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Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos – Parte 3: Considerações Avançadas e Conclusão

Nota da edição:

Este artigo é uma tradução exclusiva para o português do Instituto Mises Brasil da segunda parte do livro Austrian Business Cycle Theory: An Introduction do economista e fellow do Mises Institute Paul F. Cwik. Nesta parte final, o autor traz algumas considerações avançadas e conclui o livro.

Clique aqui para ler a Parte 1: A Base do Crescimento Econômico

Clique aqui para ler a Parte 2: Criando um modelo de ciclos econômicos


Se a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos (TACE) é tão clara e correta, então por que mais economistas não adotaram esse modelo? Existem várias razões para isso, sendo a primeira que a TACE não tem sido ensinada na maioria dos cursos de economia. Quando a TACE foi apresentada, muitas vezes isso foi feito de maneira inadequada. Por essa razão, muitos economistas simplesmente não estão familiarizados com a TACE, enquanto aqueles que já ouviram falar dela tendem a compreendê-la de forma incorreta. Alguns a consideram uma teoria de investimentos excessivos, outros a veem como incapaz de lidar com expectativas, e há ainda aqueles que a consideram tão oposta ao que lhes foi ensinado que simplesmente têm dificuldade em aceitá-la.

Muitos economistas afirmam que a TACE é meramente uma teorização de gabinete, sem dados empíricos que a sustentem. Embora haja algum mérito na afirmação de que os dados não sustentam a TACE, o problema reside nos próprios dados e não na teoria1. Na década de 1950, quando muitas estatísticas macroeconômicas foram desenvolvidas e refinadas, o modelo macroeconômico dominante era o keynesianismo clássico. A estatística que recebeu maior atenção foi o produto nacional bruto (PNB) — hoje produto interno bruto (PIB) — que combina consumo (C), investimento (I), gastos do governo (G) e exportações líquidas (X − M). Quando o PIB aumenta, esses economistas dizem que há crescimento econômico. Quando o PIB cai, dizem que a economia está em recessão. Infelizmente, essas afirmações simplificam excessivamente o crescimento econômico. A teoria austríaca vai além dos gastos agregados. De acordo com o modelo austríaco, quando as pessoas alteram suas preferências temporais (como em nosso exemplo em que as pessoas se tornaram mais pacientes), vemos que, embora os bens de consumo (C) e os bens de investimento (I) se movam em direções opostas, permanecemos em pleno emprego na FPP. Os keynesianos (e muitos macroeconomistas modernos) afirmam que a economia está em recessão quando o consumo cai mais do que o investimento. Em contraste, os austríacos apontam que, desde que permaneçamos na FPP, continuaremos em pleno emprego e não regredimos.

Como esse exemplo básico demonstra, as estatísticas são construídas com base no modelo keynesiano clássico. Para verificar empiricamente a TACE, seria necessário desenvolver um novo conjunto de agregados estatísticos.

Problemas Não Resolvidos com a EDP

A Estrutura de Produção (EDP) foi apresentada como um modelo de insumo — produto contínuos. Recursos naturais e trabalho são combinados com equipamentos de capital para produzir bens de capital intermediários que fluem pela EDP. Esses bens em processo são vendidos ao próximo estágio da estrutura de produção, mostrando como os bens parcialmente acabados avançam e como o capital financeiro se move para trás ao longo da EDP. Além disso, o modelo mostra como esse processo leva tempo. Assim, nosso modelo da EDP mostra como os fatores originais de produção interagem com todos os diferentes tipos de capital para produzir continuamente bens de consumo, desde que insumos sejam fornecidos a ele.

O Primeiro Desafio: O que é Capital?

Infelizmente, tivemos de deixar de lado alguns desafios ao simplificar nosso modelo. O primeiro desafio é como definir capital e uma estrutura de capital. O capital tem sido definido de muitas maneiras diferentes por muitos autores diferentes. Alguns dizem que capital é dinheiro. Outros dizem que são ferramentas, máquinas e equipamentos. Mesmo dentro da Escola Austríaca, não há consenso sobre a definição mais apropriada. Carl Menger (1976), fundador da Escola Austríaca, distinguiu entre o estoque de bens de capital úteis e o fluxo de seus serviços, defendendo uma teoria subjetiva do valor do capital. O principal discípulo de Menger, Eugen von Böhm-Bawerk (1959), rejeitou a abordagem subjetiva de Menger e concentrou-se no papel que o tempo desempenha na produção de bens intermediários. Richard Strigl (2000), por outro lado, concebeu o capital como um fundo agregado para a macroeconomia. Ludwig M. Lachmann (1978), seguindo Hayek, concebeu a economia como uma estrutura de bens de capital heterogêneos que podem ser tanto complementares quanto substituíveis entre si. Israel M. Kirzner (1966) considerou o capital como os planos intertemporais inacabados dos empreendedores. Por fim, Peter Lewin e Nicolás Cachanosky (2019, 2021) argumentam que Mises tinha uma visão financeira do capital, a qual eles adotaram e ampliaram utilizando uma ferramenta financeira chamada duration2. Cada autor produziu uma maneira diferente de enxergar a economia e, consequentemente, chegou a uma conclusão diferente. A variação pode ser extrema. Por exemplo, M. A. Abrams (1934) utilizou o modelo de EDP e de ciclo econômico de Hayek para argumentar a favor da socialização de todo o mercado de fundos emprestáveis.

O Segundo Desafio: Valoração do Capital

O segundo desafio é determinar o valor do capital. Focando nos equipamentos de capital, podemos observar que existem três métodos geralmente utilizados para determinar o valor do capital.

O primeiro método, a abordagem histórica, utiliza o preço no momento em que o equipamento foi adquirido — seu valor contábil. Os contadores frequentemente utilizam o valor contábil dos ativos em seus registros. Infelizmente, os valores históricos não contêm informações úteis para os empreendedores. Esses preços históricos são custos irrecuperáveis e não têm relevância para as condições futuras do mercado. Projetar padrões históricos para o futuro com o objetivo de tomar decisões pressupõe que a história sempre se repete, o que é uma suposição insustentável.

O segundo método utiliza o preço atual, isto é, o valor de mercado do capital. Embora seja melhor do que utilizar preços históricos, ele se concentra no valor presente e não no valor futuro. O que se faz necessário é uma avaliação voltada para o futuro.

O terceiro método busca gerar essa perspectiva voltada para o futuro. Ele é chamado de abordagem do fluxo de caixa descontado. A ideia é que um empreendedor estime quais serão os retornos futuros (fluxos de caixa) do ativo e, em seguida, desconte esses retornos por um custo de oportunidade, que geralmente é composto. Novamente, a dificuldade reside na capacidade do empreendedor de acertar essas estimativas. Aqueles que as estimam de forma mais correta obterão lucros maiores do que aqueles que não o fazem.

O valor de um projeto depende do valor do equipamento de capital, o que significa que a compreensão dos economistas sobre como os empreendedores decidem se devem prosseguir com um investimento depende de sua concepção do valor do capital. Os economistas assumem que os empreendedores utilizam o terceiro método de avaliação e que suas projeções para o futuro são, em geral, corretas. Sob essa suposição, os empreendedores decidem se devem prosseguir com um projeto comparando sua taxa de retorno com a taxa de retorno geral (a inclinação da Estrutura de Produção (EDP)). A inclinação de equilíbrio da EDP, portanto, representa tanto a taxa de retorno entre os diferentes estágios de produção quanto a taxa de retorno dos projetos individuais.

O Terceiro Desafio: Complementares e SubstitutosO terceiro desafio diz respeito aos complementares e substitutos. No arcabouço dominante, o capital é homogêneo e perfeitamente substituível. A Estrutura de Produção (EDP) seria irrelevante se todo o capital fosse substituível. Esse é, de fato, exatamente o modo como os economistas tradicionais veem o capital — eles ignoram a EDP. No entanto, essa suposição de substituibilidade perfeita não se sustenta no mundo real. Suponha que um padeiro possua dois caminhões de entrega idênticos. O segundo caminhão é um substituto ou um complemento do primeiro? Como são idênticos, eles são claramente substitutos. No entanto, os caminhões podem operar em duas rotas de entrega separadas ao mesmo tempo e, assim, também se complementar.

Agora consideremos um caso mais difícil. Câmeras de circuito fechado são substitutas de um helicóptero? Fisicamente, eles não têm nada em comum. A chave está em descobrir o uso das ferramentas. Se alguém quiser saber como está o trânsito pela manhã na cidade, um helicóptero pode sobrevoar a cidade. Alternativamente, uma série de câmeras conectadas a um monitor central pode ser instalada pela cidade para coletar facilmente essa informação. Quando se trata de descobrir como está o trânsito pela manhã, portanto, um helicóptero e câmeras de circuito fechado são substitutos.

A substituibilidade ou complementaridade dos insumos é determinada por como eles são utilizados, e não por suas características físicas. Em outras palavras, não existe um método a priori para determinar se dois bens são complementares ou substitutos. Se examinarmos o mundo real, veremos que, embora parte do capital seja substituível, a maior parte do capital está organizada em padrões complementares. A estrutura de produção representa o grau de complementaridade do capital no mercado. O desafio para o economista é que a indeterminação da substituibilidade ou complementaridade de um bem complica (ou possivelmente até inviabiliza) a representação gráfica da EDP.

O Quarto Desafio: Bens de Dupla Finalidade

Um quarto desafio são os bens de dupla finalidade. Alguns bens possuem múltiplos usos. Um computador é um excelente exemplo de um bem com muitos usos. Um computador é utilizado como bem de consumo quando jogos e outras atividades de lazer são realizados. No entanto, o mesmo computador torna-se um bem de capital (insumo) quando é utilizado para gerenciar a contabilidade de uma pequena empresa. Assim como na distinção entre complementares e substitutos, determinar se um bem é um bem de consumo, um bem de capital em um estágio tardio de produção (próximo ao consumidor) ou um bem de capital em um estágio inicial de produção (próximo ao início do processo produtivo) depende de como o bem é utilizado. E, assim como no terceiro desafio, a questão dos bens de dupla finalidade torna a representação gráfica da Estrutura de Produção (EDP) menos útil.

Por outro lado, uma economia cujas ferramentas são muito flexíveis se recuperará de uma recessão muito mais rapidamente do que uma economia cujas ferramentas não são flexíveis. Contudo, surge a questão de como expressar o grau de flexibilidade na EDP. Infelizmente, a resposta é que isso não pode ser modelado graficamente. Como todos os modelos, a EDP necessariamente simplifica as relações econômicas e deixa algumas questões de lado. O modelo gráfico apresentado acima é uma ferramenta analítica para nos ajudar a organizar nosso pensamento. Ele nos fornece um ponto de partida para nossa análise e uma base sobre a qual podemos construir.

O Quinto Desafio: Loops Recursivos

O desafio final da EDP reside nos loops recursivos. Em um loop recursivo, um bem de insumo cria um item que, por sua vez, produz os insumos necessários para a produção do primeiro item. Por exemplo, o aço é utilizado para fabricar equipamentos pesados de mineração. Esses equipamentos de mineração, então, extraem minério de ferro do solo para produzir aço, que por sua vez é utilizado para fabricar mais equipamentos de mineração. Quanto mais loops recursivos estiverem incorporados na EDP de uma economia, mais difícil se torna interpretar seus dados econômicos.

Problemas Não Resolvidos no Mercado de Fundos Emprestáveis (MFE)

Na parte 2, apresentamos um modelo do Mercado de Fundos Emprestáveis (MFE) com uma única taxa de juros. A suposição de uma única taxa de juros simplificou significativamente o modelo. No entanto, existe uma pluralidade de taxas de juros na economia. Conjuntos de taxas de juros abrangem tanto diferentes níveis de risco quanto diversos prazos de maturidade. Esses conjuntos são chamados, respectivamente, de estrutura de risco das taxas de juros (ERTJ) e estrutura a termo das taxas de juros (ETTJ).

Uma única taxa de juros pressupõe que todos os projetos possuem o mesmo nível de risco. A ERTJ relaxa essa suposição e afirma que alguns projetos são mais arriscados do que outros. O risco que varia ao longo desse conjunto é o risco de inadimplência, isto é, a probabilidade de que o projeto falhe e não gere retorno algum. Quanto maior o risco de inadimplência, de não obter qualquer retorno de um investimento, maior deve ser a taxa de retorno exigida para incentivar os investidores a aceitarem esse risco. Calcular o risco de inadimplência não é uma tarefa fácil para o empreendedor. Aqueles empreendedores que conseguem prever esse risco com maior precisão obtêm retornos maiores do que aqueles que não conseguem.

No modelo, também assumimos que existe uma única taxa de juros para todos os prazos de maturidade. A ETTJ relaxa essa suposição e permite que as taxas de juros variem conforme o prazo. Alguns empréstimos são muito curtos, como os acordos de recompra overnight. Eles ocorrem ao final do dia útil e são liquidados no início do dia útil seguinte. A taxa de juros para esses empréstimos tende a ser muito baixa. Outros empréstimos têm duração de quinze ou trinta anos, como as hipotecas. A taxa de juros para esses empréstimos de longo prazo tende a ser mais elevada.

Existem duas razões pelas quais as taxas de juros variam conforme o prazo do investimento. A primeira razão é a inflação. Se as pessoas acreditam que a inflação persistirá no futuro, então um prêmio inflacionário deverá ser incorporado a todas as taxas. Se as pessoas esperam que a taxa de inflação se acelere ao longo do tempo, então o prêmio inflacionário será maior para prazos de investimento mais longos.

Em segundo lugar, como o futuro é incerto, existe uma necessidade precaucional de acesso à liquidez no futuro. Por exemplo, uma pessoa pode estar confortável em emprestar $10.000 por seis meses, mas ficar sem acesso a esse dinheiro por seis anos é outra história. A probabilidade de necessidade de liquidez aumenta quanto mais distante no futuro olhamos. Assim, não apenas um prêmio de liquidez é adicionado às taxas de juros à medida que o prazo do empréstimo se alonga, como também esse prêmio de liquidez aumenta com o prazo. Por exemplo, enquanto um título de seis meses pode ter apenas um prêmio de liquidez de 0,5%, um título de dez anos pode ter um prêmio de liquidez de 2,0%.

A adição desses dois fatores à preferência temporal produz a estrutura a termo das taxas de juros (ETTJ). Quando o risco de inadimplência é zero, a ETTJ recebe um nome especial: a curva de juros (figura 18). Como os títulos do Tesouro dos Estados Unidos são considerados livres de risco de inadimplência, a curva de juros é uma ferramenta financeira e um indicador econômico muito utilizado. A curva de juros tende a apresentar inclinação ascendente como resultado da interação entre seus três componentes — preferência temporal, risco inflacionário e preferência por liquidez — e da arbitragem que ocorre entre os diferentes segmentos de maturidade. Essa inclinação ascendente pode se alterar quando há mudanças em outros fatores da economia. Os fatores que influenciam a curva de juros permitem que ela funcione como uma ferramenta de previsão para a macroeconomia.

Figura 18: Os componentes da curva de juros

Nota: A preferência temporal é apresentada como sendo constante ao longo das diferentes maturidades. Alguns economistas, como Rothbard (2009, 449), argumentam que a preferência temporal deve ser a mesma ao longo do tempo (horizontal), enquanto outros argumentam que nossa impaciência deve aumentar à medida que avançamos para o futuro (inclinação ascendente). A realidade é que a preferência temporal está tão entrelaçada com o risco inflacionário e a preferência por liquidez que só pode ser separada deles conceitualmente. Nenhum teste praxeológico ou empírico poderia determinar qual interpretação da preferência temporal está correta. Como resultado, não há uma resposta a priori, e o formato da curva de preferência temporal é resultado das suposições sobre o comportamento humano.

Um erro significativo cometido por economistas tem sido associar um segmento específico da Estrutura de Produção (EDP) a um segmento específico da curva de juros. Suponha que um empreendedor tenha um plano que levará três anos para gerar qualquer retorno. Para financiar esse empreendimento (o financiamento sempre vem da poupança — consumo adiado), devem ser utilizadas as próprias poupanças do empreendedor, as poupanças de terceiros, ou ambas. As opções disponíveis ao empreendedor-tomador são numerosas. O tomador pode combinar prazos e contrair um único empréstimo de três anos, ou pode obter três empréstimos de um ano, ou dois empréstimos de dezoito meses, ou um empréstimo de dois anos seguido por um empréstimo de um ano, e assim por diante. Aqui está a parte mais importante: o prazo do empréstimo (isto é, onde ele se encontra na estrutura a termo das taxas de juros (ETTJ)) e a localização do empreendimento dentro da estrutura de produção não possuem uma ligação temporal direta entre si. A figura 19 ilustra o erro de se assumir essa ligação temporal direta. Quaisquer conclusões que derivem dessa análise equivocada são ilegítimas.

Figura 19: Não há relação temporal direta entre a curva de juros e a EDP

Problemas Não Resolvidos com a TACE

Em nosso modelo simples da Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos (TACE), assumimos que a expansão monetária reduz a taxa de juros. Quando relaxamos a suposição de uma única taxa de juros, podemos manter a conclusão de que a expansão do crédito afeta todas as maturidades na estrutura a termo das taxas de juros (ETTJ) e na estrutura de risco das taxas de juros (ERTJ). No entanto, não sabemos se essa redução nas taxas causada pela expansão monetária será aplicada de forma uniforme em cada conjunto de taxas de juros. Ainda assim, podemos afirmar que essa mudança estimula tanto o consumo quanto o investimento.

Os empreendedores utilizam ferramentas como o valor presente líquido (VPL) na decisão de aceitar ou rejeitar um projeto de investimento. O VPL é a soma dos retornos futuros projetados (fluxos de caixa) devidamente descontados. A taxa de desconto frequentemente utilizada é o custo médio ponderado de capital (CMPC). O CMPC é uma média ponderada dos custos de oportunidade dos diferentes tipos de capital financeiro: capital próprio, dívida e ações preferenciais. O custo de oportunidade do capital próprio de uma empresa (Re) é a taxa de retorno que os investidores esperam obter de seu investimento em ações da empresa; o custo de oportunidade da dívida (Rd) é a taxa de retorno que os investidores esperam obter ao adquirir os títulos da empresa; e o custo de oportunidade das ações preferenciais (Rps) é a taxa de retorno que os investidores esperam obter de seu investimento em ações preferenciais da empresa3. Assim, o CMPC = [We ∙ Re] + [Wd ∙ Rd (1 − taxa de imposto corporativo)] + [Wps ∙ Rps], onde We, Wd e Wps são os respectivos pesos.

Quando ocorre expansão monetária, há uma mudança no custo médio ponderado de capital (CMPC), o que promove um reequilíbrio entre capital próprio e empréstimos. Em geral, o CMPC cai à medida que o custo de oportunidade da dívida (Rd) diminui, e isso tem um impacto maior sobre os bens de capital fixo de vida útil mais longa (projetados) (Cwik 2008). Quando bens de capital fixo de vida mais longa são incentivados, estruturas de capital mais indiretas (complexas) passam a ser adotadas ao longo de toda a Estrutura de Produção (EDP). Mais especificamente, projetos com prazos mais longos e com equipamentos de capital mais específicos são incentivados. O ponto central é que, durante o boom insustentável, ocorre uma mudança de capital mais substituível para capital mais complementar (específico), tornando a fase de liquidação mais profunda e mais prolongada.

Em nosso modelo, vimos que, à medida que o boom artificial se encerrava e a economia se aproximava do ponto de inflexão superior, todos os empreendedores corriam para encontrar tijolos (recursos reais) para concluir seus projetos. Quando a suposição de uma única taxa de juros é relaxada, vemos que há, na verdade, maior pressão sobre as taxas de juros de curto prazo do que sobre as taxas de longo prazo durante o ponto de inflexão superior. A razão é simples: se os empreendedores não conseguem obter financiamento para os tijolos necessários, não conseguem concluir e vender as casas nas quais investiram. Se não vendem as casas, perdem tudo o que foi investido no projeto. Assim, eles estão dispostos a tomar empréstimos a taxas de juros de curto prazo elevadas para evitar grandes perdas. O resultado dessa corrida por fundos de curto prazo é observado na relação empírica de uma curva de juros invertida (Cwik 2005). Historicamente, uma curva de juros invertida tem precedido uma recessão em uma média de quatro a seis trimestres.

Conclusão

Na parte 1, examinamos o crescimento econômico e como uma economia “funciona corretamente”. A “fórmula mágica” do crescimento econômico não é mágica. A economia não cresce automaticamente. Ela exige a coordenação de milhões e milhões de pessoas todos os dias.

Um aspecto fundamental para o funcionamento adequado de uma economia é o sistema de preços. Os preços desempenham uma função econômica incrivelmente valiosa. Os preços são pacotes de informação. Eles comunicam, a qualquer pessoa que queira observar, as escassezes relativas dos diversos bens e serviços disponíveis. Quando algo muda na economia, os preços transmitem essa informação a todos. Quando um novo depósito de um recurso é descoberto, o preço mais baixo informa a todos sobre essa descoberta. Quando uma tempestade interrompe as cadeias de suprimento, preços mais altos dizem aos usuários para serem mais cautelosos com os bens e aos fornecedores para direcionarem mais rapidamente seus produtos para a área afetada. Quando uma empresa encontra uma nova forma de ser mais eficiente, seus novos preços comunicam essa nova realidade a todos.

Todos, desde empreendedores até consumidores e trabalhadores, utilizam os preços para integrar seus planos individuais ao todo maior. Devemos investir no projeto A ou no projeto B? Devo comprar esse produto agora ou procurar outra alternativa? Devo ir trabalhar hoje ou sair e procurar um novo emprego? Cada uma dessas perguntas é impossível de responder sem o sistema de preços. O empreendedor pode calcular as diferentes taxas de retorno dos projetos e decidir. O consumidor pode perceber que o preço está acima do aceitável e buscar outra opção. O trabalhador pode observar que há outro emprego que oferece um salário mais alto. Os preços não são um reflexo perfeito de nossas preferências subjetivas e estão em constante mudança, no entanto, desempenham a função econômica de comunicar conhecimento importante de forma rápida e eficiente. Não há substituto.

Na parte 2, vimos os efeitos de manipular preços. Quando o governo impôs um teto de preços no Mercado de Fundos Emprestáveis (MFE), um propósito político foi atendido. Quando o banco central escolheu o caminho da expansão monetária, decidiu que poderia acelerar o crescimento da economia. Como economistas, precisamos perguntar: “essas políticas estão aumentando ou reduzindo a capacidade do mercado de servir os consumidores de forma eficiente e eficaz? Essas mudanças de política aprimoram alguma função econômica? Os novos preços que resultam de tetos de preços ou de políticas monetárias expansionistas comunicam novas relações de escassez entre bens e serviços? Eles refletem novos gostos e preferências? As expectativas sobre o futuro mudaram?” Se os novos preços não refletem a realidade econômica subjacente, eles são disruptivos e conduzem a economia para longe da estabilidade econômica.

Os governos frequentemente intervêm nos mercados. Quando intervenções de pequena escala ocorrem, seus efeitos tendem a ser limitados tanto no tempo quanto no espaço. No entanto, quando a intervenção é sistêmica e persistente, ela leva à disrupção final da economia — um ciclo econômico. A melhor maneira de evitar tal calamidade é não iniciar o caminho da expansão monetária. Compreender como os ciclos econômicos começam ajuda a nos dar a força necessária para resistir ao canto da sereia do dinheiro fácil. Nesse sentido, concluamos com Rothbard:

“O momento é propício — para uma redescoberta, um renascimento da [TACE]. Isso não pode acontecer cedo demais: se algum dia acontecer, todo o conceito de um Conselho de Assessores Econômicos seria varrido, e veríamos um grande recuo do governo da esfera econômica. Mas, para que tudo isso aconteça, o mundo da economia, e o público em geral, devem ser conscientizados da existência de uma explicação do ciclo econômico que permaneceu negligenciada nas prateleiras tragicamente por muitos anos”4.

Este livro foi originalmente publicado pelo Mises Institute.

Recomendações de leitura:

Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos – Parte 1: A Base do Crescimento Econômico

Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos – Parte 2: Criando um modelo de ciclos econômicos


  1. Yeager (1997, 253–56) apresenta uma crítica construtiva à TACE a partir da perspectiva de um teórico do desequilíbrio monetário. Ele argumenta que as perturbações causadas pelas injeções monetárias são insuficientes para provocar um ciclo econômico.
    ↩︎
  2. A duration é uma ferramenta que determina o número de anos (como média ponderada) necessários para recuperar o preço de compra de um título, com base no padrão dos fluxos de caixa ao longo da vida útil do título.
    ↩︎
  3. Nem todas as empresas utilizam os três tipos de capital financeiro. ↩︎
  4. Rothbard (1996, 91). ↩︎

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