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A espiral decadente da Venezuela

À
medida que a situação econômica da Venezuela vai degringolando, seu governo vai
se tornando cada vez mais autoritário. 
No momento, ele está fazendo de tudo para solapar as bases do já
extremamente deteriorado tecido social do país.

Na
sexta-feira, dia 8, o presidente Nicolás Maduro ordenou que o exército ocupasse
as lojas de uma rede varejista de eletrônicos
e confiscasse todos os bens
com o intuito de vendê-los a “um preço justo”. 
Logo após esse confisco, multidões se aglomeraram, ao longo de todo o
país, em frente às portas de várias lojas de eletrodomésticos com o intuito de
saqueá-las, o que chegou a ocorrer em vários casos.  Esta ocupação ocorreu um dia após o Banco
Central da Venezuela anunciar que a taxa de inflação de preços em outubro foi
de 5%, o que dá uma inflação anualizada de 54%. 
No entanto, a realidade é bem mais tenebrosa.

A
história da economia venezuelana e de sua decadente moeda, o bolívar, pode ser
resumida na seguinte frase: “De mal a pior”. 
Com efeito, a situação já extremamente deteriorada da Venezuela
conseguiu dar uma guinada para pior.

Em
uma reação estouvada e totalmente equivocada às aflições econômicas do país,
Maduro exigiu que o Congresso lhe concedesse poderes
emergenciais e ditatoriais
sobre toda a economia.  Recentemente, o governo anunciou planos para
instituir uma nova taxa de câmbio para turistas em uma tentativa de acabar com
a alta arbitragem no mercado paralelo de câmbio.  Obviamente, isso de nada irá adiantar.  A economia do país está em declínio desde que
Hugo Chávez impôs seu “socialismo moreno” à Venezuela, uma excentricidade que,
à época, chegou a ser relativamente bem recebida por vários setores da grande
mídia.

Durante
anos, a Venezuela manteve um volumoso programa de gastos sociais combinado com
controles de preços e salários e com um mercado de trabalho extremamente
rígido, além de manter, como política externa, uma agressiva estratégia de
ajuda internacional voltada majoritariamente para Cuba.  Todo este insano castelo de cartas conseguiu
se manter solvente por um bom tempo unicamente por causa das receitas do
petróleo.

Mas
à medida que os custos deste populismo da dupla Chávez/Maduro foram crescendo,
o país teve de recorrer com cada vez mais frequência aos cofres da estatal
petrolífera PDVSA e à impressora do dinheiro do Banco Central da Venezuela.

Desde
a morte de Chávez, no dia 5 de março de 2013, todo este castelo de cartas
começou a desmoronar, e a taxa de câmbio do Bolívar no mercado paralelo ilustra
bem essa história.  Desde aquele mês, o
bolívar já perdeu 62,36% de seu valor em relação ao dólar no mercado paralelo,
como mostra o gráfico abaixo.

 venezuela_chart_1.png

Gráfico 1: taxa
de câmbio bolívar/dólar no mercado paralelo (linha azul) versus taxa de câmbio
oficial declarada pelo governo (linha vermelha)

Essa
acentuada desvalorização do bolívar, por sua vez, gerou uma extremamente alta
inflação de preços na Venezuela.  O
governo reagiu exatamente como todos os governos populistas reagem aos aumentos
de preços causados por suas próprias políticas: impondo controle de preços cada
vez mais rígidos.  Obviamente, como Ludwig von Mises já havia
explicado há várias décadas
, estas políticas não apenas fracassaram
completamente, como geraram um grande desabastecimento nos supermercados e uma
constrangedora escassez de vários produtos essenciais, como papel higiênico.  E nada foi feito para atacar a causa básica
das aflições inflacionárias da Venezuela, que é o descontrole da oferta
monetária.

O
gráfico abaixo mostra a evolução da quantidade de dinheiro na economia
venezuelana (agregado M2) de acordo com as estatísticas do próprio Banco
Central venezuelano.  Em sete anos, a
quantidade de dinheiro na economia aumentou 10 vezes.

venezuela-money-supply-m2.png

Gráfico 2:
evolução da quantidade de dinheiro na economia venezuelana

O
governo Maduro reagiu a tudo isso recorrendo exatamente às mesmas táticas
empregadas por outros regimes totalitários e com moedas destroçadas.  Do Zimbábue de Robert Mugabe à Coréia do
Norte atual, o manual é simples: negar e enganar.

Oficialmente,
os dados do governo venezuelano afirmam que a taxa de inflação de preços no
país é de apenas 50%, um valor totalmente irreal.  E, para aumentar o escárnio, no dia 22 de
outubro, o ministro das finanças Nelson Merentes enviou ao Congresso uma
proposta orçamentária para 2014 que projetava uma inflação de preços de
aproximadamente metade da inflação oficial atual.  Apenas mais uma
tentativa jocosa e inócua de mascarar a realidade do grave problema inflacionário do
país.

Mas
então, quão grande é a inflação da Venezuela? 
Utilizando a desvalorização do bolívar no mercado paralelo — que é o
mensurador que melhor estima o real valor de uma moeda –, é possível inferir
que a inflação de preços “reprimida” na Venezuela está atualmente nos
três dígitos, alcançando o estonteante valor anual de 283%, como mostra o
gráfico abaixo.

venezuela_chart_22.png

Gráfico 3:
inflação de preços oficial (linha vermelha) versus inflação de preços implícita
(linha azul) acumuladas em 12 meses.

Pior
ainda: a taxa de inflação implícita mensal
alcançou 36%, como mostra a figura abaixo.  Tal valor está perigosamente próximo do limite
de 50% ao mês, que é o valor que simbolicamente caracteriza uma
hiperinflação. 

venezuela_chart_33.png

Gráfico 4: taxa
de inflação de preços mensal (implícita) na Venezuela

A
acelerada depreciação do bolívar nada mais é do que um reflexo da deterioração
das perspectivas econômicas da Venezuela. 
Tudo indica que o governo Maduro está determinado a não apenas insistir
em suas políticas fracassadas, como também em intensificá-las.  Preços estão sendo
reduzidos por decreto
, empresários estão sendo
presos
e a margem de lucro das empresas passou a ser estritamente
controlada

Embora
o congelamento mantenha os preços dos bens em níveis ostensivamente baixos no
mercado oficial, eles inevitavelmente geram prateleiras vazias, privando vários
consumidores de ter acesso a bens essenciais. 
Controle de preços em conjunto com uma regulação da margem de lucro não
pode gerar outra coisa senão o desabastecimento.  Como resultado, a
escassez de produtos bateu recordes na Venezuela

O
governo venezuelano alega que a alta inflação de preços e o desabastecimento
generalizado de produtos básicos são resultado tanto de uma “guerra econômica” feita
pelos EUA quanto de maquinações maquiavélicas da “classe burguesa parasítica” da
Venezuela.  Por isso, Maduro começou a
mobilizar suas tropas contra estes “inimigos” e passou a encarcerar todos os
comerciantes que pudessem ser enquadrados no crime de “usura” e “extorsão”.

Veja
no vídeo abaixo o desespero de um comerciante ao ser preso pelo governo pelo
simples fato de não ter reduzido seus preços como ordenava o governo:

Comprovando
sua ignorância econômica, Maduro disse que o Banco Central venezuelano tem de
estar mais atento às maquinações dos empresários do país e divagou: “Se estamos
baixando os preços dos produtos em quase 100%, isso deveria impactar a taxa de
inflação, não?”  É claro que não.  Enquanto o Banco Central continuar criando
dinheiro para financiar o governo (ver o gráfico 2), a inflação de preços
continuará subindo.  E ao ativamente
estimular os saques aos comerciantes, o governo está deliberadamente
desestabilizando a sociedade venezuelana, muito provavelmente com o intuito de
ter a justificativa para adotar medidas ainda mais radicais.

Em
abril, quando Nicolás Maduro oficialmente assumiu a presidência após uma
vitória bastante questionável nas urnas, várias pessoas especularam que ele
seria mais conciliador e moderado que seu antecessor Chávez.  Ledo engano. 
Já está claro agora que, sob Maduro, o chavismo foi elevado ao paroxismo
e que o pior ainda está por vir na Venezuela.

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Leia também: Recordações de um Brasil socialista

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64 comentários em “A espiral decadente da Venezuela”

  1. Senhor Hanke, estou disposto a defender o bolivarianismo até seu último suspiro.

    Não é porque uma economia possui inflação exorbitante, restrições de oferta e produção e escassez generalizada de bens de consumo que ela não funciona. A situação atual da Venezuela é meramente um cenário onde um estado democrático justamente domou o mercado em prol do bem comum:

    •Os venezuelanos não mais esfregam papel em seus dejetos, que é uma terrível prática capitalista e anti-ambientalista. Pelo bem da humanidade ao longo prazo os venezuelanos utilizam folhas largas de favas, farão reciclagem de jornais ou simplesmente aceitarão seus corpos como são, abandonando a cultura da exploração física imposta pela elite “higiênica” e aceitando seus dejetos como um SS natureza.

    •As corridas nos supermercados são políticas de saúde pública e incentivo ao esporte.

    •Eletrodomésticos apenas causam dependência e preguiça, melhor éramos quando buscávamos lenha para lavar roupa e salgávamos carne no porão para conserva-la. Comidas frias prendem o homem à lógica da produção capitalista, o que é uma brutalidade.

    (Continua…)

  2. “Se estamos baixando os preços dos produtos em quase 100%, isso deveria impactar a taxa de inflação, não?”

    Essa frase vai junto de outras célebres:

    “Se estamos dando dinheiro aos pobres, deveríamos erradicar a pobreza, não?”
    “Se estamos taxando mais os ricos, deveríamos ter uma arrecadação maior, não?”
    “Se estamos abaixando as taxas de juros, o país deveria estar se desenvolvendo, não?”
    “Se estamos estimulando a demanda, o emprego deveria aumentar, não?”

    Entre outras pérola que vemos por aí.

  3. Este gesto de Maduro na foto do artigo é perturbadoramente idêntico ao gesto feito por alguns ilustres petistas que atualmente estão na cadeia.

  4. Será que esta manipulação nos valores da inflação feita pelo governo Venezuelano também ocorer aqui?

    Minha sensação é de que o aumento nos preços dos produtos no mercado estão muito superiores à inflação declarado pelo IBGE.

    Haveria alguma forma de termos como calcular a inflação real no Brasil?

    Abraços!

  5. Excelente artigo. cheguei a ficar com pena do empresário desesperado.

    A pergunta que não quer calar, quem poderá parar Nicolás Maduro? e como? Não adianta vir com esse papo de oposição, de seguir pelas vias democráticas, porque sabemos que ali a democracia trabalha apenas para ele. E tudo que for contra ele vai dizer que é golpista.

  6. Não há nada mais corrosivo a tudo aquilo que um liberal defende que a junção de duas tristes situações, a ignorância absoluta de um povo privado da educação ideologicamente neutra e de qualidade associado ao populismo demagógico dos caudilhos de esquerda.

    É o pior dos mundos, uma população que tem aversão à política e mal sabe realizar as 4 operações aritméticas é apresentada a um vendedor de sonhos, uma criatura caricata e messiânica que promete resolver todos os problemas da nação criando um estado babá gigantesco, o povo não precisa mais se preocupar já que o estado tomará conta dele e dará conta de suas necessidades, a única coisa que o caudilho cobra é a adoração cega e inquestionável do seus atos.

    Democracias mais sólidas que a nossa já caíram sob bandeiras vermelhas.

    O exemplo do que está acontecendo na Venezuela é quase um vaticínio do que ocorrerá a banânia se a estrela vermelha continuar a brilhar por estas terras.

  7. Maduro devia trocar o sobrenome de Maduro para PODRE!
    Mais uma coisa. Sabendo que Maduro foi graduado numa “Fábrica de diplomas” cubana, por que alguém tem alguma surpresa com isto?

  8. Uma pergunta, o que impede os comunistas venezuelanos fazerem o que Lenim, Stalin e Trotsky fizeram com a Russia em 1917? Ou mais precisamente, o que impede eles de tomarem todos os meios de produção?

  9. Quanto fica a inflação do Brasil se for calculada nesse método de desvalorização no mercado paralelo? (no qual a inflação venezuelana chega a 283%)

    Eu acho que seria legal se o IMB divulgasse essas estatísticas que ficam mais “escondidas”.

    Abraços

  10. Emerson Luís, um Psicólogo

    “À medida que a situação econômica da Venezuela vai degringolando, seu governo vai se tornando cada vez mais autoritário.”

    A afirmação pode ser invertida que continua válida:

    “À medida que o seu governo vai se tornando mais autoritário, a situação econômica da Venezuela vai degringolando cada vez mais”

    É um círculo vicioso, um redemoinho na água em que o objeto vai girando em círculos e afundando cada vez mais até desaparecer. E os brasileiros não aprendem com as lições do país vizinho.

    * * *

  11. Este site é sempre excelente em economia.
    Porém, acredito que a total deterioração da economia venezuelana seja apenas uma manobra com o intuito de fomentar a luta de classes.
    Quanto pior for a situação econômica, mais fácil será para os comunistas tomarem o poder totalmente, acabando com as eleições.
    Para Maduro e Fidel, quanto pior a situação fica, mais fácil será alcançar o poder, com o povo em guerra contra os empreendedores.
    E com a tomada do poder, todos os bens de capital irão trocar de donos, deixando de pertencer aos atuais proprietários.
    A longo prazo, quando será impossível reaver os bens espoliados, estes pertencerão a ilustres membros do partido comunista.
    Assim como foi na Rússia, que ao fim do regime ostentava centenas de milionários e bilionários, em um total paradoxo, posto que todos os bens eram do Estado.
    Assim, daqui a alguns anos, tudo que tenha algum valor na Venezuela pertencerá a membros do partido comunista ( ou seja lá o nome que tiver o partido dos donos do poder, sócios do fidel.)

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