Nota da edição:
O escritor americano Henry David Thoreau é conhecido por sua importante obra sobre a Desobediência Civil. Entretanto, até um pensador que reconhecia os perigos do poder estatal como ele não deixou de trilhar o triste caminho da servidão. E é sobre esse assunto que o texto abaixo irá tratar.
Henry David Thoreau foi um dos filósofos mais eloquentes e incisivos dos Estados Unidos. Seu desprezo pelas leis injustas em seu ensaio sobre a “Desobediência Civil” ainda exerce grande fascínio 175 anos depois. Seu chamado para que os indivíduos sigam seu próprio ritmo é uma mensagem que continuará a ressoar enquanto existirem ritmo e dissidência. Thoreau desmascarou de forma vívida a tolice de pessoas que desperdiçam suas vidas acumulando posses desnecessárias.
Mas, em seus últimos anos, Thoreau transformou-se em um apologista de um fanatismo sedento por sangue e ajudou a fomentar a Guerra Civil Americana. Seu desprezo pela prosperidade e pela liberdade contratual continua a inspirar anticapitalistas fervorosos em nossos dias. Quando Thoreau acreditou estar se elevando acima de meras considerações econômicas, na verdade estava pavimentando o caminho para a servidão.
A obra mais conhecida de Thoreau é Walden — seu relato sobre viver por alguns anos às margens de um lago em Massachusetts. Em uma de suas passagens mais marcantes, ele declarou: “Ninguém pode ser um observador imparcial ou sábio da vida humana senão a partir do ponto de vista do que poderíamos chamar de pobreza voluntária”. Mas a pobreza de Thoreau era quase uma encenação teatral. Sua cabana ficava a apenas cerca de 20 minutos da mesa de jantar de sua mãe, onde ele frequentemente fazia suas refeições.
Nos anos que antecederam a Guerra Civil, Thoreau estava praticamente sozinho ao denunciar que a prosperidade estava corrompendo a América. Ele lamentava que as pessoas estavam sendo “arruinadas pelo luxo e pelos gastos irrefletidos” e proclamava que “o único remédio(…) está em uma economia rígida, uma severa e mais que espartana simplicidade de vida e elevação de propósito”. A definição de “gastos irrefletidos” de Thoreau aparentemente incluía qualquer pessoa que não estivesse vivendo em uma cabana precária como a sua em Walden. Na década de 1840, a casa média nos Estados Unidos tinha cerca de 93 metros quadrados e era ocupada por 5,5 pessoas, segundo o Census Bureau. As pessoas não tinham encanamento interno, geladeiras, aquecimento central ou eletricidade. Thoreau acreditava que os americanos seriam almas mais elevadas se essas 5,5 pessoas fossem espremidas em cerca de 51 metros quadrados, em vez de aproximadamente 93? “Arruinadas pelo luxo” não era a razão pela qual a expectativa de vida média em Massachusetts na década de 1840 era de 38 anos.
Thoreau exaltava o minimalismo como a única forma verdadeira de libertação. “No que diz respeito aos luxos e confortos, os mais sábios sempre viveram de maneira mais simples e austera do que os pobres”, declarou em Walden. A pouco menos de 32 quilômetros de sua cabana, Boston estava sendo inundada por pessoas exaustas que fugiam de uma fome que matou 10% da população da Irlanda. Muitos dos recém-chegados se amontoavam em cortiços precários, assolados por surtos de tifo, cólera e tuberculose. A comida era escassa e as dietas raramente eram saudáveis, contribuindo para uma taxa de mortalidade muito mais elevada entre os imigrantes irlandeses do que entre outros moradores da cidade. Thoreau desprezava os irlandeses por seus modos “rudes” e “brutais”. Ele ironizava que “muitas vezes o homem pobre não está tão frio e faminto quanto está sujo, esfarrapado e grosseiro. Isso é em parte uma questão de gosto, e não apenas de infortúnio”. Meus ancestrais fugiram da infame fome da batata na Irlanda e chegaram à América enquanto Thoreau estava em Walden.
O “pecado original” de Thoreau é seu desprezo pela troca voluntária entre cidadãos privados. Ele proclamou que “o comércio amaldiçoa tudo o que toca”. Thoreau falava como se existisse uma espécie de cálculo espiritual segundo o qual a sociedade se tornaria mais pobre toda vez que duas partes realizassem um acordo mutuamente vantajoso.
Exceto, é claro, quando o próprio Thoreau lucrava com isso. Ele se gabava de ter cultivado cerca de 11 quilômetros de fileiras de feijão em Walden. Suas memórias teriam sido mais sinceras se ele tivesse acrescentado um pós-escrito ao seu discurso virulento: “O comércio é um grande mal e(…) ei, amigo, quer comprar alguns feijões?” Thoreau vendia seu excedente de feijão e comprava arroz, carne de porco, melaço, maçãs e insumos agrícolas. Será que as pessoas perdem parte de sua alma quando trocam feijão por bacon?
Thoreau proclamou que “o comércio amaldiçoa tudo o que toca; e, mesmo que você negocie mensagens do céu, toda a maldição do comércio se prende ao negócio”. Exceto quando se consegue um ótimo preço por suas “mensagens do céu”. Thoreau contou com o melhor agente literário voluntário da América — o editor do New York Tribune, Horace Greeley — que ele conheceu quando trabalhou brevemente como tutor em Staten Island. Greeley conseguiu vender um dos ensaios de Thoreau por 75 dólares em 1849. Esse valor era mais que o dobro do que Thoreau gastou para construir sua casa em Walden — 28,12 dólares — e mais de oito vezes o lucro que ele obteve cultivando feijão — 8,71 dólares. (A única forma de Thoreau ter obtido lucro com esses feijões era assumindo que seu próprio trabalho não tinha valor algum). Esses 75 dólares em 1849 equivaleriam hoje a aproximadamente 2.500 dólares, uma excelente remuneração atualmente para um ensaio para 99% dos aspirantes a escritores. Thoreau deixou seus princípios de lado tempo suficiente para descontar o cheque. Greeley queria vender mais textos desse tipo, mas Thoreau preferiu dedicar-se à escrita de livros em vez de artigos.
O desprezo de Thoreau pelas trocas voluntárias é difícil de conciliar com a forma como ele próprio sobrevivia vendendo seus talentos. Em Walden, ele declarou: “Quanto a mim, descobri que a ocupação de trabalhador diarista era a mais independente de todas, especialmente porque exigia apenas trinta ou quarenta dias por ano para garantir o sustento”. Thoreau — reconhecido por seus conterrâneos como formado pela Universidade de Harvard — não estava se oferecendo para cavar valas. Sua principal fonte de renda na casa dos trinta e início dos quarenta anos vinha de seu trabalho como agrimensor, que pagava o dobro ou o triplo do salário de um trabalhador não qualificado. Ao desenvolver uma habilidade bem remunerada, Thoreau conseguiu ganhar o suficiente trabalhando em tempo parcial para ajudar a financiar a publicação de seu primeiro livro, A Week on the Concord and Merrimack Rivers (1849).
Thoreau prosperou antes que agrimensores fossem obrigados a obter autorização prévia de órgãos oficiais. Hoje, o acesso a quase um terço de todas as ocupações é restringido por licenças governamentais. As regulamentações estatais fomentaram uma verdadeira obsessão por credenciais, tornando mais difícil prosperar sem um diploma universitário. As restrições e exigências impostas pelo governo criaram muito mais barreiras à vida independente do que a maioria dos admiradores de Thoreau percebe.
Thoreau — como outros transcendentalistas — tinha uma inclinação por absolutos morais que rapidamente podiam descambar em disparates. Ele criticava as ferrovias e declarava que “o viajante mais rápido é aquele que vai a pé”. Naquela época, o salário de um dia de trabalho era de 90 centavos — exatamente o mesmo valor da passagem para cerca de 48 quilômetros de viagem de trem. Thoreau afirmava que seria mais rápido simplesmente percorrer essa distância a pé do que trabalhar um dia inteiro e depois pagar pela viagem ferroviária. Ele proclamava isso como “uma lei universal, que ninguém jamais poderá burlar, e, no que diz respeito às ferrovias, podemos dizer que ela é tão ampla quanto de longa duração”.
Thoreau deixou de mencionar a data de validade de sua “lei universal”. Sua “refutação” das viagens de trem já estava praticamente ultrapassada quando Walden foi publicado, oito anos após ele ter deixado o lago. O custo das viagens ferroviárias despencou até o final do século, com algumas rotas custando apenas um centavo por milha (cerca de 1,6 km) para passageiros que não viajavam em primeira classe. Ao mesmo tempo, os salários dos trabalhadores não qualificados em Massachusetts mais do que triplicaram ao longo do século XIX.
Thoreau criticava as ferrovias também porque elas estavam conectando regiões cada vez mais amplas, indo além dos limites de vilas e comunidades locais. Ele preferia manter as localidades relativamente isoladas e livres da influência de pessoas de fora. Thoreau exaltava o cultivo de feijão, mas as terras agrícolas em sua região de Massachusetts eram muito menos produtivas do que as de estados como Ohio e Indiana. Ele se preocupava com a nova concorrência enfrentada pelos agricultores locais, mas ignorava como o aumento expressivo da produtividade agrícola poderia reduzir drasticamente a proporção de pessoas trabalhando no campo apenas para sustentar a si mesmas e suas famílias.
Thoreau conseguiu realizar seu “experimento de vida” porque seu amigo Ralph Waldo Emerson havia recentemente adquirido uma propriedade de cerca de 5,7 hectares às margens daquele lago. Emerson pôde comprar esse terreno em parte graças aos lucros obtidos com seu ensaio “Self-Reliance”, publicado alguns anos antes. Emerson permitiu que Thoreau vivesse temporariamente naquela área em troca de limpar parte dos arbustos e árvores.
A propriedade privada da terra era o pré-requisito para a vida independente de Thoreau. O que teria acontecido se ele tivesse tentado fazer a mesma coisa em uma área pertencente ao Serviço Nacional de Parques (que só foi criado em 1916)? As autoridades provavelmente o teriam considerado um invasor e incendiado sua cabana, juntamente com todos os seus livros e manuscritos em andamento, enquanto ele estivesse fora pescando.
Embora Thoreau apresente as posses privadas como obstáculos à autolibertação, os americanos de gerações anteriores viam a propriedade como um baluarte da liberdade. No século XVIII, a propriedade era equiparada à “liberdade porque garantia a independência. Os bens materiais eram valorizados menos por seu preço de mercado, como meio de desenvolvimento econômico ou como recurso de capital, e mais como uma garantia de autonomia individual’, como observou o professor de direito John Phillip Reid em sua obra clássica The Concept of Liberty in the Age of the American Revolution. Essa autonomia permite que as pessoas sigam seus próprios valores ou busquem construir seu próprio destino. O economista húngaro János Kornai — um corajoso dissidente no bloco soviético — observou em 1981: “Quanto mais longe se leva a eliminação da propriedade privada, mais plenamente pode ser imposta a submissão total”. Talvez seja por isso que tantos ambientalistas e esquerdistas atualmente desejem destruir a propriedade privada.
Podemos reconhecer o brilhantismo de Thoreau sem adotar seus equívocos. É possível evitar a idolatria das posses sem glorificar a pobreza. A tentativa de “elevar-se acima da economia” muitas vezes apenas abre caminho para que políticos conduzam nações à ruína.
Este artigo foi originalmente publicado pelo Mises Institute.
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Então, no século XIX, já existia pelo menos um socialista de Iphone. Sem IPhone, evidentemente.