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A criação empresarial e a liberdade de mercado

Para que o papel do empresário e do conhecimento empresarial sejam reconhecidos, é importante que compreendamos que o futuro do mundo da ação humana depende sempre de escolhas e decisões individuais, e mesmo a própria compreensão do homem sobre o passado ajuda a mudar como ele se comporta em sociedade.

Como estamos falando de um homem pensante inserido em um ambiente de incerteza inerradicável, temos que compreender que o futuro não é determinado por fatores externos, mas sim pelas decisões humanas tomadas em um ambiente de grande complexidade. O futuro é incerto, e será construído pelas múltiplas decisões em um mercado complexo. Não se pode ter previsão do que acontecerá, somente especulações. A esse conhecimento do futuro Ludwig Lachmann chamou de expectativas.

Quando um homem se vê frente a uma determinada situação, seu comportamento não é objetivo. Ações dependem da liberdade de ação e pensamento do homem, que, ao contrário dos átomos, tem a capacidade de eleger e agir, sendo que essa eleição e ação podem inclusive significar uma mudança repentina de rumo (o que não raro ocorre).

Assim, as ações humanas são sempre subjetivas e envolvem um tipo de conhecimento de natureza empresarial que é específico e que condiciona as decisões dos atores dentro de um espaço e tempo, o que inibe um tratamento objetivo e físico para os problemas de alocação e criação humana.

Mais do que isso, toda ação individual implica necessariamente em um ato de criar: quando age, o homem não está buscando aproveitar uma oportunidade dada, objetiva, mas sim, estabelecendo a existência desta determinada oportunidade, frente à radical incerteza que ele enfrenta (Kirzner 1997, p. 33[1]).

A importância do conhecimento empresarial

Para que o homem crie e consiga aproveitar oportunidades empresariais, ele precisa deter um determinado tipo de conhecimento subjetivo que é precisamente o conhecimento empresarial referente às circunstâncias particulares, que aprecia o mercado e realiza os juízos empresariais que criam valor.

Sobre o conhecimento empresarial que acima citamos, Jesús Huerta de Soto explica que são seis as suas características básicas: 1) é um conhecimento de tipo prático não científico; 2) é um conhecimento privativo; 3) é um conhecimento de natureza dispersa; 4) conhecimento de tipo tácito, não-articulável; 5) conhecimento criado mediante o exercício da função empresarial; 6) transmissível de modo não consciente através de processos sociais.

Mas mesmo que falemos do conhecimento empresarial, na verdade não existe um, mas uma gama diversa de conhecimentos empresariais, e cada subtipo tem seus objetivos de ação específicos. Não há o conhecimento de natureza empresarial, mas sim os conhecimentos de natureza empresarial, que conforme as circunstâncias se combinam de um determinado modo para o exercício do empreendedorismo: o conhecimento empresarial é fruto de um determinado espaço e tempo.

Scott Shane aponta que os próprios empresários reconhecem oportunidades justamente pelo seu conhecimento subjetivo prévio de natureza empresarial, o que torna alguns mais aptos a descobrir e criar que outros. Isso mostra que o empreendedorismo não pode ser explicado por fatores externos.

Mas esse conhecimento empresarial depende de incentivos econômicos e de um conjunto de valores éticos que proporcionem um framework para que o homem tome as decisões corretas e aja de modo criativo, adicionando valor à economia. Nesse sentido, a produtividade depende não só dos que as pessoas “sabem”, mas também dos incentivos que elas têm.

Numa economia como a contemporânea, com cadeias de produção interdependentes e alto grau de especialização e complexidade, por mais que surjam diferentes mecanismos de gestão de informação, como Big Data, o próprio processo de análise das informações gera novas informações. Quando uma empresa analisa dados de clientes, ela mesma já está criando novos dados que impactarão a realidade do mercado. Ao mesmo tempo em que esses dados contribuem para ajustes, em outras esferas eles levarão a desajustes, o que demonstra como o processo de criação de informação é inesgotável e não pode ser parado.

Como gerenciar a informação e o conhecimento para alcançar a eficiência dinâmica se tornam, então, questões centrais da coordenação econômica e também dentro das ordens deliberadas empresariais, as firmas.

Eficiência dinâmica na firma e na economia

Quando falamos do processo de descoberta e criação econômica que é inerente ao mundo da ação humana, estamos falando de um processo de coordenação aprimorado ao longo do tempo, o que denota a existência de uma característica eminentemente dinâmica da eficiência econômica, ao contrário da eficiência física e mecânica, que é um mero melhor aproveitamento dos recursos. No caso da economia, estamos falando de uma eficiência dinâmica que permite ao homem criar e produzir mais em uma economia de mercado, gerando novas informações e construindo um futuro melhor.

Por exemplo, na ciência administrativa, organizada inicialmente pelo engenheiro Frederick W. Taylor, o conceito de eficiência produtiva tem uma conotação estática: melhorar a rentabilidade dos fatores de produção sob condições atuais, isso é, melhorar o rendimento do capital e do trabalho para gerar mais resultados para a empresa. Só que toda atividade empresarial tem também uma dimensão criativa. Por vezes, a eficiência estática e a eficiência dinâmica podem se contrastar, e a adoção de princípios de eficiência estática podem comprometer a criação futura e a eficiência futura do negócio.

Se em uma organização (que é uma ordem deliberada) os efeitos da adoção de um critério estático de eficiência são prejudiciais para o seu crescimento com direção ao futuro, imaginemos então em uma ordem espontânea como a economia de mercado, descrita por Friedrich Hayek como muito mais complexas que as organizações: os efeitos nessas organizações pioram a coordenação e inibem a própria natureza criativa da ação humana.

Essa dimensão dinâmica da eficiência não pode ser esquecida e é precisamente por causa dela que o Brasil permanece estagnado nos últimos anos: o volume de intervenção crescente do estado, com o direcionamento dos investimentos, assim como o fechamento das fronteiras, inibe uma melhoria de coordenação e de especialização da nossa economia, que, por consequência, se torna menos produtiva e mais pobre, o que impacta em cheio a capacidade que temos de criar e crescer.

Liberdade como requisito para se criar um futuro melhor

Se o empreendedorismo é essencial para o desenvolvimento e crescimento de uma sociedade ao longo do tempo, também é essencial a inexistência de amarras legais para que as pessoas exerçam o seu poder criativo e façam uso do seu conhecimento subjetivo para melhorar a coordenação econômica e gerar novas soluções ao mercado.

Não são poucos os que defendem a existência de fortes regulações estatais, pensando que estas disciplinam a ação do homem e reduzem o nível de confrontações nas interações dos indivíduos. Mas estes mesmos se esquecem de que as altas regulações que normatizam boa parte das atividades empresariais também reduzem e constrangem o nível de criação empresarial do ser humano.

Quando adotamos uma leitura dinâmica da eficiência da economia, isso é, de que o futuro é um por fazer no qual os problemas econômicos não são um mero problema de alocação, mas sim de criação ao longo do tempo das soluções necessárias, entendemos que a liberdade de atuação empresarial é essencial para que o homem possa arcar com os custos e alcançar os benefícios de propor novas soluções ao mercado.

Em um mercado altamente regulado, os incentivos econômicos para que as pessoas atuem de modo criativo são pequenos e acabam restringindo o nosso nível de produtividade e criação, já que, como citados anteriormente, uma ética de natureza parasitária acaba drenando cérebros e ações para as proximidades do estado, buscando benefícios públicos ao invés de gerar inovações e riqueza.

Se é a capacidade das pessoas que propicia uma maior produtividade ao trabalho e também permite a criação de novas soluções, surgidas da mera imaginação de agentes dotados de um conhecimento empresarial subjetivo, a liberdade de mercado para que esses agentes atuem e consigam proporcionar essas criações é essencial: restrições à capacidade criativa do homem só geram danos ao progresso econômico.


[1] Kirzner, Israel (1997). How Market Works. Indiana: Liberty Fund.

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