O trabalho dividido na produção de diferentes bens, ou mesmo em várias tarefas envolvidas na produção de um único bem, é uma das observações mais antigas sobre a natureza da civilização humana. Do ponto de vista científico, civilização ou sociedade é a divisão do trabalho. Infelizmente, ao longo do tempo, a opinião dominante passou a considerá-la equivocadamente como uma bênção ambígua, indicando que ela seria uma grande força tanto para o bem quanto para o mal.
Essa opinião comum fracassa em grande medida por se basear em observação, mensuração e viés pessoal, sem levar em conta a lei econômica. As falácias predominantes só podem ser erradicadas com a perspectiva teórica fornecida pela Escola Austríaca de economia e por seus predecessores.
Infelizmente, a importância central atribuída a Adam Smith nesse tema e seus erros fundamentais continuam a exercer um impacto nocivo sobre a profissão econômica e sobre a ideologia social de modo mais amplo.
Smith abre de forma célebre A Riqueza das Nações (1776) com um capítulo sobre a divisão do trabalho e sua ilustração por meio do exemplo de uma fábrica de alfinetes, na qual a produção de alfinetes é dividida em dez tarefas, multiplicando muitas vezes a produção em relação a um nível hipotético de produção individual separada. Smith explora algumas razões pelas quais a divisão é mais produtiva, sem perguntar como o trabalho passa a ser dividido em primeiro lugar, embora mencione diferenças e discrepâncias entre países.
Dada sua colocação logo no início de A Riqueza das Nações, não seria surpreendente que muitos leitores assumissem que a divisão do trabalho fosse a causa da riqueza. O problema é que Smith não explicou a causa da divisão, quem dividia o trabalho e por quê. Os leitores de Smith ficam, assim, entregues à especulação sobre essas questões fundamentais.
Em nenhum momento da discussão de Smith sobre a divisão do trabalho aparecem o empreendedor, o proprietário ou o gerente delegado. Smith possuía uma teoria do valor-trabalho, posteriormente adotada por Karl Marx. No entanto, como aluno de Richard Cantillon, Smith ao menos reconheceu, no Capítulo 6 do Livro 1, a necessidade de pagar ao “tomador de riscos”, isto é, ao empreendedor, pelos “riscos” ou pela incerteza de seus empreendimentos, bem como de recuperar e ser compensado pelo capital fornecido enquanto capitalista.
De outra forma, o empreendedor permitiria que os trabalhadores tivessem total liberdade dentro da oficina. Smith chega a mencionar “filósofos” ou especuladores que inventam as ferramentas e máquinas utilizadas na divisão do trabalho, mas, fora isso, permanece em silêncio quanto à forma como a divisão efetivamente ocorre. Em nenhum lugar é discutido o mecanismo da divisão.
Como outros antes dele, Smith também tinha observações negativas a fazer sobre a divisão do trabalho. Especificamente, Smith acreditava que ela levava à ignorância e à degeneração dos trabalhadores, bem como a uma espécie de estagnação sub-humana entre certos tipos de trabalho. Smith afirmava acreditar que isso poderia ser superado por meio da educação e de um maior espírito social. Ele simplesmente não compreendeu a ideia simples de que tarefas subalternas seriam desempenhadas por pessoas sem instrução e com baixa motivação, oferecendo-lhes condições de trabalho mais fáceis e melhores, além de uma remuneração mais regular do que aquela proporcionada pelo trabalho agrícola.
Smith provavelmente não estava familiarizado com a divisão do trabalho tal como ela ocorre no mundo real. Ele atacou e contestou de forma célebre seus amigos e professores por utilizarem o exemplo da fábrica de alfinetes, embora o próprio Smith tivesse copiado integralmente esse exemplo de um autor anterior, publicado em uma famosa enciclopédia. Foi justamente essa falta de familiaridade que abriu espaço para que sua análise fosse permeada por preconceitos pessoais.
Ludwig von Mises, assim como Bastiat antes dele, também colocou a divisão do trabalho como o componente central da organização social, do desenvolvimento econômico e do progresso econômico. Mises observava com frequência que a divisão internacional do trabalho é o verdadeiro berço do progresso humano. A principal diferença entre Adam Smith e Mises é que Mises explicou a razão da divisão do trabalho, inclusive em níveis primitivos. As pessoas são motivadas pelo lucro, mental ou de outra natureza, a descobrir, implementar e copiar práticas que sejam produtivas, eficientes e lucrativas.
Não surpreendentemente, Mises colocou o empreendedor como a força central da divisão do trabalho. Seguindo Richard Cantillon, ele desenvolveu sua teoria do empreendedorismo e do lucro, segundo a qual os indivíduos agem em busca de seu próprio aperfeiçoamento diante de um futuro incerto, tendo como recompensa o lucro. A possibilidade de prejuízos funcionava como o controle cotidiano e final sobre suas ações. A perspectiva de Mises é teórica, e não observacional ou baseada em mensuração, e, por isso, rejeita o viés pessoal em sua análise.
Smith ora ignorava o empreendedor, ora, em alguns casos, depreciava o seu papel na sociedade. Assim, quando essa postura é combinada com sua teoria do valor-trabalho, ela mina toda a sua doutrina econômica, tornando-a suspeita e enganosa. Karl Marx encontrou seu fundamento na teoria do valor-trabalho de Smith e deve ter encontrado conforto nos ataques de Smith à divisão do trabalho.
Sem dúvida, os socialistas devem considerar aceitável para os seus planos a divisão do trabalho sem empreendedorismo proposta por Smith. A multidão de economistas favoráveis à intervenção governamental, especialmente os tecnocratas, deve achar atraente a divisão desorientada de Smith para seus próprios projetos pessoais de remodelar a sociedade conforme seus gostos. Marxistas, socialistas e intervencionistas não têm problema com a ideia da divisão do trabalho, mas rejeitam sua característica organizadora central: o empreendedor.
Em um nível ainda mais básico, a visão smithiana, à maneira do homo economicus, falha ao pressupor que todas as pessoas são essencialmente idênticas. No contexto da divisão do trabalho, Mises, Rothbard e Salerno enfatizaram a singularidade do indivíduo e explicam que as diferenças de habilidades, experiências e preferências são a principal fonte de ganhos decorrentes do uso mais amplo da divisão do trabalho. Os resultados são melhor harmonizados pelo livre mercado, em benefício tanto do indivíduo quanto dos consumidores. Para saber mais, veja os capítulos 9 e 10 do livro The Rothbard Reader.
Richard Cantillon não enfatizou a divisão do trabalho como um tema separado, mas, além de fornecer uma teoria duradoura do empreendedorismo, que permanece robusta até os dias de hoje, ele examinou a aquisição de habilidades e de capital em profissões especializadas e o consequente aumento necessário das taxas salariais. Nesse processo, ele identificou um conceito central amplamente reconhecido da economia: o custo de oportunidade.
Cantillon referia-se a esse conceito como “valor intrínseco”, que, à época, significava o valor incorporado a algo — ou colocado dentro de algo — e que resultava em aumento de valor ou de riqueza. Especificamente, uma família não se submeteria um filho ao processo longo e custoso do aprendizado profissional se os salários resultantes não fossem superiores aos custos de oportunidade envolvidos. O exemplo de Cantillon é semelhante à situação de uma família que toma a decisão de enviar seus filhos para a faculdade.
Adam Smith atribuiu uma importância exagerada à divisão do trabalho observada em uma fábrica francesa de alfinetes de uma geração anterior, ao mesmo tempo em que deixou de descrever a Revolução Industrial que estava ocorrendo durante a sua própria vida. Com a divisão do trabalho, a “mão invisível” de Smith assumiu a perspectiva de um igualitarismo inato, quase mágico, que produziria desenvolvimento e crescimento econômicos baseados não na motivação do lucro, mas sim em nossa propensão ou hábito inato de trocar, permutar e comerciar, em vez do impulso pessoal de auto aperfeiçoamento. Como resultado, o tratado de Smith ficou em grande medida desprovido do verdadeiro motor econômico do empreendedorismo.Para uma elaboração moderna do processo, plenamente descrito e devidamente fundamentado, ver Per Bylund, “The Division of Labor Is at the Very Core of Economic Growth” [A divisão do trabalho está no cerne do crescimento econômico, em tradução livre], no Capítulo 6, “The Realm of Entrepreneurship in the Market: Capital Theory, Production, and Change” [O âmbito do empreendedorismo no mercado: teoria do capital, produção e mudança], do livro The Next Generation of Austrian Economics: Essays in Honor of Joseph T. Salerno [A próxima geração de economistas austríacos: ensaios honrando Joseph T. Salerno, em tradução livre], editado por Per Bylund e David Howden, publicado pelo Mises Institute.
Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.
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