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O grande problema do socialismo não é a falta de conhecimento, mas sim a incapacidade de calcular

Este ano é o 30º aniversário do segundo debate sobre o problema do cálculo
econômico em uma economia socialista
.

Este segundo debate começou com um artigo
publicado por Israel Kirzner em 1988 no periódico Review of Austrian
Economics
, no qual ele analisava o debate original entre Mises, Hayek e os
“socialistas de mercado” (como Oskar Lange, que acreditavam que o socialismo
poderia funcionar caso os planejadores centrais “imitassem” o mercado em suas
planilhas), com o intuito de apresentar algumas lições para os austríacos
modernos. O artigo gerou várias respostas dos austríacos associados ao Mises
Institute.

Eis a questão:

a) Mises dizia que o problema do socialismo é que a
ausência de propriedade privada dos meios de produção impede o surgimento de preços de
mercado
, o que por sua vez torna impossível fazer cálculos econômicos sobre
lucros e prejuízos, tornando toda a alocação de recursos escassos irracional e
ineficiente.

b) Já Hayek dizia que o grande problema do
socialismo é o fato de as informações estarem naturalmente
dispersas por toda a sociedade, sendo impossível a um grupo de planejadores
centrais apreender todas essas informações, utilizá-las corretamente e
convertê-las em produção racional. Consequentemente, é impossível esse comitê
central gerenciar a economia e fazê-la produzir de forma otimizada. Para Hayek,
portanto, o problema do socialismo está enraizado na ignorância ou falta de
conhecimento da autoridade central de planejamento.

Sendo assim, a pergunta é: seria útil distinguir a
posição de Mises da de Hayek, ou seria melhor se referir a elas como a posição
Mises-Hayek? A mim me parece claro — principalmente após minha última e
cuidadosa releitura de Ação Humana (para
escrever meu livro Escolha) —
que Mises e seu “problema do cálculo econômico sob o socialismo” é bem
diferente do “problema do conhecimento” hayekiano. Com efeito, a importância
colocada por Mises na questão do cálculo econômico é devastadora para o
argumento socialista.

Mises
não estipula que haja conhecimento disperso

Deixe-me enfatizar: os famosos artigos de Hayek
sobre “o problema do conhecimento” — principalmente o seu “O Uso do Conhecimento na
Sociedade
” — são obras-primas de leitura obrigatória.

Ainda assim, todos os problemas enfatizados por
Hayek, como conhecimento disperso, conhecimento tácito e o fato de os preços
serem um mecanismo eficiente para a transmissão de informações — nada disso representa a falha fundamental
que Mises atribuiu ao socialismo.

Desde o início, quando Mises começou a destrinchar
os problemas do socialismo, ele partiu do princípio, para o bem do debate, que
o planejador central de um regime socialista era um ser não apenas totalmente
bem intencionado, como também já usufruía todos os conhecimentos técnicos
relevantes à sua disposição.

Apenas para deixar claro, no mundo real, esses
problemas enfatizados por Hayek de fato
existem
e são incontornáveis: seria humanamente impossível que um ditador
socialista conseguisse apreender todos os “fatos existentes e dispersos ao
longo de toda a economia do país”, e absorvê-los em sua mente de modo a tomar
decisões boas e racionais.

No entanto, mesmo levando em conta esta
impossibilidade prática, Mises, pelo bem do debate, pressupôs que o comitê
central socialista seria formado por homens iluminados, oniscientes e
perfeitamente capazes de apreender e reunir todo o conhecimento disperso na
sociedade. E, ainda assim, afirmou Mises, esses planejadores socialistas
estariam perdidos e tateando no escuro.

Mesmo sendo detentores de todo o conhecimento
existente na sociedade, os planejadores socialistas simplesmente não teriam
como avaliar se os recursos escassos — recursos naturais, bens de capital e
mão-de-obra — à sua disposição estariam sendo empregados da melhor maneira
possível. Os planejadores socialistas não teriam como mensurar a eficiência econômica de seu plano para
os recursos da sociedade.

Eis, resumidamente, o argumento de Mises:

1) Sob o socialismo, os meios de produção (fábricas,
máquinas, ferramentas e mão-de-obra) não possuem proprietários privados. Eles
pertencem ao estado.

2) Se os meios de produção pertencem exclusivamente
ao estado, não há um genuíno mercado entre eles.

3) Se não há um mercado entre eles, é impossível
haver a formação de preços legítimos para esses meios de produção (o que inclui
os salários da mão-de-obra).

4) Se não há preços, é impossível fazer qualquer
cálculo de custos. E sem cálculo de custos, é impossível haver qualquer
racionalidade econômica na alocação, o que significa que uma economia planejada
é, paradoxalmente, impossível de ser planejada.

5) Sem preços, não há cálculo de lucros e prejuízos,
e consequentemente não há como direcionar o uso de meios de produção para
atender às mais urgentes demandas dos consumidores da maneira menos dispendiosa
possível.

Dado que a própria essência do socialismo é a
propriedade coletiva dos meios de produção, e dado que tal arranjo não permite
o surgimento de preços de mercado, e dado que sem preços não há o mecanismo de
lucros e prejuízos, que é o que traz racionalidade para qualquer processo
produtivo, o comitê de planejamento central não seria capaz nem de planejar nem
de tomar qualquer tipo de decisão econômica racional.

Suas decisões necessariamente teriam de ser
completamente arbitrárias e caóticas. 
Consequentemente, a existência de uma economia socialista planejada é
literalmente “impossível”.

Assim, parece óbvio que aquilo que Mises rotulou de
“o problema do cálculo” não era, e nem poderia ser, “o problema do
conhecimento” associado a Hayek. Apontar isso não significa, de modo algum,
desmerecer a importância do problema do conhecimento; é simplesmente observar
que ambos representam falhas distintas do socialismo.

A
resposta inicial de Hayek para os “socialistas de mercado”

É possível obter outras evidências de que Mises e
Hayek não estavam dizendo coisas idênticas quando nos lembramos da famosa
reação de Hayek à “solução matemática” que alguns economistas propuseram em
resposta a Mises.

Especificamente, H.D. Dickinson, em 1933, argumentou
que Mises havia exagerado quando afirmou (originalmente em um artigo de 1920, em
alemão) que seria impossível para os planejadores socialistas arranjarem
racionalmente as questões econômicas. Treinado na tradição walrasiana do
equilíbrio geral, Dickinson alegou que um planejador socialista só precisaria
saber as relevantes funções matemáticas da produção, a oferta de recursos e as
preferências dos consumidores para poder determinar um plano eficiente. Afinal,
os economistas matemáticos já faziam isso: munidos apenas destas poucas
informações, eles eram capazes de gerar um modelo matemático de “equilíbrio
competitivo”. Sendo assim, por que um planejador socialista não poderia, pelo
menos em princípio, fazer a mesma coisa para o mundo real?

Em resposta, Hayek, em 1935, argumentou que tal
solução matemática “não é uma impossibilidade no sentido de ser logicamente
contraditória”. Mas rejeitou essa tese como sendo uma resposta séria ao desafio
de Mises porque

o
que é relevante na prática, neste quesito, não é a estrutura formal do sistema,
mas sim a natureza e a quantidade de informações concretas necessárias caso o
objetivo seja obter uma solução numérica. E a magnitude da tarefa necessária
para se obter esta solução numérica é humanamente impossível.

Creio que todos podemos concordar com Hayek quando
ele diz que os socialistas que defendiam um sistema walrasiano de equações com
o objetivo de “resolver” o problema econômico do socialismo estavam totalmente
iludidos caso honestamente acreditassem que isso iria funcionar. Ainda assim, a
reação de Hayek aboliu uma das condições
que Mises havia estipulado
.

Em seu ataque original, Mises não argumentou que os
planejadores socialistas não seriam capazes de processar, em tempo real,
informações dispersas. Não, Mises enfatizou repetidamente que haveria uma ausência categórica de apenas de um tipo
especial de informação
(se quisermos utilizar essa palavra), a qual só poderia ser produzida em meio a
instituições de mercado
.

Não é algo meramente pedante alguns austríacos
atuais dizerem que Hayek suavizou a crítica que Mises havia feito. Em um famoso
(e presunçoso) artigo de 1936, Oskar Lange primeiro faz uma homenagem em tom de
zombaria a Mises — dizendo que os futuros planejadores socialistas deveriam
erigir uma estátua a ele –, e então argumentou que Hayek havia diluído as
afirmações arrojadas de Mises:

Assim,
o professor Hayek e o professor Robbins [em sua ênfase na descomunal quantidade
de equações que seriam necessárias para implantar uma solução matemática para a
economia socialista] abandonaram o ponto essencial feito pelo professor Mises,
e recuaram para uma linha de defesa secundária. Em princípio — admitem eles
–, o problema é solucionável, e não se pode duvidar que um economia socialista
pode resolvê-lo por meio de um simples método de tentativa e erro, assim como é
feito em uma economia capitalista.

Não creio que Lange estivesse apenas fazendo um
ataque rasteiro neste ponto. Creio que ele está corretamente apontando que a
concessão feita por Hayek em relação à possibilidade lógica da “solução
matemática” é algo que o próprio Mises jamais teria escrito. Com efeito, em seu
livro de memórias Notes
and Recollections
, Mises se refere a esses economistas que tentavam
criar soluções matemáticas para o socialismo. Diz ele: “Eles foram incapazes de
ver o principal desafio de todos: como pode a ação econômica, que consiste em
decisões de preferir e descartar — ou seja, de fazer valorações desiguais
sobre as coisas –, ser transformada em valorações iguais e em equações?”

Algo
completamente novo

Quando um economista acadêmico convencional —
treinado no uso das funções de produção Cobb-Douglas e nas funções de utilidade
Neumann-Morgenstern — se depara com esta frase de Mises, ele
compreensivelmente revira os olhos e critica este “antiquado” pensador
austríaco. “Ora, mas é claro que podemos usar equações para modelar a ação
humana na economia!”, diz o economista moderno. “De que outra maneira as
pessoas em nossa economia moderna usam números? Se o consumidor médio é capaz
de fazer tais juízos de valor, então o que impede que professores treinados e
encastelados em suas Torres de Marfim ou mesmo planejadores centrais
oniscientes façam o mesmo?”.

E, ainda assim, esse é apenas o outro lado da moeda.
Mises não apenas identificou a falha crucial do socialismo, como também
explicou como uma economia de mercado resolve
o problema. 

Mais especificamente, a instituição da propriedade privada e o uso
de um meio comum de troca (dinheiro) permitem o surgimento de genuínos preços de mercado para todos os bens e
serviços disponíveis. Consequentemente, empreendedores tornam-se capazes de
fazer os cálculos monetários necessários
e, com isso, incorrer em projetos que acreditam ser lucrativos e evitar aqueles
em que acreditam que terão prejuízo.

É este processo de mercado que permite a um sistema
capitalista alocar recursos eficientemente, ao passo que um sistema socialista,
por não ter esse sistema de preços livremente formados (por causa da ausência
de propriedade privada dos meios de produção), não consegue o mesmo — nem
mesmo “em princípio”.

Em minha opinião, foi Joe
Salerno
quem apresentou a melhor e mais sucinta explicação, em um
artigo de 1994
:

Vejo
o ato de se fazer avaliações e estimativas como algo que não é nem conhecimento
e nem aritmética, mas sim algo completamente novo
, introduzido ao mundo somente
quando os pré-requisitos institucionais de uma economia de mercado estão
presentes.

Desta
forma, o processo social de avaliação e estimativa transcende as operações —
puramente individuais — de conhecimento e cálculo, ao mesmo tempo em que as
complementa ao criar as indispensáveis condições para as escolhas racionais
feitas por empreendedores e proprietários de recursos que operam dentro de um
sistema de divisão do trabalho. [Negrito meu]

Deixe-me tentar colocar dessa maneira: quando usamos
um termômetro para mensurar a temperatura dentro de um forno de uma padaria, o
aparelho nos transmite informação. Há um verdadeiro e objetivo “fato da
realidade”, que é a energia cinética das moléculas de ar indo, voltando e
colidindo entre si dentro do forno, e o termômetro é uma maneira imperfeita de nos
transmitir esses dados de uma forma que nossa mente possa compreendê-los e
incorporá-los em nossas decisões.

Mas a questão é que não há nenhuma dúvida de que o interior
do forno realmente possui uma
temperatura, independentemente de nós a mensurarmos ou não com um termômetro.

Em contraste, se perguntarmos “Qual é o valor econômico do forno?”, aí já
teremos uma pergunta fundamentalmente distinta. Este não é um fato objetivo incrustado e enraizado no arranjo das coisas.
A pergunta leva em contra todas as preferências subjetivas de todas as pessoas
do planeta, bem como suas expectativas quanto à possibilidade de transformar a matéria
em formas distintas.

Trata-se, com efeito, de uma pergunta estonteante e
desconcertante, a qual só pode ser respondida
se você estiver atuando dentro de uma economia de mercado e for capaz de fazer estimativas
sensatas e bem informadas sobre o quanto as pessoas estariam dispostas a pagar
pelo forno.

Conclusão

Mises e Hayek foram ambos economistas brilhantes que
fizeram numerosas e valiosas contribuições para a tradição austríaca. No entanto,
não é correto se referir à “posição Mises-Hayek” no famoso debate sobre o
cálculo econômico no socialismo, pois fazê-lo obscurece o entendimento
misesiano do cálculo, o qual é necessariamente um cálculo monetário e não um problema de conhecimento.

Embora intelectuais e acadêmicos devam sempre exercitar
a cortesia em suas avaliações, é necessário separar argumentos distintos que às
vezes são agrupados como se fossem iguais.

 

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57 comentários em “O grande problema do socialismo não é a falta de conhecimento, mas sim a incapacidade de calcular”

  1. Vale lembrar que nem Marx nem nenhum socialista jamais ofereceu alguma explicação sobre como o socialismo funcionaria tão logo o capitalismo desaparecesse. Não há um mísero livro demonstrando como seria o funcionamento de uma sociedade socialista. Há vários livros sobre o funcionamento de uma sociedade capitalista, mas nenhum sobre uma sociedade socialista.

    Marx, inclusive, chegou a rotular os socialistas (Saint-Simon e Fourier) que de fato tentaram descrever como seria uma sociedade socialista de “utópicos”, de tanta bobagem que eles falaram (“os frangos voariam diretamente para as bocas das pessoas, já assados e quentinhos pela natureza”).

    Sem o cálculo econômico para revelar quais atividades acrescentam valor para a sociedade (que dão lucro) e quais retiram valor (que dão prejuízos), torna-se uma ilusão supor que a eficiência iria simplesmente surgir do nada. Quaisquer outros argumentos para a organização da sociedade que não envolvam o cálculo econômico podem até ser feitos, mas o problema de como a eficiência econômica seria alcançada permanece sem resposta.

  2. Na verdade, essa distinção entre problema do conhecimento e problema do cálculo é mais atual e importante do que parece. Está longe de ser algo trivial e de curiosidade meramente histórica.

    Com a crescente disponibilidade de compilação de grandes volumes de dados, cada vez mais empreendedores, economistas e outros líderes intelectuais estão recorrendo ao argumento de que usar esta crescente coletânea de dados e algoritmos pode sim resolver a questão do "problema do conhecimento" exposto por Hayek.

    Podem anotar: num futuro próximo, o charme socialista em conjunto com as facilidades tecnológicas farão as pessoas voltarem a acreditar que uma economia centralmente planejada (por políticos carismáticos) não só é perfeitamente possível, como ainda desejável e mais eficiente que a capitalista.

  3. Eu já vi Fernando Haddad e Barney Frank (congressista socialista americano) citando Hayek positivamente para justificar a criação de burocracias formadas por iluminados especializados em coletar informações específicas para a solução de um problema específico.

    Esse é o problema de dizer que o grande problema do socialismo é a incapacidade de absorver todas as informações específicas sobre um assunto.

  4. Ironia suprema: uma das coisas que faltava aos burocratas da antiga URSS eram computadores e sistemas, para gerenciar o próprio controle que pretendiam executar. Quer dizer, o regime não conseguiu enxergar a necessidade dos próprios dirigentes. É ou não é pra rir?

  5. Tem 3 coisas que podem derrubar o capitalismo:

    – Big Data

    – Robôs

    – Do it yourself

    Big Data seria o lugar onde os humanos condensam todas as informações. Todo tipo de informação é “COMPARTILHADA” com a comunidade. Assim como os softwares livres…exemplo aí do Blockchain, Linux etc

    Robôs ficariam com toda a parte pesada do trabalho. Robôs fariam desde comida até mesmo cirurgias.

    O que os humanos ficariam responsáveis seria em aperfeiçoar cada vez mais os algoritimos e dinfundir o conhecimento na rede.

    E o “Do it yourself” seria que cada pessoa tivesse seu robô. Não há necessidade de alguém prestar serviço pra você. Você aprende com o conhecimento da rede, do big data, você é responsável pelo seu robô. E o robô é seu escravo pra praticamente qualquer tipo de tarefa. O papel das pessoas seriam alimentar cada vez mais essa rede, aperfeiçoar o conhecimento e os algoritimos. Cada novo avanço contribuiria para a melhoria na vida de toda a comunidade.

    Nesse estágio o capitalismo desaparece.

    Desaparece a ideia de riqueza, dinheiro, lucro e qualquer outra coisa.

    MAS surge o problema de: Como as pessoas vão se organizar socialmente ?

    Ainda assim, a comunidade teria que se organizar(seria o Estado?) pra formar leis de convivência.

    Não precisa ir muito longe, já existem problemas em que a economia tem que lidar hoje em dia com o excesso e não com a escassez, como se estava acostumado a dizer.

    O problema central nisso tudo seria a questão da PROPRIEDADE e as regras de convivência.

    É fácil imaginar um mundo moderno sem capitalismo mas é mais difícil imaginar um mundo moderno sem um “Estado” ou um sistema com monopólio da força capaz de garantir direitos e propriedade para os indivíduos.

    Veja que até no céu existe um líder, mesmo com os anjos perfeitos ao redor(sem escassez), existe alguém que é mais forte e comanda aquilo. O que legitima nessa metáfora é que esse alguém criou todos os outros. Mas e como fazer isso com os humanos ?

    O aspecto político me parece muito mais complexo do que o econômico.

  6. Essa questão de conhecimento disperso na sociedade eu nunca entendi: o que seria exatamente um comitê de burocratas dotado de todo o conhecimento na sociedade? Qual conhecimento? De ontem? De agora? De amanhã?

    Eu preciso terminar de ler o livro Ação Humana…

  7. De que outra maneira as pessoas em nossa economia moderna usam números? Se o consumidor médio é capaz de fazer tais juízos de valor, então o que impede que professores treinados e encastelados em suas Torres de Marfim ou mesmo planejadores centrais oniscientes façam o mesmo?

    Cuidado aqui. Fazer juízo de valor não é errado. É crucial fazer juízo de valor em cada troca para que saibamos o que produzir. Os empreendedores devem fazer essa análise, continuamente, pois sem isso eles serão completamente incapazes de oferecer algo útil para as pessoas.

    A questão não é “fazer ou não fazer juízo de valor nas trocas voluntárias”; a questão é: Aquele que faz esse tipo de análise irá sofrer prejuízo sozinho caso esteja errado?

    Qualquer modelo político-econômico em que a resposta à essa pergunta seja “não” é uma forma de socialismo.

  8. Outro que é totalmente incapaz de calcular é o Trump.Se ele liberasse os importados para entrarem livremente nos EUA a inflação ficaria baixa e o FED não subiria os juros.Porém ele optou pelo corte de impostos e aumento de gastos, além da guerra comercial,o que irá levar o FED a subir juros.Os bancos certamente irão aumentar suas reservas em excesso no FED o que irá contrair a base monetaria americana e fazer o governo Trump acabar em recessão,inflação e desemprego, igual apareceu no seriado Os Simpsons.

  9. Pra gerir a sociedade, a economia, basta seguir os dados – como mostra o Instituto Mercado Popular -, eles não têm ideologia, são apolíticos, são a pura ciência. Aqui é enviesamento.

  10. Eu sou obrigado a discordar do Murphy nesse ponto.

    Hayek não afirmava que o socialismo era impossível simplesmente por um problema de informação assimétrica, ou melhor, incapacidade de agregar informações.

    E sim, caso o governo fosse onisciente e bem intencionado ele conseguiria alocar os recursos de forma eficiente.

    Onisciência = saber absoluto, pleno; conhecimento infinito sobre todas as coisas.

    Onisciência não é simplesmente ter todas as informações existentes hoje armazenadas (em um cérebro ou computador), mas todo conhecimento que um dia existiu, existe, que vai existir e inclusive aquele conhecimento que nunca existirá.

    Um conhecimento 100% infinito sobre absolutamente tudo.

    Algo do tipo só pode ser atribuído a um ser divido obviamente.

    É claro que alguém com tal poder saberia alocar os recursos de forma eficiente, pois isso é conhecimento (não informação) e tudo que é conhecimento ele sabe.

  11. Sim, sim, sim; a energia da Terra é que deve ser infinita para os grandes calculadores capitalistas explorarem; sim, sim, sim, somos nós quem não sabemos calcular.

  12. Se não fui claro, vou tentar ser mais agora:

    Hayek não falou de onisciência. E nem o autor do texto.

    Então é melhor lê-lo novamente.

    “No entanto, mesmo levando em conta esta impossibilidade prática, Mises, pelo bem do debate, pressupôs que o comitê central socialista seria formado por homens iluminados, oniscientes e perfeitamente capazes de apreender e reunir todo o conhecimento disperso na sociedade.”

    A minha crítica é principalmente que afirmar que a tese de Hayek se limita a dispersão de informação, ele tratou disso, mas não foi só.

    Cheguei a dizer:

    Hayek não afirmava que o socialismo era impossível simplesmente por um problema de informação assimétrica, ou melhor, incapacidade de agregar informações.

    e você disse:

    Para Hayek, o problema do socialismo não está na ausência de propriedade e de preços racionais, mas sim na ausência de conhecimento.

    Essa mutualidade jamais foi estabelecida por Hayek, para ele o conhecimento disperso está diretamente ligado a funcionamento da economia de mercado (que só pode existir por meio da propriedade privada), mas infelizmente não tenho tempo de discorrer sobre isso agora, talvez mais tarde.

    Por hora apenas ressaltar, que se o Governo tivesse onisciência ou conhecimento perfeito e de fato quisesse, seria capaz sim de alocar os recursos de forma eficiente.

    “Onisciência = saber absoluto, pleno; conhecimento infinito sobre todas as coisas.

    Onisciência não é simplesmente ter todas as informações existentes hoje armazenadas (em um cérebro ou computador), mas todo conhecimento que um dia existiu, existe, que vai existir e inclusive aquele conhecimento que nunca existirá.

    Um conhecimento 100% infinito sobre absolutamente tudo.

    Algo do tipo só pode ser atribuído a um ser divido obviamente.”

    Ficou mais claro agora? se não, peço desculpas, mas vou tentar discorrer melhor em outro horário.

  13. Boa tarde, OFF.

    Não sei se o senhores viram a noticia que a Taxa Selic baixou para 6,5%. Minha pergunta é a seguinte, isso pode ser um novo ciclo economizo?

    Visto que em 2004 quando houve a expansão nos governos petistas era mais de 10%.

    Estou equivocado ou não?

    obrigado

  14. Realmente é uma verdade, o socialismo faz tudo parecer um fácil, tudo com base num cheque em branco.

    Escrevi um livro, nele eu abordo bastante o quanto o Brasil é socialista, o quanto ele se atrasa devido a isso.

  15. Errado. Numa economia 100% estatizada, de fato, é impossível o cálculo econômico. Porém, nunca existiu uma economia 100% estatizada que tenha durado mais de uma semana. Nunca. O período de maior estatização da economia no mmundo foi na Era Stalin, na URSS, na qual 45% da economia era controlada diretamente por burocratas (só lembrando que Marx nunca propôs que BUROCRATAS controlassem a economia). E antes de Stalin, na Era Lênin, quando a URSS começou, a estatização era de 20%. Desafio os senhores acharem um único escrito de um economista socialista (qualquer um) cuja proposta seja a burocratização da oferta, da demanda, dos preços, dos salários, dos produtos…

  16. Certo, o argumento de Mises e Hayek são diferentes. No primeiro caso ele esclarece que a abolição da propriedade privada é insustentável. Já no segundo caso, o argumento de Hayek acena para a insustentabilidade de um governo. Com isso temos que ter um governo com atribuições mínimas, como gerir atividade de típicas de estado (representação diplomática, segurança da propriedade…), ou inexistente. Se o argumento de Mises demole o socialismo, o de Hayek coloca contra a parede a necessidade de um governo.

  17. Laudelino A. de Oliveira Lima

    Esse comentário é um alerta!

    Vejam:

    “Hayek dizia que o grande problema do socialismo é o fato de as informações estarem naturalmente dispersas por toda a sociedade, sendo impossível a um grupo de planejadores centrais apreender todas essas informações…”.

    Sabemos disso, mas existe em andamento e por duas décadas um projeto no governo brasileiro para a realização dessa impossibilidade. Sim, os burocratas estão fazendo isso num projeto chamado SPED. O sacrifício imposto às empresas, contadores, equipes de tecnologia e consultorias é pantagruélico. E ninguém está falando disso.

    Ninguém está falando disso.

    Convido o MISES a estudar esse ponto. Vamos sair da teoria e atacar quem está tentando colocar isso em prática.

    A quantidade de absurdos é enorme.

    Entra em vigor esse ano a necessidade de informar todos os componentes da sua árvore de produto e com toda a especificidades de pesos, quantidades, mililitros e etc. Em paralelo, deverão enviar sistematicamente posições de estoque, consumo e aquisição de matéria prima.

    Informar consumo divergente da árvore ou consumo de estoque além do previsto, poderá gerar multas a título de “tentou me enganar”.

    Retomo. Esse projeto está passando há duas décadas e ninguém está falando disso.

  18. O argumento de Hayek é apenas uma constatação de um fato: é impossível um governo, por mais “onisciente” que seja, ter os burocratas e técnicos que tenham todo o conhecimento da população. Mesmo com supercomputadores e internet, ainda assim o conhecimento estaria disperso e não seria possível ser totalmente absorvido por iluminados do estado.

    Só que isso não é o erro central do socialismo. Até porque se esse fosse o erro central do socialismo, era só os burocratas aprenderem o “básico” para produzir coisas “essenciais” para a população não passar necessidades e, pelo menos, o socialismo ficaria de pé. Só que não foi isso o que aconteceu e nem que seria o esperado que acontecesse.

  19. José R.C.Monteiro

    Saudações, bobagem achar lógica em qualquer movimento socialista, pois nada se quer, apenas manter a movimentação, eternamente, ou seja, um futuro que não pode chegar, caso venha a chegar o tal futuro, nesse exato momento cessa o socialismo, e todos os seus produtos, fins, meios, etc. Custa-me acreditar que todos os comentadores, e até próprio articulista, não enxergar essa banalidade. O impossível é tão evidente que…………….

    Outra coisa, achar que todos idealistas do socialismo/comunismo/marxismo não sabiam perfeitamente isso, piada.

    A roda precisa apenas, e tão somente, rodar, quer dizer o futuro prometido precisa ficar quieto lá, bem longe, ou seja, no prometido, jamais alcançado.

  20. Poderiam dar uma olhada nessa? A figura a seguir é escritor e dito filósofo, Henry Bugalho, tem um vlog no youtube e agora deu pra comentar assuntos políticos no lugar de seu assunto de escrita criativa.

    Quer passar como moderado em seus questionamentos, mas sempre cutuca as pessoas não progressistas até nas miniaturas dos vídeos associando-as ao fascismo, intolerância, racismo e etc, que falta base teórica pros debates na internet, sendo que em muitos desses comentários também não há base alguma da parte dele, sendo meras opiniões. Enfim, não me agradou a figura, mas gostaria que dessem uma análise nos questionamentos que ele propõe. Aqui vai a transcrição de alguns pontos de um de seus vídeos:

    http://www.youtube.com/watch?v=vXagO4aVffA

    VERGONHA DE SER COMUNISTA ¦ VLOG DO ESCRITOR

    "Quase todos os grandes pensadores e artistas do século XX ou eram marxistas ou estavam com um pé na esquerda. Na França, o próprio Sartre que começou existencialista depois deu uma guinada pro marxismo, Escola de Frankfurt, Valter Benjamin, Adorno, artistas como o Neruda que era um comunista fervoroso, o Saramago… A listagem de intelectuais e artistas de esquerda é infinita, são muitos!

    (…)

    O que a gente precisa entender como houve uma crise na esquerda, começou a perder o espaço privilegiado que ela tinha de movimentação e transformações sociais, e passou a ser vista com maus olhos. Isso tem a ver muito com o auge do individualismo, do consumismo contemporâneo do Ocidente, quando a pessoa passa a se pensar como membro da sociedade, de um grupo maior, como indivíduo, como eu preciso satisfazer minhas próprias necessidades, meus próprios desejos. Então, há uma perda de espaço dessa mentalidade coletivista comunista de que tem que sacrificar o indivíduo em prol da coletividade. Ainda mais hoje que as novas gerações são muito mais individualizadas, muito mais autoconscientes do seu papel como indivíduos, então é tudo eu, o meu desejo, meu prazer, minha satisfação, que se foda o outro, não me importo com ele, não importa se tem um mendigo na porta de casa, se tem uma criança de rua na praia passando fome, não importa se tem gente morrendo de fome na África, não me importa se morreram 300.000 no tsunami na Ásia, o que importa sou eu e a minha satisfação, o meu bem-estar.

    Então, a ascensão da direita e seu retorno tem a ver com isso, esse desligamento do indivíduo com a sociedade. O problema dessa ascensão é que vem a tiracolo a extrema-direita e todos os extremos são horríveis e prejudiciais. Extrema direita vem com discurso fascista, geralmente xenófobo, racista, misógino, então a tiracolo do liberalismo, dessa defesa do livre mercado, livre defesa da liberdade de expressão, defesa de uma sociedade capitalista, vem junto um nacionalismo extremo que é o que se vê agora em vários países como o Reino Unido, teve o Brexit agora justamente baseado nesse tipo de discurso xenófobo, o Trump ganhou nos EUA, no Brasil agora uma ascensão da extrema direita também com o tal do Bolsonaro, do Marco Feliciano e outra figuras políticas ou religiosas vinculadas à mentalidade militarista. O que acontece é que se tem uma guinada para a extrema direita e isso é extremamente perigoso, tão perigoso quanto à extrema esquerda.

    A gente tá assistindo a um desenrolar de um retrocesso histórico muito grande que irá causar um grande sofrimento ainda na minha opinião. Vamos ver muita coisa horrível acontecer na Europa por causa dos refugiados muçulmanos que tão chegando, esse embate entre a noção de cultura europeia cristã contra eles, ou no Brasil também como uma contraposição ao lulismo que controlou o país por muitos anos, com isso surgindo uma corrente de direita bastante nociva, agressiva que se volta contra qualquer um que pensa diferente deles.

    É isso que eu identifico que acontece com o meu vídeo também, quando se fala que é necessário ler O Manifesto Comunista, quem é essa dessa nova direita burra acha que se está atacando o liberalismo, a democracia e o capitalismo, você não pode criticar o establishment, tem que ser a ovelha pastando tranquila aceitando tudo que enfiam no teu rabo.

    Então, pra resumir eu não sou comunista, mas eu reconheço que não se pode jogar fora o bebe com a água suja do banho, há muita coisa interessante vindo dos filósofos marxistas de esquerda, eles tiraram muitas reflexões cruciais no século passado e ainda hoje os grandes intelectuais são de esquerda, eles costumam ser os que têm melhor percepção da realidade. (…) O problema não é ser de direita ou esquerda, o problema são os extremos.”

  21. Considero Mises e Hayek como complementares, ainda que alguns digam que não são totalmente compatíveis.

    Para reconciliar quem os consideram compatíveis com quem os considerem incompatíveis, podemos dizer que Mises se referia a um comunismo total, enquanto Hayek se referia a formas de social-democracias (sistemas supostamente mistos).

    * * *

  22. “há muita coisa interessante vindo dos filósofos marxistas de esquerda, eles tiraram muitas reflexões cruciais no século passado e ainda hoje os grandes intelectuais são de esquerda”

    Só um cabeça oca pra falar uma coisa como essa. A era de ouro desses intelectuais foi certamente o século XX, mas apenas por um breve período. Por uma grandiosa parte do séculos XX e XIX, os maiores intelectuais sempre foram nacionalistas e conservadores de direita: cito aqui apenas alguns, como Ortega Y Gasset, Hayek, Roberto Campos, Nicolaz Gomez Davila, Ramiro de Maeztu, Oswald Spengler, Carl Schmitt, Martin Heidegger, etc… É o nosso amiguinho Bugalho que anda defasado mesmo.

  23. Li Hayek, o livro erros fatais do socialismo, e achei bem abaixo dos livros de Mises, o que espanta é ele ser mais famoso do que seu professor. O argumento dele sobre a ordem espontânea e sua superioridade a uma ordem racional e planejada é muito bom, porém não é um argumento infalivél, como é o cálculo econômico em uma sociedade socialista. Por exemplo, a escravidão, foi uma instituição que nasceu de dentro da sociedade, não foi algo criado intencionalmente por um cérebro, mas fruto da interação social descentralizada, nesse caso não justificaria uma necessidade para uma intervenção deliberada? É verdade que a escravidão já estava em decadência em seu fim, porém houveram resistências por alguns membros da sociedade em acabar com essa instituição, cabendo o uso da coerção para desinstituir de vez a escravidão. Eu posso estar errado, mas vejo como um ponto que abre brechas para afirmar que cabe correções a ordem espontânea.

    Para deixar claro, acho excelente o ponto de Hayek, porém vejo como um argumento com brechas, diferente de Mises no qual seus argumentos a favor do liberalismo são indestrutíveis.

  24. Por que isso precisa ser visto no aspecto de cálculo? Por que é implícito que precisa usar de valor para medir necessidade? Não haveria outras formas de availar escassês ou abundância sem que seja pela availiação de valor?

    Pergunto isso sendo um libertário mesmo, são boas perguntas das quais careço resposta.

    Acho que o que faltou falar aqui é que o problema não é o que o socialismo consegue ou não consegue fazer, é o que o capitalismo consegue fazer que é impossível pro socialismo: uma forma eficiente de punir a má alocação de recursos. Se um lugar tem um recurso ou trabalhadores escassos ou em excesso, nada realmente acontece com quaisquer autoridades que causaram tal erro. No capitalismo, a empresa tem grandes perdas de dinheiro, ou até mesmo fale. Isso pode ser tão extremo que pode ocorrer dentro de um mês, ou seja lá qual for a forma de pagamento dos trabalhadores (ou a capacidade de rolar uma dívida). No caso do socialismo, essa má alocação até pode ter efeitos devastadores na população, mas ninguém é punido de forma eficiente, ou se quer punido em quaisquer momento futuro.

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