Nota da edição:
Este artigo é a publicação do terceiro capítulo do livro do médico Marcos Giansante, Do Arché ao Logos: A Economia como Ciência da Ação Humana no Tempo. O autor do artigo é aluno da Pós-Graduação em Escola Austríaca do Instituto Mises Brasil e lançará seu livro em parceria com o IMB. Nas próximas semanas, vamos publicar seções do livro no site do Instituto Mises Brasil, com o objetivo de trazer ao nosso público a oportunidade de acessar o rico conteúdo sobre a filosofia do tempo e a origem da ciência econômica.
Confira também o segundo capítulo
“Assim como a nossa alma, sendo ar, nos mantém unidos, também o sopro e o ar envolvem o mundo inteiro.”
— Anaxímenes (segundo Aécio, Placita Philosophorum I, 3, 4)
Se Tales foi o primeiro a olhar o mundo com os olhos da razão, e Anaximandro o primeiro a pensá-lo em termos de abstração, Anaxímenes procurou reconciliar pensamento e experiência. Terceiro e último filósofo de Mileto, herdeiro de uma linhagem que começou com a água e passou pelo infinito, ele buscou, entre o sensível e o inteligível, um princípio capaz de unir ambos, o ar.
De Anaxímenes restam poucas palavras, mas de clareza extraordinária: “Assim como nossa alma, sendo ar, nos sustenta, também o sopro e o ar envolvem todo o mundo.” Nessa frase curta condensa-se a visão milésia em sua forma mais nítida. Homem e cosmos participam da mesma substância. A respiração que anima o corpo é a mesma que move nuvens e ventos. Pela primeira vez, a analogia entre microcosmo e macrocosmo é afirmada como princípio racional, não apenas como símbolo. O universo é uma continuidade viva, e o ar é seu vínculo de comunhão.
Anaxímenes viveu entre o final do século VI e o início do V a.C., numa Mileto já em declínio político sob crescente influência persa. O declínio exterior, porém, não impediu o florescimento interior. Se Anaximandro ousara pensar o infinito, Anaxímenes procurou torná-lo visível. Propôs que o ar, invisível, mas sensível em seus efeitos, era a arché, o princípio de todas as coisas.
Ele descreveu esse princípio como uno, infinito e determinado, a substância subjacente às demais, e o chamou de ar. A partir dele, os seres se diferenciam por rarefação e condensação. A ideia é simples e poderosa: mudanças quantitativas geram diferenças qualitativas. Rarefeito, o ar torna-se fogo; condensado, torna-se vento, depois nuvem, água, terra e, por fim, pedra. O movimento que conduz essas metamorfoses é eterno, e nele se desenha o ciclo de todas as coisas.
Essa formulação é mais do que física, é uma ponte entre filosofia e fisiologia. O ar não é apenas elemento material, é também sinal de uma tensão vital pela qual o mundo se mantém em equilíbrio. Comprimido, aquece; expandido, esfria. Une, assim, o quente e o frio, o leve e o pesado, o movimento e o repouso. O cosmos torna-se processo, não coleção de coisas.
É provável que Anaxímenes tenha investido o termo ar da conotação que os gregos logo atribuiriam a pneuma, o sopro quente e rarefeito, de natureza mais espiritual do que material, presente em cada ser vivo e exalado como último suspiro. Mais do que substância natural, o ar de Anaxímenes é princípio de vida, o sopro vital que anima todas as coisas. Assim como a alma sustenta o corpo, o ar sustenta o cosmos. O que respira vive; o que deixa de respirar retorna ao invisível. Nessa equivalência entre alma e ar, vida e respiração, matéria e espírito, ele delineia uma cosmologia em que o mundo é um organismo em incessante respiração.
O ar é, portanto, intermediário entre o tangível e o impalpável, entre o ser e o vir a ser. Por ele, se o cosmos respira, o pensamento também respira. O sopro, pneuma, é vida, mas é também Logos, princípio ordenante. Não por acaso, os termos gregos para alma, psyché, e para respiração, pneuma, convergem em sentido e destino. O homem é o único ser que respira conscientemente, e isso o liga à razão cósmica. Quando Anaxímenes afirma que a alma humana é ar, sugere que pensar é uma forma de respirar.
A inspiração de seu pensamento não é apenas natural, é também espiritual. No Egito, o sopro divino animava imagens sagradas; na Índia, o prãna nomeava a energia vital; na China, o qì permeava céu e terra. Anaxímenes partilha essa intuição universal, mas lhe dá forma racional. Já não fala de deuses, fala de processos. O divino torna-se o próprio movimento ordenado da natureza.
O ar, invisível e onipresente, torna-se símbolo de continuidade e liberdade. Não pode ser possuído nem delimitado. Está em toda parte, como o próprio ser. Em certo sentido, Anaxímenes é um pensador da liberdade natural, o ar escapa ao controle e, justamente por isso, torna possível a vida. A alma respira enquanto é livre; o mundo respira enquanto é ordenado. Entre ambos há um paralelismo que antecipa a noção estoica de logos pneumatikós, a razão viva que permeia o cosmos.
Com Anaxímenes, o pensamento jônico completa seu arco. Tales descobrira a substância; Anaximandro, o princípio; Anaxímenes, a mediação. A filosofia deixa de ser apenas contemplação e torna-se dinâmica. O mundo é concebido como processo, tudo flui, mas dentro de proporções constantes. O cosmos é um organismo vivo em permanente respiração.
Sua visão será retomada, séculos depois, por Aristóteles, quando este afirmar que a alma é a forma de um corpo vivo. Influenciará também os estoicos, que verão no ar e no fogo princípios animadores do universo, e, por uma via remota, ecoará na teologia cristã, onde o Espírito é, literalmente, o sopro de Deus. O pneuma de Anaxímenes encontra ressonância no spiritus latino, o hálito criador que dá origem à vida.
Filosoficamente, Anaxímenes oferece uma concepção explícita de continuidade entre sensível e inteligível, entre homem e cosmos. O que ele chama de ar é, em verdade, a estrutura do ser em movimento. Ele antecipa, em germe, a distinção aristotélica entre matéria e forma, e a noção moderna de energia. Para ele, o mundo não é um conjunto de coisas, é um fluxo de transformações sob medida e proporção.
Se quisermos alcançar o sentido mais profundo de seu pensamento, poderíamos dizer que o ar é imagem do próprio pensar, invisível, sutil, presente em toda parte, impossível de apreender. O homem que pensa é o homem que respira o mundo. E talvez essa seja a última mensagem dos milésios, conhecer é participar do sopro do ser.
Nota filológica: As referências ao pensamento de Anaxímenes são conhecidas principalmente por meio de Simplício, que preservou fragmentos de suas doutrinas em seus comentários à Física de Aristóteles (24, 26–27). Ele menciona a teoria de rarefação e condensação e a analogia entre a alma humana e o ar cósmico, “assim como nossa alma, sendo ar, nos sustenta, também o sopro e o ar envolvem todo o mundo.” Essa transmissão indireta foi essencial para a reconstrução moderna da cosmologia milésia, unindo a herança de Tales e Anaximandro sob a ideia do ar como princípio vital e racional do universo.

Mas nossa alma não é “ar que dá vida” simplesmente, não irá se esvair após a morte. Somos corpo, alma e espírito. O corpo é sepultado, o espirito – que é o folego soprado por Deus na criação -, volta para Deus e a alma é “salva ou perdida”. Penso que essa teoria contraria o Cristianismo no sentido de explicar para onde vai a alma após a morte. Vira ar ?