Nota da edição:O artigo a seguir foi retirado do capítulo 44 do livro Irrepressible Rothbard [O Irreprimível Rothbard em tradução livre], que traz uma coletânea de ensaios escritos originalmente por Murray Rothbard.
Como alguém, encontrando-se cercado por uma maré crescente de mal, pode deixar de fazer o possível para lutar contra ela? Em nosso século, fomos inundados por uma enxurrada do mal, na forma de coletivismo, socialismo, igualitarismo e niilismo. Sempre esteve absolutamente claro para mim que temos uma obrigação moral imperativa, pelo bem de nós mesmos, de nossos entes queridos, de nossa posteridade, de nossos amigos, de nossos vizinhos e de nosso país, de travar batalha contra esse mal.
Por isso, sempre foi um mistério para mim como pessoas que viram e identificaram esse mal e, portanto, entraram na luta contra ele, acabam, gradual ou subitamente, abandonando essa luta. Como alguém pode ver a verdade, compreender seu dever imperativo e então simplesmente desistir e até passar a trair a causa e seus companheiros? E, no entanto, nos dois movimentos, e em suas variações, com os quais estive associado, o libertário e o conservador, isso acontece o tempo todo.
O conservadorismo e o libertarianismo, afinal, são movimentos “radicais”, isto é, são radical e fortemente contrários às tendências existentes de estatismo e imoralidade. Como, então, alguém que se juntou a um movimento assim, como ideólogo, ativista ou apoiador financeiro, pode simplesmente desistir da luta? Recentemente, perguntei a um amigo perspicaz como fulano podia abandonar a luta. Ele respondeu que “ele é do tipo que quer uma vida tranquila, que quer sentar em frente à TV e que não quer ouvir falar de nenhum problema”. Mas, nesse caso, eu disse, angustiado: “por que essas pessoas se tornam ‘radicais’ em primeiro lugar? Por que elas se orgulham de se chamar de ‘conservadores’ ou ‘libertários’?” Infelizmente, não houve resposta.
Às vezes, as pessoas desistem da luta porque, segundo elas, a causa é desesperadora. “Nós perdemos”, dizem. “A derrota é inevitável”. O grande economista Joseph Schumpeter escreveu, em 1942, que o socialismo é inevitável, que o capitalismo está condenado não por seus fracassos, mas por seus próprios sucessos, os quais deram origem a um grupo de intelectuais invejosos e malévolos que subverteriam e destruiriam o capitalismo por dentro. Seus críticos acusaram Schumpeter de aconselhar derrotismo aos defensores do capitalismo. Schumpeter respondeu que, se alguém aponta que um barco a remo inevitavelmente está afundando, isso é a mesma coisa que dizer: “não faça o melhor que puder para tirar a água do barco”?
No mesmo espírito, suponha por um minuto que a luta contra o mal estatista seja uma causa perdida, por que isso deveria implicar abandonar a batalha? Em primeiro lugar, por mais sombrias que as coisas possam parecer, o inevitável pode ser adiado um pouco. Por que isso não valeria a pena? Não é melhor perder em trinta anos do que perder agora? Em segundo lugar, no pior dos casos, é muito divertido cutucar, irritar e chatear o inimigo, revidar contra o monstro. Isso, por si só, já vale a pena. Não se deve encarar o processo de lutar contra o inimigo como uma tristeza sombria e miserável. Pelo contrário: é altamente inspirador e revigorante pegar em armas contra um mar de problemas, em vez de encará-los com uma rendição servil; e, ao se opor, talvez para acabar com eles e, se não, ao menos para tentar de verdade, desferir seus golpes.
E, por fim, que diabos: se você luta contra o inimigo, você pode vencer! Pense nos bravos combatentes contra o comunismo na Polônia e na União Soviética, que nunca desistiram, que continuaram lutando contra probabilidades aparentemente impossíveis e então, bingo, um dia o comunismo desabou. Certamente as chances de vitória são muito maiores quando você luta do que quando simplesmente desiste.
Nos movimentos conservador e libertário, houve duas grandes formas de rendição, de abandono da causa. A forma mais comum e mais flagrantemente óbvia é uma que todos nós conhecemos bem: o vendido. O jovem libertário ou conservador chega a Washington, a algum think tank, ao Congresso ou como assistente administrativo, pronto e ansioso para travar batalha, para fazer o estado recuar a serviço de sua estimada causa radical. E então algo acontece: às vezes gradualmente, às vezes com uma rapidez surpreendente. Você vai a algumas festas de coquetel, descobre que o Inimigo parece muito agradável, começa a se enredar nas minúcias do “cinturão de Washington”, e logo está atribuindo a máxima importância a alguma votação trivial de comitê, ou a algum cortezinho de imposto ou emenda insignificante, e, por fim, está disposto a abandonar completamente a batalha em troca de um contrato confortável ou de um cargo público bem pago e tranquilo. E, conforme esse processo de venda continua, você descobre que sua maior fonte de irritação não é o inimigo estatista, mas os encrenqueiros no campo que vivem latindo sobre princípios e até atacando você por ter vendido a causa. E, muito em breve, você e o Inimigo passam a ter um rosto indistinguível.
Estamos todos familiarizados demais com esse caminho da venda, e é fácil, e apropriado, ficar indignado com essa traição moral a uma causa justa, à batalha contra o mal e aos seus próprios companheiros que antes eram tão estimados. Mas há outra forma de abandono que não é tão evidente e é mais insidiosa — e não quero dizer simplesmente perda de energia ou de interesse. Nessa forma, que tem sido comum no movimento libertário, mas também é prevalente em setores do conservadorismo, o militante decide que a causa é desesperadora e desiste ao decidir abandonar o mundo corrupto e apodrecido, e se retirar de algum modo para uma comunidade pura e nobre própria. Para os randianos, isso é o “Vale de Galt” , do romance A Revolta de Atlas. Outros libertários continuam tentando formar alguma comunidade clandestina, “capturar” uma pequena cidade no Oeste, ir “para a clandestinidade” na floresta, ou até construir um novo país libertário numa ilha, nas colinas, ou onde quer que seja. Os conservadores têm suas próprias formas de escapismo. Em cada caso, surge o chamado para abandonar o mundo perverso e formar alguma minúscula comunidade alternativa em algum refúgio afastado no mato. Há muito tempo, eu rotulei essa visão de “escapismo”. Você poderia chamar essa estratégia de “neo-amish”, exceto pelo fato de que os amish são agricultores produtivos, e esses grupos, receio eu, nunca chegam sequer a esse estágio.
A justificativa para o escapismo sempre vem revestida tanto de termos de Alta Moralidade quanto de uma linguagem pseudo-psicológica. Esses “puristas”, por exemplo, afirmam que eles, em contraste conosco, pobres lutadores iludidos, estão “vivendo a liberdade”, que estão enfatizando “o positivo” em vez de se concentrar “no negativo”, que estão “vivendo a liberdade” e levando uma “vida libertária pura”, enquanto nós, almas sujas, ainda vivemos no mundo real corrupto e contaminado. Há anos, venho respondendo a esses grupos de escapistas que o mundo real, afinal, é bom; que nós, libertários, podemos ser anti estado, mas que, enfaticamente, não somos anti-sociedade nem contrários ao mundo real, por mais contaminado que ele possa estar. Nós nos propomos a continuar lutando para salvar os valores, os princípios e as pessoas que estimamos, ainda que o campo de batalha fique lamacento. Além disso, eu citaria o grande libertário Randolph Bourne, que proclamou que somos patriotas americanos, não no sentido de adeptos patrióticos do estado, mas da pátria, da nação, de nossas gloriosas tradições e cultura que estão sob ataque severo.
Nossa posição deveria ser, nas famosas palavras de Dos Passos, mesmo que ele as tenha dito como marxista: “tudo bem, somos duas nações”. A “América”, como existe hoje, é duas nações: uma é a nação deles, a nação do inimigo corrupto, de Washington D.C., do sistema de escolas públicas, da lavagem cerebral, da burocracia, da mídia deles; e a outra é a nossa nação, muito maior, a maioria, a nação muito mais nobre que representa a América mais antiga e mais verdadeira. Nós somos a nação que vai vencer, que vai reconquistar a América, não importa quanto tempo leve. É, de fato, um grave pecado abandonar essa nação e essa América antes da vitória.
Mas então estamos enfatizando “o negativo”? Em certo sentido, sim, mas o que mais deveríamos enfatizar quando nossos valores, nossos princípios, nosso próprio ser estão sob ataque de um inimigo implacável? Mas precisamos perceber, antes de tudo, que no próprio ato de acentuar o negativo nós também estamos enfatizando o positivo. Por que lutamos contra, sim, até odiamos, o mal? Apenas porque amamos o bem; e nossa ênfase no “negativo” é apenas o outro lado da moeda, a consequência lógica, da nossa devoção ao bem, aos valores e princípios positivos que estimamos. Não há razão para que não possamos enfatizar e difundir nossos valores positivos ao mesmo tempo em que batalhamos contra os inimigos deles. As duas coisas, na verdade, caminham lado a lado.
Entre conservadores e alguns libertários, essas retiradas às vezes assumiram a forma de se esconder no mato ou numa caverna, agachados no meio de um suprimento anual de pêssegos enlatados, armas e munição, esperando resolutamente para proteger os pêssegos e a caverna da explosão nuclear ou do exército comunista. Eles nunca vieram; e até mesmo as latas de pêssego já devem estar se deteriorando a essa altura. A retirada foi inútil. Mas agora, em 1993, o perigo oposto está se aproximando: isto é, grupos escapistas enfrentam a terrível ameaça de serem queimados e massacrados pelas intrépidas forças do Bureau of Alcohol, Tobacco, and Firearms em sua busca interminável por espingardas um milímetro mais curtas do que algum decreto regulatório, ou por possível abuso infantil. O escapismo começa a despontar como um caminho rápido para o desastre.
É claro que, em última instância, nenhuma dessas retiradas, geralmente anunciadas com grande alarde como o caminho para a pureza, se não para a vitória, valeu coisa alguma; elas são simplesmente uma justificativa, uma espécie de etapa intermediária, para o abandono total da causa e para o desaparecimento do palco da história. O ponto fascinante e crucial a notar é que ambas essas rotas, embora aparentemente diametralmente opostas, acabam inexoravelmente no mesmo lugar. O vendido abandona a causa e trai seus companheiros por dinheiro, status ou poder; o escapista, desprezando corretamente os vendidos, conclui que o mundo real é impuro e se retira dele; em ambos os casos, seja em nome do “pragmatismo” ou em nome da “pureza”, a causa, a luta contra o mal no mundo real, é abandonada. É claro que há uma enorme diferença moral entre esses dois cursos de ação. O vendido é moralmente mau; o escapista, em contraste, para dizer de forma gentil, está terrivelmente equivocado. Não vale a pena conversar com os vendidos; os escapistas precisam perceber que não é trair a causa, muito pelo contrário, lutar contra o mal; e não abandonar o mundo real.
O escapista torna-se indiferente ao poder e à opressão, gosta de relaxar e dizer: “quem se importa com a opressão material quando a alma interior é livre?”. Bem, claro, é bom ter liberdade da alma interior. Eu conheço os velhos chavões sobre como o pensamento é livre e sobre como o prisioneiro é livre em seu íntimo. Mas me chamem de materialista rasteiro, se quiserem, eu acredito (e eu achava que todos os libertários e conservadores acreditavam, no fundo do coração) que o homem merece mais do que isso; que não nos contentamos com a liberdade interior do prisioneiro em sua cela; que levantamos o bom e velho brado de “Liberdade e Propriedade”; que exigimos liberdade no nosso mundo externo e real, de espaço e dimensão. Eu pensava que era disso que se tratava a luta.
Coloquemos assim: não devemos abandonar nossas vidas, nossas propriedades, nosso país, o mundo real, aos bárbaros. Nunca. Aja-mos no espírito daquele magnífico hino que James Russell Lowell colocou numa linda melodia galesa:
“Uma vez para cada homem e nação
Vem o momento de decidir,
Na luta da verdade contra a falsidade,
Pelo lado do bem ou do mal;
Alguma grande causa, o novo Messias de Deus,
Oferecendo a cada um a flor ou a praga,
E a escolha passa para sempre
Entre aquela escuridão e aquela luz.
Embora a causa do mal prospere,
Ainda assim é apenas a verdade que é forte;
Embora sua porção seja o cadafalso,
E sobre o trono esteja o erro,
Ainda assim aquele cadafalso balança o futuro,
E, atrás do desconhecido sombrio,
Deus permanece na sombra
Vigilante sobre os Seus”.
Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.
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E o silencio dos liberecos continua. O facismo está matando até os proprios americanos nos EUA e os republicanos estão contra o Trump.
Bastou morrer um branco que a historia muda de figura.
Quais liberecos? Que grupo definido e homogêneo ideologicamente é esse?
O que é fascismo? Quais as características dos EUA que se assemelham?
Que morte de qual branco mudou o quê?
Se tu parar pra responder pelo menos duas dessas perguntas, vai perceber duas coisas: 1) Sua ineficiência cognitiva em sequer conseguir definir os termos que usa vagamente. 2) Como tu é movido por narrativas que sequer consegue destrinchar.