clube   |   doar   |   idiomas
O polonês que escapou da morte em um campo nazista para se tornar um dos homens mais ricos do Brasil
A incrível jornada de Samuel Klein, dos trapos ao império

Para empreendedores honestos e bem-sucedidos, uma jornada que o leva da extrema pobreza à riqueza é recheada de iniciativa, desventuras, recompensa, sorte, azar e várias lições. Na excepcional vida do falecido Samuel Klein, todos estes elementos estão presentes em tamanha abundância, que fazem com que sua história seja quase que inacreditável. 

Certamente é uma das mais incríveis com as quais já me deparei, além de envolver dois dos meus países favoritos. [N. do E.: o autor deste texto é um prolífico resenhista de biografias e esteve pessoalmente envolvido com os ativistas responsáveis pelo fim do socialismo na Polônia].

No caso de Samuel Klein, dizer que ele foi dos trapos à riqueza é um eufemismo. No ponto mais baixo de sua vida, ele esteve no corredor da morte em um campo de concentração nazista na Polônia ocupada. No outro extremo, alguns anos depois, ele era um dos homens mais ricos do Brasil, um mundo de distância.

O filho de um marceneiro

Filho de pais judeus, Klein nasceu no dia 15 de novembro de 1923 no vilarejo de Zaklików, próximo a Lublin, no sudeste da Polônia. Tal localidade até hoje continua sendo um local minúsculo, com aproximadamente 3 mil habitantes. 

Mesmo minúscula, seus cidadãos fizeram uma notável insurreição contra os russos, a qual durou um ano (1863-64), com o objetivo de tentar ressuscitar a República das Duas Nações (Polônia e Lituânia). A insurreição fracassou, mas deixou claro o espírito guerreiro daquele povo.

O pai de Samuel era marceneiro. Sua modesta renda mal conseguia alimentar a si próprio, sua mulher e seus nove filhos. Samuel frequentou apenas os primeiros quatro anos do ensino fundamental, tendo de abandonar os estudos para trabalhar como auxiliar do pai.

Sendo judia, a família Klein passou a correr perigo mortal e imediato quando Hitler invadiu a Polônia, em setembro de 1939. Durante três anos, a família sofreu perseguições e assédios contínuos. Finalmente, em 1942, pais e filhos foram presos. E separados. 

A senhora Klein e cinco de seus filhos foram enviados para o infame campo de extermínio de Treblinka, onde ela e a maioria dos filhos foram assassinados. Samuel e seu pai foram enviados para outro campo, o Majdanek, onde fizeram trabalhos forçados.

Com sete câmaras de gás, duas forcas e mais de 200 edificações, Majdanek era onde Samuel poderia ter encerrado sua vida. Mais de 80 mil prisioneiros foram assassinados lá. Felizmente, Samuel não foi um deles. Com audácia, planejou e fugiu do local, em julho de 1944.

Passou os dez meses seguintes escondido das autoridades enquanto vivia em meio a madeiras e florestas do sul da Polônia, ajudado e protegido pelos cristãos daquele país.

De marceneiro ao Sam Walton do Brasil

Após o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa, em maio de 1945, Klein se mudou para a Alemanha, onde aprimorou as habilidades de marceneiro que havia aprendido com o pai. 

Foi lá que demonstrou seus primeiros lampejos de empreendedorismo. Ele descobriu que podia ganhar mais dinheiro vendendo vodka e cigarros para as tropas aliadas do que trabalhando com madeira. Com esse dinheiro, abriu uma loja de iguarias.

E então, no início dos anos 1950, decidiu que era o momento de mudar. Saiu da Alemanha com a mulher, Anna, um filho de dois anos de idade, Michael, e aproximadamente US$ 6.000 de poupança — um montante que seria crucial em seu próximo empreendimento.

A primeira escolha de Klein foi os Estados Unidos, mas a política de cotas para imigrantes proibiu sua entrada. A perda da América foi o ganho do Brasil: Klein e sua pequena família foram para São Paulo após uma breve experiência na Bolívia.

Sua poupança lhe permitiu comprar uma casa, um cavalo e uma carroça. Mas a carroça veio com uma lista contendo o nome de 200 fregueses do mascate que vendeu o negócio para Klein. Eles se tornaram sua clientela-base.

Durante aproximadamente cinco anos, com uma estrutura precária e falando um português muito rudimentar, Klein vendeu cobertores, lençóis e toalhas aos nordestinos imigrantes que chegavam aos milhares ao entorno industrial da cidade de São Paulo para trabalhar na nascente indústria automobilística. Sua clientela leal passou a ser de 5 mil pessoas.

Foi no fim de 1957 que Klein decidiu abrir sua primeira loja. Começou vendendo os itens de cama, mesa e banho que ele antes vendia de porta a porta; com o tempo, passou a vender móveis, eletrodomésticos e demais utensílios domésticos.

Os fregueses, chamados de "baianos" pelos paulistas, deram o mote para o estabelecimento: Casa Bahia.

Este logo, no singular, teria de ser corrigido para o plural para refletir o número crescente de lojas. Ao longo dos 50 anos seguintes, este polonês que havia escapado da morte em um campo de concentração nazista transformou a "Casa Bahia" em "Casas Bahia", uma rede de mais de 500 lojas presentes em 15 estados brasileiros e com cerca de 55 mil empregados e milhões de consumidores satisfeitos.

Antes de morrer, em novembro de 2014, aos 91 anos de idade, Klein já havia adquirido a reputação de ser um das figuras empresariais mais queridas do país, "o Sam Walton do Brasil". 

Dos trapos que ele trajava quando fugiu do campo de concentração nazista, ele prosperou até chegar a um patrimônio líquido de quase um bilhão de dólares. Sempre satisfazendo a demanda dos consumidores.

Uma maravilha verdadeiramente atípica

Ao longo de sua jornada, Klein fez coisas notáveis, que garantiram à sua empresa vários prêmios de excelência no varejo. 

Construiu um bom relacionamento com seus fornecedores. Enquanto as grandes fábricas de eletrodomésticos ficavam com a corda no pescoço, ele aproveitava pra comprar todo o estoque de televisores mais barato, pagando à vista. Assim, ajudava seus fornecedores, ganhava reputação como bom cliente e amigo, e conseguia aumentar a margem de lucro comprando por preços menores do que a média.

A economia que conseguia ao comprar seus estoques era repassada em preços menores para os consumidores, os quais se tornavam fiéis.

Ele se tornou um grande amigo de Pelé, que passou a ser o garoto-propaganda da empresa. Ele construiu a maior rede de armazéns e distribuição da América Latina. Ele concentrou-se, com enorme precisão e como nenhum antes dele, na questão dos serviços ao consumidor. Ele criou um popular programa de crediário, que tornou seus produtos acessíveis para as pessoas de baixa renda, o qual inspirou um grupo musical brasileiro (Mamonas Assassinas) a incluir este refrão em uma de suas famosas músicas: "A minha felicidade é um crediário nas Casas Bahia".

E ele foi um generoso filantropo, doando milhões para novas escolas e instituições de caridade.

Pedro Tavares Fernandes, Presidente do Observatório do Empreendedor, em Florianópolis, classifica Klein como um modelo de façanha empresarial:

Por causa de nossa história de inflação e pobreza, sempre foi difícil para os brasileiros comprarem móveis e eletrodomésticos. Samuel Klein desenvolveu um extremamente efetivo sistema de crédito que permitiu aos pobres comprar estes itens. 

Ele alcançou uma enorme massa de compradores oferecendo taxas de juros razoáveis, e estes o recompensaram com baixas taxas de inadimplência e fidelidade. Aqui no Brasil, é muito comum as pessoas dizerem, ao comprarem algo considerado caro, que irão financiar em 24 meses nas Casas Bahia. 

Nunca ouvi falaram nada desabonador sobre Samuel Klein.

Setenta e cinco anos após ter deixado a Polônia, Klein ainda tem admiradores naquele país. Mikolaj Pisarski, presidente do Instituto Mises da Polônia, em Varsóvia, disse-me o seguinte:

Tivesse Samuel Klein vivido na Polônia até o dia de sua morte, ele seria o quinto mais rico do país. 

Na Polônia, assim como em vários outros países ex-comunistas, vários milionários devem sua riqueza ao fato de terem tido relações próximas aos burocratas do antigo regime ou a negociatas com o governo após a transição. Klein, porém, se destaca por ser exatamente aquilo que um verdadeiro empreendedor deve ser. 

Tudo o que ele alcançou se deveu apenas ao seu trabalho duro e à sua engenhosidade. Não recebeu nenhum favor de nenhum governo. Nenhum subsídio. Ele conseguiu tudo sem ter nenhum amigo nos altos escalões. E, no processo, melhorou acentuadamente o padrão de vida das pessoas do país que o acolheu como imigrante.

Barreiras ao sucesso econômico existem no caminho de quase todos, grandes e pequenos, em variados graus. Nada que é grandioso é fácil de ser alcançado, muito menos fortunas construídas honestamente. Algumas pessoas desistem rapidamente.

Mas, felizmente, existem os Samuel Kleins do mundo — as maravilhas verdadeiros atípicas que sobrepujam o inimaginável para se tornarem o inesperado. Estes são os heróis, os construtores, os criadores de riqueza, e os servidores de milhões de pessoas cujas vidas eles aprimoraram.

Algumas palavras finais do próprio Samuel Klein

Nenhum ensaio sobre o incrível Klein poderia terminar sem algumas frases originais deste grande homem. Eu as ofereço para o leitor porque elas sintetizam o espírito de Klein em termos de serviço e empreendedorismo:

— Acredito no ser humano. Caso contrário, não abriria as portas das minhas lojas todos os dias. O que ajuda a me manter vivo é a confiança que tenho no próximo.

— Um mais um é igual a dois. Mas a soma de uma ideia mais uma ideia não são duas ideias, e sim milhares de ideias.

— A riqueza de um homem pobre é o seu nome. … Não importa se o cliente é um faxineiro ou um pedreiro, se ele for bom pagador, a Casas Bahia dará crédito para que ele resgate a cidadania e realize seus sonhos.

— Meu lema é confiar. Confiar no freguês, nos fornecedores, nos funcionários, nos amigos e, principalmente, em mim.

— Temos que amar o país em que vivemos. A palavra crise não existe no meu dicionário. Eu sempre comprei por 100 e vendi por 200.

— Quanto maior o problema, maior a oportunidade.



autor

Lawrence W. Reed

  • Gustavo  07/12/2020 20:35
    História inspiradora. É impressionante (e lamentável) como o Brasil dá pouco valor a seus empreendedores.
  • Diogo  07/12/2020 20:44
    E foi necessário um americano para dar o devido valor.
  • Carlos Brodowski   07/12/2020 20:46
    Como descendente de poloneses, essa história, que eu já conhecia, me deixa orgulhoso de meus ancestrais. Obrigado ao IMB pela publicação.
  • anônimo  07/12/2020 21:04
    M-mas a meritocracia é mentira!
  • Régis  07/12/2020 21:23
    De certa forma, é mesmo. Não é meritocracia (no sentido de esforço e "trabalho duro") o que torna uma pessoa bem-sucedida; é o valor que você cria para os consumidores.

    Numa economia de mercado, você enriquece quando cria valor para os consumidores. E criar valor para os consumidores é descobrir quais são seus desejos e necessidades não satisfeitos, e então ajudar a satisfazê-los; é descobrir o que os consumidores valorizam e então ofertar para satisfazer essa demanda.

    Resolver problemas, satisfazer desejos e necessidades, tornar a vida mais confortável etc.: tudo isso é criação de valor.
    Quem sabe fazer irá prosperar.

    É perfeitamente possível você trabalhar pouco, ser preguiçoso e ainda assim enriquecer criando valor. E também é perfeitamente possível trabalhar duro, ser disciplinado e ser genuinamente esforçado, mas ser pobre por não saber criar valor para terceiros.

    Klein era trabalhador e sabia criar valor para terceiros, mas tal combinação não é necessariamente obrigatória.
  • Esquerdalha  07/12/2020 22:29
    "De certa forma, é mesmo. Não é meritocracia (no sentido de esforço e "trabalho duro") o que torna uma pessoa bem-sucedida; é o valor que você cria para os consumidores."

    Então é a meritocracia do valor e não do esforço, porém, ainda uma meritocracia falaciosa neoliberal.

    E aqueles que não conseguiram "criar valor"?

    Foram excluídos socialmente! Por isso, é necessário existir políticas redistributivas para igualar os "criadores de valor" com os "destruidores de valor", taxando o primeiro e subsidiando o segundo, pois só assim construiremos uma sociedade justa e democrática.
  • Batista  07/12/2020 22:41
    Apesar da ironia, é exatamente assim mesmo que eles pensam. "Vamos punir cada vez mais os produtivos e recompensar cada vez mais os improdutivos. Essa é a receita do sucesso!"

    Nenhuma ironia exagerada consegue ser mais bizarra do que deturpada visão de mundo dessa gente.
  • Robson  22/03/2021 20:54
    Se seu valor não foi percebido, não houve mérito algum.

    Se você investe tempo e recurso mental para criar um produto ou serviço que pra você é a 8ª maravilha do mundo, mas na prática ele não serve a nada e a ninguém... você não criou valor algum.

    Eis o conceito da meritocracia. Em última instância MERITOCRACIA = SERVIDÃO.

    É você criar novas formas de SERVIR a sociedade de forma mais eficiente.

    No dia que o socialista entender isso o mundo muda.

  • Victor  07/12/2020 21:40
    Meritocracia sem criar valor diretamente para clientes é uma mentira deslavada, seja como empregado seja como vendedor de produto sem competitividade.
    Mas meritocracia em vendas é 110% direto e reto, nunca conheci vendedor honesto, bom de conversa e que venda produto competitivo que não chegue ao menos no relativo sucesso financeiro em um par de anos.
  • Régis  07/12/2020 21:46
    Concordo, mas aí já estamos no campo da semântica. Vendedor ser "bom de papo", mas ao mesmo tempo "honesto" e vender "produtos de valor" e "competitivos", é um exemplo direto de criação de valor, e não de meritocracia.
  • Joel  08/12/2020 12:48
    anônimo, uma boa analogia para entender porque o uso da palavra meritocracia é equivocada é essa aqui:

    Você passa metade de um mês cavando um buraco com um pá, e depois a outra metade tampando dito buraco, mesmo você tendo se esforçado tremendamente e agora acha que "merece" uma recompensa pelo esforço, você não criou nada de valor para ninguém.

    Não lembro exatamente onde eu ouvi essa analogia mas acho que representa bem a situação. Alguém só é reconpensado quando este cria valor para outro e não simplesmente por se esforçar.
  • Vinicius  07/12/2020 21:28
    Muito orgulho de viver na cidade da Casas Bahia número 1, São Caetano do Sul - SP, o homem é uma lenda aqui e muitas histórias lhe são creditadas.
  • Felipe  07/12/2020 21:58
    Outras frases:

    "De um bom namoro sai um bom casamento. Da boa conversa, sai um bom negócio".

    "O segredo é comprar bem comprado e vender bem vendido".

    "Em nossa vida profissional, não podemos falhar. São justamente nossos erros que estragam nossos acertos".

    "Que pai´s abenc¸oado esse Brasil. O povo tambe´m e´ pacato e acolhedor. O Brasil e´ um pai´s que da´ oportunidades para quem quer trabalhar e crescer na vida. Cresci junto com o Brasil. Na~o fiquei parado vendo o pai´s crescer".

    "Eu vivo e deixo os outros viverem". (Essa é 100% libertária).
  • Guilherme  07/12/2020 22:51
    "Meu talento é confiar nos pobres e prestar um serviço de boa qualidade" - entrevista ao The Wall Street Journal, em 2002

  • Marcos Rocha  07/12/2020 22:04
    Ótimo artigo para aqueles derrotistas (inclusive libertários) que vivem resmungando que não dá pra subir na vida porque "o governo isso…", porque "regulações aquilo", porque o "o BC aquilo outro", porque "tem corrupção", porque "tem impostos", porque "tem concentração de riqueza", porque "tem desigualdade", porque "tem pobreza" etc…

    O cara simplesmente perdeu quase toda a família num campo de concentração nazista, conseguiu escapar, começou a empreender sem um puto no bolso, e se transformou nisso.

    Difícil imaginar um ponto de partida pior e mais desvantajoso.

    Quando veio para o Brasil, a economia não era melhor do que é hoje, e nem a corrupção era menor. E a pobreza certamente era bem maior.

    Não há desculpas.
  • Victor  07/12/2020 22:15
    O sr. Klein começou no Br dos anos 50, até o tosco analfabeto de meu avô fez fortuna naquele tempo, qualquer um com profissão e sabendo ler e escrever poderia se destacar. De lá pra cá o país se tornou muito mais repressivo e o crescimento econômico minguou de vez a partis dos 80s.
  • Marcos Rocha  07/12/2020 22:24
    Seu avô fez fortuna? Diga-me quem ele é hoje, por favor.

    Não confunda "ganhar dinheiro e melhorar de vida" com "fazer fortuna".
  • Victor  07/12/2020 22:41
    Meu avô faleceu há muito. Fugiu do Japão em ruínas pós guerra, era considerado desonrado por haver sido capturado, no Brasil trabalhou em hortas até juntar suficiente dinheiro para empreender. Tem uma rua com seu nome num bairro horrível na Cidade de São Bernardo do Campo - SP.

    Aqui em SBC são muito comuns histórias de paupérrimos que fizeram fortuna nos anos 50, aqui era a cidade que mais cresceu no Br dessa época, a mais famosa é a dos cozinheiros que estabeleceram a rota do frango com polenta.
  • Historiador  07/12/2020 22:36
    Há um ponto na questão abordada pelo Victor. Antigamente, de fato, era relativamente mais fácil você ascender pelo trabalho. Um pai de família empregado sustentava mulher e quanto filhos (algo impossível hoje).

    Mas aí são necessárias algumas considerações:

    1) Naquela época, não havia muitos "itens básicos e essenciais" nos quais gastar. Era roupa, comida, luz e, se muito, mensalidade escolar (só que a maioria das escolas eram estaduais).

    Já hoje, qualquer família tem de gastar com internet, TV a cabo, gasolina, IPVA, várias contas de celular, viagens anuais, escola particular, aulas de natação, futebol, balé etc.

    Ou seja, os "itens essenciais" cresceram. E nem sequer existiam naquela época.

    2) O aumento contínuo da carga tributária. Naquela época, a carga tributária mal chegava a 10% do PIB. Hoje, está em 40% do PIB.

    Os salários dos pobres e da classe média praticamente não sofriam tributação nenhuma. E os impostos sobre o consumo eram baixos. E, devido à contínua impressão monetária (a quantidade de moeda na economia aumentava exponencialmente), os salários eram reajustados continuamente acima do aumento de preços, o que dava uma ilusão contábil de riqueza.

    Já hoje, boa parte da classe média paga imposto de renda e os impostos indiretos sobre bens e serviços representam a maior fatia da arrecadação de todas as esferas do estado.

    E o fato de a oferta monetária ser mais bem administrada reduz os reajustes (que dificilmente são reajustados acima do aumento de preços), o que aumenta a ilusão contábil de maior aperto financeiro (eu mesmo conheço funcionários públicos que juram que viviam melhor na época do Sarney, quando a inflação mensal de 20% disparava os "gatilhos", que eram os reajustes salariais do funcionalismo público).
  • 4lex5andro  08/12/2020 13:29
    Post necessário, Historiador, bons apontamentos.

    Só permite dois pequenos adendos, sobre as escolas.

    - As escolas públicas eram de MELHOR QUALIDADE com relação à qualidade do ensino e disciplina (hoje demonizada sob o argumento estruturalista de que o aluno não deve ser reprimido, ou ''robotizado'', mas ''conquistado'' pelas didáticas de ensino onde o foco deixa de ser o conteúdo e passa a ser a ''realidade do aluno'' - aí chega no mercado de trabalho, no mundo real onde se tem que empreender, e o aluno não sabe fazer o serviço e tem de ser re-treinado).

    - Novamente, as escolas públicas, além de ser de melhor qualidade em face do mercado, eram muito menos numerosas (LOGO, MENOS ACESSÍVEIS). Escassas até, tanto que havia provas de admissão para o ensino ginasial, equivalente ao trecho do 6º ao 9º ano. Praticamente um vestibular.
    Hoje é algo que é lugar comum e de acesso ''garantido'' pra qualquer adolescente. Mas naquele tempo diploma do primário e alguma habilidade com uma máquina datilográfica praticamente garantiam lugar pra pelo menos iniciar no mercado de trabalho.

    Mas de fato, as escolas eram escassas, em um país onde o analfabetismo literal (não o funcional, mas o a-b-c mesmo) chegava a pouco mais da metade dos habitantes. 1 de 2 brasileiros não assinava o próprio nome. Um país de ex-escravos e imigrantes ignaros, sob o governo de uma casta política, do funcionalismo de Estado e de seus 'amigos', grandes bancos e empreiteiras (que irônico, essa última parte da elite nem mudou muito, 60 anos depois).

    - Sobre o restante, em especial, a carga tributária naqueles tempos pré-Brasília era bem menor realmente, e a cesta de consumo 'padrão' idem. Itens como carro próprio e telefone eram, sabidamente, ''supérfluos'' ao não requisitos, de tão caros que eram, só presentes em mansões dos barões, prédios do estamento burocrático ou de escritórios e indústrias.

    E de fato, a inflação dos anos 80 jogou a realidade (o preço da farra estatista e do ''milagre econômico'' uma hora chega e não foi barato) na cara do brasileiro médio, aquele sem CLT nem puxadinho no Estado.
    Jogada com força, feito um semi-eixo sem graxa (pra ser bem gentil), no fuso de um rolamento de esferas.

    Não é a toa que a produtividade por trabalhador e o nível de industrialização do país, simplesmente estagnou daquela época ate hoje.
  • Felipe  12/12/2020 19:57
    Interessante ponto.

    Vale lembrar que essa carga tributária atual seria impensável naqueles tempos. As pessoas eram muito mais pobres e menos produtivas, e naquele tempo o governo se financiava mais pela impressão monetária. Isso começou a mudar depois de 1964, quando houve diminuição na impressão de dinheiro e aumento na carga tributária. Depois veio a hiperinflação na década de 80 e parte dos anos 90, e essa dependência maior da carga tributária veio após o Plano Real.

    Hoje as pessoas são mais ricas e produtivas e conseguem sustentar uma maior carga tributária. Isso aconteceu em quase todo o mundo. Além do fato de que hoje a social-democracia e os escopos do governo estão muito mais amplos. Por exemplo, quantos programas assistencialistas existiam no Brasil na década de 50 e quantos existem hoje? O escopo de "itens essenciais" aumentou justamente porque o padrão de vida subiu.

    Lawrence também escreveu um ótimo artigo falando da hiperinflação brasileira, quando ele visitou o país.
  • José Miguel Cunha Accacio  13/12/2020 11:46
    Deu aula de Economia. Parabéns!!
  • Gustavo  08/12/2020 12:32
    Epa, irmão, apenas uma ressalva, minha opinião é que não seria correto chamar seu avô de "tosco analfabeto", afinal, devemos aos nossos ancestrais nossa vida.

    Seguindo em frente, também tenho essa impressão, mas creio que seja devido a política inflacionária do governo e à crescente carga tributária. Além do mais, no governo Getulista foi criada toda uma malha de apoio aos trabalhadores urbanos/classe média para angariar apoio, o qual está totalmente ultrapassada hoje, mas foi um avanço para a época.

    Um de meus avôs era farmacêutico (trabalhava na farmácia, não dono da farmácia), o outro trabalhava nos correios, ambas minhas avós foram donas de casa, tiveram entre 09 e 12 filhos cada, casa própria de pelo menos cinco quartos, em terrenos de mais de 2000 m2. E fizeram tudo isso apenas com esses trabalhos simples e muito esforço.

    Hoje em dia a maioria tem dificuldades de pagar aluguel e não consegue sequer bancar mais de dois filhos. É só minha opinião.
  • brunoalex4  08/12/2020 19:49
    Um grande exemplo disso são as grandes empresas de ônibus no Brasil de um modo geral. Se você navegar nos sites de algumas delas na aba "história da empresa", "institucional" ou algo semelhante, verá que grande parte delas foram criadas por volta dos anos 40, 50 e 60 quando a burocracia para abrir uma era mínima ou nula. Veja por exemplo um trecho da história da Gontijo:

    "Em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, o jovem de 19 anos, Abílio Gontijo, conduzindo sua Jardineira Chevrolet Comercial 1940, engatava primeira marcha e acelerava rumo à construção da Empresa Gontijo.

    A partir da década de 1950 com a industrialização do Brasil, a população passou a se deslocar da área rural para as cidades e a Gontijo soube aproveitar essa marcha da história, crescendo junto com o país, numa alucinante viagem de prosperidade. Em 1949 o fundador da Gontijo decide transferir-se de Carmo do Paranaíba para Patos de Minas e consegue fazer a primeira ligação com Belo Horizonte. A empresa então conquistou mais três linhas: Belo Horizonte/Patos de Minas, via São Gotardo e Belo Horizonte/Patos de Minas, via Três Marias e depois Patos de Minas/Pirapora."

    Será que Abílio Gontijo conseguiria criar uma empresa com potencial para se tornar uma "Gontijo" futura nos dias atuais?
  • Guilherme  08/12/2020 20:12
    A resposta é não, pois hoje, para você entrar no mercado de ônibus intermunicipal e interestadual, você tem de subornar vários burocratas da ANTT.

    Em mercados regulados pelo governo só entra quem paga propina para funcionário público. É exatamente por isso que todos os monopólios e oligopólios só existem em mercados regulados pelo governo.

    A existência de agências reguladoras — que têm a função de cartelizar o mercado e restringir a livre entrada — é a perfeita antítese de livre mercado e livre concorrência.

    Quem realmente cria monopólios, oligopólios e cartéis?
  • Márlon  07/12/2020 22:18
    Boa!
  • Felipe  14/01/2021 18:16
  • Carlos Roberto Machado  07/12/2020 22:09
    Muito bom! Podiam falar também de Sílvio Santos, cuja ascensão da pobreza tem muitas semelhanças.
  • Paulo Henrique  07/12/2020 22:19
    Sílvio Santos é admirável e merece vários elogios, mas nem se compara. Klein sempre atuou no livre mercado; já Sílvio fez grande parte da sua fortuna em um mercado fechado e protegido pelo governo.

    A concessão do SBT lhe foi dada pelo governo Figueiredo para concorrer com a Globo, da qual Figueiredo não gostava. A concessão foi dada pessoalmente pelo General porque ele achava as comunicações do país concentradas demais na Globo.

    Isso despertou a fúria de Roberto Marinho, mas também uma grande gratidão de Sílvio Santos, que até criou o quadro a "Semana do Presidente".

    Ou seja, Sílvio ingressou neste mercado já sendo protegido pelo governo. Desde então, ele passou a atuar literalmente dentro de um cartel, cuja entrada da concorrência era proibida pelo governo.

    Além disso, boa parte das receitas do SBT sempre vieram de propagandas estatais (governos federal e estaduais).

    Já Klein, até onde se sabe, nunca recebeu grana de governos.

    Ambos, porém, prosperaram porque souberam agradar os consumidores.
  • 4lex5andro  08/12/2020 13:37
    Depois do comentário anterior sobre a diferença de peso do Estado e das exigências de qualificação dos anos 50 pra hoje no Brasil.

    Mais um adendo.

    O fato de pertencer a um clube fechado onde os membros se ajudam e tem um mote e uma identidade em comum, no caso o judaísmo, ajuda bastante também.

    Não é um comentário crítico no sentido negativo do têrmo.

    Mas que contextualiza um pouco, o motivo de afro-brasileiros não ter praticamente qualquer case de sucesso (fora do futebol) no Brasil, diferente de árabes, europeus e judeus que imigraram para o Br.

    Ter uma identidade e uma cultura que valorizem o trabalho, a disciplina e a educação, aliados a um ambiente de menor tributação, ajuda e muito a iniciar e prosperar qualquer negócio.
  • Estado máximo, cidadão mínimo  08/12/2020 08:49
    História fantástica. Quem sabe vender realmente tem um mundo de possibilidades. Infelizmente no Brasil vender é feio, considerado atividade de quinto escalão.
  • zé das couves  08/12/2020 12:49
    os príncipios expostos no artigo, explicados por um israelense radicado no Brasil: www.youtube.com/watch?v=ljQpTrZiRlo
  • Carlos Brodowski   08/12/2020 14:04
    Sim. Este artigo faz um ótimo apanhando histórico mostrando como cada um dos últimos três séculos foi intelectualmente dominado por um povo.

    Holandeses calvinistas, escoceses e, agora, os judeus. Estamos vivendo o século dos judeus.

    mises.org.br/article/1507/por-que-e-como-nos-tornamos-tao-ricos-aparentemente-ninguem-sabe
  • Drink Coke  08/12/2020 23:14
    judeus de origem europeia seriam o "povo" (se podemos chamar assim) mais bem sucedido financeiramente e intelectualmente em toda historia? Eu creio que a enorme dificuldade e perseguição sofrida por esse povo desde a idade média tenha aplicada uma especifica seleção natural, já que por muito tempo ficaram sem acesso a terras ou cargos públicos, assim Judeus na europa tinham que se virar no comércio e nos serviços financeiros para sobreviver.
  • Pepeu Pereira  10/12/2020 23:25
    Poxa! Que história bonita. Precisamos ler/ouvir histórias dessa natureza, porque, no Brasil, só se exalta o fracasso, a miséria, a favela, o bandido, a puta, o guei.
  • Jose Luiz Alievi  15/12/2020 11:42
    Li a história de Samuel Klein em um livro comprado usado por R$ 12,00 na Estante Virtual, um sebo de compras online. Como transformar cerca de 200 clientes atendidos por carroça em uma legião de compradores estimada hoje em cerca de 15 milhões de clientes. Não se lê ali nada de falcatruas, cotoveladas em concorrentes, ganhar no grito etc. Nada disso. Planejamento e olho no olho e sendo o que hoje parece um palavrão: mascate. Essa era a atividade desse senhor. Em algum momento aí no futuro será reconhecido como um dos maiores empreendedores do Brasil. Numa brincadeira, conta-se que certa feita perguntaram ao senhor Klein qual o segredo de um negócio, ao que respondeu: o segredo de um negócio é comprar por um e vender por dois e com esse 1% a empresa vai prosperando. Conclui-se que comprar por um é comprar pelo preço correto, vender por 2 é saber calcular seus custos e por fim, que não precisa saber muita matemática uma vez que um para dois é 100%.
  • Emerson Luis  03/04/2021 16:20

    "Devemos a origem e o desenvolvimento das sociedades humanas e, consequentemente, da cultura e da civilização, ao fato de que o trabalho realizado sob a divisão do trabalho ser mais produtivo do que quando realizado isoladamente."

    Mises

    * * *


Envie-nos seu comentário inteligente e educado:
Nome
Email
Comentário
Comentários serão exibidos após aprovação do moderador.