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O Egito ainda é assombrado pelos fantasmas do socialismo

Nota da edição:

Com a estreia do Egito na Copa do Mundo hoje, vale relembrar o homem que moldou o Egito moderno. Mais de meio século após sua morte, Gamal Abdel Nasser continua influenciando a política e a cultura do país.

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O Egito é considerado um ex-estado socialista e um país onde os tentáculos do marxismo ainda podem ser encontrados, profundamente enraizados em quase todas as instituições, algo que observei por ter vivido lá por muitas décadas. Ao ver e ouvir os chamados esquerdistas e ativistas socialistas da Europa e da América pregando sobre a necessidade da redistribuição de riqueza e os méritos benéficos das ideologias marxistas, me pergunto: do que, exatamente, eles estão falando?

A experiência com o socialismo supera as ideologias do marxismo.

No Egito, após o golpe de Estado de 1952 e a derrubada de Farouk I, o Egito tornou-se uma república. Em quatro anos, Gamal Abdel Nasser, um dos líderes da revolução, derrubou o presidente Mohammed Neguib, o favorito do povo, e o prendeu.

Nasser se autoproclamou presidente em 1956 e, logo depois, começou a se apresentar como o novo líder espiritual de todo o mundo árabe, o campeão do proletariado e o portador da justiça socialista ao Egito, que ele descreveu como “a terra do meio por cento”, significando que apenas meio por cento da população controlava toda a riqueza da nação — uma afirmação inflamatória e falsa.

Com o passar dos anos, as políticas de Nasser tornaram-se mais severas e ditatoriais, com tratamento cruel das classes alta e média, nacionalizações generalizadas — o que levou a vários problemas econômicos — e a tomada de controle total da mídia de massa, incluindo a criação de um departamento de censura cujo único objetivo era examinar cada roteiro de filme e programa de TV antes da produção e garantir que se mantivesse dentro das diretrizes sugeridas por Nasser e seus ministros. Isso incluía a supressão de qualquer menção ao rei Farouk, bem como a representação de qualquer membro da Pasha (o equivalente egípcio da nobreza britânica ou do título de cavaleiro), ou de qualquer pessoa da classe alta, aliás, sob uma luz favorável. Por exemplo, dois dos filmes egípcios mais aclamados da época foram A Woman’s Youth, lançado em 1956, que trata de uma mulher rica da alta sociedade que transforma um jovem camponês inocente em um gigolô; e The Nightingale’s Prayer, lançado em 1959, que gira em torno do estupro de uma camponesa pobre por um industrial rico.

Durante a era de Nasser, intelectuais foram julgados e presos, e os conflitos de classe envenenavam a sociedade, principalmente devido aos discursos inflamados de Nasser sobre a exploração dos pobres pela burguesia. O medo e a paranóia permeavam o cotidiano, já que os cidadãos temiam as visitas da patrulha de Salah Nasr, ou “Patrulha do Amanhecer”, agentes do estado que prendiam dissidentes ao amanhecer. Os detidos eram encarcerados e torturados, e alguns simplesmente desapareciam. Com o tempo, ficou claro para muitos que o ídolo de Nasser era Joseph Stalin, cujo manual de estratégias Nasser admirava abertamente. Embora não houvesse gulags nem genocídio em grande escala no Egito, havia terror, crueldade e um fascismo quase declarado — coisas que o Egito não havia experimentado antes, nem mesmo sob os mais brutais regimes coloniais.

Mais de cinquenta anos após a morte de Nasser e a queda de seu regime socialista, o Egito ainda é assombrado pelos fantasmas do socialismo. Ainda hoje, Nasser continua sendo o mais reverenciado dos ex-presidentes do Egito. Manifestantes na revolução de 2011 carregavam grandes cartazes de Nasser, e o termo “nasserista” ainda é usado hoje em dia em vez do termo “socialista”. As ideias que Nasser popularizou e institucionalizou em 1956, principalmente a de que os ricos e os imperialistas são os únicos culpados pelos males do Egito e que o socialismo é a resposta para todos os problemas socioeconômicos, continuam populares até hoje, especialmente entre os jovens de todas as classes. Isso resultou em uma sociedade atolada na burocracia, no ressentimento de classe e em uma resistência destrutiva à mudança e à inovação.

Desde a revolução de 2011, a inveja de classe aumentou drasticamente no Egito. Músicas pop zombam dos ricos, e os produtores de programas de TV voltaram aos velhos truques nasseristas, com histórias sobre a classe trabalhadora oprimida e a burguesia exploradora. Isso não é surpreendente, já que grande parte da programação produzida atualmente no mundo árabe vem de produtoras sediadas em Dubai, um país cuja elite é quase exclusivamente formada em universidades internacionais privadas, supervisionadas por professores de esquerda radical da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos e do Canadá. A editora da Universidade Americana do Cairo, a AUC Press, publicou vários livros sobre Nasser, quase todos hagiografias, como Nasser’s Blessed Movement (2017). Não há, no entanto, um único volume sobre as realizações do presidente Anwar Sadat.

Uma vez que as sementes do socialismo são plantadas, é muito difícil livrar-se de seus frutos venenosos, mesmo depois de muitas décadas. Como Sadat disse certa vez sobre o Egito pós-Nasser: “Nasser me deixou um legado de ressentimento tão grande que ainda não consigo encontrar uma maneira de lidar com ele”. E mais de cinquenta anos após a morte de Nasser, o Egito ainda não consegue encontrar uma maneira de lidar com seu legado destrutivo.

Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute

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