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O jovem Murray Rothbard: Uma autobiografia

Nota da edição:

Hoje é comemorado o aniversário de 100 anos do grande economista e pensador libertário Murray Newton Rothbard. Para celebrar essa data muito importante para todos que defendem o pensamento austro libertário, o Mises Brasil trouxe o texto abaixo escrito pelo próprio Rothbard, ainda no Ensino Médio, como uma autobiografia dos seus primeiros anos.


Meus Pais e Sua Influência

Para compreender a magnitude da influência exercida sobre mim por meus pais, é necessário conhecer algo sobre o caráter e o passado deles.

Meu pai tem um caráter muito interessante e complexo, combinado com um passado vívido. Nascido perto de Varsóvia, na Polônia, ele foi criado em um ambiente de judeus ortodoxos e frequentemente fanáticos, que se isolavam dos poloneses ao seu redor e mergulhavam a si mesmos e a seus filhos no estudo da tradição hebraica. Como é comum em famílias de classe média baixa, havia algumas pessoas ansiosas por melhorar sua condição e adquirir cultura e civilização ocidental. Um exemplo foi minha avó, cuja ambição estava confinada principalmente a seus filhos, nos quais ela incutiu seus próprios anseios não realizados.

Quando meu pai imigrou para os Estados Unidos, aos dezessete anos de idade, ele tinha apenas esse espírito para impulsioná-lo adiante. Ele enfrentava uma grande desvantagem, pois não conhecia nenhuma língua estabelecida, já que na Polônia falara apenas iídiche. O isolamento dos judeus retirava qualquer possibilidade de aprender a língua polonesa. Além disso, meu pai tem pouco talento para línguas. Apesar desses obstáculos, ele rompeu com antigos laços nacionalistas e, por puro esforço de vontade e força de caráter, adquiriu um amplo domínio da língua inglesa, sem qualquer traço de sotaque, exibindo um vocabulário que envergonharia muitos americanos nativos. Ademais, graças à sua habilidade e perseverança, ele ascendeu de um imigrante empobrecido a um cidadão de mérito e responsabilidade. Desde o exato momento em que pisou na América, ele foi imbuído de um intenso amor por este país e sente uma gratidão duradoura pelas oportunidades e privilégios que lhe foram concedidos. Essa intensa reverência pela América e por tudo o que ela representa às vezes tende a um espírito nacionalista extremo.

O passado de minha mãe, embora diferente, é igualmente colorido. Sua família era abundante nas tradições e características da antiga aristocracia russa. A família de minha avó, em especial, havia alcançado o mais alto patamar que os judeus na Rússia czarista poderiam atingir. Um antepassado fundou as ferrovias na Rússia, outro foi um advogado brilhante, e outro ainda um banqueiro internacional proeminente; em suma, a família de minha mãe foi criada em luxo e riqueza. Meu avô, embora ocupasse uma posição mais baixa na hierarquia social russa, ainda assim era respeitado e querido como membro da classe média alta. Infelizmente, a bondade de seu coração foi sua ruína, e ele perdeu quase tudo devido à sua falta de senso comercial e ao fato de que persistia em doar grandes somas de dinheiro, por vezes negligenciando os interesses de sua própria família. Por fim, a família de minha mãe foi forçada a emigrar para a América.

Para minha mãe, foi uma mudança decisiva. Ela havia sido criada sem qualquer necessidade de enfrentar as realidades da vida e, consequentemente, refugiou-se em um mundo onírico de livros e literatura, assim como Keats escapou para um mundo de sonhos e beleza. Ambos os meus pais sempre tiveram profunda admiração e grande capacidade de análise da literatura, e meu intenso interesse por livros muito provavelmente é um traço herdado, embora meus pais o tenham incentivado durante minha infância.

Infelizmente, a literatura que mais influenciou minha mãe foi a literatura russa. Até hoje ela possui um amplo conhecimento dos escritos russos. Essa literatura é mórbida e deprimente e prega um tipo de idealismo negativo, o que estimulava o mundo de sonhos de minha mãe.

Como eu disse, a nova situação foi drástica para minha mãe. Ela se viu subitamente frente a frente com a realidade. Tratava-se de uma prova de adaptabilidade, algo extremamente necessário para um imigrante. Minha mãe enfrentou esse teste de maneira satisfatória, mas não o superou completamente, como ocorreu no caso de meu pai. Ela conseguiu encontrar uma ocupação e se acostumar à vida americana, mas nunca compreendeu plenamente nem chegou a conhecer em profundidade os costumes e as crenças americanas. Ela ainda permanece ligada à Rússia e ao seu modo de vida por laços fortes.

A razão dessa falta de adaptabilidade completa foi, em grande medida, emocional e física. Ela amava profundamente o magistério e seus ideais. Sua grande sede por conhecimento, no entanto, sobrecarregou sua resistência limitada, e ela foi forçada a abandonar seus elevados objetivos e até mesmo, em certo sentido, a perder a literatura, já que a consequente deterioração de sua memória a levou a perder o prazer da leitura.

Consequentemente, ela chegou aos Estados Unidos em um estado de espírito desesperançado, com a ambição esmagada, e adotou uma atitude de amarga resignação. Assim, a centelha de ambição, que é fundamental para a adaptabilidade de um imigrante, estava ausente.

É verdadeiramente notável, e imensamente afortunado do meu ponto de vista, que meus pais possuem, em grande medida, inteligência e profundidade de caráter. Uma das características e interesses que aprendi diretamente com meus pais é a capacidade e o prazer intelectual de analisar pessoas, inclusive a mim mesmo. Muito frequentemente, meus pais e eu temos longas conversas, nas quais apresento minhas análises de diferentes pessoas, após o que ambos acrescentam seus próprios comentários. Eles tomaram grande cuidado, contudo, embora me incentivassem a analisar o caráter, para não apresentar suas opiniões antes das minhas e, assim, influenciar indevidamente meu julgamento. Muitas vezes analiso francamente tanto a mim quanto a meus pais, e esses esforços são sempre recebidos com interesse e compreensão.

Os momentos da minha vida que me proporcionam maior prazer e instrução são as longas discussões que frequentemente tenho com meus pais. A compreensão mútua é tão forte que está sempre silenciosamente presente, como um deus mudo visto com apreço por todos nós. A relação entre meus pais e eu tem sido uma fonte constante de admiração e assombro para mim. Eles são como um irmão e uma irmã aos quais sempre posso recorrer em busca de orientação e simpatia, sustentadas por uma devoção afetuosa, uma percepção aguçada e inteligência. Uma observação feita por um garçom no hotel onde eu estava hospedado neste verão sempre retorna vividamente à minha mente. “Nossa!”, disse ele. “Você e seu pai são como irmãos, não são?” Só pude assentir com a cabeça em silenciosa aprovação.

As discussões abrangem todos os temas valiosos, filosofia, literatura, política, análises de caráter e autoanálise, e são fonte de inspiração para todos nós. Nossos gostos literários variam amplamente e oferecem temas interessantes para debates. Eu prefiro quase exclusivamente escritores americanos e ingleses, mas estou decidido a me dedicar mais à literatura [da Europa] continental a fim de ampliar meu horizonte. Minha mãe se interessa principalmente por escritores russos, ao passo que meu pai tem um gosto universal, com ênfase em autores ingleses e continentais. Para ilustrar o liberalismo e a mente aberta de meus pais, nos últimos anos eu os influenciei mais do que eles a mim, abrindo novas perspectivas da literatura moderna americana e inglesa. Em particular, meu pai e eu nos tornamos extremamente interessados em John Buchan, e ambos decidimos ler o maior número possível de suas obras.

A mente de meu pai é precisa, analítica e científica; embora seja emocional, ele evita excessos de emotividade. Em razão desse paradoxo, ele sempre se mostrou relutante em ler poesia, apesar de meus esforços persistentes.

Quando as discussões familiares se voltam para a política, meu pai e eu assumimos a liderança, já que minha mãe não se interessa o suficiente pelo assunto para debatê-lo com entusiasmo e, devo confessar, às vezes de forma acalorada. Meu pai passou por todos os estágios políticos ao longo de sua vida. De acordo com a definição de Clemenceau, meu pai tem tanto cabeça quanto coração. Disse o Velho Tigre: “Um homem que não é radical aos vinte anos não tem coração; aquele que o é aos trinta não tem cabeça.” Meu pai foi radical aos vinte, mas rapidamente soube tirar proveito de sua própria tolice, por mais estranho que isso possa parecer. Eu sempre tento aferir minhas crenças e ações à luz de sua experiência. Creio que um dos defeitos cardinais da juventude é jamais se beneficiar da experiência dos outros. De todo modo, meu pai me ensinou as sutilezas da política sem preconceitos, ao menos tão sem preconceitos quanto a política pode esperar ser. Contudo, quando me tornei maduro o suficiente para formar minhas próprias conclusões, não fiquei muito surpreso ao descobrir que concordava com meu pai nos princípios políticos fundamentais.

Às vezes, na minha opinião, meu pai se torna um pouco imperialista. No entanto, ele desprezaria tal afirmação, pois detesta rótulos políticos. “Rótulos”, ele muitas vezes me disse, “não significam nada. São apenas um meio inepto de classificação, usado por pessoas pouco inteligentes”. Os radicais os utilizam quase exclusivamente, classificando as pessoas como “liberais”, “conservadores”, “reacionários”, “comunistas” ou “fascistas”. Convenientemente, não deixam espaço algum para americanos comuns ou para pessoas que acreditam na democracia. Meu pai, ao contrário da opinião intolerante de muitas pessoas pouco inteligentes com quem entramos em contato, acredita no progresso e na mudança. A mudança, no entanto, deve ser lenta, caso contrário nosso delicado sistema de livre iniciativa será prejudicado. “Não existem pessoas que não acreditem na mudança”, disse meu pai certa vez; “a única diferença entre elas é a velocidade da mudança na qual acreditam”. Com a devida reflexão, essa afirmação se revela clara e surpreendentemente verdadeira.

Nossa atitude em relação ao socialismo é bastante comum. A crença na livre iniciativa é fundamental para meu pai e permaneceu comigo desde que passei a formular uma filosofia política própria. Não pode haver progresso sob um sistema socialista. Nele, todo incentivo se perde e a iniciativa é destruída como resultado da eliminação da concorrência. A teoria do “ah, sempre posso trabalhar para o governo” tornar-se-á onipresente, e os Estados Unidos, que dependem do crescimento, tornar-se-ão estagnados. Além disso, o socialismo inevitavelmente leva a uma grande concentração de poder no governo, o que conduz de forma irremediável ao totalitarismo. Provavelmente, o homem na América que mais se aproximou de representar minhas crenças políticas foi Wendell Willkie.

A descrença de meus pais nos costumes e tradições religiosas decorre em parte de uma reação ao fanatismo religioso dos judeus do Velho Mundo e, em parte, de uma visão inteligente que, embora não negue a existência de uma Divindade, repudia tradições ultrapassadas. Costumes antiquados só são aceitáveis para fanáticos ou para pessoas que nunca param para pensar e examinar suas crenças. Assim, fui criado com apenas raras visitas a templos ou sinagogas e sem adesão a costumes ortodoxos. Os pais de minha mãe, que estão profundamente imersos nas tradições europeias, são ortodoxos, mas minhas frequentes observações diretas de sua adesão às tradições religiosas não me levam a modificar minhas visões não religiosas. Consequentemente, em minhas crenças religiosas, sou uma mistura de agnóstico e judeu reformista. Não acredito que a raça humana possa determinar se existe ou não uma Divindade; certamente, se ela existir, nossas orações não serão mais eficazes se formos regidos por costumes obsoletos.

Meu pai é o tipo de pessoa que estabelece um objetivo para si e não descansa até alcançá-lo. Quando o atinge, ele sempre direciona suas energias para outra meta. Assim, ele nunca pode estar emocionalmente satisfeito ou contente enquanto houver mais campos a percorrer ou mais objetivos possíveis. Pessoas como meu pai tornam o progresso possível. Contudo, meu pai é infeliz porque nunca conseguiu chegar ao topo em sua área ou fazer alguma contribuição duradoura para a ciência ou para o progresso científico. Sua maior esperança, e também a de minha mãe, é ver-me alcançar grandes alturas em qualquer campo que eu escolha. A esperança de que o filho realize mais do que os próprios pais é, creio eu, típica dos pais. Meus pais, entretanto, confirmaram seus desejos por meio de ações. Não pouparam despesas nem sacrifícios para me proporcionar todas as vantagens de que eu pudesse necessitar. Só espero ser capaz de concretizar seus sonhos mais queridos e provar que todos os seus sacrifícios não foram em vão.

Primeira Infância

Meus pais acreditam firmemente em uma educação doméstica liberal e sempre incentivaram minha busca persistente por conhecimento. Eu era uma criança muito curiosa e questionadora; se via algo que me intrigava, não descansava até receber uma resposta satisfatória. Eu importunava meus pais incessantemente, mas eles estavam sempre à disposição para responder às minhas perguntas. Ainda na primeira infância, tive meu primeiro contato com a literatura. Bem, dificilmente poderia ser chamada de literatura, mas abriu horizontes inimagináveis para mim. Eu estava olhando para uma caixa de aveia e vi as letras H-O. Meus pais explicaram o que elas significavam e, aos dezessete meses de idade, dominei o alfabeto. A partir daí, surpreendi meus pais compondo listas intermináveis de poemas. Eu estava tão tomado pelo esplendor das palavras que os versos fluíam de meus lábios. Quando os horizontes dos livros se abriram para mim, desenvolvi um amor intenso pela leitura. Eu lia avidamente e de forma contínua, adquirindo gradualmente um domínio da literatura avançado para a minha idade. Por exemplo, quando tinha cinco anos, já utilizava o dicionário e a Encyclopaedia Britannica de maneira inteligente. Minha leitura incessante acabou, por fim, prejudicando minha visão.

Aos cinco anos de idade, tive meu primeiro contato com as belezas da natureza. Meu pai levou para casa um de seus associados comerciais, o Sr. Larry LeJeune. O Sr. LeJeune possuía um amplo conhecimento da natureza, mas era especialmente versado nas características de todas as variedades de árvores. Fizemos uma caminhada por um parque, e eu ouvi, com os olhos arregalados de admiração e encanto, sua descrição cativante das árvores ao nosso redor. Esses objetos comuns, que até então me pareciam sem graça e desinteressantes, assumiram um novo aspecto de grandeza. É verdade que nunca desenvolvi um interesse tão grande pela natureza quanto pela literatura, mas sempre me lembro daquela caminhada sempre que me deparo com uma árvore.

Uma série de acidentes gerou em mim um forte medo de lugares altos. Quando ainda era um bebê, caí de uma janela do segundo andar, milagrosamente sem sofrer ferimentos. Alguns anos depois, caí de uma cadeira alta, batendo a cabeça contra a roda. Além disso, caí de um balanço e da mesa de um médico. Todos esses acontecimentos resultaram em um medo de altura que ainda hoje é intenso. No meu caso, a política de “manter os pés no chão” é literal.

Na minha infância, eu não tive muito sucesso social. Eu era constantemente intimidado e alvo de zombarias por parte de meus colegas, até que finalmente recorri aos livros. A cada ano subsequente, essa situação se tornava mais aguda. No início, isso foi resultado de minha timidez e retraimento naturais. Na idade delicada de cinco anos, mudamo-nos para Staten Island, um lugar repleto de preconceitos raciais, o que agravou ainda mais minhas dificuldades. Eu era indiferente ao jardim de infância, pois nada aprendia de novo ali, exceto a nobre arte de pular corda, que me parecia tola e ridícula, embora as outras crianças se divertissem muito com isso. Meu desajuste social persistiu ao longo da escola pública.

Escola

Uma profunda honestidade e um elevado senso de responsabilidade sempre marcaram meu desempenho escolar. Essa característica é uma manifestação da honestidade inerente ao meu caráter. Minha mãe exerceu uma forte influência no desenvolvimento desse traço. Desde os meus primeiros anos, ela me impressionou profundamente quanto ao valor da honestidade. Lembro-me de como fiquei extremamente chocado quando descobri que minha mãe havia contado uma mentira. Embora hoje eu perceba que, às vezes, mentiras são necessárias para poupar os sentimentos de alguém, ainda assim não consigo me reconciliar plenamente com esse fato. A honestidade, em seu sentido mais amplo, envolve em grande medida a responsabilidade pessoal. Não me recordo de um momento, exceto em casos de ausência, em que tenha entregue um trabalho com atraso ou deixado de realizar tarefas adicionais quando julgava necessário. Quando me ausento, procuro colocar o trabalho em dia o mais rápido possível. Meus pais também eram assim na escola. Eles sempre se esforçaram para alcançar resultados da melhor maneira que conheciam.

O período mais infeliz da minha vida foi o tempo em que padeci sob os males do sistema de escolas públicas. Como eu era superior ao restante da turma, fui “adiantado” com uma rapidez desconcertante. O adiantamento de séries é, em essência, algo equivocado, pois o aluno perde as valiosas bases intelectuais e sociais adquiridas nos anos iniciais. Além disso, o resultado desse adiantamento é colocar o aluno em uma turma composta por crianças muito mais velhas do que ele, com a consequência de que jamais consegue se ajustar adequadamente aos demais membros da classe. No meu caso, o resultado foi desastroso. Em vez de superar minha timidez pré-escolar, passei a ser ainda mais intimidado e espancado, desta vez por garotos muito mais velhos do que eu. Consequentemente, a infelicidade que senti na primeira infância não foi nada comparada à miséria que suportei na escola pública.

Outro grande mal do sistema de escolas públicas é que ele causa enormes danos a uma criança de capacidade superior. Todo o método de ensino, a baixa qualidade dos cursos, a regimentação predominante e a mentalidade estreita conspiravam para me prejudicar profundamente. Eu me sentia aprisionado em uma gaiola de aço. Minha mente, que desejava alçar voo adiante, era mantida acorrentada ao chão por uma repetição interminável de coisas que eu já sabia, bem como por restrições escolares triviais, mas surpreendentes. Nunca consegui compreender por que precisava ficar sentado com as mãos cruzadas ou por que, se havia um único infrator no grupo, toda a classe era punida. O indivíduo era completamente esquecido nesse sistema. Nenhuma atenção era dada às necessidades e aos problemas individuais. Ele era engolido por uma massa de outras cinquenta almas. Lembro-me muito bem de como eu me irritava com as tabuadas que a professora levantava diante da classe. Dois vezes dois é quatro, três vezes dois é seis; para mim, tudo aquilo parecia um desperdício de tempo fútil.

Eu estava na quarta série quando todos os males acima mencionados se desenvolveram com grande rapidez. Naquele momento, eu me esforçava para romper minhas correntes; mas, em poucos anos, poderia acabar me resignando ao sistema e me tornar mentalmente preguiçoso, na prática não sendo melhor do que os outros ao meu redor. A necessidade de uma ação imediata era evidente.

Lembro-me com divertimento da primeira tentativa de meus pais para resolver meu problema social. Eles contrataram para mim um instrutor de boxe. Meus pais, com a minúcia que lhes era característica, conseguiram o melhor que puderam encontrar. Creio que ele fosse treinador de algum campeão dos pesos leves. Contudo, logo ficou evidente para todos os envolvidos que minha carreira não seguiria rumos pugilísticos. Receio que minha tentativa de me tornar boxeador tenha sido um fracasso retumbante. No entanto, meus pais logo perceberam que minha dificuldade era mais emocional do que física. Eles fizeram todo o esforço possível para ajustar meus problemas com a ajuda das autoridades escolares. Ao ler as respostas que receberam, é somente agora que consigo compreender plenamente a incompetência do corpo docente da escola pública. Na atitude deles em relação a mim, demonstraram total ignorância de qualquer psicologia fundamental. A razão de eu ser infeliz, diziam eles, era o fato de eu persistir em pensar e brincar de maneira diferente do restante do grupo. Se eu simplesmente me conformasse ao resto da classe, minha adaptação ocorreria naturalmente. Concluíram que a culpa era inteiramente minha e que, de qualquer forma, eu exagerava meus problemas. Os professores individualmente, além disso, eram altamente excêntricos e utilizavam seus alunos como válvulas de escape para suas emoções e idiossincrasias. Um professor, que sofria de pressão alta, deleitava-se em beliscar e dar tapas nos alunos por princípio geral. Outro se dedicava a uma ridicularização sarcástica e mordaz de alunos diante da classe. Nos últimos anos, as autoridades da escola pública têm se esforçado para segregar as crianças mais brilhantes das medianas. Contudo, um pré-requisito para o sucesso de tal plano é uma grande dose de capacidade e sensibilidade por parte dos professores.

Após o fracasso dos esforços de meus pais, eles decidiram buscar informações externas. Ainda hoje, admiro-me da pesquisa exaustiva conduzida por meus pais para decidir qual seria o melhor caminho a seguir. Eles mantiveram um arquivo de correspondências e outros dados relativos àquele período, e isso é um testemunho de sua perseverança incansável e de sua minúcia. Todas as fontes imagináveis foram consultadas. Todos os meios de aconselhamento foram utilizados. Buscaram a orientação de psicólogos, amigos, jornalistas familiarizados com o tema, e associações de estudantes e de pais. Lembro-me nitidamente de ter visitado o consultório do Dr. John Levy, um eminente psicólogo na área de orientação infantil. Recordo-me claramente do contorno do ambiente onde fiquei sentado sozinho e do murmúrio ininteligível de vozes adultas que vinha do cômodo ao lado. A decisão mais decisiva que até então havia afetado minha vida estava sendo tomada. O Dr. Levy recomendou de forma inequívoca que eu fosse transferido para uma escola particular. Ele aconselhou que eu frequentasse a menor escola possível, a fim de satisfazer minhas prementes necessidades de atenção individual e de ajustamento emocional.

Agindo de acordo com o conselho do Dr. Levy, meus pais decidiram, no segundo semestre da quarta série, colocar-me na Riverside School. Minha entrada nessa escola abriu vastos novos horizontes diante de meus olhos. A importância da minha transferência da escola pública para a escola particular não pode ser exagerada. Minha mente finalmente estava livre de todas as restrições intelectuais e físicas inúteis. Eu estava livre para pensar! Finalmente recebi uma grande quantidade de atenção individual, já que havia apenas sete alunos na turma. Os professores sempre se esforçavam para me orientar e aconselhar em quaisquer problemas que eu enfrentasse. Eu podia expressar minhas ideias em sala de aula livremente, sem a intimidação psicológica que me oprimia na escola pública. Os cursos, além disso, eram superiores, e os professores pareciam oniscientes aos meus olhos inexperientes. Acima de tudo, nos dois anos em que permaneci na Riverside, tornei-me completamente ajustado ao grupo. Ali encontrei iguais em inteligência e, consequentemente, interesses semelhantes. Assim, foi fácil para mim cooperar e tornar-me uma unidade indissolúvel da turma, sem, contudo, perder minha identidade individual. Descobri, com uma satisfação maravilhada, que as outras crianças gostavam de mim. Nunca antes eu havia sentido qualquer sentimento amistoso direcionado a mim por outras crianças. O fato de muitos deles serem da minha própria idade também tornou o ajuste social mais fácil.

Perto do final da sexta série, meu entusiasmo fervoroso pela Riverside começou a diminuir. Ela havia servido bem como uma reação à escola pública, mas seu escopo estava se tornando estreito demais. Passei a perceber que os cursos e os professores não eram tão excelentes quanto eu havia pensado inicialmente. Além disso, eu sofria com a falta de competição. Uma certa dose de competição é necessária a qualquer progresso, material ou espiritual. Com apenas outros seis alunos na classe, a competição, ou qualquer intercâmbio de ideias inteligentes, era limitada.

Um motivo específico para deixar a Riverside foi o fato de a sétima e a oitava séries serem combinadas em uma única turma. O pleno valor do ensino fundamental final seria perdido em uma combinação tão inadequada. Por essas razões, meus pais e eu começamos a procurar outra escola particular, com um nível acadêmico mais elevado e um número maior de alunos. Meus pais investigaram minuciosamente muitas escolas particulares. Lembro-me do relato de minha mãe sobre sua primeira visita à Birch-Wathen. Ela ficou profundamente impressionada e encantada com os professores e os cursos daquela escola. Seu julgamento é valioso porque ela possui a capacidade de uma professora para avaliar o mérito dos métodos de ensino. A aula que mais a impressionou foi uma aula de inglês ministrada por uma Srta. Pendleton, na qual os alunos escreviam redações sobre o tema de cercas. Minha mãe admirou profundamente o desafio à imaginação proposto pelo problema: “o que você vê em uma cerca?”. Foi motivo de frustração para minha mãe, nos dois anos seguintes, o fato de eu não ter tido a Srta. Pendleton como professora de inglês.

Ingressei na Birch-Wathen na sétima série. Lembro-me vividamente do meu primeiro dia ali. Ao pé da escada no corredor, fui apresentado a Russell Bliss, também um aluno novo. Instintivamente, nos apegamos um ao outro, com o impulso natural de duas crianças diante de um mundo novo. Subimos as escadas solenemente, conduzidos por uma professora solidária. O “gelo foi quebrado” pela saudação amigável e alegre do professor da oitava série, Sr. Hubbard. A partir daquele dia, passei a estimar e apreciar profundamente a Birch-Wathen.

Eu era completamente feliz nessa escola. Fiz amigos rapidamente e me tornei parte integrante da turma. A classe era grande o suficiente para constituir uma unidade social forte, e sua inteligência superior fornecia competição amistosa e oportunidades para debates políticos e econômicos. Provavelmente o maior debate já presenciado na oitava série foi a famosa discussão sobre o imposto sobre lucros não distribuídos. O debate durou dois períodos de história, com o Sr. Hubbard atuando como árbitro. Ambos os lados reuniram fatos e números, além de argumentos contundentes para sustentar suas posições. Dave Zabel, Alan Marks e eu denunciamos o imposto, enquanto Jim Denzer, Jim Heilbrun e David Cohen o defenderam. Nosso lado venceu de forma convincente e recebeu uma esmagadora maioria de votos da classe. Mais tarde, quando o calor da batalha já havia arrefecido, Jim Denzer admitiu que, afinal, nem acreditava naquele imposto. Ainda assim, prefiro tomar isso apenas como uma desculpa para a nossa vitória.

Descobri que a Birch-Wathen, pela qualidade de seus cursos e professores, era muito superior à Riverside. Fui grato ao método que me permitia mergulhar em problemas de pesquisa, explorando muitos fluxos de pensamento que todos confluíam para o mar do tema em questão. Notei que muitos trabalhos abrangiam um período amplo, de modo que o aluno podia reunir e organizar seu material. Admirei especialmente o Sr. Hubbard. Na minha opinião, o Sr. Hubbard é um exemplo de professor perfeito para o ensino fundamental final. Todo aluno que se forma na oitava série sai irradiando inspiração e entusiasmo graças ao seu método de ensino amistoso e desafiador. Sua pergunta favorita era: “Por quê?”. Ele forçava os alunos a descobrir o conhecimento por conta própria. Isso era maná para minha mente inquisitiva. Outra parte cativante de seu ensino era seu humor irreprimível. Com um brilho jovial nos olhos, ele apontava para um aluno e, de repente, gritava o nome de algum outro pobre coitado cochilando em outra parte da sala. Ele nos mantinha constantemente em alvoroço, e todos aguardávamos suas aulas como uma fonte de entretenimento, além de instrução. Ele instituiu a prática deliciosa e pouco ortodoxa de incentivar que todos comessem uma barra de chocolate durante o horário do almoço. Em várias ocasiões, durante suas aulas de história, levamos rádios para a escola a fim de ouvir noticiários. Além disso, o Sr. Hubbard possuía uma notável coleção de episódios humorísticos ocorridos em escolas de todo o país e lia algumas seleções ao final de cada ano.

Basta dizer que considerávamos o Sr. Hubbard o ápice do ensino. Descobri que esse sentimento é compartilhado por praticamente todo aluno do ensino fundamental final. Contudo, seu método singular não é tão adequado para o ensino médio, já que sua recusa em explicar diretamente o conteúdo se torna um fardo para aqueles que não são excepcionais. Seu método, excelente para o ensino fundamental final, torna-se extremo e impraticável no ensino médio.

Uma vantagem da Birch-Wathen é que a transição do ensino fundamental para o ensino médio é pequena. Naturalmente, exige-se mais trabalho no ensino médio, e os cursos são completamente diferentes. No entanto, o sistema básico de ensino, isto é, o incentivo à pesquisa, à liberdade intelectual e ao desenvolvimento, permanece. Além disso, minha formatura não provocou um rompimento com meu feliz ajustamento social, mas sim uma ampliação de horizontes e interesses com os mesmos amigos. Creio que o caráter desta turma, com a qual convivi nos últimos seis anos, merece uma breve análise:

Nossa turma sempre foi vítima de autodepreciação. A tragédia da situação é que deixamos de perceber nosso próprio valor potencial. Não se pode negar que a turma, como um todo, é brilhante. O fato de nem sempre termos assumido responsabilidades suficientes deve-se em parte ao nosso senso de humor inato, que nos faz rir de tudo, inclusive de nós mesmos. Zombamos de nós mesmos, chamamo-nos de estúpidos e deixamos por isso mesmo. Fechamos os olhos para o nosso próprio valor, porque é fácil fazê-lo. Mas o “material de que os reis são feitos” está, sem dúvida, ali. Tenho todos os motivos para esperar que nossos dons latentes floresçam em breve e sejam reconhecidos por todos.

Não desenvolvi uma preferência marcante por uma disciplina específica no ensino médio. Em termos gerais, contudo, história e inglês foram as matérias que me proporcionaram maior prazer. Lembro-me do espanto e da consternação que causei à turma quando expus minhas convicções firmes acerca do tipo de mundo que deveria emergir após a guerra. Eu era o único na classe que acreditava que a Alemanha deveria ser mantida em um estado permanente de sujeição, e estava sozinho ao afirmar que o Tratado de Versalhes fracassara por ter sido fraco demais. Deliciei-me com o debate que se seguiu com os demais membros da turma. Também gostava de me colocar em situações históricas difíceis e refletir sobre como eu teria enfrentado tais problemas. Na história americana, por exemplo, decidi que teria tentado resolver a questão da escravidão por meio da soberania popular.

Meu interesse pela disciplina de inglês explica-se pelo meu interesse pela literatura e por sua análise. Além disso, gosto de escrita criativa e acredito que, nos últimos anos, tenho melhorado minha capacidade de expressar ideias.

Embora eu tenha sido criado dentro de uma tradição científica e seja favorável à ciência teórica, tenho aversão ao trabalho de laboratório, o que me afasta dessa linha de atuação.Sou grato à Birch-Wathen pelo conhecimento que me proporcionou e pelo completo ajustamento social que tornou possível. Eu não conhecia a verdadeira felicidade emocional ou intelectual antes de ingressar na Birch-Wathen. Repito as palavras comoventes de sua Alma Mater: “Vocês nos mostraram os portais para o rico conhecimento e a verdade. E concederam a nós, mortais, amizades tão queridas da juventude!”

Verões

Até os onze anos de idade, passei meus verões com meus pais em hotéis de montanha ou à beira-mar. Minhas lembranças desses primeiros verões são vagas, pois geralmente passávamos, no máximo, três semanas fora da cidade. Em geral, contudo, minhas atividades sociais eram mais amplas e mais agradáveis do que aquelas vividas durante o período escolar. A razão provavelmente era que qualquer diferença de inteligência não se tornava evidente nas recreações de verão. Assim, a atitude entre as outras crianças e eu costumava ser boa. Quando alcancei a idade de onze anos, meus pais e eu decidimos que eu deveria ir para um acampamento. Meu entusiasmo por esse projeto era grande, e meus pais acreditavam que eu aprenderia a viver e a me relacionar melhor com outras pessoas. Meu pai, porém, era bastante cético. “Vou tentar qualquer coisa”, comentou ele secamente.

O diretor do acampamento afirmava ser um idealista, motivado unicamente por um interesse humanitário nas crianças. Era um homem de aparência imponente, com um cavanhaque reluzente e uma estatura marcante, e conseguiu nos convencer das supostas qualidades superiores de seu acampamento. Certamente, não se tratava de um acampamento comum. Era um dos melhores de Nova York e era altamente recomendado pela Parents’ Magazine. Meus pais, que se certificaram de sua alta classificação, nunca se lançam cegamente em qualquer empreendimento. De fato, a comida era excelente e não poderia ser superada em lugar algum. Contudo, depois que a novidade inicial passou, percebi que as qualidades do acampamento terminavam ali. As atividades anunciadas eram praticamente inexistentes; os campistas só podiam ficar sentados e abatidos o dia inteiro. O Sr. Robbins, o diretor idealista, revelou-se um materialista ineficaz, com um temperamento fanfarrão. Descobri que a maioria dos campistas perdia peso unicamente porque os dormitórios tinham o efeito de um banho turco. Ainda assim, devo ao acampamento minha paixão pelo xadrez. Era a única atividade possível durante muitas e longas horas de estagnação. O fato de nenhum campista ficar queimado de sol oferecia prova conclusiva de que mal víamos a luz do dia.

Meu pai, além de suas outras qualidades, é um brilhante brincalhão. Os principais centros da vida no acampamento eram o rec (salão de recreação), o mess (refeitório) e os bunks (alojamentos). Comentando o acampamento como um todo, ele disse: “It’s a wreck, it’s a mess, it’s a bunk!” Estou convencido de que os acampamentos são, em grande parte, desculpas para pais que desejam se livrar de seus filhos durante o verão. Se realmente tivessem os interesses de seus filhos em mente, não estariam cegos diante das gritantes desvantagens dos acampamentos. “Uma armação”, como meu pai os definiu, e eu concordo plenamente com ele. Se o melhor acampamento de Nova York estava em uma condição tão deplorável, quais seriam então as condições dos acampamentos de qualidade inferior? Estremeço só de pensar nelas. Acredito que os acampamentos só são justificáveis quando auxiliam famílias pobres. Em todos os outros casos, eu os condeno de todo o coração.

Esse verão decepcionante no acampamento foi o último e, desde então, tenho desfrutado de uma sucessão ininterrupta de verões imensamente felizes. Fiz amizades inestimáveis durante o verão, assim como desenvolvi, espero que de forma duradoura, amizades na Birch-Wathen. Minha transformação de uma criança solitária e desajustada em uma pessoa feliz e sociável foi completa. Alguns de meus colegas de escola criticam minhas atividades de verão, que consistem em férias agradáveis em um hotel à beira-mar. Eles afirmam que eu não faço nada de útil ali. Contudo, considero útil quando posso promover minha própria felicidade e, ao mesmo tempo, aumentar o prazer dos outros por meio da convivência social. É sempre útil estabelecer uma relação sólida com a sociedade.

Parentes

Já tratei de meu ambiente familiar, escolar e dos verões. Meus parentes se enquadram em uma categoria especial. Muitos deles são claramente simpatizantes do comunismo ou radicais vermelhos. Consequentemente, meu pai frequentemente se envolve em debates políticos acalorados. Quando eles não conseguem deixar de reconhecer a lógica de seus argumentos, simplesmente o chamam de reacionário, de republicano (uma palavra abominável, por alguma razão) e se escondem atrás do escudo desses rótulos distribuídos com generosidade. Costumo participar dessas discussões com veemência e certo deleite. Certa vez, nos dias da Guerra Civil Espanhola, meus pais e eu visitamos a casa de um tio, membro do Partido Comunista. Naturalmente, seus convidados eram todos comunistas e se mostravam vigorosos em suas denúncias de Franco. Surpreendi a assembleia ao afirmar que o governo republicano da Espanha havia sido eleito por uma minoria da população e citei uma carta publicada no Times nesse sentido. Fui imediatamente bombardeado por todos os lados, mas consegui me manter firme diante de probabilidades esmagadoras contra mim. Um truque favorito dessas pessoas, quando alguém cita um jornal respeitável e confiável como o Times, é gritar veementemente: “Você acredita em tudo o que lê nos jornais?”. Em seguida, passam a contrapor afirmações grandiosas de tabloides como In Fact, cujo editor foi apontado por Max Eastman como um testa de ferro de organizações comunistas.

A família de meu pai, em geral, é composta por individualistas astutos e, como tal, tem pouca consideração pela lealdade familiar. São dotados de bom senso, mas carecem de inteligência. A família de minha mãe, em contraste, possui um forte senso de devoção e lealdade familiar. No entanto, não tem o bom senso dos parentes de meu pai; com poucas exceções, há pouca inteligência entre eles. De fato, minha mãe e meu pai representam o ápice da inteligência em suas respectivas famílias. Conheço muito bem a família de minha mãe e, em geral, observo com silencioso divertimento suas preocupações e pânicos inúteis. Contudo, esse sentimento se mistura a uma admiração reverente por sua gentil nobreza de caráter, que me lembra fortemente a fraqueza e a coragem de Luís XVI.

Em minhas relações com meus parentes, aprendi a não me irritar nem a me entregar a discussões pessoais acaloradas. Com eles aprendi o importante valor da tolerância. A tolerância também envolve abertura de espírito e a disposição de ouvir as ideias dos outros, quaisquer que sejam.

Interesses

Tenho muitos interesses e passatempos variados. Embora eu consiga rastrear o desenvolvimento da maioria deles, outros surgiram sem que eu tivesse consciência disso e sem um início definido ou marcante. Meu interesse pela música passou por várias fases bem distintas. A princípio, aos dez anos de idade, comecei a fazer aulas de piano com entusiasmo. Minha motivação não era um grande amor pela música, pois eu mal me interessava por ela. Comecei as aulas de piano simplesmente por causa de minha intensa curiosidade e de meu desejo de ingressar em novos campos de atividade. Uma vez que aprendi os rudimentos da música e algumas de suas características, perdi o interesse por uma carreira musical. Minha destreza manual era fraca, e um novo horizonte, o da audição musical, se abriu diante de mim. Tudo o que aprendi na prática do piano ajudou-me a compreender e avaliar a música. Desde então, tornei-me um juiz razoável do ritmo, que me foi incutido com rigor por minha professora de piano. Assim, como ficou claro que eu não tinha vocação para ser músico, abandonei as aulas de piano após dois anos e passei a dedicar minhas atividades musicais a ser um espectador entusiasta.

No início, eu não possuía muito discernimento e aceitava todos os tipos de música sem tentar formular preferências específicas. Contudo, logo passei a julgar as obras musicais e a ouvir com uma perspectiva mais crítica. Cheguei rapidamente à conclusão de que gostava de música swing tanto quanto, ou até mais do que, música clássica. A razão de meu amplo interesse pela música swing é simples: obtenho prazer ao ouvi-la. Se fosse capaz de extrair inspiração de alguma forma de música, eu me interessaria principalmente pela música clássica. No entanto, é impossível que a música exerça qualquer tipo de inspiração sobre mim. Como fonte de prazer, portanto, considero que o swing é, no mínimo, equivalente à música clássica.

Da mesma forma, a pintura jamais me interessou em grande medida, pois não consigo obter inspiração ao contemplar uma grande obra de arte. Se eu me esforçasse, provavelmente poderia tornar-me um especialista em criticar as qualidades técnicas de uma pintura, mas jamais conseguiria ser elevado por ela. De fato, entre todas as artes criativas, a literatura é a única capaz de me inspirar ou me elevar de forma intensa.

Em contraste com o desenvolvimento de meu interesse pela música, não consigo explicar de forma precisa minha dedicação aos esportes. Ela não resultou de nenhum evento isolado nem teve início em um período específico. Sei apenas que me tornei um seguidor voraz dos esportes, em todas as suas fases e formas. Consequentemente, meu conhecimento tanto dos esportes principais quanto dos secundários é bastante amplo. O público deveria reconhecer plenamente a importância dos esportes na vida americana. Ele não apenas oferece uma distração interessante para pessoas sobrecarregadas de preocupações, como também contribui para fortalecer a vitalidade de uma nação.

Entretanto, meu interesse por esportes violentos se limita aos jornais e às arquibancadas; quando busco recreação atlética pessoal, prefiro jogos mais tranquilos, como o tênis de mesa e o xadrez. Tenho uma razão bem definida para minha atração pelo xadrez. O xadrez, além de suas características recreativas, ensina visão de longo prazo, cautela, a capacidade de pensar e agir rapidamente e a análise de problemas. Creio que o principal fascínio que o xadrez exerce é o fato de que o jogador é um general dirigindo suas forças. Ali estão todas as dificuldades, estratégias e táticas da guerra moderna. O xadrez incorpora todos os problemas intelectuais desafiadores da guerra, sem o seu horrível derramamento de sangue e mortandade.

Meu caráter é composto por muitos contrastes curiosos. Embora eu seja dedicado à leitura e a atividades tranquilas, tenho grande prazer pelo teatro. Sempre me destaquei na atuação e deleito-me na representação dramática de estados de espírito e ideias. Além disso, quando encontro algum artigo de que gosto particularmente, tenho prazer em lê-lo para meus pais, com toda a dramaticidade que consigo imprimir à minha voz, embora eu saiba que meus pais provavelmente prefeririam muito mais lê-lo eles mesmos. Se eu estivesse no lugar deles, certamente conseguiria me concentrar melhor lendo o artigo por conta própria. Contudo, meu entusiasmo é tão grande que continuo nessa conduta indesejada. Também gosto de cantar para meus pais, que suportam esse grande tormento com bom humor.

Sempre tive um forte interesse por problemas políticos e econômicos e por acontecimentos atuais, como fonte de conhecimento e de debate. Creio que é dever de todo cidadão americano familiarizar-se com essas questões, a fim de poder contribuir de forma inteligente para qualquer esforço nacional, em tempos de guerra ou de paz.

Um Olhar para o Futuro

Ao voltar meus olhos do passado e do presente para o futuro, não me sinto alarmado pelo fato de que meu rumo ainda esteja indefinido neste momento. Tenho muitos campos de interesse, e é difícil escolher um para me especializar. Contudo, sei que farei o meu melhor em qualquer área que eu venha a escolher. A sociedade só pode se beneficiar quando cada indivíduo emprega seu máximo esforço. Esse fato é evidente em tempos de guerra, mas também se aplica às condições de paz.

Não acredito que o advento da [segunda] guerra tenha mudado minha visão de mundo. A guerra apenas a trouxe para um foco mais nítido e para uma cristalização mais clara. Estou agora ainda mais determinado a fazer o máximo possível para servir esta nação.

Encaro a universidade com grande interesse e expectativa. Acolho com satisfação a maior liberdade e a necessidade de autodisciplina que são características da vida universitária. Algumas pessoas acreditam que a única forma de se libertar das restrições parentais é frequentar uma universidade fora da cidade natal. No meu caso, porém, quaisquer mal-entendidos sempre podem ser resolvidos por meio de uma discussão inteligente e razoável. Assim, não sou limitado por restrições parentais desnecessárias e me sinto livre para escolher uma universidade exclusivamente por seus próprios méritos. A universidade torna-se cada vez mais importante em tempos de guerra, pois a necessidade de uma formação abrangente da juventude se torna maior. A educação universitária capacita qualquer pessoa a lidar, em maior grau, com quaisquer problemas nacionais que venha a enfrentar.

Com todos os homens e mulheres lutando pelo bem-estar comum, vejo, no futuro, uma América, talvez um mundo, em guerra ou em paz, fazendo soar o chamado do progresso, da civilização e da humanidade, e zelando para que “o governo do povo, pelo povo e para o povo não pereça da Terra”.

Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.

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