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A liberdade segundo Mises

Em sua obra-prima Ação Humana, o economista austríaco Ludwig von Mises define seu conceito de liberdade, assim como as funções adequadas para o governo numa sociedade livre. Mises foi um dos grandes defensores do livre mercado, argumentando sempre com base nos resultados deste modelo. A civilização conseguiu sair da barbárie e atingir razoável grau de prosperidade graças ao sistema capitalista, com base na propriedade privada e divisão de trabalho. Preservar estes pilares foi o grande objetivo de Mises.

Para ele, o conceito de liberdade faz sentido somente quando falamos de relações inter-humanas. A liberdade "natural" de um Robinson Crusoé isolado na ilha não fazia muito sentido para Mises, pois tal "liberdade" duraria apenas até ele encontrar um concorrente mais forte em seu caminho. Na fria biologia, o mais forte está com a razão. Neste sentido, Mises pensava que o homem primitivo não nasceu livre. Sua liberdade teve que ser conquistada.

O homem é livre, segundo Mises, quando ele pode escolher os fins e os meios que serão usados para atingir tais fins. Entretanto, para preservar esta própria liberdade, os indivíduos devem estar protegidos contra a tirania dos mais fortes ou espertos. Uma instituição é necessária para evitar os comportamentos antissociais de alguns elementos. A paz só seria alcançada pelo estabelecimento de um sistema no qual o poder de usar a violência fosse monopolizado por um aparato social de coerção, regulado por determinadas regras. Este aparato é normalmente chamado de governo.

Desde que o governo fique restrito ao uso da violência ou ameaça de violência para a supressão e prevenção de ações antissociais, então prevalece razoavelmente o que podemos chamar de liberdade. O poder de escolha dos indivíduos continua valendo. E mesmo sem um governo impondo as leis, o indivíduo não poderia ter ao mesmo tempo as vantagens derivadas da cooperação social e os prazeres de exercer livremente seus instintos animais de agressão. Não é possível ter e comer o bolo ao mesmo tempo. Usufruir da paz e dos incríveis benefícios da sociedade livre pressupõe abrir mão de certos prazeres. O benefício compensa, e muito!

Mas, se o governo faz mais do que proteger as pessoas contra a violência ou a fraude por parte de indivíduos antissociais, ele reduz a esfera da liberdade individual. Desta forma, Mises define a liberdade como o estado em que cada indivíduo é livre para escolher, sem a restrição da violência do governo além da margem em que a lei da praxeologia restringiria de qualquer maneira. Os indivíduos são livres quando podem praticar suas trocas voluntárias, contando com o aparato do governo somente para impedir a agressão alheia.

Mises acreditava que o alistamento obrigatório e a arrecadação de impostos não eram incompatíveis com esta visão de liberdade. Em um mundo repleto de agressores em potencial, o pacifismo integral e incondicional seria sinônimo da rendição aos opressores mais nefastos. Aqueles que desejam continuar livres devem estar dispostos a lutar pela liberdade contra os agressores. Mas, como as tentativas isoladas de reação por parte de cada indivíduo estariam fadadas ao fracasso, a única forma viável de organizar a resistência, para Mises, seria por meio do governo. A função essencial do governo é a defesa do sistema social livre contra criminosos internos e também inimigos externos. Mises achava que os opositores desta função do governo eram ingênuos e, sem saber, estavam ajudando aqueles que desejam a escravidão de todos.

Para manter o aparato governamental, com cortes, polícia, prisões e forças armadas, Mises considerava inevitável e legítimo o uso dos impostos. Segundo ele, isso não seria incompatível com uma sociedade livre. Mas, caso o governo fosse além desta função, expandindo seu poder ad libitum, então a economia de mercado seria abolida e substituída pelo totalitarismo socialista. Para prevenir este risco, torna-se necessário limitar o poder do governo. É para esta finalidade que temos as constituições, as leis, os direitos dos cidadãos. E esse é o significado de todas as lutas que os homens têm realizado pela liberdade. Vigiar o vigia é fundamental para preservar a liberdade.

Porém, nenhum desses mecanismos é realmente eficiente sem o arcabouço da opinião pública por trás. Mises depositava enorme importância no poder das idéias. E sabia que os inimigos da liberdade também, tanto que sempre buscaram reverter o sentido das palavras como tática para confundir. Reconhecendo o valor que o Ocidente dá ao conceito de liberdade, os advogados do totalitarismo deturparam seu sentido. A liberdade de imprensa, por exemplo, passa a ser a liberdade do governo decidir o que deve ou não ser publicado, o que é o oposto da verdadeira liberdade. Já a liberdade individual seria a oportunidade de fazer as coisas "certas", sendo que estas coisas seriam definidas, naturalmente, por aqueles autoritários que se arrogam o direito de dizer o que é certo para os outros.

Em suma, a onipotência do governo seria a liberdade para estas pessoas. E para Mises, seria inútil rebater a estas táticas com o argumento de direito "natural" de propriedade, se as outras pessoas considerarem como "natural" o direito a uma renda igualitária, por exemplo. Tais disputas, segundo Mises, não podem ser resolvidas de forma simples. Ele sempre preferiu o argumento utilitarista, mostrando quais resultados certas ações humanas implicam, sem fazer julgamento de valor. O que ele fez, com maestria, foi demonstrar que o socialismo levaria ao término do progresso da civilização, ou, melhor dizendo, dela mesma!


autor

Rodrigo Constantino
é formado em Economia pela PUC-RJ e tem MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha desde 1997 no mercado financeiro, primeiro como analista de empresas, depois como gestor de recursos. É autor de cinco livros: "Prisioneiros da Liberdade", "Estrela Cadente: As Contradições e Trapalhadas do PT", "Egoísmo Racional: O Individualismo de Ayn Rand", "Uma Luz na Escuridão" e "Economia do Indivíduo - o legado da Escola Austríaca".


  • Felipe André  31/08/2010 11:03
    Sempre é bom ver um artigo não anarco-capitalista aqui de vez em quando, visto que pendo para o lado minarquista. "You can't eat your cake and have it too". Mas acho importante mostrar ambos argumentos.
  • Maurício  31/08/2010 11:12
    Esse dedinho do Mises ficou muito bom hehehe
  • Carlos Santos  31/08/2010 12:22
    Gostaria que os adeptos do minarquismo me apontassem um exemplo de Estado mínimo que continuou mínimo por muito tempo e ainda está até hoje. Se não puderem, não digo que com isso está provado que um Estado assim seja insustentável. Mas todo minarquista tem que admitir que é tendência natural de todo governante aumentar seu poder sobre seus governados, o que leva inevitavelmente ao gradual aumento do Estado.\r
    Acho que a principal diferença entre Mises e Rothbard é que este entendia melhor a natureza do Estado.\r
    A liberdade só estará garantida quando não existir o monopólio da força. Que o estado seja substituído por empresas privadas que cumpram suas funções primordiais: exércitos mercenários, tribunais excepcionais, regras definidas em contratos apenas, sem leis, apenas um constituição libertária com os princípios básicos do direito natural, ou seja, apenas o suficiente para a vida em sociedade.
  • José Henrique  31/08/2010 14:06
    Felipe André,

    Defendo a minarquia e qualquer tentativa de reduçao do tamanho e do poder do estado, pois é preferível ao estado "elefante" que temos hoje, mas reconheço que toda minarquia já nasce com os dias contados, uma vez que é impossível manter o estado mínimo indefinidamente. O destino inexorável de todo e qualquer estado é de se transformar em um regime totalitário, tanto a história como o presente confirmam isso.

    Rodrigo Constantino,

    Estou lendo dois livros, um deles é The Market for Liberty (de orientação anarco-capitalista) e o outro é The Virtue of Selfishness (de orientação minarquista). No segundo livro a autora concorda com a visão de Mises, pois diz que deve existir um agente monopolístico (estado) sobre os meios de coerção (tribunais, polícia e forças armadas), mas discorda de Mises, pois diz que os impostos não são legítimos. Segundo ela, o estado deveria arrumar a grana para manter esses meios de coerção de forma voluntária. O que não entendo é como o estado pode ser monopolístico sobre esses meios de coerção e ao mesmo tempo mantê-los de forma voluntária?

    Gosto da definição que o primeiro livro dá sobre o estado ao dizer que ele é um monopólio coercivo, isto é, uma instituição que sobrevive através do uso da força ou ameaça de uso da força para proibir a competição nas áreas em que ela atua (neste caso os meios de coerção citados).

    Ao defender que o estado mantenha de forma voluntária esses meios de coerção, o estado não deixaria de ser um monopólio coercivo? E a autora não estaria se contradizendo e defendendo algo que se parece mais com as agências de defesa do primeiro livro que basicamente operaram esses meios coercivos de forma voluntária e competindo abertamente no livre mercado pelos clientes?
  • Felipe André  31/08/2010 14:25
    @Carlos Santos: Realmente a tendência é de quem está no poder tentar aumentar seu poder. A única maneira de evitar isso é com a população em geral tendo pleno conhecimento de seus direitos para poder identificar e protestar quando o governo tenta ir contra eles.
  • Rodrigo Constantino  31/08/2010 15:14
    "Mas todo minarquista tem que admitir que é tendência natural de todo governante aumentar seu poder sobre seus governados, o que leva inevitavelmente ao gradual aumento do Estado."

    Carlos, se por um lado é verdade que os governantes sempre vão tentar expandir seu poder, por outro lado também vale que cabe ao povo impedir. O poder estatal oscila. Podemos até falar em tendência de crescimento, mas nem sempre! Vide Rússia, Índia, China e mesmo Brasil, mais livres hoje do que no passado. Ou a Inglaterra, que antes de Thatcher era pior ainda. E mesmo os EUA, que durante o New Deal viveram um socialismo de fato! São mais para pêndulos que para uma tendência linear.

    E se o minarquismo fracassou, o que podemos falar do anarco-capitalismo, que nem mesmo existiu?


    "O destino inexorável de todo e qualquer estado é de se transformar em um regime totalitário, tanto a história como o presente confirmam isso."

    José Henrique, a Suíça é um regime totalitário?

    Sim, José Henrique, a defesa de Ayn Rand sobre "impostos" voluntários é um tanto esquisita...
  • Tucker  10/10/2011 12:54
    No caso do imposto voluntário é a visão do estado como um contrato consensual, Ben. Tucker fala disso em fair-use.org/benjamin-tucker/instead-of-a-book/contract-or-organism
  • oneide teixeira   31/08/2010 15:22
    Enquanto se discute anarquismo vs minarquismo o coletivismo avança.Como diz um ditado popular na busca do otimo não se faz o bom.

    Criar um partido e um movimento social filosifico anarquista e tornar-se governo pregar o fim do estado e meio contraditorio do mesmo jeito que pegar nas armas e impor o ideal anarquista tb e inlogico.

    Criar um movimento social partidario filosofico minarquusta e pegar outra forma de estado menos intervencionista mais libetario em contra partida do coletivismo e plausivel de exito.


    "Então se você está prestes a abrir um clube libertário, ou ONG, ou um Instituto na América latina, e todos os caras que se inscreveram usam ternos listrados e belas gravatas de seda, você deve tomar cuidado. É melhor começar a suspeitar que há algo errado."
    wikipedia
  • Maurício  31/08/2010 15:35
    Olá, Rodrigo,\r
    \r
    "se por um lado é verdade que os governantes sempre vão tentar expandir seu poder, por outro lado também vale que cabe ao povo impedir. O poder estatal oscila"\r
    \r
    Tendo a discordar da sua afirmação, apesar de concordar que o poder estatal oscila. \r
    \r
    É uma verdade que o Brasil é mais liberal no sentido econômico que no passado, mas as reformas não foram feitas no sentido de liberalizar a economia. As reformas que foram feitas foi para o país voltar a andar, se andássemos mais à esquerda hoje seríamos Cuba. Optou-se por um modelo de socialismo fabiano ao revolucionário. \r
    \r
    No sentido econômico foi dado mais fôlego para a economia e o Estado avança na intervenção das demais liberdades, avança-se na engenharia social. Por isso discordo que haveria uma tendência do povo fazer contrapeso ao avanço estatal. \r
    \r
    O clamor da população como solução para todos os problemas é mais estado, a idéia de solução em nível local, através da mobilização da sociedade civil desvinculada ao Estado é algo que está ficando cada vez mais raro. A solução é sempre por meio de mais leis etc.\r
    \r
    Entendo que o fato do Estado diminuir em alguns períodos é mais uma correção de rota no mesmo sentido (aumento do Estado) do que uma reversão de rumo (tendências liberais).\r
    \r
    abraços,
  • Carlos Santos  31/08/2010 16:23
    Rodrigo,

    Segundo David Friedman "some features" do anarco-capitalismo existiu na Islândia (Iceland) medieval:
    www.daviddfriedman.com/Academic/Iceland/Iceland.html

    E mesmo que algo nunca tenha ainda sido totlamente implementado, não significa necessariamente que não funcione. Certo?

    Mas, se como você mesmo admite, o minarquismo é insustentável, não seria melhor então cortar o mal (o Estado) pela raíz?
  • Edik  31/08/2010 16:30
    @Carlos Santos: Realmente um governo limitado em muitas vezes acaba com o passar do tempo se deteriorando em formas mais corruptas, porém esse é o grande problema que todos os filósofos tentam solucionar, desde a Grécia antiga com Platão e Sócrates. Mas o que podem perceber é que não existe e nunca existirá uma fórmula final que garanta um sistema que não vai se corromper. A única saída possível é a eterna vigilância e defesa das idéias de um governo com atuação restrita.
    Temos que tomar cuidado para não cair em soluções tipicamente marxistas de achar que descobrimos a saída final e que um grupo de iluminados conduzirá o mundo para o sistema político perfeito. Nesse sentido, o trabalho a ser feito é a luta diária pelas idéias, como o que faz o grupo que fundou o Instituto Mises, ou professores que decidem se especializar em Economia Austríaca, jornalistas que defendam o liberalismo na imprensa,por exemplo, e por aí vai.
  • Ulisses Alfredo Santos Lima  31/08/2010 17:26
    População da Islandia hoje : 400.000 pessoas.


    População da Islandia na idade média provavelmente não passava de 4.000 almas.
  • Joel Pinheiro  31/08/2010 19:22
    Não há a menor dúvida de que a situação de minarquismo não é, nem pode ser perfeitamente, estável. Mas como podemos notar, há lugares em que ela é bem duradoura, como por exemplo Hong Kong, Suíça. Mas a tensão na direção de crescimento do governo sempre existe.

    A questão é: e o anarco-capitalismo, é estável? Tampouco. Nos lugares onde o governo cai, o estado de anarquia é sim marcado por várias facções, mas quem disse que elas tendem a se pautar pelo belo princípio de não-iniciação da agressão?

    O fato é que o homem não é um anjo da paz (tampouco é um demônio que só pensa em matar e roubar), e neste mundo não encontraremos a "solução final" que garantirá estabilidade eterna. Todos os sistemas e instituições têm existência precária; até mesmo o Estado intervencionista e o socialista. Tudo isso considerado, me parece melhor viver sob um regime que aplica sim um mínimo de coerção para manter uma ordem justa do que uma situação na qual grupos rivais lutam pelo poder sem qualquer limite a sua agressividade.

    Mesmo sob anarco-capitalismo, haveria em muitas situações incentivo para uma firma suficientemente bem-colocada agredir outra. E em algumas dessas situaçõe, a tentação falaria mais alto do que a virtude. Foi-se a estabilidade.

    O que não quer dizer, contudo, que experimentos com outros ordenamentos sociais, mais liberais do que o minarquismo, não sejam válidos. Por isso o direito à secessão, que Mises por sinal defendia, é tão bem-vindo.
  • Erik Frederico Alves Cenaqui  31/08/2010 20:02
    Prezados\r
    \r
    O grande tema que a maioria dos textos do IMB traz é a seguinte:\r
    \r
    O Estado e o Mercado são dois sistemas de organizar a sociedade completamente opostos, pois o primeiro é baseado na força e violência e o segundo é fundamentado na cooperação e no consenso. Pelas suas características essenciais um exclue o outro. Não há como ser conciliada a existência do Estado e o Mercado.\r
    \r
    O que os miniarquistas querem é conciliar os dois, mas é impossível pois ambos existem um conjunto de idéias próprio e especifíco.\r
    \r
    Afinal se o Estado é bom, ele serve para tudo.\r
    \r
    Se por outro lado o Mercado é que é bom, ele serve para tudo.\r
    \r
    Ocorre que, num mundo dominado por socialistas e social democratas é difícil convencer as pessoas da supremacia moral do mercado sobre o estado. \r
    \r
  • 999.9 Kapitalist  31/08/2010 20:08
    Achava que minarquismo fosse assunto do passado, questão já superada pelos Libertários.
  • oneide teixeira  31/08/2010 21:57
    Esta questão toda(minarquismo anarquismo)parece igual ao homen que tem sementes na mão e fica a escrever apenas receitas do que sera feito com a colheita e não faz o plantio, enquanto isso suas terras estão sendo invadidas, suas sementes apodrecendo solo empobrecendo.
    A estação para o plantio ja ta passando se não plantar algo vai passar fome.
  • Helio Beltrão  31/08/2010 22:13
    999.9 Kapitalist, o minarquismo não é assunto do passado. Na minha opinião, é estranho crer que um aparato monopolístico, que concentra todo o poder político e que pode "legitimamente" quebrar direitos de propriedade, e escravizar, etc, se absterá de usar tal poder maligno sobre seus súditos.\r
    \r
    Mesmo o genial Mises deixou de considerar completamente essa questão - mas o artigo deixa de mencionar que Mises defendia a secessão (até o nível de um vilarejo, e até o nível individual). O artigo, nesse sentido, deixa tácita sua agenda neoliberal.\r
    \r
    \r
    "If it were in any way possible to grant this right of self-determination to every individual person, it would have to be done. This is impracticable only because of compelling technical considerations, which make it necessary that the right of self-determination be restricted to the will of the majority of the inhabitants of areas large enough to count as territorial units in the administration of the country."\r
    \r
    "The right of self-determination in regard to the question of membership in a state thus means: whenever the inhabitants of a particular territory, whether it be a single village, a whole district, or a series of adjacent districts, make it known, by a freely conducted plebiscite, that they no longer wish to remain united to the state to which they belong at the time, but wish either to form an independent state or to attach themselves to some other state, their wishes are to be respected and complied with. This is the only feasible and effective way of preventing revolutions and civil and international wars. . However, the right of self-determination of which we speak is not the right of self-determination of nations, but rather the right of self-determination of the inhabitants of every territory large enough to form an independent administrative unit. If it were in any way possible to grant this right of self-determination to every individual person, it would have to be done."
  • José Henrique  31/08/2010 22:33
    Rodrigo Constantino,

    Talvez eu tenha me expressado mal, o que quis dizer é que um regime totalitário basicamente regula e controla cada aspecto da vida do indivíduo e que a tendência natural do governo é de crescer, aumentando seu poder de regulação e controle sobre a vida de seus governados e é nessa direção que todos os estados do mundo estão caminhando, até mesmo aqueles mais enxutos como o estado suiço.

    É lógico que nem todos os estados caminham rumo ao totalitarismo como a mesma velocidade, uns andam mais rápido e outros mais devagar e essa caminhada não se dá de forma linear, mas muitas vezes em zigue zagues, ora com períodos de mais opressão, ora com períodos de menos opressão. Eu praticamente desconheço qualquer exemplo de reversão dessa tendência. Inclusive o Leandro Roque já escreveu um artigo aqui onde mostra a realidade que nenhum estado mesmo, os mais enxutos como o suiço, não demonstram qualquer tipo de reversão dessa tendência. Vou transcrever a parte desse artigo que fala sobre isso:

    "Entretanto vale lembrar que, embora ainda enxuto quando comparado aos seus vizinhos europeus, o governo suíço é o mais inchado desses três exemplos citados (Hong Kong, Liechtenstein e Suíça) quando analisado em termos fiscais: gastos do governo e carga tributária em porcentagem do PIB.

    Mais ainda: quando nos concentramos nessas duas variáveis, percebemos que todos os países do mundo apresentaram aumentos ao longo dos últimos anos, o que de certa forma dá respaldo ao argumento anarcocapitalista sobre a impossibilidade do estado mínimo. (Se há algum país que vem reduzindo ano após ano seus gastos e tributos em porcentagem do PIB eu realmente desconheço)."

    Por isso disse que o destino do estado é de se tornar um regime totalitário com o passar do tempo e se as coisas continuarem do jeito que estão, não demorará muito para o surgimento de um governo global e sinceramente não acredito que ele defenderá a propriedade privada, o padrão ouro, a liberdade economica e os demais princípios da Escola Austríaca, muito pelo contrário, acredito que ele controlará cada aspecto da vida dos indivíduos e será uma ditadura de fazer inveja a homens com Hitler, Stalin e Mao Tse Tung.
  • oneide teixeira  01/09/2010 01:42
    Resumo: não tem jeito e ta perdida a luta antes de começar? no fim, o tirano vence.
  • Edik  01/09/2010 09:14
    @Helio Beltrao: Acho estranha a caracterização do artigo do Rodrigo Constantino como de "tácita agenda neoliberal". Até aonde eu sei, não existe uma escola de pensamento neoliberal. Esse CLICHÊ costuma ser usado por defensores de um aumento do poder do Estado contra alguém que defenda algum tipo de fortalecimento do livre-mercado.
    Eu nunca ouvi alguém dizer: "Sou neo-liberal". O uso desse termo é inadequado porque ele é na sua maioria das vezes usado no sentido de crítica de uma posição que insistiria em defender o poder dos mais ricos contra os mais pobres e que a história ja teria mostrado que isso não dá certo.

  • Helio Beltrao  01/09/2010 11:39
    Caro Edik,\r
    \r
    Não me refiro ao clichê, mas à definição histórica de neoliberalismo, conforme definido por vários estudiosos (ver também Hulsmann em The Last Knight of Liberalism) como a corrente formada logo após a Segunda Guerra Mundial (em oposição à corrente liberal clássica). Tal corrente, da qual Hayek à época fez parte, advogava uma conciliação com políticas socialistas em nome de um certo pragmatismo. Vários estudiosos inclusive consideram Hayek como a principal figura fundadora do neoliberalismo (que advogavam vários tipos de intervenções governamentais que os liberais clássicos jamais defenderam).\r
    \r
    Na constituição da Mont Pelerin Society estavam representadas várias correntes, inclusive a liberal clássica, cujo principal defensor era Ludwig von Mises. Com o tempo, porém, a corrente neoliberal predominou, e a MPS é um dos think tanks que hoje representam o neoliberalismo, como também o Cato Institute, a Atlas Foundation, e outros.\r
    \r
    A corrente liberal clássica é hoje representada pela FEE, pelo Mises Institute, Instituto Mises Brasil, e outros.\r
    \r
    Veja o que disse Hulsmann em um discurso em 2006:\r
    \r
    " As classical liberal economists were usually not employed in institutions of higher learning (the teaching of economic science was not primarily organized within the universities), they built other institutions, from loose networks to political parties. By 1860 governments realized the danger to themselves that the classical economists posed. Their answer was to create their own economists and thus control the market of ideas. This strategy was first applied in Germany with the German Historical School or "Schmollerism" and soon spread to other countries, each with its own specific national feature. John Stuart Mill in Britain for example changed the meaning of liberalism into interventionism, while the Russian government thought that Schmoller was too tame and hired Marxist economists instead.\r
    \r
    This trend continued into the 20th century, with Ludwig von Mises being one of the very few setting himself against it. After demolishing the case for socialism and putting the case for radical liberalism, he insisted that no "third way" was possible, as this would invariably lead to a loss of prosperity and in the end, socialism.\r
    \r
    In the first half of the 20th century, a number of societies were founded by liberals to counter the trend towards socialism. By 1938, four schools of thought were represented:\r
    \r
    Neoliberalism, i.e., practical and theoretical compromise with socialism; F.A. v. Hayek, for whom a small amount of intervention was permissible; Alexander Rüstow, who considered natural hierarchies as necessary for society; and Ludwig v. Mises, who stood for complete laissez faire.\r
    \r
    Nine years and one World War later, these groups convened to form the Mont Pèlerin Society (MPS). At the same time, Leonard Read's FEE in America was publishing leaflets explaining the ideas of Mises and organizing seminars and speeches for Mises and others. These activities were extremely important for spreading Mises' thoughts, especially to young people. Ralph Raico, George Reisman and Murray N. Rothbard were among those influenced by the FEE papers. Without the FEE, the Chicago School would have totally dominated the field of free market ideology.\r
    \r
    Mises was skeptical about the MPS right from the start; he was particularly concerned because of the participation of certain people. In 1947, he stormed out of a meeting, saying: "You're all a bunch of socialists."\r
    \r
    Today, the MPS, a society of eminent scholars, mainly represents Neoliberalism.\r
    \r
    (See also Hu?lsmann, Mises: The Last Knight of Liberalism, pp. 871, 989-90, 1003-10, 1032, et pass)"
    \r
    \r
    Veja pags 1003-1010 aqui [link]mises.org/books/lastknight.pdf[/i]\r
    \r
    Entendo que minha posição realmente pode ter parecido estranha (mea culpa), pois inclui o conhecimento de outros artigos do Constantino não publicados aqui no IMB, e que refletem a corrente neoliberal que menciono.\r
    \r
  • Rodrigo Constantino  01/09/2010 14:16
    "A corrente liberal clássica é hoje representada pela FEE, pelo Mises Institute, Instituto Mises Brasil, e outros."\r
    \r
    Meu caro Hélio, permita-se discordar! O Mises Institute não é liberal clássico coisa alguma; é anarco-capitalista, o que é bem diferente! Dentro do IMB, eu sou a voz liberal clássica (Mises), enquanto os demais estão muito mais alinhados com Rothbard. Sejamos precisos nessas definições, já que estamos as usando (rótulos simplistas não podem capturar todas as idéias que alguém defende, em minha opinião).\r
  • Helio Beltrão  01/09/2010 15:01
    Eu estou usando as definições amplamente aceitas, Rodrigo.\r
    \r
    Existe uma enorme diferença entre o laissez faire do liberalismo clássico e o neoliberalismo fundado por Hayek e outros (hoje representado pela Mont Pelerin Society, Cato, Atlas, e outros).\r
    \r
    Os herdeiros do laissez faire do liberalismo clássico são os institutos que eu mencionei: Foundation for Economic Education, Mises Institute, Instituto Mises Brasil, e outros.\r
    \r
    Eu estou me referindo aos institutos acima como apenas herdeiros dessas correntes econômicas, e não como sendo os que defendem as ideias do século XIX, claro. Isso talvez esclareça a confusão.\r
    \r
    As definições mais recentes do tipo minarquismo, anarcocapitalismo, e outras, ainda não estão bem aceitas pelos estudiosos, além de omitirem a ligação com a origem histórica da corrente.\r
    \r
    Anarcocapitalismo, aliás, é um palavrão com conotações estranhas, que não gosto. Contudo é fato que vários membros e seguidores creem que o mercado pode dar conta de qualquer tipo de serviço ou produto. O IMB é no fundo favorável à liberdade, e se tivermos que atribuir uma herança entre as correntes econômicas estabelecidas entre os estudiosos, somos sem dúvida herdeiros do laissez faire (e jamais do neoliberalismo).\r
    \r
    Recomendo a leitura do livro do Hulsmann, pelo menos dos capítulos que descrevem a trajetória das correntes econômicas liberais.\r
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  • Edik  01/09/2010 15:28
    Reconheco que Hulsmann é um grande professor do Mises Institute. E pela pesquisa que eu fiz no Google, realmente existem várias citações de Hayek como um dos principais criadores da corrente neoliberal e a Mont Pelerin como principal instituto. Porém a Mont Pelerin, de acordo com o seu site, se auto-intitula liberal clássica, e posso estar enganado mas acho que era dessa forma que o Hayek se autodefiniria (não tenho certeza quanto a isso).

    Mas, de qualquer forma, é fato que o termo "neoliberal" passou a ser utilizado como uma espécie de ofensa para quem defende ao menos um pouco mais de livre-mercado do que a pessoa que usa essa palavra. E pelo o que aprendi aqui nos comentários, ela também é usada para quem apoie um sistema político-econômico que contenha ao menos algum tipo de intervenção estatal.

    Para deixar claro, admiro muito o trabalho que o Hélio Beltrão lidera com o Instituto Mises Brasil.
  • Felipe André  01/09/2010 15:46
    Sempre achei que liberais clássicos defendiam o sistema econômico de capitalismo laissez faire, mas politicamente defendiam o estado mínimo.
  • Rodrigo Constantino  01/09/2010 16:45
    Insisto que liberalismo clássico nada tem a ver com anarquia, bandeira de muito "libertário" atualmente. Os liberais clássicos sempre defenderam o monopólio do governo sobre as leis.\r
    \r
    Mas não li o livro indicado, o que pretendo fazer em breve.
  • Helio Beltrão  01/09/2010 17:04
    Edik, obrigado.\r
    \r
    Felipe André, você está correto, mas é uma simplificação. Mises, Rothbard, o Mises Institute e o IMB são os herdeiros do laissez faire, enquanto as correntes Chicago, neoliberal, etc são outra coisa.
  • Helio Beltrao  01/09/2010 17:24
    Rodrigo, concordo que liberalismo clássico não é anarquia. E livre-mercado tampouco é anarquia. Laissez faire tampouco. Até mesmo neoliberalismo é diferente de anarquia.\r
    \r
    "Os liberais clássicos sempre defenderam o monopólio do governo sobre as leis."\r
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    Não concordo - não creio que Bastiat defendia o monopólio governamental das leis, e nem aqueles que defendiam o direito natural. No entanto, os liberais clássicos sofriam de contradições patentes em algumas de suas teses políticas, o que não invalida as demais teses.\r
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    A bandeira dos libertários é (e deve ser) a liberdade e o livre-mercado. Os neoliberais é que são contra o livre-mercado e a liberdade.\r
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  • Rodrigo Constantino  01/09/2010 18:06
    Hélio, precisamos acertas as definições dos conceitos-chave aqui para evitar confusão. Anarquia = ausência de estado. Nesse sentido, os anarco-capitalistas são tão anarquistas quanto os comunistas. Eles apenas esperam que este MEIO (anarquia) leve a um FIM diferente, qual seja, uma sociedade maravilhosa com agências de segurança fantásticas e leis com base no jusnaturalismo sendo escolhidas livremente pelos consumidores. Mas isto é apenas o FIM desejado; o MEIO defendido é o mesmo, ou seja, ausência de estado, de monopólio das leis, algo que os liberais clássicos defendiam sim.
  • Leandro  01/09/2010 18:22
    Falso. Comunista não é anarquista. Essa conclusão é de quem não entendeu Marx.

    A teoria defendida por Marx era sem pé nem cabeça. Ele dizia que, para abolir o estado, era necessário antes maximizá-lo. A ideia era que, quando tudo fosse do estado, não haveria mais um estado como entidade distinta da sociedade; se tudo se tornasse propriedade do estado, então não haveria mais um estado propriamente dito, pois sociedade e estado teriam virado a mesma coisa, uma só entidade - e, assim, todos estariam livres do estado.

    Um raciocínio maravilhoso! Ou seja: se algum indivíduo dominar completamente tudo o que pertence a você, dominando inclusive seu corpo e seus pensamentos, então você estará completamente livre, pois não mais terá qualquer noção de liberdade - afinal, é exatamente a ausência de qualquer noção de liberdade que o fará se sentir livre.

    Esse é o "anarquismo" marxista, o exato oposto do anarcocapitalismo.

    É perfeitamente válido questionar se o anarcocapitalismo "daria certo". O que não dá é dizer que ele prega os mesmos meios que o marxismo. Os meios são completamente antagônicos.
  • Helio Beltrao  01/09/2010 21:06
    Rodrigo, Nao ha problema album em trabalhar com sua definicao de anarquia, embora nao seja corriqueiramente usada. Livre-mercado, no entanto, continua nao sendo o mesmo que anarquia. Um estado pode coexistir com o livre mercado, ao nao impedir que terceiros compitam com seus servicos.

    Os que defendem o mercado de leis nao defendem necessariamente o jusnaturalismo. Como voce bem sabe, podem haver jurisdicoes trabalhando com o conceito que preferirem, seja objetivo, subjective, arbitrario ou jusnaturalista. E assim eh o mundo hoje, cada pais tem sua propria regra, sem uniformizacao.

    Quanto a discussao anterior, nao ha porque se preocupar em defender politicas neoliberais - algumas das pessoas mais inteligentes que conheco o fazem, inclusive voce e o Hayek. O IMB e os livremercadistas nao tem um fim alem da liberdade e da educacao economica, ao contrario do que voce parece crer. Isso esta claro no objeto, na secao Sobre Nos.
  • Saint Ludwig?  02/09/2010 00:41
    In a review of Guido Huelsmann's great biography, Mises: The Last Knight of Liberalism, which his come to my attention but has not yet been published, its author makes an odd claim. He says that Huelsmann displays a "hagiographical" attitude toward Mises. This claim cannot survive a careful reading of the book.

    Though Huelsmann does not disguise his great admiration for Mises, he is by no means uncritical. Here are a few examples: "It was not the only time Mises would justify and implement emergency monetary policies that are difficult to reconcile with classical liberal principles." (p.345, referring to Mises's advocacy of using the monetary printing press in Vienna in 1919.)"But not only the Christian faithful will wonder if he had a proper understanding of political Christianity." (p.441, referring to remarks about Christianity in the first edition of Socialism) "His years with Margit brought about a profound positive transformation of Mises's personality. He was still obstinate in his opinions and formal in his demeanor, but in interacting with other people he became much less buttoned-down."(p.731) "Mises had been convinced that the new war [World War II] would start just as the last war had ended-in the trenches. He was convinced that France and its allies would withstand any German attack. . . He had not realized that conditions had once again changed profoundly."(pp.750-51) "Mises seems to have fallen back into what in more sober moments he called the dictatorship complex. He blithely assumed that the institutions entrusted with the 'new order' [after World War II] would use their enormous power only for those purposes of which he, Mises, approved."(p.810) "Mises's definition of freedom was essentially compatible with the views of the anarchists, who would merely add that the government must play by the same rules, and therefore cannot obtain its revenue through the violation of property rights. Mises never brought himself to analyze this proposal in detail." (p.1024) "The quote [on secession in the U.S. Civil War] shows how uneasy Mises was at discussing this problem. He just could not reach a clear conclusion."(p.1028) This does not sound like hagiography to me.
  • Ddaniel Santos  04/06/2018 13:37
    há uma questão que me aflige quanto a liberdade, e no meu ponto de vista é fundamental para que possamos nos definir politicamente. A pergunta que me refiro é: somos realmente donos das nossas escolhas? Como o fato de sermos livres ou não modifica nossa política?

    Spinoza na sua abra Ética parte 2 lança a sentença:

    "não há, na mente, nenhuma vontade absoluta ou livre: a mente é determinada a querer isso ou aquilo por uma causa que é, também ela, determinada por outra, e esta última, por sua vez, por outra, e assim até o infinito"

    Com essa sentença, entramos em uma cadeia infinita de causalidade, os desejos não são frutos de um ato livre, mas o fim necessário, pois só desejamos o que desejamos porque existe uma cadeia infinita de causas, que nos leva a desejar isso e não aquilo. Assim, não poderíamos desejar outra coisa, o desejo é inexorável, desejamos o que desejamos, pois necessariamente a composição causal de encontros não poderia ser diferente.

    E ainda para deixar a discussão mais saborosa temos esse vídeo da professora Claudia Feitosa, onde ela aponta para a neuro ciência nossas escolhas antecedem nosso pensamento.
    www.youtube.com/watch?v=4r4wFuOA8kg


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