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A Teoria do Empreendedorismo ajuda a compreender os clubes de futebol no Brasil e seus negócios

Nota da edição:

Este artigo integra o e-book especial do Instituto Mises Brasil para a Copa do Mundo de 2026, que pode ser acessado aqui.


O esporte bretão é o mais popular do mundo. Nas finais das três últimas Copas do Mundo, mais de um bilhão de espectadores estavam, de uma forma ou de outra (TV, streaming, locais públicos nos quais o jogo estava passando), assistindo a estes jogos. Isto é, uma em cada oito pessoas no mundo estava ali. Do ponto de vista de negócios, é uma oportunidade que só acontece de quatro em quatro anos. Também por isso tantas marcas globais têm interesse no esporte. Para comparação, outro dos maiores eventos esportivos do planeta, a final anual do campeonato de futebol americano, o SuperBowl, tem uma audiência de aproximadamente 120 milhões de pessoas. A enorme maioria delas, claro, nos Estados Unidos.

Além disso, a FIFA afirma que mais de metade da população mundial está, de alguma maneira, envolvida com o “jogo bonito”. No Brasil, cerca de metade da população torce para algum time, há mais de 700 clubes profissionais registrados, e mais de 20 mil jogadores profissionais. Ao mesmo tempo, embora salários de estrelas frequentemente ultrapassem os milhões de reais ao mês, na média, um jogador no Brasil ganha algo próximo de 2 mil reais e disputa menos de 30 partidas profissionais no ano.

As informações sobre o consumo evidenciam que há um público grande, e que, portanto, há valor no entretenimento que o futebol profissional traz. A questão, então, passa a ser: é possível, como diriam os envolvidos com o mercado financeiro, “capturar esse valor”? (argh!!!)

A resposta para essa pergunta passa por compreender o significado de valor e quem poderia “capturá-lo”. Embora existam muitas possibilidades de analisar esse problema, eu vou me ater aos desenvolvimentos apresentados pela Escola Austríaca referentes à teoria do empreendedor.

De maneira sucinta, o empreendedor é quem usa seu julgamento para enfrentar a incerteza inerente ao futuro. Isto é feito através da organização de recursos para produzir algo que tem por objetivo ser trocado no mercado em busca de lucro, mas também sob a possibilidade de sofrer prejuízos.

Aqui aparece o tema que vai guiar o resto da discussão, qual a natureza do lucro?

Contrário ao que muitos pensam, lucro não é apenas monetário (embora este seja fundamental para qualquer negócio e, de maneira mais abrangente, para o cálculo econômico em si), há também uma parte subjetiva do lucro, ligada às preferências pessoais daquele que decide por organizar e manter um processo produtivo voltado a possíveis trocas no mercado. Ou seja, para o empreendedor, não é somente o lucro financeiro que importa, mas também a possibilidade de adquirir prestígio, status ou simplesmente fazer algo que o satisfaz pessoalmente sem que haja, necessariamente, um benefício financeiro.

De maneira complementar ao esclarecimento sobre a natureza do lucro, também é importante falar sobre a natureza da produção. Como vimos antes, empreendedorismo exige produção, porém nem toda produção é de natureza empreendedora. De fato, boa parte da produção tem por objetivo o consumo próprio. Exemplos disso são a limpeza da própria casa, o cultivo de árvores frutíferas e mesmo o ato de cozinhar.

Estes conceitos, quando vistos de maneira complementar, nos ajudam a explicar, afinal, como e se os clubes de futebol no Brasil podem ser negócios. Esta análise exclui, por definição, os clubes associativos. Nos clubes associativos não há a premissa nem mesmo a necessidade de busca de lucro financeiro e, portanto, a análise seria irrelevante. Analisarei somente os clubes-empresas, independentemente de sua forma jurídica[1]. Para tanto, podemos dividir a explicação em duas partes, os clubes que põe em primeiro plano competir para vencer e os clubes que aceitam que seu objetivo primordial não é vencer esportivamente, mas lucrar financeiramente.

Os clubes que buscam competir para vencer – no Brasil, os maiores exemplos disso são o Cruzeiro e o Atlético/MG – deverão ter gastos comparativamente altos com jogadores e staff. Salários, comissões de transferências e outros custos associados à competição de alto nível serão substanciais e obrigarão o empreendedor (o dono do clube) a investir. O retorno esportivo deste investimento, porém, está muito longe de ser seguro, dado que as competições, em especial aquelas eliminatórias, que pagam mais, tendem a ter graus de incerteza muito altos. Ou seja, o gasto é sabido desde o início, como em qualquer atividade empreendedora, mas o faturamento é incerto.

Logo, neste tipo de clube, o empreendedor está, em geral, pouco ou nada preocupado com o lucro financeiro. O que importa aqui, mais do que qualquer coisa, é o lucro subjetivo. Ainda que o time tenha sucesso desportivo e consiga chegar longe em competições que pagam bastante, consiga gerar bastante dinheiro com patrocínios e dias de jogos e consiga fazer boas vendas de jogadores, a probabilidade de lucrar financeiramente é baixa. Novamente, o foco é no lucro subjetivo do empreendedor; ele está, efetivamente, usando o clube para consumo de entretenimento enquanto busca reduzir os gastos com esse consumo. Seria como um milionário convidar alguns amigos bem de vida para um passeio na sua lancha nova. Os amigos podem contribuir com alguns milhares de reais para ajudar no combustível, mas os custos da lancha são na casa de muitos milhares. As receitas do clube ajudam a reduzir os gastos despendidos pelo dono, mas não são capazes, na média, de eliminar esses custos, ou seja, o clube não é pensado para dar lucro financeiro. Ele é pensado para vencer desportivamente. O lucro para o dono do clube, neste caso, é subjetivo e é sustentado pelos recursos que o empreendedor possui e que vem de outras atividades produtivas. Em essência, este tipo de atividade, de clube, não é um negócio, mas uma organização que serve, principalmente, para o benefício de seu dono como bem de consumo.

O segundo tipo é aquele clube que busca ser lucrativo financeiramente, ainda que isso o impeça de competir desportivamente. No Brasil, neste grupo, estão clubes como Red Bull Bragantino, Cuiabá e Portuguesa. Independentemente de suas estruturas formais, eles têm por objetivo o lucro financeiro, o desempenho esportivo está claramente subordinado. Como consequência, eles investem menos em jogadores e na parte desportiva em geral e têm muito mais dificuldade de competir esportivamente para vencer. Nestes casos, o objetivo mais comum é fazer uma equipe suficientemente boa para se manter em evidência e fazer com que alguns talentos mais jovens se destaquem e sejam vendidos, idealmente para o exterior. No Brasil, isto em geral significa manter-se na Série A, ou disputando os campeonatos estaduais mais relevantes (São Paulo, principalmente). As outras fontes de receita (excluindo as vendas de atletas) são usadas para abater os custos, mas o lucro financeiro vem majoritariamente, quando aparece, das vendas de jogadores.

Tais clubes buscam formar seus plantéis buscando jogadores jovens, formados em suas bases ou buscados fora (no Brasil ou no exterior) por preços baixos e que tem potencial de revenda. O plantel é complementado por jogadores e um staff técnico e administrativo que conseguem dar consistência, possibilitando a esses jovens uma maior possibilidade de se destacarem. No final, pouco ou nada importa o resultado esportivo – desde que ele não seja ruim a ponto de prejudicar a avaliação do jovem talento a ser vendido –, o que importa é colocar jogadores na vitrine e vendê-los. Mais recentemente, têm surgido clubes com ideias semelhantes, mas nas categorias de base. O exemplo mais notório é o Ibra China, clube da capital paulista que não tem – e alega nem ter pretensão de ter – futebol profissional. O objetivo do clube é simples, formar jogadores e lucrar financeiramente com a venda deles para outros clubes; é exatamente a definição de empreendedorismo dada antes.

Mas, afinal, por que isso importa?

Compreender que existem esses dois modelos básicos de empreendedorismo no futebol brasileiro (e, de certa forma, ao redor do mundo) fará com que os torcedores saibam melhor para onde estão indo. Como os torcedores do Botafogo, do Coritiba e do Vasco da Gama devem ter percebido, o fato de se tornar empresa não necessariamente levará os clubes a serem competitivos desportivamente. Na verdade, a grande maioria dos times que tem donos não pretende competir desportivamente, porque tal competição é cara demais, e exigiria, como nos casos de Cruzeiro e Atlético mencionados acima, que os donos estivessem dispostos a colocar dinheiro de seus próprios bolsos repetidamente para manter os níveis competitivos.

Assim, os ensinamentos sobre empreendedorismo da Escola Austríaca ajudam aqueles que, como eu, são apaixonados por seus clubes a saberem o que esperar de uma eventual mudança de governança para um modelo empresarial. Acreditar que o modelo empresarial é a via certa para que o clube volte a ser protagonista esportivamente não é, necessariamente verdade; vide, novamente, o Vasco da Gama.

De maneira complementar, clubes como Flamengo e Palmeiras, que têm dominado esportivamente o futebol brasileiro nos últimos anos usando modelos associativos mais tradicionais, mas melhorando significativamente a governança, embora tenham tal sucesso, continuam sendo frágeis. Sem as “pessoas certas”, estes modelos quebram muito fácil e rapidamente. O que funcionou muito bem na última década pode deixar de funcionar em poucos anos de resultado esportivo ruim, levando a decisões financeiras precipitadas. As lições sobre este outro tipo de organização não cabem aqui e ficam para uma próxima discussão.


[1] Para quem quiser se aprofundar, recomendo ler sobre os problemas da democracia e sobre a tragédia dos comuns.

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