As
lições a serem aprendidas com a falência de Detroit, uma cidade que já foi o
exemplo cintilante do poderio industrial americano, estão sendo ignoradas pela
mídia e por políticos mundo a fora.
Embora a espiral de morte da cidade do automóvel possa parecer extrema
em relação às condições de outros governos, a diferença é apenas de grau, e não
de organização. A falência de Detroit é
produto de uma combinação entre decadência produtiva, governos incompetentes,
sindicatos agressivos e endividamento incontrolável.
Como
que para comprovar que políticos só pensam em contar mentiras reconfortantes
para eleitores, o atual candidato a prefeito de Detroit, Tom Barrow, garantiu
de maneira vigorosa que a crise fiscal da cidade não passa de pura ficção. Em uma recente entrevista, ele descreveu uma
conspiração de longo prazo entre forças do Partido Republicano e do setor
privado para roubar os ativos dos cidadãos de Detroit, destruir os sindicatos e
acabar com os direitos civis dos eleitores.
Detalhe: a cidade está sob inteiro controle do Partido Democrata desde o
início da década de 1960.
Graças
a anos de excessivos e generosos gastos governamentais, a cidade não possui
hoje recursos para financiar nem mesmo os serviços mais básicos para sua
população. Não são poucos os que afirmam
que Detroit é tão digna de socorro federal quanto aquelas cidades devastadas
por desastres naturais, como furacões e terremotos. A questão é que não há nada de “natural” no
desastre fiscal de Detroit.
A
verdadeira história de Detroit é que seus problemas, em vez de naturais, foram
totalmente ‘criados pelo homem’, e podem ser resumidos em sete palavras: o
setor privado construiu, o governo destruiu.
Essa é a manchete percuciente que infelizmente está ausente da cobertura
midiática.
Na
primeira metade do século XX, Detroit oferecia empregos industriais para
aproximadamente 200.000 trabalhadores. O
efervescente mercado de trabalho fez com que a população da cidade crescesse
para 1,8 milhão de pessoas até a década de 1950. E os empregos não vieram de programas
governamentais ou de “investimentos” públicos em educação e programas de
treinamento; eles foram criados pela vitalidade do capitalismo americano, pela
visão estratégica e voltada para o longo prazo de industrialistas, pela forte
ética do trabalho da população, e pela relativa ausência de interferência do
governo e dos sindicatos. (As três
grandes fabricantes de automóveis — GM, Ford e Chrysler — só começariam a
lidar com o poderoso sindicato United Auto Workers
em 1941).
Qualquer
um que já teve o prazer de encontrar um carro americano clássico, como um Oldsmobile 8 Convesível de 1934 ou um Chrysler Town & Country de 1941, é capaz de entender
por que Detroit prosperou da forma como prosperou. Não apenas estes carros eram impressionantes
obras de engenharia e de perícia profissional, como também eram
surpreendentemente acessíveis para vários americanos de classe média. A riqueza gerada pelos grandes fabricantes
destes automóveis, bem como pela variedade de pequenos fabricantes que lhes
forneciam peças e serviços, fluía para todas as classes de pessoas em Detroit,
permitindo à cidade construir imponentes prédios e
espaços cívicos, estabelecer instituições
artísticas de nível internacional, e contribuir enormemente para as realizações
culturais do país.
Porém,
quando a cidade atingiu seu apogeu, toda a sua riqueza se tornou tentadora
demais para as organizações sindicais e para todas as esferas de governo (federal,
estadual, municipal). Embora Detroit
continuasse a produzir e a prosperar durante toda a década de 1950, foi na
década de 1960, mais especificamente após a guerra do Vietnã, que ocorreu a
inflexão da indústria automotiva e da cidade que a representava. Não obstante a própria indústria automotiva
ter a sua parcela de culpa — sua estrutura burocrática e sua arrogância míope
a deixaram despreparadas para a concorrência estrangeira, o que certamente
contribuiu para seu próprio declínio nos anos pós-guerra –, a real culpa deve
ser atribuída diretamente aos sindicatos e ao governo. Tendo de enfrentar o inabalável poder de uma
força de trabalho monopolizada e protegida pela poderosa máquina política
controlada pelo Partido Democrata, que comanda a cidade desde a década de 1960,
as fabricantes de automóveis tiveram de aquiescer com seguidos aumentos
salariais, com leis trabalhistas restritivas, e com generosas e crescentes
pensões, o que inviabilizou totalmente sua capacidade de investimento. Era simplesmente impossível sobreviver a esse
conjunto de demandas.
Politicamente,
a própria dinâmica eleitoral de uma cidade fortemente sindicalizada criou uma
tempestade perfeita para Detroit.
Prefeitos e vereadores passaram a ser eleitos exclusivamente de acordo
com sua capacidade de prometer cada vez mais benesses para os sindicatos e seus
membros, os quais, obviamente, irrigavam seus políticos preferidos com nababescas
doações de campanha. E, embora as
fabricantes fossem livres para apoiar os candidatos que quisessem, não havia
como concorrer em número com os reais eleitores, que eram os sindicatos, os
operários e suas famílias. Como
resultado, desde a década de 1960, Detroit passou a sofrer com gerações de
governos corruptos e incompetentes financiados por sindicatos corruptos e
incompetentes. Ambos os lados não
possuem a mais mínima compreensão de como sua cidade foi construída e de como
as promessas que estavam fazendo para as gerações futuras jamais poderiam ser
mantidas tão logo as indústrias sucumbissem sob a pesada mão da tributação, das
regulações e da coerção sindical.
No
final da década de 1950, a população caucasiana começou a sair da cidade,
mudando-se para a região norte, acima da mítica 8 Mile (veja o filme homônimo
com o rapper Eminem). Os violentos distúrbios de 1967
intensificaram ainda mais este êxodo, o qual a mídia rotulou de “fuga dos
brancos”. Em 1974, foi eleito o prefeito
Coleman A. Young, com
um forte discurso anti-brancos, que ficaria no poder por incríveis 20 anos e
intensificaria ainda mais a “fuga dos brancos”.
O legado de Young foi desastroso.
Durante seu reinado, a cidade foi imersa em inúmeros escândalos de
corrupção ao mesmo tempo em que a administração, com sua retórica fortemente
racial, foi criando um verdadeiro e profundo apartheid urbano. Dentre os principais “feitos” de Young estão a
adoção de políticas de ação afirmativa como critério padrão para se preencher
empregos municipais; um departamento de polícia chafurdado em escândalos e
ligado ao narcotráfico, o que culminou com o chefe de polícia indo para a cadeia; a terceirização de obras públicas exclusivamente para empresas formadas
por minorias, independentemente de sua qualificação; e a imposição de que todas
as empreiteiras que fizessem obras com dinheiro da prefeitura contratassem nativos
de Detroit.
Tudo
isso gerou um enorme êxodo populacional, o que encolheu ainda mais a base
tributária. Atualmente, a população de
Detroit é de apenas 40% do que era em seu auge, e o número de empregos na
indústria caiu 90%, para menos de 20.000.
Enquanto isso, a dívida municipal é de mais de US$18 bilhões, o que equivale
a aproximadamente de US$25.000 por cidadão.
E isso em uma cidade em que menos da metade da população adulta está
empregada e praticamente metade é formada por analfabetos funcionais.
A
cidade prometeu mais de US$3 bilhões para 20.000 pensionistas municipais
(US$150.000 para cada um), um dinheiro que simplesmente não existe. Kevin Orr, escolhido para
administrar o processo de falência de Detroit, recentemente veio a público
mostrar que a cidade gasta 38 cents de cada dólar de imposto com estes “custos
herdados”, e a previsão é que tal cifra irá crescer para 65 cents. Isso significa simplesmente que não sobrou
nenhum dinheiro para administrar a cidade.
E em vez de reconhecer estes problemas, os políticos de Detroit, bem
como o atual candidato a prefeito, preferem apenas fingir que eles não existem.
A
boa notícia é que as mesmas forças que construíram Detroit podem ajudar a reerguer
a cidade, desde que deixadas livres para atuar.
Em primeiro lugar, Detroit tem de declarar moratória em sua dívida. Isso significa que aqueles indivíduos que
contavam com suas pensões nababescas, investidores que compraram títulos
municipais e demais cidadãos comuns irão sofrer. O governo municipal, por sua vez, se tornará
totalmente indigno de crédito, o que significa que investidores não mais irão
retirar dinheiro do setor produtivo para emprestar para a burocracia
municipal. Tão logo esse processo
doloroso esteja completo, Detroit passará a apresentar várias vantagens. Seus imóveis estarão inacreditavelmente
baratos e a cidade terá uma mão-de-obra desesperada por trabalho. Se o governo relaxar as regulamentações e as
leis trabalhistas, cortar impostos, adotar uma linha dura com relação às
táticas de intimidação dos sindicatos, e abolir o salário mínimo,
empreendedores poderão vislumbrar ali uma oportunidade e voltar para a cidade.
Muito
embora a indústria não possa oferecer os altos salários que oferecia no
passado, Detroit ao menos voltaria a fornecer empregos. E embora a cidade fosse retroceder gerações,
ela ao menos estaria apresentando algum dinamismo. Mas a verdade é que a esquerda entraria em
erupção e irromperia em
fúria. Estamos programados
para interpretar tais medidas de mercado como sendo apenas um exemplo cruel de
‘exploração gananciosa’ em vez de entendê-las como sendo a maneira natural como
o capitalismo cura os excessos do intervencionismo e recomeça o jogo. A esquerda prefere ver os desempregados em
sua situação atual a permitir que eles voltem a trabalhar mais horas e
recebendo salários menores.
Portanto,
em vez de uma cura honesta, é de se esperar que Detroit tente sair da crise
aumentando seu endividamento, reforçando suas promessas irrealistas e
suplicando por socorros do governo federal, ao mesmo tempo em que seus
políticos fingem estar atacando os problemas crônicos.
No
final, Detroit é apenas mais um exemplo do que ocorre quando governo e
sindicatos se unem e impõem pensões dadivosas, legislações trabalhistas
draconianas, regulamentações irrealistas e privilégios dignos de realeza. Acrescente a isso uma forte dose de discurso racial
anti-brancos, ações afirmativas, medidas que afastam empreendedores e
endividamento crescente, e você entenderá a situação atual. Embora as contas públicas de Detroit não
tenham correspondentes, a cidade do automóvel é apenas um exemplo mais avançado
de uma tendência que pode vir a afetar governos de todo o mundo caso eles não
controlem seus gastos e seu endividamento, e não restrinjam as demandas de seus
funcionários públicos e de seus sindicatos favoritos.
E o que me assusta é ver tudo caminhando inexoravelmente para a mesma direção, cada vez mais rápido, e com aceleração maior. É o desvio para o vermelho das galáxias – e vermelho não poderia ser cor melhor representante – transposto para a vida humana nos dias de hoje. Quanto mais esquerdismo, mais esquerdismo.
Passeatas para “libertar” pedem mais intervenção e mais protecionismo estatal.
Cupins, baratas e ratos não fariam, juntos, trabalho melhor na destruição da nossa história.
Detroit poderia muito bem seguir o exemplo do bairro Kreuzberg, em Berlim: economia baseada em bitcoins.
exame.abril.com.br/tecnologia/noticias/bairro-de-berlim-cria-economia-baseada-em-bitcoins
Quando as pessoas, em especial, as liberais, acordarem para isso, aí sim governos, sindicatos e toda a esquerdalha irá morrer por inanição. Quando os governos forem impedidos de confiscar a renda de seus cidadãos via impostos (o que o bitcoin possibilita), aí sim poderemos voltar a falar em livre mercado.
Até lá, o livre mercado será apenas uma doce utopia.
Senhor Schiff, se o preço das conquistas sociais é a falência material, a perversão de valores, a derrocada da moralidade, a desfiguração do indivíduo, a eliminação dos ricos e da classe média; a destruição de toda “meritocracia”, o desfazer de todo tipo de comércio e o massacre absoluto dos desejos pessoais; trata-se de um preço que nós estamos mais que dispostos a pagar..
Se a insuficiência de dinheiro há de revelar-se um obstáculo intransponível no caminho da igualdade, que seja completamente ignorada.
Este artigo, Declare Detroit a Free City (mises.org/daily/6489/Declare-Detroit-a-Free-City), também é imprescindível leitura.
PETER SCHIFF, como sempre, nos fornece mais um memorável escrito.
Um grande abraço aos amigos do IMB!
Petet Schiff será, em algumas décadas, ou reconhecidamente um dos maiores cérebros sobre o funcionamento econômico que a historia ja viu, ou só mais um cara esperto, com duas bolas, e que acabou por estar errado sobre a quebra dos EUA.
As duas maneiras de ser lembrado me parecem bem dignas…
Eu moro em Portugal e esta semana vi algo que nunca pensei ver vindo de um sindicalista. O líder de um dos maiores sindicatos de Portugal afirmou o seguinte:
“devo dizer, em nome do pragmatismo, que, entre desemprego, que é uma chaga social, e a precariedade laboral, que é outra chaga social, costuma-se dizer que venha o Diabo e escolha, mas há uma pior que a outra: é preferível termos contratos precários do que não termos contrato algum”
E quando se fala em contratos percários fala-se em receber o salário minimo (485€/1472R$) e ausência de certas regalias sociais (ex:acesso ao sistema de saude).
Peço desculpa por desviar um pouco do assunto do artigo mas como aborda o tópico da culpa dos sindicatos decidi dar a comhecer o que acontece do outro lado do Atlântico. Isto mostra que os sindicatos estão a mudar um pouco a sua maneira de agir. Penso que é um passo positivo.
Detroit é o exemplo perfeito dos estragos que políticas de esquerda causam e estão causando no mundo.
Gostei desse texto: “O Keynesianismo Feminista”, que foi publicado em:
sexoprivilegiado.blogspot.com.br/2013/08/o-keynesianismo-feminista.html
Engraçado…No Brasil a corrupção campeia devido a impunidade e Leandro Roque me responda uma dúvida,a justiça norte-americana é reconhecida por punir ricos e pobres,pretos e brancos,gregos e troianos,enfim é uma justiça rápida e eficiente e você e Peter Shiff vem nos dizer que a corrupção campeou em Detroit, eu não entendi essa, me esclareça por favor,pois a impressão que tenho é que a classe política em qualquer país do mundo está acima da lei e da ordem ou seja tem mais direitos e privilégios que os demais mortais seria isso ou não? E nos EUA isso também acontece,os políticos corruptos soltos…Rindo da cara de todos?
Parece até que Peter Schiff está descrevendo o Brasil.
Há um filme de 2005 que se passa em Detroit: Quatro irmãos.
http://www.youtube.com/watch?v=csS3p4hovlU&hd=1
O sindicato está presente nesse filme.
Coincidência ou não assisti esse filme semana passada.
Tenho uma dúvida – é apenas Detroit ou há outras cidades estado-unidenses no mesmo caminho?
Vejo claramente um cenário Randiano. Atlas cansou.
Excelente texto a respeito de Detroit, ficamos sabendo o que realmente levou essa cidade famosa pela suas montadoras e suas indústrias a falência. No Brasil qual é o quadro, veja o seguro desemprego, mesmo com o desemprego em níveis baixíssimos, o governo gasta cada vez mais com ele. E os sindicatos não querem alterar nada, são as conquistas sociais, agora temos a convenção coletivas das domésticas, isso vai só causar desemprego; proteger as domésticas empregadas em casas muito ricas e fechar o mercado para outras pessoas que desejam ofertar o serviço com valor mais baixo.
Conquistas sociais só funcionam quando o sistema tem muito dinheiro para gastar e pagar altos salários, aposentadorias gordas e outros benefícios; mas quando o dinheiro acaba a esquerda culpa o sistema capitalista pelo desemprego.
O Brasil está em uma enrascada; inflação alta; juros altos; produção pequena; cenário mundial ruim.
Mas a esquerda culta o capitalismo
Não sei por onde começar. Esse cara é doido, burro ou apenas bandido mesmo?
veja.abril.com.br/noticia/brasil/entrevista-guido-mantega
A crise foi capitalista em Detroit?… egoísmo dos sindicalistas, egoísmo do governo em querer mais dinheiro e egoísmo dos empresários, todo mundo é culpado… se partir do princípio de indivíduo , a crise foi de todos, egoísmo humano sempre partindo desse interesse, artigo excelente, e o ponto de vista não está errado, mas me pergunto, como surge um sindicato?, uma vez que os trabalhadores estão “satisfeitos”, pq o próprio governo acaba com aquilo que o mantém ele funcionando?? e pq “Estamos programados para interpretar tais medidas de mercado como sendo apenas um exemplo cruel de ‘exploração gananciosa’ em vez de entendê-las como sendo a maneira natural como o capitalismo cura os excessos do intervencionismo e recomeça o jogo.” será que a educação nesse grandes centros é mesmo voltada para o conhecimento e o centro crítico dos sistemas???
Uma excelente análise, do ponto de vista dos desmandos dos governos e dos sindicatos.
Agora só falta termos um bom texto abordando o outro lado da moeda, que são os desmandos da indústria.
Sim, sempre existe o outro lado. E ele não deve ser ignorado quando se quer propor soluções sérias e não apenas agir feito torcida organizada.
E no filme Ropocop o vilão era a iniciativa privada…
* * *
O mesmo está ocorrendo com São José dos Campos – SP e região. Sindicato por qui já expulsou GM e uma montadora chinesa que mal começou a operar.
Detroit, the Liberal utopia.
https://www.youtube.com/watch?v=_COFxLj2Iuw
O que me espanta é os republicanos e os libertários americanos não usarem ad nauseam esse exemplo para mostrar o que acontece quando os democratas assumem o poder em todos os setores da economia de uma cidade.
Já saiu estudos a respeito inclusive em Português BR o livro do Dr.Andrew Lobazevisk falando
da psicopatia na politica, esquerdismo é doença mental no sentido clinico. Não da para
debater ideia com esses doentes mentais.
Detroit é apenas UMA da cidades americanas destruídas pelos “liberals”.
É, Brasil…
economia.estadao.com.br/noticias/negocios,ford-vai-fechar-fabrica-de-caminhoes-em-sao-bernardo-do-campo,70002727878
Mas o problema é o empresariado ”explorador” e não a tonelada de impostos por carro faturado nem as excessivas regulações/taxações que fazem o mercado brasileiro um dos mais fechados do mundo.