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A nova arquitetura do crescimento: de Solow a Aghion e o destino das nações

Nota do Editor:

Embora o artigo a seguir não seja puramente austríaco, ele toca em uma importante questão também explorada pelos economistas da tradição austríaca: por que algumas economias crescem, enquanto outras ficam estagnadas.

O autor do artigo, professor da Pós-Graduação em Escola Austríaca, parte das lições de Joseph Schumpeter sobre o processo de inovação e desenvolvimento e das contribuições, mais recentes, de Philippe Aghion, vencedor do Nobel de Economia em 2025.

Como leituras complementares ao artigo a seguir, indicamos um artigo na Revista Mises que promove um debate entre austríacos e Schumpeter, um artigo do nosso site sobre enriquecimento e um artigo do nosso também professor da PGEA, Antony Mueller, defendendo mais capitalismo.


“O processo de destruição criativa é o fato essencial do capitalismo.” – Joseph Schumpeter

A teoria do crescimento econômico viveu, por décadas, sob a sombra elegante, mas ainda incompleta, de Robert Solow. Seu modelo demonstrou com clareza matemática que o mero acúmulo de capital, máquinas, estradas, fábricas, trabalhadores, não é suficiente para sustentar o desenvolvimento no longo prazo – cedo ou tarde, os retornos marginais se esgotam, e apenas a produtividade explica por que algumas economias seguem avançando enquanto outras permanecem estagnadas. Mas Solow jamais se dedicou a explicar de onde vinha essa misteriosa produtividade. Seu “A” – a Produtividade Total dos Fatores (TFP) – era apresentado como progresso técnico exógeno, um resíduo. Faltava-lhe uma teoria do próprio motor do crescimento. Foi essa lacuna que Philippe Aghion, consagrado com o Prêmio Nobel de Economia de 2025 por sua contribuição decisiva à compreensão da inovação, procurou preencher ao recuperar e atualizar o espírito de Joseph Schumpeter, construindo uma teoria moderna da destruição criativa capaz de explicar não apenas o dinamismo econômico, mas também as divergências persistentes entre países que, segundo Solow, deveriam convergir.

A grande contribuição de Aghion foi deslocar o debate do plano macro para o microeconômico. A produtividade, antes um número residual, passou a ser explicada a partir do comportamento das firmas, de suas estratégias de inovação, do ambiente competitivo em que operam e das instituições que moldam seus incentivos. Aghion mostrou que o crescimento é, antes de tudo, um processo de renovação contínua: novas empresas desafiam as antigas, novos produtos substituem tecnologias obsoletas e líderes de mercado são empurrados a inovar para evitar serem superados. Ao contrário do modelo neoclássico, em que capital e trabalho se combinam em curvas suaves e previsíveis, o mundo descrito por Aghion é turbulento, conflituoso e permanentemente político. É nele que o velho dilema schumpeteriano se manifesta de forma mais aguda: as mesmas empresas que inovam para conquistar posições dominantes passam a utilizar seu poder – econômico e político – para impedir a entrada de novos competidores, bloqueando, elas próprias, o processo de destruição criativa que as fez crescer. Em muitos países, são essas barreiras, e não a falta de capital, que travam a produtividade.

A teoria schumpeteriana explica com precisão por que alguns países escapam da chamada armadilha da renda média — termo cunhado pelo Banco Mundial para descrever economias que, após atingir níveis intermediários de renda (cerca de US$ 4 mil a US$ 20 mil de PIB per capita), não conseguem completar a transição institucional necessária para alcançar o grupo das nações ricas, enquanto outros permanecem presos nela por décadas. À medida que uma economia se aproxima da fronteira tecnológica mundial, a imitação e a difusão deixam de ser suficientes. O crescimento precisa vir da inovação doméstica – uma transição que exige instituições flexíveis, mercados competitivos, educação de fronteira, políticas de concorrência ativas e um ambiente favorável à entrada de novos empreendedores. Esse é o ponto no qual várias economias que inicialmente convergiam passam a divergir.

A experiência argentina é emblemática. No início do século XX, era uma das economias mais prósperas do mundo, com renda per capita próxima à dos Estados Unidos e muito superior à da Coreia. Porém, quando chegou ao estágio em que inovação deveria substituir mera acumulação, suas instituições, muitas delas capturadas por grupos incumbentes e avessos à competição, não evoluíram. A partir dos anos 1930, a economia entrou em regressão estrutural, presa em políticas de proteção, ciclos de instabilidade e declínio da produtividade. Já a Coreia do Sul, partindo de renda per capita muito inferior, alinhou educação, modernização industrial, difusão tecnológica, competição e eficiência. Construiu um estado capaz de fomentar inovação e, ao mesmo tempo, disciplinar o setor privado. Quando alcançou a fronteira, suas instituições estavam preparadas para sustentar a transição que a Argentina não conseguiu completar.

Essa dinâmica se repete em outros pares de países com trajetórias iniciais semelhantes e destinos opostos. Botswana e Níger, por exemplo, ilustram o impacto decisivo das instituições sobre a riqueza natural. Enquanto Botswana converteu diamantes em infraestrutura, educação e diversificação produtiva, preservando regras estáveis de propriedade e permitindo a emergência de novos setores, Níger permaneceu preso à dependência agrícola e à instabilidade política – com quatro golpes em um curto período de tempo, foi incapaz de criar um ambiente onde a inovação florescesse.

Da mesma forma, Vietnã e Paquistão divergiram profundamente desde os anos 1990. O primeiro abriu mercados, integrou-se às cadeias globais, incentivou competição e atraiu investimento estrangeiro; o segundo manteve estruturas protecionistas, instituições frágeis e setores altamente dominados por incumbentes. O resultado foi que o Vietnã multiplicou sua renda por dez, enquanto o Paquistão permaneceu essencialmente imóvel.  O país do sudeste asiático criou incentivos para que mesmo firmas distantes da fronteira buscassem inovar para escapar da pressão competitiva, ao passo que, no Paquistão, a ausência de contestação reduziu os estímulos à inovação e cristalizou estruturas improdutivas.

Os achados empíricos reforçam esse argumento. Nos Estados Unidos, firmas crescem com a idade porque seu ambiente competitivo as obriga a inovar constantemente. Na Índia e no México, empresas permanecem pequenas e estagnadas por décadas, sinal inequívoco de que falta destruição criativa e sobra proteção. Para empresas próximas da fronteira, mais competição significa mais inovação, pois o risco de ser ultrapassado é alto, o que Aghion chamou de “escape competition”. Já para empresas muito atrasadas, competição excessiva desestimula investimento, pois as chances de alcançar o líder são pequenas. Economias inovadoras possuem uma proporção maior de firmas na fronteira; economias estagnadas concentram-se na cauda atrasada, onde a competição não gera dinamismo. Esse mecanismo, ignorado pelo modelo de Solow, dá substância microeconômica à variação da Protuditivade Total dos Fatores (TFP) entre países.

A contribuição de Aghion também esclarece o motivo pelo qual a produtividade estagnou em várias economias avançadas nas últimas décadas. A crescente concentração de mercado, a queda no número de novas firmas e a explosão dos markups entre grandes corporações reduziram a taxa de renovação empresarial. A inovação passou a se concentrar em poucas gigantes, que, em vez de pressionadas, tornaram-se capazes de moldar regulações, adquirir concorrentes e bloquear entrantes. O resultado é um fenômeno que Solow não conseguiu prever: mesmo em países ricos, a TFP pode desacelerar quando a destruição criativa enfraquece.

A teoria schumpeteriana oferece uma explicação plausível para esse “declínio silencioso”: parte significativa do avanço tecnológico simplesmente não aparece nas estatísticas, porque a substituição de produtos por novos entrantes não é bem captada nas métricas oficiais, e porque a concentração excessiva impede que a inovação se difunda por toda a economia.

O casamento intelectual entre Solow e Aghion redefine a forma como o desenvolvimento deve ser entendido. Solow revelou que o futuro de uma economia depende da produtividade. Aghion explicou por que algumas nações conseguem produzi-la enquanto outras fracassam: tudo depende da estrutura institucional que organiza a competição, incentiva a inovação e permite a destruição criativa. Não é a quantidade de capital investido, mas a qualidade das regras que determinam quem entra, quem cresce e quem pode desafiar o status quo. Países que permitem renovação: Coreia, Taiwan, Singapura, Vietnã, Botswana, tendem a avançar. Países que protegem incumbentes: Argentina, Brasil, México, Paquistão, Níger, permanecem presos em ciclos que Solow jamais poderia esclarecer sozinho.

A renovação da tradição schumpeteriana trouxe de volta a dimensão concreta do crescimento, convertendo-a em lente poderosa para interpretar trajetórias nacionais e orientar políticas modernas. Seu legado mais profundo talvez seja o de lembrar que desenvolvimento não é um simples problema econômico, mas sobretudo institucional e político. A produtividade, esse conceito aparentemente técnico, revela-se na prática como o desfecho de um confronto permanente entre velhos e novos atores, moldado por escolhas estatais sobre abertura ou fechamento e por sociedades dispostas, ou não, a encarar o fato incômodo de que não há avanço sem substituição. Ao iluminar essa dinâmica, a teoria conseguiu completar a intuição de Solow, e transformou a própria compreensão de por que algumas nações avançam enquanto outras continuam, década após década, à sombra do futuro que poderiam ter tido.

Resta, por fim, a indagação que atravessa qualquer análise séria sobre desenvolvimento: de que modo países conseguem produzir as mudanças institucionais necessárias para sustentar saltos de eficiência? Identificar obstáculos já é, por si só, um exercício complexo. Mais desafiador ainda é compreender como se formam as combinações políticas capazes de levar adiante transformações que redistribuem poder, alteram incentivos e desafiam interesses estabelecidos. A observação comparada de países que partiram de condições semelhantes e divergiram profundamente indica que o impulso reformista raramente nasce de uma única força, ele emerge de coalizões improváveis, momentos críticos e arranjos que ampliam a legitimidade de decisões difíceis. Talvez o enigma central não seja apenas “por que alguns avançam”, mas “como conseguem fazê-lo”. E é nessa zona cinzenta, ainda pouco decifrada, que reside uma das perguntas mais importantes para qualquer nação que deseje converter potencial em realidade.

Para continuar a leitura:

The concept of entrepreneur of Schumpeter in comparison to Kirzner

O segredo do enriquecimento econômico – e por que os países em desenvolvimento continuam atrasados

Por que mais capitalismo?

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1 comentário em “A nova arquitetura do crescimento: de Solow a Aghion e o destino das nações”

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