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Economia

Conseguirá o Japão se reerguer algum dia?

14/03/2011

Conseguirá o Japão se reerguer algum dia?

Podemos agradecer à Providência o fato de o terremoto não ter sido 240 km mais perto de Tóquio.  O número de mortos no Japão poderia estar em milhões.

O primeiro-ministro Naoto Kan diz que esta é a pior crise desde a Segunda Guerra Mundial.  Entretanto, por mais horrenda que a atual seja, ela não pode, pelo menos até agora, ser comparada àquela.  Afinal, os mortos no terremoto não totalizaram nem 1% daqueles que perecerem na Segunda Guerra.

Entre 1942 e 1945, o Japão foi completamente despido de um império que abrangia Formosa, Coréia, Manchúria, toda a costa da China, toda a Indochina Francesa (Vietnã, Laos, Camboja), Tailândia, Birmânia (Myanmar), Malásia, Cingapura, as Índias Orientais Holandesas (Indonésia), as Filipinas e a região do Pacífico Ocidental que vai de Guam a Guadalcanal.

Na época, o Japão testemunhou a morte de 2 milhões de militares e de 500.000 a um milhão de civis após o lançamento de múltiplas bombas americanas sobre áreas limitadas, o que reduziu suas grandes cidades a nada mais do que escombros ardentes, e Hiroshima e Nagasaki a meras cinzas atômicas.

Entretanto, 25 anos após a mais devastadora derrota já vista na história moderna, o Japão já ostentava a segunda maior e mais dinâmica economia da terra.

Sob o proconsulado do General MacArthur, o Japão reergueu-se, renunciou às guerras e alcançou uma taxa de crescimento econômico de 10% na década de 1960, 5% na década de 1970 e 4% na década de 1980.  Menor do que o estado americano de Montana e com pouquíssimos recursos naturais, o Japão criou uma economia com metade do tamanho da americana e, em vários aspectos, tecnologicamente superior.

Um feito extraordinário de um povo extraordinário.

No final da década de 1980, o Japão parecia a ponto de superar os EUA.  Seu domínio mundial parecia uma inevitabilidade, uma questão de tempo.

Mas isso não ocorreu.  As últimas duas décadas foram décadas perdidas, com a economia japonesa encolhendo para um terço da economia americana.  Ano passado, a China ultrapassou o Japão e se tornou a segunda maior economia do planeta.  Pequim hoje produz mais automóveis e possui um saldo comercial com os EUA tão grande, que ofusca completamente o do Japão.

Em 1988, oito das 10 maiores empresas do mundo eram japonesas.  Hoje, o Japão não possui nenhuma empresa na lista das 20 maiores do mundo, e possui apenas seis na lista das 100 maiores.  A dívida pública japonesa é de 200% do seu Produto Interno Bruto.

Conseguirá o Japão ressurgir desse terremoto, de seus 20 anos de estagnação econômica e de seu declínio político, recuperando aquele dinamismo que o país exibiu nas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial?

Isso é uma façanha que requer um milagre ainda maior.  O motivo para tal pessimismo pode ser resumido em uma única palavra: demografia.

O Japão possui 127 milhões de habitantes, a maior população de sua história.  Entretanto, a ONU estima que 25 milhões de japonês morrerão até 2050.  Por quê?  O Japão é o país com a população mais velha de todo o globo, com uma idade média de 45 anos e uma taxa de fecundidade tão baixa que o crescimento populacional ficou abaixo de zero nos últimos 40 anos.

Para que uma população se mantenha estável, a taxa de fecundidade de suas mulheres deve ser de 2,1 filhos.  A taxa japonesa, de 1,27 filhos por mulher, não é nem dois terços da necessária para repor a atual população.

Em 1960, quando o Japão caminhava a passos largos para superar a Alemanha Ocidental como a segunda economia do mundo, 49% de sua população tinha menos de 25 anos de idade.  Menos de 8% tinha mais de 60 anos.

Hoje, apenas 23% da população japonesa tem menos de 25 anos, mais de 30% de todos os japoneses têm mais de 60 anos, e a idade média do Japão disparou para 45 anos.  Estima-se que o país perderá 3 milhões de pessoas nessa década, e aproximadamente 6 milhões na década de 2020.

Colocando de maneira mais incisiva, o Japão está envelhecendo, encolhendo e morrendo.

Em 2050, menos de 19% de todos os japoneses terão menos de 25 anos, enquanto que 44% terão mais de 60.  A idade média chegará a 55 anos.  E tudo isso pressupondo um aumento na taxa de fertilidade, projetado pela ONU, que simplesmente não tem a menor evidência de que irá ocorrer.

Em uma matéria sobre a queda do número de estudantes japoneses nas universidades americanas, o jornal The Washington Post relata que "O número de crianças (no Japão) com idade inferior a 15 anos caiu por 28 anos consecutivos.  O tamanho das turmas de formandos do ensino médio do país encolheu 35% em duas décadas".

Para onde foram todas as crianças?

No entanto, isso que está acontecendo no Japão não é de maneira alguma um fenômeno exclusivo do Japão.

A população russa está encolhendo a um ritmo dois a três vezes maior que a do Japão.  A Rússia vem perdendo meio milhão de pessoas por ano.  Alemanha e Ucrânia estão disputando para ver quem se equipara ao Japão.  Já na Grã-Bretanha, apenas quando se inclui nos cálculos os imigrantes vindos da África, do sul da Ásia e do Oriente Médio é que se pode dizer que haverá algum crescimento populacional.  Os britânicos nativos estão emigrando e morrendo.

Com efeito, todas as nações da Europa e do Leste Asiático que ostentam as maiores notas nos testes internacionais de matemática e ciência possuem uma taxa de fertilidade que assegura uma população em rápido envelhecimento e encolhimento.

De onde virá o crescimento da população mundial?

Entre hoje e 2050, a população da África dobrará para 2 bilhões.  América Latina e Ásia acrescentarão mais um bilhão de pessoas ao mundo.

Estima-se que apenas seis nações, todas muçulmanas e pobres -- Bangladesh, Egito, Indonésia, Nigéria, Paquistão e Turquia --, serão responsáveis por acrescentar ao todo quase 500 milhões de pessoas às suas populações até 2050.

Se a demografia predeterminar o curso dos eventos, então o sol não está se pondo apenas na Terra do Sol Nascente.  O sol está se pondo também no Ocidente.

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Sobre o autor

Patrick Buchanan

É co-fundador e editor da revista The American Conservative é tambÉm autor de sete livros

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