado que o autor comete o mesmo erro do personagem Murray no filme, achando que o coringa liga pras ações que ele cometeu, de que ele planejou alguma porra com isso. kkkkkkkkkk… Como dizia o Coringa de Heath Ledger: “E eu tenho cara de quem faz planos?”

  25. Nem de direita nem de esquerda, o Coringa no decorrer dos acontecimentos de sua vida – Tornando-se perturbado, tornou-se um Anarquista/Psicopata.

  26. O único erro que o Jeffrey Tucker comete nesse artigo é o uso da palavra “utopia”, quando na verdade o destrutivismo é fruto de ideologias distópicas.

  27. O Coringa nunca poderia ser de direita. Se ser de direita é ser conservador (no sentido de conservadorismo inglês), então é impossível ser destrutivista. Essa ideia destrutivista, principalmente na forma de criticar tudo independente do que for, vem da Escola de Frankfurt, que é de esquerda.

  28. Quer dizer então que o objetivo e intuito doutrinatório do filme acabou fracassando e tendo efeito reverso, assim como aconteceu com o filme Tropa de Elite 1, culminando mais uma vez com o tiro saindo pela culatra?

    Que coisa maravilhosa e formidável, pessoal !!!

    Coitada da Lei de Murph. Está sendo posta de escanteio pela Lei Lacron.

    A lacrolândia deve estar espumando. Nada está dando certo para eles ‘-‘ rsrsrs

  29. Parabéns!

    Primeira crítica decente que vi do filme.

    Fiquei estarrecida vendo o filme, só não saí no início porque estava com um amigo que queria muito ver.

    Achei extremamente apelativo ao coitadismo(nem sei se existe essa palavra) a personagem e justificando suas atrocidades ao próximo por conta de uma vida difícil.

    Fora a atuação brilhante do Joaquim, não gostei de nada do filme!

  30. O estado cria lunaticos como o Coringa. Simples assim. A ineficiencia estatal , O coletivismo contra o individualismo. ha nao aceitaçao da sociedade de que um individuo tem um problema psicologico. tudo isso ajudou a criar o Coringa. que nada mais é que o fruto desse caos chamado estado.

  31. O título do artigo deveria ser assim: “Coringa e a ideologia REVOLUCIONÁRIA da destruição: dialética negativa da Escola de Frankfurt”.

  32. Bem, acho essa análise extremamente coerente com o cânone do personagem nas HQs: ele é a representação do niilismo nos quadrinhos. Saiu um vídeo no canal Foundation for Economic Education explicando justamente sobre o simbolismo da dualidade entre Batman/Coringa (usando como pano de fundo a própria história do narrador do episódio, que é um iraniano que fugiu da devolução islâmica que ocorreu por lá em 79 – fugiu com a família enquanto era criança).

  33. Os antigos gregos já alertavam sobre o perigo da arrogância, de não compreender e aceitar como a realidade funciona e os limites naturais do ser humano (individual e coletivamente).

    * * *

  34. NELSON ALVES DA SILVA

    O grau extremo de obsessão é a “Fascinação”, quando o individuo se entende como o “máximo”; sente que pode tudo, como se fosse um deus; no caso, que pode destruir tudo… Num mundo construtivista isso é um absurdo, inaceitável!!!

    Mas, na jornada da existência, a ordem natural é entendida como o equilíbrio entre Destruição = o deus Shiva e o processo contínuo de Construção = o deus Brahma, que seria o conjunto da Sociedade ativa e Laboral, bem caracterizada no artigo…

    A meu ver, faltou a “Articulista” incluir nessa excelente avaliação, o Batman, o preservador, como Vishnu; um “Terceiro Personagem”, fundamental para a expansão da percepção que precisamos ter sobre a realidade conflituosa que estamos vivenciando.

    Enquanto Brahma cria, Vishnu atua para preservar a vida e toda a criação biológica e material; o Curinga, como Shiva, tem um “papel fundamental”; ele é destruidor do mundo dominante, para que haja espaço para Brahma criar, mantendo assim, um ciclo de eterno movimento.

    – De que lado nós estamos?

    – Podemos existir sem a oposição?

    Certamente, agora, estou motivado a ver o Filme.

  35. Coringa, Joker em Portugal.

    É curioso que o Joker só tem aquele riso nervoso em algumas cenas, as cenas que apelam mais à compaixão do espetador.

    Penso que todo o filme não passa de uma fantasia criada na mente de Joker. Ele tem como objetivo, com essa fantasia, criar para si próprio uma transcendência da sua própria realidade, substituindo a sua existência miserável – fruto da sua condição e das circunstancias – pela do Herói aclamado pela Cidade. Com esta fantasia, ele permite-se viver uma alegria e um reconhecimento nunca antes alcançado, ainda que através de múltiplos crimes. Esta fantasia Infantil vai de encontro ao mais básico das emoções do espetador que é "quase levado a julgar que o homicídio quando praticado como vingança é legítimo. E além disso é estéril, pois não apresenta nenhuma alternativa.

    E leva a manada a , e o espectador ; a aderir emocionalmente há ideia de que o mundo ficará melhor se eu, nós, destruirmos tudo o que nos incomóda. Enfim, típica Lição de Esquerda. è um filme que apela descaradamente à revolução dos coitadinhos.

    Não ponho em dúvida as razões dele, mas o mundo não é Justo com Ninguém.

    Imaginámos que com o avanço do conhecimento iríamos transcender as leis da Natureza ou seja deixaríamos de ser Bichos e estaríamos Livres dos comportamentos básicos deles. Não, continuamos Mamíferos.

  36. Se o Coringa não é esquerdista, ele é fruto do niilismo, do relativismo, da inversão de valores, do estatismo e de outras atitudes e práticas que a esquerda promove.

    Mas é sempre assim – quando vêm os inevitáveis maus resultados, os esquerdistas dão pelo menos uma das seguintes explicações:

    (1) Marx foi deturpado;

    (2) Houve sabotagem reacionária;

    (3) Ele não era realmente de esquerda, na verdade ele era de direita [liberal-conservador].

    * * *

  37. Incrível como se pode descambar para a bobagem de discutir se um grande filme, como é “Coringa”, é…de “esquerda” ou “direita”. Que tempos curiosos vivemos!

    ps.: a propósito, sobre elementos pouco equilibrados que se tornam destrutivos pela própria incapacidade de construir algo digno, temos o nosso próprio destruidor…está no mais alto cargo do poder. Que tempos sombrios.

  38. Interessante, já vi pessoas falando sobre a Escola de Frankfurt e ressaltando algo que conceitualmente se encaixa exatamente no que o artigo trata como “destrutivismo”, onde o intuito não é trazer nenhuma proposição positiva mas sim pura e simplesmente destruir o que está posto.

    Eu fiquei até um pouco impressionado, pois lendo o artigo na hora eu lembrei de um outro que eu já li há algum tempo que falava sobre a visão destrutiva da Escola de Frankfurt.

  39. Estava procurando pra mostrar, mas não encontrei, uma cena do Cavaleiro das Trevas, filme do Batman, não sei qual deles, se o último ou não, em que o Coringa prende pessoas num barco que pra sobreviverem tem que se matar uns aos outros ou algo assim, mas eles ouvem o discurso, uma mensagem, mas que soa como o mais belo discurso que já ouvi, dele dizendo o que o Coringa queria realmente com isso, nos rebaixar, mostrar que não tínhamos valores, que a moral era uma farsa, que a humanidade era isso mesmo, um lixo e não prestava. Ainda vou achar este excerto que serve como antídoto a toda ideologia de merda que um filme como o Coringa passa.

  40. Roberto Joaquim de Melo

    Eu vivo na periferia de São Paulo, acossado pelo desemprego, a espera por um atendimento decente na rede pública de Saúde, não tenho filhos mas posso comprovar a péssima educação a que são submetidas as crianças e jovens, as tensões criadas e estimuladas por irresponsáveis ideológicos, as drogas que todos insistem em não querer ver a escravização de gerações, a violência doméstica, nas ruas e nas interações sociais entre as classes, uma revolta que está prestes a explodir, eu posso ver milhares de Coringas matando, roubando, e estuprando mulheres e crianças, alucinados por álcool e drogas, e coisas como “bem comum”, “cooperação”, em suma, os valores que ainda acredito se transformarem em piada de entrevistadores humoristas, uma praga brasileira, fazendo piada de nós, pobres, para o riso e a chacota dos filhos das classes mais abastadas nos bares e restaurantes da moda, nas redes sociais, e os seguidores de subcelebridades que mal pensam e escrevem invejando o destino mais feliz de seus “ídolos”. A sensação é que logo estaremos enfrentando uma realidade distópica igual a do filme Blade Runner 2049.

  41. Coringa foi realmente um filme que me fez refletir bastante. Aliás, um ótimo artigo que vocês escreveram, gostei bastante! Aproveitando o momento, queria deixar uma leitura complementar sobre a doença que o coringa tem, que faz ele rir daquela forma, se estiver interessado em saber mais: blog.vitta.com.br/index.php/2019/12/11/entenda-a-causa-das-risadas-do-coringa-hamartoma-hipotalamico/

  42. É um debate interessante, geralmente quando somos confrontados por uma suposta “realidade”, nós ficamos perplexos, questionando á nós mesmos qual será á suposta solução para tais problemas apresentados, isso geralmente se dá, ou quando nos é apresentado uma narrativa desagradável e que reflete algo considerado negativo na realidade, ou quando alguém nos diz tal fato que não queremos ouvir, mesmo quando já sabemos de tal realidade.

    É tipo quando você possui algum suposto “defeito” – E defeito supostamente é algo que à sociedade considera como negativa, uma falha ou imperfeição -, e mesmo já sabendo dele, alguém acaba surgindo para criticar tal “defeito”, que acabam, como efeito, te deixando desanimado, triste e perplexo, pensante em qual será á solução para isso.

    Eu penso que esse efeito é, de certa forma, algo necessário para á humanidade, mas também ocasionalmente penso que isso acaba sendo uma espécie de amarra, que impossibilita o indivíduo de avancar e se impor.

    Estou nesse dilema já faz um tempo: Serão os sentimentos realmente necessários para manter á sociedade no caminho sensato, ou serão os sentimentos algo gerador de incertezas, que corrompem o ser humano? Se pensarmos por um lado, o fator emocional “Medo” possui diversas utilidades para evitar de ás pessoas de fazerem o que quiserem, mas será que o ódio, a raiva e o sentimento de incerteza trás um benefício ao ser humano como um todo?

    Em última analise, também podemos dizer que emoções são o principal impulsionador que dá á razão para o ser humano existir, falo de sentimentos típicos e positivos como “satisfação”, “prazer” e “otimismo”, pois sem eles, não teriamos motivos para sequer evoluirmos ou tentarmos ser alguém na vida.

    Logo, o ideal seria tirar os sentimentos negativos dos positivos, ou será que os sentimentos negativos também são necessarios para manter á sociedade em ordem?

    Ainda não.cheguei á uma conclusão, mas se tiver algum psicólogo genuíno aqui disposto á responder tais perguntas, ou alguém disposto á indicar um livro que os responda, eu agradeceria, até porquê não entendo muito de psicologia, apesar de ser bem interessado desde sempre em tal assunto. E até hoje nunca vi alguém debatendo seriamente sobre esse assunto.

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