Nota do editor:
Este artigo integra um dos capítulos do livro Hayek na UnB. O capítulo em questão consiste na transcrição das palavras proferidas por Hayek diante do público presente na ocasião e foi dividido em duas partes. O evento ocorreu entre os dias 11 e 12 de maio de 1981, há 45 anos.
Leia a parte 1 aqui.
Eu possuía certas idéias novas que chamavam a atenção de meus colegas em Londres, e passei os vinte anos seguintes lecionando na London School of Economics, na maior parte do tempo em Londres, embora, durante o período da guerra, em 1939/1945, a London School tenha sido transferida para Cambridge, atuando, portanto, em conjunto com a Universidade de Cambridge. Por conseguinte, por cerca de cinco anos, ao longo desses vinte anos, ministrei aulas numa espécie de joint-enterprise entre Cambridge e Londres. Na primeira metade desse tempo trabalhei arduamente na área da teoria pura, principalmente no que se refere à teoria do capital. A propósito, escrevi um grande livro teórico a respeito do assunto, que se tornou bastante conhecido, embora poucos o tenham lido, já que realmente se trata de trabalho muito difícil de ser lido – aquele sobre a pura teoria do capital. Eu pretendia que, em sua primeira parte, ele contivesse uma teoria bastante aperfeiçoada sobre as flutuações verificadas no setor industrial, mas a qual, de fato, jamais escrevi. Eu estava tão exausto por haver escrito a introdução, à qual eu havia dedicado oito anos, que me utilizei do pretexto da eclosão da guerra – ou seja, o de que, a menos que eu o publicasse rapidamente ele nunca apareceria — e concluí o livro de uma vez. Em parte, provavelmente, porque de certo modo meus interesses se haviam modificado. Recentemente, eu estivera sobremaneira preocupado com a explicação das flutuações que ocorriam no setor industrial, as quais comecei a considerar cada vez mais claramente como o ponto central de toda a teoria econômica: a função dos preços orientando a produção, ou, como às vezes costumo chamar, a signal function of prices. E aconteceu de eu me deparar com o mesmo problema relacionado com dois fatos. Um, quando descobri que aquele trabalho extremamente importante de Mises sobre o socialismo permanecera amplamente desconhecido nos países de língua inglesa. Assim, publiquei seu ensaio original, bem como todas as demais discussões, em um único volume, intitulado Collectivist Economic Planning, no qual a introdução e a conclusão reiteravam o estágio em que então se encontrava o debate, o que novamente me conduziu à mesma questão: como, numa sociedade de mercado, os preços determinam às pessoas o que fazer e como, sem um mercado de preços determinados, o que eu agora denomino extended ordem society, isto é, um tipo de ordem que está além da capacidade de compreensão de qualquer indivíduo, tornou-se possível apenas, pelo fato de o mercado se utilizar de um tipo de informação extremamente disperso?
E eu obtive confirmação disso por uma experiência que, de fato, havia ocorrido um pouco antes de eu deixar Viena. Descobri que um dos mais urgentes problemas da política econômica era não ter qualquer fundamento de análise teórica. Viena já se encontrava, então, sofrendo os efeitos de uma legislação restritiva em termos de alugueis, combinada com uma inflação de grande porte. Na verdade, os aluguéis urbanos não mais correspondiam ao nível de mercado e a construção civil havia parado completamente. Toda a atividade construtora era exercida pelo Governo, algo que ninguém havia tido o trabalho de analisar. Voltei-me, então, para o assunto, e novamente descobri que, sem a função orientadora dos preços, que determinavam às pessoas quanto ao que produzir, como produzir e onde suprir, o mercado falhava completamente. Descobri, por conseguinte, em meados da década de 30, que essa idéia da função orientadora dos preços, ou seja, a produção direta da economia de mercado, tinha que ser lançada muito mais claramente. E, assim, em 1936, publiquei um pequeno ensaio, sob o títuloEconomics and Knowledge, que resume o que eu pessoalmente considero como uma verdadeira descoberta que fiz no campo da Economia.
Tal descoberta significava que tínhamos de encarar o mercado como um mecanismo de orientação, o único a permitir ao indivíduo adaptar-se a circunstâncias, que não tem condições de conhecer, e aproveitar outras circunstâncias que ele também não conhece, e que transformam todo esse conjunto em uma única ordem de coisas. Penso que todo o trabalho teórico que, posteriormente, levei a efeito na área da Economia, se constituiu, realmente, no aperfeiçoamento desta simples idéia. Esta é a razão pela qual algumas vezes eu digo que minha única invenção, minha única descoberta – mais adiante eu mencionarei ter igualmente realizado duas invenções o que é algo diferente – mas a única descoberta que fiz no campo da Economia foi o que eu denomino, de forma resumida, The Guide Function of Prices.
Mas tal fato não atraiu imediatamente a atenção geral. A idéia foi compreendida no meu círculo mais imediato de amizades. Muitas pessoas me disseram, depois, haverem se inspirado nesse estudo, mas somente quando, quase dez anos mais tarde, em 1945, eu reafirmei meus pontos de vista, desta vez numa publicação americana, não inglesa, é que a idéia foi de fato entendida, sendo que a maior parte das pessoas consideram este último ensaio, cujo título não me recordo agora, mas publicado em 1945, minha contribuição mais importante.(The Use of Knowledge in Society)
Ao mesmo tempo, meu foco de interesse começou a extrapolar o aspecto técnico da Economia. Em parte, em virtude dos aperfeiçoamentos ocorridos na área da Economia. A Economia se modificava em dois aspectos que se interligavam, numa direção que eu não gostava e da qual eu não queria participar. Um deles decorreu da Teoria Geral da Moeda – General Theory of Money – de Keynes, que surgiu no mesmo ano, 1936, em que eu havia publicado aquele ensaio. Um pouco antes – na verdade, imediatamente após minha chegada a Londres – eu tinha dedicado mais de dois anos à análise daquela grande obra de Keynes. E, quando terminei a análise do segundo volume de seu trabalho, Keynes, de quem eu me havia tornado amigo, me disse: “Ora, não tem importância. Eu também não acredito mais nisso”. Bem, foi um tanto desconcertante para um jovem o fato de um grande homem, cujos pontos de vista ele pensara ter refutado, dizer-lhe que ele próprio não acreditava mais neles.Isto, infelizmente, teve o efeito de, ao surgir seu segundo livro, ainda em 1936, fazer com que eu não mais desejasse voltar a dedicar-lhe o mesmo estudo cuidadoso. Seria desencorajante o próprio autor dizer-me novamente que havia mudado de idéia. Na verdade, agora eu considero isto, de minha parte, um grave abandono do cumprimento de um dever. Creio que o que eu deveria ter feito, na época, era realmente voltar a criticar Keynes.
Mas outra razão me fez afastar-me da então tendência que se verificava na área da Economia e que se ligava totalmente ao que Keynes vinha fazendo. Era a época da transição do que se costumava chamar micro-economia para o que se considerava macro-economia, ou seja, passava-se a tratar os problemas econômicos não em termos de ação individual, mas, sim, em termos da relação existente entre magnitudes estatisticamente mensuráveis, tendência que dominou a Economia durante grande parte da geração passada e da qual, por acaso, Keynes também participou. Agora, isto me conscientizou no sentido de que muitas de minhas diferenças em relação aos meus colegas na área da Economia realmente se baseavam, em última análise, em diferenças de caráter filosófico e metodológico. Deste modo, fui levado a dedicar mais e mais tempo tanto à análise da base filosófica implícita no método científico, na área das Ciências Sociais, quanto ao estudo da história da difusão dos tipos de visão anti-individualista.
E, justamente quando começou a guerra, eu havia imaginado e começado a escrever um livro que eu pretendia chamar de The Abuse and Decline of Reason. Tudo que consegui concluir, no entanto, naquela época, foi a introdução teórica, sob o título Scientism and the Study of Society. Nele eu tentava mostrar como uma errônea imitação de certos métodos considerados essenciais ao estudo das ciências físicas conduzia a equívocos quando aplicados a fenômenos altamente complexos. Jamais concluí esse livro, que eu imaginava publicar em dois grandes volumes, e que intitularia The Abuse and Decline of Reason, mas o trabalho que eu então iniciara desviou permanentemente o centro de meu interesse dos limites entre Economia e Filosofia.
A segunda parte do livro, aquela que teria o título The Decline of Reason, parecia-me de extrema importância na época, quando as pessoas ainda não compreendiam o fascismo, considerando-o não uma versão do socialismo, mas uma reação contra o socialismo. Assim, antes de eclodir a guerra, eu já começara a fazer um esforço no sentido de explicar aos meus amigos ingleses, em sua grande maioria influenciados por tendências esquerdistas, que sua crença de que Hitler era um inimigo do socialismo estava errada. Eu tentava convencê-los de que o socialismo de Hitler era simplesmente outro tipo de socialismo que igualmente preconizava restrições à democracia, a exemplo do que pretendia a doutrina socialista, caso os socialistas levassem a sério seu programa. Isto me fez escrever um livro intituladoThe Road to Serfdom – O Caminho para a servidão – que constituiu a minha primeira incursão na área da literatura mais popular e que, para minha total surpresa, obteve grande sucesso na Inglaterra e ainda mais nos Estados Unidos, mas que me levou a incursionar também, amplamente, na área de Ciência Política, da Sociologia e da História das Ideias. E determinou, ainda, a evolução futura de minha linha de pensamento no que tange ao campo das idéias.
O que me favoreceu nisto foi o fato de eu ter tido o ensejo de me transferir da
London School of Economics para uma instituição muito especial, a Universidade de Chicago. A London School of Economics havia sido, sem dúvida, no intervalo entre as duas guerras, o melhor centro de estudos econômicos do mundo. Mas o fato de viver sempre sob o mesmo teto com outros economistas e com mais ninguém, começou a me cansar um pouco, com o passar do tempo. Eu estava ansioso por retornar a uma atmosfera universitária mais aberta. E, quando me ofereceram um cargo em Chicago, em um departamento altamente específico, que se dedicava ao estudo das linhas divisórias dos vários assuntos ligados às Ciências Sociais, aceitei avidamente, particularmente, pelo fato de a oferta ter sido muito generosa, por um detalhe que me parecia extremamente atraente, ou seja, por me haverem dito:”Se você quiser lecionar, poderá fazê-lo; mas, se, em qualquer instante, você não quiser, não terá que fazê-lo” Assim, eu me sentia completamente livre, tanto no que se refere ao que eu fazia, quanto no que dizia respeito àquilo em que eu trabalhava.
Mas durante os doze anos em que lecionei em Chicago, trabalhei arduamente na análise desse campo intermediário existente entre a área técnica da Economia e a política ou a filosofia moral. Senti, primeiramente, que se tornava necessário, não – conforme eu havia feito no livro The Road to Serfdom – tentar refutar de forma crítica o socialismo, mas achei que a grande tradição libertária do século XIX não estava mais sendo compreendida. Passei, então, a dedicar a maior parte de meu tempo, em Chicago, à elaboração daquele que se tornou meu segundo mais popular trabalho, não especializado, intitulado Constitution of Liberty, uma tentativa de reafirmar, em nossa época, o que no século XIX era descrito como liberalismo, o qual, agora, de tal maneira tem sido deturpado em seu significado, que, pelo menos neste continente, parece que o liberalismo se tornou outro nome para o socialismo, não mais um tipo de convicção libertária. Mas, quanto ao livro, admito, ele vai além da área econômica. Isto porque, felizmente, nele pude aproveitar minha experiência no campo do Direito — e tal experiência, pelo menos, em Viena, envolvia grande dose de conhecimento sobre a história das idéias políticas em geral, bem como sobre filosofia e sobre metodologia. E, na verdade, o desfecho de meu trabalho em Chicago foi o fato de, em 1960, eu ter produzido esse volume substancial, intitulado The Constitution of Liberty, que foi o meu segundo livro de grande sucesso popular. Por sucesso popular eu entendo ser um livro que, em número de edições e em termos deappeal, extrapolou o caráter técnico da Economia. O que eu havia feito antes foi escrever para outros economistas, não para o público em geral e, neste sentido, os livros Road to Serfdom e The Constitution of Liberty foram os primeiros a atingir o público. Mas, curiosamente, embora eu tivesse imaginado que… Oh, mas eu me havia esquecido de algo que devo mencionar rapidamente.
Imediatamente após a publicação de Road to Serfdom – quando meus opositores me atacavam, dizendo que eu não era mais um cientista e que me havia transformado num político – tentei demonstrar que eu ainda era, principalmente, um cientista, na pura acepção do termo, voltando ao meu trabalho inicial ligado à área da Psicologia, e publicando, em 1952, completamente revisado e reescrito, aquele estudo psicológico que eu havia completado em 1920. Devo muito a isto, porque eles descobriram que em Psicologia se encontra a mesma dificuldade técnica que é característica das ciências sociais, bem como de grande parte das ciências biológicas e, certamente, da Psicologia, ou seja, tem-se que tratar com fenômenos altamente complexos que, necessariamente, alteram o approach teórico. Eu me tornei consciente do fato de que todas as ciências físicas, pelo menos em termos teóricos, poderiam dar lugar a teorias nas quais surgiam apenas algumas poucas variáveis, na hipótese de que, para cada uma dessas variáveis, se poderia inserir uma determinada magnitude quantitativa para se chegar a conclusões precisas. Uma vez que se passe daquilo que agora eu chamo de teoria dos fenômenos simples, para os fenômenos mais complexos de organismos, de mentes e da sociedade, mesmo a potencialidade da ciência se reduz. Não se pode mais planejar pequenos modelos onde se possam inserir todos os dados concretos. Só se pode criar modelos que forneçam uma descrição de um padrão abstrato, que jamais se possa transformar em detalhe concreto.
Isto se tornou muito importante para mim, para meu tipo de approach em relação à Economia, bem como para minha intransigente recusa em mudar da micro-economia tradicional para a macro-economia, ou seja, para minha recusa à teoria de Keynes, para minha recusa quanto a aceitar aquilo que se chama de Economia e grande parte de suas técnicas matemáticas. Eu me tornava, assim, formalmente anti-matemático. Eu estava perfeitamente ciente do fato de que determinados padrões complexos poderiam ser melhor descritos por meio de fórmulas algébricas, mas eu estava cada vez mais convencido de que nós deveríamos ater às fórmulas algébricas. Jamais se poderiam inserir aqueles dados quantitativos particulares, que nos propiciariam fazer aquele tipo de prognóstico, que se torna possível na área da Física e das ciências físicas.
Este foi o tipo de coisa que serviu de orientação ao meu trabalho posterior, o qual, casualmente, envolveu, de fato, a complementação do livro Constitution of Liberty por um estudo igualmente abrangente e que eu intitulei Law, Legislation and Liberty, mas ao qual eu havia de fato destinado o título Constitution of Liberty, já que naquele segundo livro apresento propostas concretas sobre como, por meios constitucionais, se pode evitar a degeneração de uma sociedade livre em uma sociedade totalitária.
Foi durante a elaboração desse trabalho que fiz o que considero as duas invenções que se destacaram de minha descoberta original. Inventei dois mecanismos que, acredito, mais cedo ou mais tarde terão ou que ser adotados ou, pelo menos, apresentados de maneira aperfeiçoada. Eu me convenci de que a democracia, que se pretendia ou se imaginava devesse ser um freio ao governo, ou uma espécie de precaução no sentido de evitar-se que o governo se torne indevidamente poderoso, produziu, na verdade, em face de certos equívocos ocorridos na sua implementação, efeitos contrários, e fez, com que os governos se tornassem extremamente poderosos.
Procurei, de forma resumida, detalhar isso.
Penso que, o erro se encontra no fato de que a correta concepção da necessidade de separação de poderes entre as áreas legislativa e administrativa não foi aplicada em seu nível mais alto, a assembléia representativa. Deste modo, nossos parlamentos, em todo o mundo, se tornaram onipotentes, governando de forma ilimitada. Creio que, podemos evitar isto simplesmente replanejando, como um tipo clássico, aquilo que agora se denomina instituição democrática. E, já que a democracia, infelizmente, se tornou tão ligada àquele conceito, segundo o qual a opinião pública é que decide, eu às vezes imagino se ainda podemos salvar a expressão democracia, com vista à adoção do novo esquema que tenho em mente.
Tenho, por conseguinte, sugerido que se passe a utilizar a palavra demarquia, baseada no mesmo princípio do qual derivam as palavras anarquia e monarquia. Quase todas as outras formas de governo são derivadas da palavra grega archía, ao invés de kratia. E foi apenas por um simples acidente histórico que, no caso da demokratía, se tenha chegado ao termo democracia. Assim, minha sugestão é no sentido de que se faça uma campanha em prol do governo livre, propondo-se uma nova solução, que eu chamo de demarquia.
A outra invenção está mais ligada à área técnica da Economia. Receio ter chegado à profunda convicção de que, do modo como as coisas vão indo no mundo, nós jamais teremos novamente um dinheiro de boa qualidade, na medida em que deixemos a administração da moeda a cargo dos governos. Tenho proposto – e com isto tenho chocado os economistas profissionais, mais do que com qualquer outra coisa – que se retire dos governos o monopólio do fornecimento de dinheiro, transferindo-o à empresa privada, a qual, através da livre competição, nos ofereceria o dinheiro, deixando a critério do cidadão comum escolher entre usar o dinheiro de boa qualidade e recusar aquele que é ruim.
A maioria das pessoas pensa que esta é uma idéia louca, mas eu não penso assim.
Desde o momento em que os governos colocaram suas mãos no dinheiro, tão logo ele foi inventado, jamais nos foi permitido fazer experiência com ele. Assim, não sabemos o que exatamente seria um bom tipo de dinheiro. Nunca nos foi permitido praticar, na área do dinheiro, o processo competitivo, que na maioria dos outros campos de atividade nos tem possibilitado discernir entre o que é melhor e o que é pior.
Assim, creio que essa minha idéia da desnacionalização do dinheiro pode ser, de certa forma, um processo complicado, mas o que realmente espero – devo dizê-lo – é deixar às novas gerações não apenas um novoinsight, que considero muito importante, mas duas novas recomendações: substituir o antigo modelo de democracia por um novo modelo de governo, ademarquia, e retirar do governo o poder, o monopólio da produção de dinheiro.
Eu ia utilizando a palavra poder porque estou certo de que, tão logo seja possível obter dinheiro de melhor qualidade da empresa privada, ninguém desejará o dinheiro do governo.
Este capítulo foi originalmente publicado pela Editora Universidade de Brasília