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Reservas fracionadas geram ciclos?

Alguns
austríacos defendem que um sistema bancário baseado em reservas fracionadas é
um “gerador natural” de ciclos, pois nesse tipo de sistema há a produção do que
é comumente chamado de “moeda fiduciária” (“fiduciária” de fidúcia, confiança.
Seriam moedas emitidas sem lastro em algum tipo de reserva, como ouro, por
exemplo. Os agentes confiam que, mesmo sem reservas suficientes, o emissor
teria condição de resgatá-las quando assim fosse requisitado).

Essa
posição, de reservas fracionadas como geradoras de ciclos, foi/é fortemente
defendida por seguidores e ex-alunos de Mises, como Rothbard, Hoppe, Salerno, Hülsmann e gerou intenso
debate não só sobre a proposição em si, como também sobre qual seria a posição
do economista austríaco em relação ao tema.  Embora, em linhas gerais, a resposta já tenha
sido dada pelos economistas do “outro lado” desse debate (mais
especificamente neste
texto
 por George
Selgin
e Lawrence H. White), vou tentar expor aqui como eu entendo o
problema e a sua solução.

A
essência da posição de que o sistema de reservas fracionadas (RF) gera ciclos
(vou chamar essa defesa de ‘rothbardiana’) é a idéia de que há o uso, “ao mesmo
tempo” e por diferentes pessoas, da poupança depositada em um banco que siga
tal política de reservas.  Como se sabe,
a teoria austríaca dos ciclos econômicos (TACE) argumenta que expansões do
crédito levam os agentes econômicos a acharem que existe mais poupança do que
realmente existe, e o problema surge exatamente quando “no meio” da
execução/manutenção desses projetos, que foram concebidos com base nessa ilusão
de mais poupança, se descobre que na realidade não há o montante de bens
poupados necessários para a conclusão e sustentação de todos esses novos
investimentos.

Para
os rothbardianos, quando alguém deposita uma dada quantia em um banco e recebe
em troca, por exemplo, um título ou um certificado de depósito, essa pessoa
abriu mão de consumir, nesse período de depósito, a quantia depositada, que
então será emprestada para alguém que a utilizará em alguma atividade.  Como se pode perceber, há um “casamento” entre
o ato de poupar, feito por um determinado indivíduo, e o investimento feito por
outro indivíduo na outra ponta da cadeia de eventos, com o banco servindo
apenas de intermediador. Repare que o
poupador abre mão dos seus bens poupados para que o tomador de empréstimo
invista/use esses mesmos bens.

O
mesmo não ocorreria em um banco com RF.  Quando
o depositante deixa seu dinheiro no banco, ele continua podendo utilizar o
saldo disponível na conta, ao passo que, do outro lado, o banco empresta parte
desse mesmo saldo para outra pessoa, a qual obviamente poderá dispor desse
empréstimo como quiser.  Há aqui a idéia
de que há “crédito demais” para poupança de menos.  O emprestador recebeu uma porcentagem do saldo
depositado como se essa porcentagem estivesse sendo poupada por alguém, quando
não está.  O “dono original” continua
tendo esse mesmo saldo à sua disposição para uso.  Esse aumento do crédito sem lastro em poupança
desencadeará ciclos econômicos na visão austríaca.  Como um sistema de RF funciona naturalmente
nesses termos (de emprestar parte do que recebe e ainda manter o saldo
disponível para o depositante original), tal sistema seria um desencadeador
natural de ciclos econômicos.

A
discordância entre rothbardianos e os defensores de RF (dentre os quais eu me
incluo) se dá exatamente nessa questão de o sistema defendido pelo segundo
grupo ser “inerentemente e inescapavelmente instável”.  Nós defendemos que expansões de crédito não
inflacionárias (no sentido convencional de inflação como aumento do nível de
preços) não serão geradoras de ciclos.  Apenas
expansões “excessivas” de crédito desencadearão o fenômeno.  Essa posição é a mesma de Hayek e, acredito, a
mesma de Mises (embora, como já foi citado, os rothbardianos insistam que isso
não seja verdade).

Explicando
melhor.  Por “expansões de crédito não
inflacionárias”, queremos dizer o seguinte: o banco conseguiu conquistar mais
“clientes” para sua moeda, isto é, pessoas que estão dispostas a carregar, em
seus portfólios, saldos em conta corrente daquele banco como se fossem “moeda
nas suas carteiras”.  Ou seja, as pessoas
“enxergam” esses saldos em conta corrente exatamente como se fossem
moeda; elas formam encaixes utilizando esses saldos, o que significa que elas
não “correm para trocar” (ou não trocam constantemente) saldos em conta
corrente por moeda primária (cédulas de papel e moedas metálicas no nosso atual
sistema, ou ouro na época do padrão-ouro).

Em
termos econômicos mais genéricos, uma expansão de crédito não inflacionária
significa que quando as pessoas desejam aumentar sua demanda por moeda, o banco
aumenta a oferta de moeda no mesmo montante desse aumento de demanda, mantendo
o “nível de preços” estável.  E ele faz
isso exatamente conseguindo com que mais pessoas utilizem seus saldos em conta
corrente como se fossem moeda primária (ou com que as mesmas pessoas que já
eram clientes aumentem seus encaixes utilizando os saldos gerados pelo banco).

Por
que tal política não é geradora de ciclos?  Pela explicação acima já temos a resposta.
Imagine uma situação em que o banco faz uma expansão de crédito inflacionária
— ou seja, sem o correspondente aumento de demanda por moeda por parte da
economia.  Um modo de se fazer isso, dado
que o Banco Central não aumentou a quantidade de moeda primária, é diminuir a
quantidade de reservas bancárias.  O
banco expansionista, então, pega parte das suas reservas e empresta.  As pessoas pegam o empréstimo (que pode ser em
moeda primária ou mesmo em um saldo em conta corrente) e correm para gastar de
alguma forma esse dinheiro.

Não
houve, da parte dos depositantes originários do banco, nenhum aumento de
demanda por depósitos bancários (saldos em conta corrente) que permitisse ao
banco diminuir seu nível de reserva.  Também
não houve, em outra parte do sistema, ninguém aumentando sua demanda por esses
depósitos de forma a permitir ao banco a mesma prática (de diminuição de
reservas).  Essa moeda nova entrou em
“circulação” de um lado sem que, do outro, alguém aumentasse a sua própria
demanda por depósitos bancários (e assim liberasse reservas para a expansão do
crédito).  

Neste
caso, sim, temos a descrição rothbardiana de “mais crédito sem poupança”.
Adicionalmente, como temos mais moeda “circulando”, sem ninguém ter aumentado
sua demanda por moeda, teremos inflação (de preços), além dos ciclos (pelo
descasamento de poupança e crédito).

E
como seriam as coisas caso a expansão do crédito fosse feita lastreada por uma
expansão da demanda por moeda?  Um ponto
importante a ser entendido é que demandar moeda significa “deixar de consumir”.
 Você pega uma parte da sua renda e a aloca
em moeda.  A cadeira, o barbeador, a
maçã que você produziu não serão consumidos e, portanto, estarão disponíveis
para serem utilizados na produção de outros bens; estarão disponíveis para ser
utilizados em investimentos como qualquer poupança.

Quando
você aumenta sua demanda por moeda (no sentido amplo) e deposita dinheiro no
banco, que por sua vez utilizará esse depósito para promover novos empréstimos,
o que está ocorrendo é que você (depositante) está abrindo mão de bens em troca
de um ativo financeiro emitido pelo banco (no caso, saldos em conta corrente),
o qual será mantido em seu encaixe, em seu portfólio.  Esses bens dos quais você abriu mão naquele
momento (deixou de consumir para aumentar seu encaixe) serão emprestados pelo
banco; serão utilizados pelo emprestador na outra ponta do fluxo.  A diferença fundamental deste cenário para o
outro é que, neste, você manteve os bens à disposição do banco quando se propôs
a utilizar os saldos que ele lhe concedeu como moeda, mantendo um encaixe com
esses saldos (exatamente como faria com moeda primária).  Já na emissão de crédito inflacionária, o
banco não consegue isso; as pessoas pegam seus saldos e saem trocando por moeda
primária, gastando, pois elas não desejam aumentar seus encaixes.  Por essa razão, há mais moeda concorrendo
pelos mesmos bens (já que ninguém reteve os saldos disponibilizados), o que
gera a inflação e também o problema do descasamento de poupança e crédito que
desencadeia o fenômeno do ciclo econômico.

O
ponto chave para entender essa diferença nos dois cenários é olhar exatamente
para a demanda por moeda e como ela “lastreia” a expansão de crédito feita
subsequentemente pelo banco.  

Imagine
que eu seja o emissor de um papel-moeda (um papel-moeda já estabelecido no
mercado) lastreado em algum outro bem (como ouro ou mesmo o papel-moeda emitido
por um banco central).  Qual a vantagem
existente em eu ser um emissor?  Ora, a
vantagem é que eu emito papeizinhos — que custam muito pouco para serem
fabricados — em troca do ouro que as pessoas depositam no meu banco.  Esse ouro eu posso emprestar e ganhar juros.  Observe que, desde que as pessoas aceitem meus
papeizinhos como moeda — e elas aceitarão caso eu ganhe a confiança delas por cumprir
exatamente aquilo que foi combinado (trocar esses papeizinhos por ouro na hora
que elas desejarem) –, eu consigo uma fonte de captação a juros zero para meu
banco.

O
que significa aqui “aceitar os papeizinhos” como moeda? Significa que os
demandantes mantêm esses papeizinhos em suas carteiras, nos seus encaixes, como
se fosse ouro ou qualquer moeda primária.  Essa permanência das pessoas com a minha moeda
me permite emprestar o ouro que elas depositaram em meu banco, e permite o
casamento correto entre crédito e poupança.  As pessoas abriram mão de consumir bens ao
manterem um dado número de papeizinhos como encaixe, e é esse montante ou parte
dele (em ouro) que eu empresto via expansão do crédito.

No
caso da expansão inflacionária, não há esse lastro fornecido pelos demandantes
dos meus papeizinhos; eles não permitem a expansão de crédito que o banco
deseja.  As pessoas não desejam manter em
seus encaixes uma quantidade maior dos meus papeis, o que me permitiria
expandir o crédito ao, por exemplo, diminuir o nível de reservas de ouro que
mantenho em meu banco.  Esse não
lastreamento pela demanda dos consumidores causa exatamente o descasamento
entre poupança e crédito: as pessoas que receberam o novo crédito “vão às
compras” e os demandantes do meu papel continuam gastando o mesmo que antes
(eles não aumentaram sua demanda por moeda e, portanto, não deixaram os bens
disponíveis para o banco expandir o crédito).

Se
estivermos em um sistema sem um Banco Central para socorrer os bancos, aquele
banco que praticou tal política tenderá a ter dificuldades nas conversões de
papeis por moeda primária (ele está com reservas muito baixas, dada a expansão
não lastreada que realizou).  A tendência
em um mercado livre, portanto, é que aqueles bancos que pratiquem políticas
inflacionárias sumam do mapa, e a estabilidade econômica prevaleça.

Antes
de falar de ciclos novamente, uma crítica comum ao que foi exposto até aqui é a
idéia de que não são necessárias mais emissões de moeda quando o consumidor
aumenta a sua demanda por moeda.  Ou
seja: que o correto seria deixar ocorrer uma deflação de preços (um aumento do
poder de compra da moeda) porque seria isso o desejado pelo consumidor, seria a
sua “vontade” expressa em ações em um livre mercado.  Eu não vejo muito sentido nessa crítica.

Primeiro,
quando o consumidor aumenta sua demanda por moeda, o que ele quer é um maior
poder de compra em sua carteira. Se esse maior poder de compra será obtido por
meio do mesmo número de papeizinhos comprando mais bens (deflação de preços) ou
com o consumidor obtendo mais papeizinhos com o mesmo poder de compra (novas
emissões), é algo indiferente para ele.  Até
onde se sabe, ninguém aceita pagar mais de R$100,00 para obter uma nota de
R$100,00 no lugar de duas de R$50,00, o que deve significar que tanto faz se
você tem um encaixe formado por dois papeizinhos pintados com um 50 ou um
papelzinho pintado com um 100 — o que importa é o poder de compra real das
duas cestas de notas (no caso, 100), e esse desejo de aumentar o poder de
compra do seu encaixe pode ser obtido (em termos econômicos) com deflação de
preços ou com novas emissões.

Segundo,
não faz sentido econômico algum afirmar que, diante de um aumento da demanda
por um dado bem, o produtor desse bem deve responder apenas aumentando o preço,
não mexendo na sua oferta; e que mexer na oferta é uma violação do desejo do
consumidor em “ter a mesma quantidade física desse bem, mas com cada unidade
valendo mais”.  Se um ofertante, diante
de um aumento da demanda (ou esperando um aumento de demanda) vai responder
mexendo no preço, no preço e na oferta, ou só na oferta, depende da
lucratividade dos três caminhos.

Supondo-se
que a empresa esteja no ótimo (na produção que maximiza seu lucro ao preço de
mercado), se, por exemplo, o custo de se produzir novas unidades é constante,
muito provavelmente a oferta será expandida e o preço ficará estável.  Se o custo for crescente, oferta e preços
aumentarão.  E se, por alguma “excentricidade”,
o custo de produzir unidades a mais for proibitivo, todo o aumento da demanda
só irá gerar aumento de preços (e a oferta ficará constante).

Não
há nada que comprove que um caminho é necessariamente “mais correto” que o
outro.  No setor bancário, dado que as
pessoas estão querendo mais moeda para encaixes, o aumento da oferta monetária
terá custo marginal praticamente nulo — logo, é de se esperar que o caminho
tomado em um mercado livre seja esse (de expansão da oferta mantendo o preço
estável), ainda mais quando a estabilidade de preços por si só (nenhuma ou
pouca inflação/deflação de preços) é um fator desejável para os agentes
econômicos (dada a facilidade de previsões para investimentos e escolhas
futuras).

Bancos
centrais e não reservas fracionadas são responsáveis pelos ciclos

Parece-me
bastante natural que quem lesse autores como Mises e Hayek chegaria à conclusão
de que eles pensam exatamente como a frase acima: ciclos são gerados
essencialmente pela política monetária expansionistas dos bancos centrais e não
por uma “falha” na própria natureza do sistema de reservas fracionadas. Os rothbardianos dizem que não.  Eles concordam que bancos centrais geram
ciclos, mas também acreditam que mesmo em um mundo sem bancos centrais, porém
com bancos de reserva fracionada emitindo moeda sem gerar inflação de preços,
os ciclos continuariam existindo.  Como
explicado anteriormente, essa posição é um erro.  Ela não percebe que emissões lastreadas por
uma maior demanda por moeda significam emissões lastreadas em poupança, isto é,
em bens que não estão sendo consumidos, já que a maior demanda por moeda
implica uma parte maior da renda/riqueza não sendo consumida, sendo mantida em
termos de encaixes monetários.

E
é exatamente essa característica que também garante que tais emissões não são
inflacionárias (no sentido de inflação de preço), já que algumas pessoas
diminuem o seu consumo (porque aumentaram seus encaixes) enquanto outras
aumentam o seu com os novos créditos.

A
posição de que os bancos centrais são responsáveis pelos ciclos não implica que
em um sistema de reservas fracionadas sem bancos centrais seja impossível ocorrer
ciclos.  Bastaria que os bancos desse
sistema se engajassem em emissões não lastreadas por aumentos da demanda de
moeda (emissões inflacionárias).  O ponto
é que eles não teriam incentivos a fazer isso.  Emissões acima da disposição dos consumidores
em manter a moeda de determinado banco em encaixes implica aumento da demanda
por resgates (por conversões da sua moeda em moeda primária).  Mas o nível de reservas desse banco está baixo
exatamente porque ele expandiu o crédito (o nível de reserva era ótimo,
adequado, para o montante de resgate anterior), o que significa que não
existirão reservas suficientes para fazer os resgates corriqueiros que os
clientes desejam.  Isso será fatal para o
banco.

A
confiança na sua moeda desaparecerá porque ele não consegue cumprir o que
prometeu.  Haverá uma “corrida” a esse
banco, ninguém mais quererá segurar sua moeda nos seus encaixes.  É o fim da galinha de ovos de ouro da captação
a taxas zero (ou próxima disso).  Esse é
o mecanismo básico de mercado que garante que bancos (que emitam moedas não
primárias) só realizarão emissões não inflacionárias, isto é, emissões que não
geram ciclos.

Existe
uma tendência errônea entre alguns rothbardianos de interpretar o que ocorre
atualmente no mundo como uma falha desse mecanismo — e, portanto, uma falha
generalizada do sistema de reservas fracionadas.  O mecanismo descrito não funcionará se, por
trás dos bancos, existir um emissor de moeda primária que cubra as necessidades
por mais reservas no momento em que os resgates se multiplicarem, decorrência
da emissão não lastreada.

Basicamente
é isso que os bancos centrais têm como missão.  Fornecer a “liquidez” necessária aos bancos.  E é essa entidade, praticando essa política,
que acabará gerando os ciclos — justamente por emitir moeda primária
excessivamente (e, consequentemente, garantindo expansões creditícias
inflacionárias, sem lastro na demanda por moeda dos agentes econômicos).

Explicando
melhor: imagine que você seja um banqueiro.  Você sabe que não pode expandir o crédito além
da disposição dos consumidores em manter sua moeda, seus “saldos de depósito a
vista”, nos seus respectivos encaixes.  Se
você resolver expandir, mesmo não tendo o “aval” dos consumidores, os resgates
aumentarão e você não terá reservas suficientes para arcar com esse aumento.  Mas imagine que exista um órgão que aceite lhe
fornecer reservas (ou que diga da boca para fora que não fornecerá, mas que, em
um momento real de necessidade, você sabe que irá fornecer).  Você, um banqueiro ávido por lucro, se
preocupará com o nível de suas reservas?  Provavelmente não.  Dado que é sempre possível cobrar algum juro
positivo com mais empréstimos, você expandirá o crédito o máximo possível, e
não se preocupará quando os recebedores dos seus papeis começarem a trocá-los
por moeda primária (reservas).  O órgão
mencionado lhe fornecerá o quanto você precisar.

Essa
política de crédito expansionista só foi possível porque esse órgão emissor de
moeda primária lhe garantiu reservas suficientes, não porque você simplesmente
pode, se assim julgar conveniente, expandir o crédito.  Na situação sem o órgão, você também poderia
expandir, mas não expandiria porque, se fizesse, teria prejuízos.  O que incentiva a expansão é o resguardo do
órgão de emissão de moeda primária.

Vendo
o real problema, muitos economistas, dentre eles os austríacos Mises e Hayek,
sugeriram mudanças em relação ao banco central (que, no nosso atual sistema, é
o órgão garantidor de moeda primária citado acima). Mises, por exemplo, defendia a volta ao
padrão-ouro, o que tiraria o banco central da posição de emissor de moeda
primária.  O seu papel-moeda (se ele
ainda continuar a existir como um emissor de moeda) passa a ser uma “moeda
secundária”, uma moeda que teria de ser convertida em outro ativo mais básico
— no caso, o ouro.  Isso amarra as mãos
do banco central, pois novas emissões de papel-moeda só poderiam ser feitas com
maiores reservas de ouro (ou um aumento da demanda por papel-moeda).

Assim
como os bancos normais, o banco central passa a ter de se preocupar com suas
reservas; reservas que, por sua vez, não podem ser aumentadas sem custos
consideráveis (é mais caro/difícil achar ouro do que imprimir moeda).

Hayek
foi ainda mais longe.  Em seu “Desestatização do Dinheiro“,
o austríaco defendeu o fim do banco central e a transformação dos bancos
privados em potenciais emissores de moeda primária.  Emissores de moedas primárias também possuem
restrições de mercado, embora menores do que bancos que emitam moedas
lastreadas em outro ativo que não seja de sua própria emissão/produção.  Se um banco emissor de moeda primária começa a
“abusar” do seu poder, as pessoas simplesmente largam sua moeda e trocam por
outra mais confiável, mais estável, acabando também com a fonte de captação a
juros zero que esse banco provavelmente levou anos e anos para conseguir.  O próprio banco central tem um limite —
bastante largo é verdade — na sua capacidade de abusar do poder de emissão.  São famosos os casos de hiperinflação em que a
moeda que o Banco Central local emite é abandonada em troca de outro bem ou
outro papel-moeda.  No Brasil mesmo, na
época da hiperinflação, muitas transações corriqueiras eram feitas em dólar.  Os próprios preços — de
eletrônicos, por exemplo — eram expostos em dólar.

Os
rothbardianos, portanto, erram completamente o alvo ao culparem o sistema de
reservas fracionadas e até mesmo o papel-moeda pelos ciclos econômicos.  Como diz o ditado popular: é jogar a criança
fora junto com a água do banho.  Reserva
fracionada, em geral, é a política ótima a ser adotada em uma economia de
mercado, ainda mais se estivermos em um padrão-ouro.  Ela economiza ouro.  Permite que o sistema monetário funcione com
menos ouro, liberando o metal para a produção de outros bens.  E o papel-moeda faz o mesmo.  Ele permite a existência de um sistema
monetário sem a necessidade de usar um metal caro, como ouro, o qual poderia
ser utilizado na produção de outros bens.  

Ambos
são fenômenos de mercado, são produtos da velha história de que mercados levam
à eficiência, à produção de bens a custos cada vez menores.  Tentar negar essas coisas, indo contra
qualquer boa teoria econômica, é dar um tiro no próprio pé.  É dar munição a keynesianos, socialistas e
intervencionistas de todas as matizes que apenas querem regular e estatizar
ainda mais o sistema financeiro.  Mises e
Hayek sabiam disso. Eles não defenderam
mais regulações no setor bancário, como a imposição de 100% de reserva.  Eles defenderam o “free banking” (sistema bancário completamente desregulamentado), a
saída completa do governo do setor bancário.  Defenderam que cada banco adotasse as políticas
que achassem convenientes, que arcassem com os custos e usufruíssem dos
benefícios do caminho adotado, como deve ser em um livre mercado.

Para
finalizar, uma história interessante.  Recentemente,
estava lendo uma reportagem sobre um livro de tecnologia que trazia a
“polêmica” revelação de que Bill Gates não entendia o Gmail na época de seu
lançamento. Como o Google era capaz de
oferecer 2GB de armazenamento?  Quem
usaria tanto espaço com e-mail, perguntava Gates.  No entanto, na mesma reportagem, era revelado
o “truque” do Google em relação ao espaço de armazenamento.  Realmente, como Gates suspeitava, poucas pessoas
usavam 2GB (e ainda menos pessoas utilizam os 7GB que o Google disponibiliza
hoje).  O que o dono do Gmail fazia,
então?  A resposta: “reserva fracionada”
de espaço.  O Google tinha servidores com
capacidade inferior a 2GB vezes o número esperado de usuários cadastrados, mas
tinha servidores suficientes para dar o espaço que seus usuários realmente
usavam.  Ele podia prometer 2GB para
todos, mesmo não tendo 2GB para todos porque quase ninguém utilizava esse
espaço.

Não
faria sentido econômico algum ele prometer 2GB e comprar os servidores na
capacidade do prometido porque ninguém iria usar.  Seria um desperdício total.  Mas a promessa foi um belo marketing, além das
pessoas ficarem confortáveis em saber que, se quisessem, poderiam usar 2GB (e o
Google conseguia ofertar isso a quem realmente se propusesse a usar esse
espaço, dado que as pessoas não usavam 2GB todas ao mesmo tempo).

Esse
é só um exemplo para mostrar que, dado que as pessoas se comportam de uma certa
maneira, reserva fracionada é a política economicamente ótima até mesmo para
espaço de armazenamento em servidores.

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48 comentários em “Reservas fracionadas geram ciclos?”

  1. Bernardo Santoro

    Sidney, antes de mais nada, parabéns pelo ótimo texto, e você tem argumentos muito persuasivos, mas não posso deixar de me questionar sobre dois pontos:

    1 – Você foi exclusivamente utilitário na sua explicação, ao dizer que não existe um “caminho correto” entre deflação e reservas fracionárias “não inflacionárias”. Mas você não atentou para a questão ética da coisa. Quando um banco se utiliza do sistema de reservas fracionárias, ele se apropria de bens que não são dela, especialmente nos depósitos a vista, onde o depositante declara que não quer poupar aquela quantia e ainda assim o banco o empresta. Isso é furto, mesmo que a reserva fracionária venha a não ter efeito inflacionário e que o banco “devolva” o valor depois. Por isso que eu posso até concordar quando você diz que não existe um caminho correto do ponto de vista utilitário, mas do ponto de vista ético a deflação me parece, sme dúvida, o caminho mais correto. Ou estou enganado?

    2 – Não há uma garantia de que a reserva fracionária não terá efeito inflacionário. Você defende que se houver esse efeito o banco quebra, mas essa postura não é um pouco temerária, especialmente em um ambiente em que esse sistema não é acordado livremente com o depositante?

    Abraço!

  2. Sidney,
    vc acha que um banco que praticasse reservas fracionarias, num livre mercado, conseguiria ser competitivo sendo sincero?
    Realmente acho que desde que seja tudo previsto em contrato e aceito entre as partes este esquema de piramide pode até ser legitimo, e tem gente que entra nestes esquemas mesmo sabendo de suas falhas. Mas eu nãoconsigo vislumbrar pessoas voluntariamente(e com opção de ter 100% reservas em outro banco) depositando suas riquezas num banco que lhes diz que não garante que se todos quiserem sacar ao mesmo tempo irão conseguir.
    Ou seja, o esquema de reservas fracionárias pode até se manter por muitissimos anos, desde que, de forma fraudulenta.

  3. Bernardo, \r
    \r
    Obrigado pelos elogios. \r
    Sobre suas perguntas\r
    \r
    1 – A idéia principal do texto era focar na economia da situação e não tanto na questão ética/moral. Se você estiver interessado, tenho um outro texto no meu blog que trata da parte ética. Eis o link: \r
    depositode.blogspot.com/2011/03/mais-sobre-reserva-fracionada-questao.html\r
    \r
    2 – Eu acho que em economia poucas coisas são “certezas” nesse sentido específico que você coloca. Por exemplo, uma discussão famosa entre libertarians – policias privadas teriam incentivos a “fazer a coisa certa” como proteger os cidadãos, mas pode acontecer de algumas virarem gangues e espoliar o pessoal. A economia nos dirá que ela terá incentivos a ir para o lado correto, mas algo específico, que nós não levamos em conta naquela situação específica que os envolvidos estão pode alterar esse incentivo. A mesma coisa acontece nessa questão de reserva fracionada e inflação e em quase todas as situações que você aplica economia. O incentivo é para que não gere inflação, mas algum banco pode achar vantajoso arriscar uma expansão e a faz. É análogo ao seguinte: o incentivo em um livre mercado para uma loja qualquer é o de oferecer produtos “de qualidade”, mas várias delas oferecem produtos ruins e, assim como o banco que faz inflação, a tendência é quebrar. Pode não quebrar, pode demorar (depende dos detalhes de cada caso), mas no geral seria isso que aconteceria. E não é porque existe o risco de lojas oferecerem produtos ruins que você passa a obriga-las, via força, a oferecer “produtos de qualidade” \r
    \r
    Abraços

  4. Roberto,\r
    \r
    Sendo muito sincero, acho que bancos de reserva fracionada seriam muito mais competitivo que qualquer banco 100% de reserva, justamente porque as pessoas não sacam todas ao mesmo tempo. Bancos com reserva fracionada ofeceram a um risco quase nulo a mesma comodidade de um banco 100% de reserva e ainda lucrarão mais por emprestar o dinheiro parado (as reservas). P/ completar, podem pagar juros aos depósitos a vista (enquanto um banco 100% de reserva no máximo pode diminuir a tarifa que cobra)\r
    \r
    Se as pessoas sacassem sempre todas ao mesmo tempo, seria impossível praticar reserva fracionada em um livre mercado, mas não é o caso. Um banco consegue saciar a demanda dos seus clientes por moeda primária com apenas uma fração da mesma depositada em seus cofres.

  5. Sidney, \r
    \r
    A estória do Bill Gates é interessante. Eu, porém, desenvolvi uma que, modéstia à parte, considero ser mais apropriada: a da conexão de banda larga. \r
    \r
    As operadoras, sabendo que nem todo mundo usa a internet ao mesmo tempo, prometem conexão a uma velocidade que elas sabem não poder dar a todos ao mesmo tempo, mas, pela legislação, você só pode rescindir o contrato se sua velocidade se ela estiver, salvo engano, menos de 10% do que foi contratado. \r
    \r
    O cliente, portanto, (embora talvez não saiba) corre um risco, algo bem diferente do que ocorre em todos os sistemas de reservas fracionárias que eu conheço, que, teoricamente, transformam poupança em um investimento 100% seguro. \r
    \r
    Eu tenho minhas dúvidas quanto à natureza do sistema, mas o grande problema é que ele é uma coisa e é “vendido” como outra.

  6. Ocorre que um sistema de reservas fracionárias gera um sobre-investimento em alguns setores gerando perdas para diversas empresas e má alocação de recursos. Quando o sistema de reservas gera dinheiro através de empréstimos sem lastro, o banco dá um sinal ao empresário de que há poupança disponível para realizar o investimento, quando na verdade recursos não estão sendo poupados, a taxa de preferência temporal das pessoas não se alterou.

  7. Prezado Sidney, tudo bem?

    Muito interessante seu artigo.

    Entretanto observo que o problema está no aspecto dinâmico do multiplicador bancário dos meios de pagamento (M1: Papel-moeda em poder do público mais depósito à vista nos bancos comerciais), que consiste em uma progressão geométrica matemática cuja taxa de crescimento dessa expansão é (1-R), onde R é a soma das seguintes percentuais:

    a) encaixe em moeda corrente dos bancos comerciais/depósitos à vista nos bancos comerciais;

    b) depósitos voluntários dos bancos comerciais no Banco Central/depósitos à vista nos bancos comerciais;

    c) depósitos compulsórios dos bancos comerciais no Banco Central/depósitos à vista nos bancos comerciais.

    obs: Os itens a) e b) não possuem muita relevância estatística por serem parâmetros comportamentais que variam de banco comercial a banco comercial, porém o item c) é um parâmetro definido, fixado pelo Banco Central.

    De modo que por fim acaba por afetar a Base Monetária da economia, gerando a expansão monetária primária, secundária e assim sucessivamente; coisa que ocorre como resultante da política de reservas fracionárias e ausência de carência obrigatória (não estou entrando no mérito se deve haver ou não) de algum percentual do que depositamos ou mantemos em nossas contas através de depósitos à vista, para só então poder ser emprestado, e assim haver algum tipo de conciliação entre o tempo de carência de nosso dinheiro no banco que não podemos mexer e os prazos dos créditos (desse mesmo dinheiro na carência) a serem quitados (isso é algo a se desenvolver ainda) e não afetar direitos de propriedade sobre o dinheiro em si.

    No aspecto dinâmico da programação monetária há algo chamado de criação de destruição dos meios de pagamentos resultado das variações entre ativo e passivo contábil dos bancos comerciais e Banco Central cuja causa está na relação entre o Setor Monetário e Setor Não-Monetário da economia, através da troca de haveres monetários e haveres não monetários entre esses agentes em seus respectivos setores.

    Diferente da observação estática, caso a caso, da relação do Setor Monetário (Banco Central e bancos comerciais) e Setor Não-Monetário (público) que só pode haver criação excessiva de meios de pagamento quando o governo passa a ter gastos maiores do que sua receita (gastos financiados junto ao setor monetário), no caso dinâmico o Banco Central dispõe dos seguintes instrumentos para expandir meios de pagamento:

    a) Expansão de empréstimos ao Governo

    b) Expansão de empréstimos ao setor privado via bancos comerciais

    c) Expansão de redescontos aos bancos comerciais

    d) Na compra de títulos da dívida pública em poder do público

    e) Redução do passivo em moeda estrangeira

    f) Aumento de reservas cambiais

    g) Redução da relação encaixe/depósitos nos bancos comerciais, diminuindo as exigências de recolhimentos compulsórios à sua ordem.

    Nesse sentido, o problema maior pode residir na existência do Banco Central, mas ocorre que os bancos comerciais são um braço dessa instituição que colabora com o processo inflacionário, em seu real sentido, a expansão monetária.

    O problema prático desse processo dinâmico é o como ter em conta qual será o comportamento dos agentes, o público e bancos comerciais, isso porque o Banco Central pode controlar a Base Monetária mais não o multiplicador e até mesmo alguma previsões das contas do Banco Central pode haver desvios como no caso das reservas internacionais dependendo do regime cambial vigente.

    A expansão de crédito não inflacionária é algo que depende das preferências de cada agente que possui contas-corrente em bancos comerciais e, por isso ser um tanto complexo, há os problemas na previsão do comportamento do multiplicador monetário porque nesse dinamismo todo não necessariamente haverá sempre troca de haver monetário por haver não monetário, haverá mais contas com mais crédito pelas criadas pelas reservas fracionadas.

    Essa velocidade de expansão é que faz com que uma mesma quantidade de bens seja perseguido por uma quantia maior de dinheiro disposto na economia, certo?

    Ocorre que na necessidade de um controle disso tudo é que existe um Banco Central, mas isso porque os bancos comerciais não necessariamente zelam pela moeda por ser ela única e utilizada por todos em um sistema monetário.

    Nesse sentido, há sim, por parte dos bancos comerciais a formação de um gatilho inflacionário que se sente a médio/longo prazo.

    Acho que foi nesse sentido que Hayek colocou em Desestatização da Moeda:

    “Bendito seja o dia em que não mais será da benevolência governamental que teremos de esperar uma boa moeda, mas do zelo dos bancos pelos seus próprios interesses”.

    Nisso reside a idéia de que se cada banco possuísse sua moeda, caberia a este zelar por sua capacidade real de aquisição uma mesma cestas de bens ao longo do tempo e a lucratividade do banco comercial X,Y ou Z, seria igualmente alcançada por uma prestação de serviços baseada que ganharia via eleição do público pelo banco comercial X,Y ou Z.

    Grande Abraço

  8. Não acho que o sistema de reservas fracionárias envolva uma propriedade simultânea do mesmo bem entre duas pessoas (como exposto no “Against fiduciary media”).

    Se um indivíduo A possui 100$ e então deposita esse dinheiro em um banco que pratica reservas fracionárias (e é claro, A está ciente disso), ele transfere a propriedade desses 100$ para o banco em troca de um “título” que promete devolver esses 100$ a qualquer instante. Se então o banco pega esses 100$ e empresta pra um indivíduo B, o que acontece é que o banco transfere a propriedade dos 100$ para B, em troca de um “título” que promete a devolução dos 100$ mais uma porcentagem de juros em um prazo determinado. São três “bens” diferentes, portanto, os 100$, uma promessa do banco e uma promessa do indivíduo B. Na verdade, eu enxergo as reservas fracionárias como uma forma de empréstimo particular, sendo que o tomador de empréstimo deve devolver o dinheiro no momento em que o emprestador requere.

    Posso estar errado, mas não consigo enxergar propriedade simultânea de um mesmo bem em nenhum momento. Abraços

  9. Roberto Carlos Todorovski

    Prezado Sidney,

    Tenho dúvidas quanto a dois pontos:

    1. Como saber qual a fração ideal para compor a reserva de um banco considerando que o comportamento humano não pode ser enquadrada em fórmulas matemáticas de grande precisão? Em um mercado bancário sem banco central, 5% de demanda monetária a mais daquela prevista e disponível no encaixe bancário pode quebrar uma instituição financeira.

    2. Diz-se que o período dos depósitos captados pelos bancos devem casar com o tempo demandado para o término dos projetos de investimento para que os mesmos não sejam interrompidos antes de sua conclusão. No entanto, a grande maioria dos projetos de investimento chegam ao final e as dívidas contraídas para sua execução permanecem em ser anos após seus términos. Como isso é tratado pela teoria econômica austríaca?

  10. O que me deixa ouriçado com isso tudo é o fato de que com reservas fracionárias, ainda assim alguém acaba levando uma melhor em cima de mim sem minha permissão. Me explico comparando duas situações:
    Sr. Pacheco poupou durante a vida e agora desfruta sua aposentadoria sacando o dinheiro de sua conta-corrente. Lá há 1000 onças.
    Após um aumento da demanda por encaixe:
    -Os banco não criam reservas: haverá deflação e o sr. Pacheco ficará mais rico, e poderá usufruir melhor de sua aposentadoria.
    -Os bancos criam reservas na exata proporção que você aponta: não há deflação, e nosso sujeito não enriquece. Se ele desejar mais reservas (a demanda de todos na sociedade aumentou, segundo nosso modelo) ele terá de cortar o consumo, conservando o encaixe. Quem então utilizará essa deflação que não ocorreu? O banco e seus clientes favoritos, que receberão algo a custo zero para eles.
    Assim, há transferência de riqueza real para o banco que realiza reservas fracionárias.
    Os salários tenderão a aumentar em decorrência do aumento de produtividade. No primeiro caso, os salários diminuiriam menos em relação à diminuição nos preços das coisas, pois também houve aumento da produtividade (considerando que aquela pouponça foi invertida). Pode-se considerar que, de um ponto de vista utilitário, as maiores inversões produzidas pela coutilização de reservas são desejáveis. Mas eu entendo que de um ponto de vista ético, aqueles que foram prudentes e pouparam é que devem receber os benefícios da poupança, não aqueles que sabem melhor contabilidade bancária.
    Espero ter conseguido me expressar de forma eficiente.

  11. Minha opinião é simples, acredito que no livre mercado qualquer crise na região que ocasionasse uma certa corrida aos bancos, os bancos com reserva fracionada quebrariam, ou na melhor das hipóteses fariam dívidas impagáveis para honrar os contratos.. Não há como fazer previsão de como o mercado funcionará.

  12. Fico contente de ver um texto pró reservas fracionárias no IMB.

    Mas acho que não entendi muito bem o que o autor quis explicar com a primeira parte do texto. Todos aqueles parágrafos foram apenas para explicar que um multiplicador constante não altera as taxas de crescimento? (que se todos os bancos mantiverem o mesmo percentual em reservas, um aumento de 10% no M0 provocará um aumento de exatos 10% no M1).
    Acho que não foi isso que o autor quis dizer, porque não precisaria de tantas palavras pra algo óbvio, e também porque acho que todos os “rothbardianos” entendem isso. O problema é que para que existam reservas fracionárias, em algum momento a porcentagem de reservas teve que diminuir, e nesse momento há inflação monetária sem criação de moeda primária.

    O que me parece mais lógico é que a intenção foi dizer que, mesmo que a porcentagem em reserva diminua, bastaria que ela diminuísse numa taxa que não provocasse aumento de preços, que isso não provocaria ciclos econômicos. É isso?
    Eu sempre imaginei que qualquer nível inflação monetária dirigida inteiramente a empréstimos provocaria algum nível proporcional de malinvestments – mesmo num cenário de queda (“deflação”) de preços. Estou enganado?

    Abraços,
    Tiago.

  13. Tiago,\r
    \r
    Não sei até onde exatamente vc considera “primeiros parágrafos”, mas a intenção foi somente expor a posição rothbardiana em relação a reserva fracionada, o porque delas gerarem ciclos, a questão da implicação do uso simultânea de uma determina poupança (fulano q depositou usa o dinheiro, fulano q recebeu o empréstimo do banco usa o dinheiro como se existisse mais poupança do que realmente existe). É essa questão dos dois se comportarem como se existisse o “dobro” da poupança que realmente existe que gerará o ciclo. A posição obviamente é clara para os rothbardians (afinal é a posição deles), mas nem todos os leitores do texto são rothbardians e alguns podem nem ser (ou conhecer direito os) austríacos. \r
    \r
    Depois eu tento mostrar q essa interpretação (rothbardiana) está equivocada, mas não tem nada lá diretamente sobre “multiplicador constante” implicar em não alterar taxas de crescimento.\r
    \r
    Quanto à pergunta, depende do que você está chamando de “inflação”. Se é no sentido austríaco (inflação = expansão monetária), esse é exatamente o tema do texto. Eu e o pessoal pró-reserva fracionada argumentamos que não, que expansões monetárias que casam com aumentos de demanda por moeda não são ciclicas, pq a opção por carregar os saldos do banco como moeda (o que possibilita a ele expandir monetariamente) implica em abrir mão de bens produzidos, não existindo o descasamento entre investimento e poupança alegado pelos rothbardians. \r
    \r
    Abs

  14. Eu gosto de ver as coisas de uma maneira simples.
    Os bancos emprestam dinheiro que não tem, e enganam a população, logo isso está errado.

    Simples assim.

  15. Excelente artigo. Eu sou simpático a reservas fracionárias em um sistema de free banking pois a alternativa seria um decreto governamental proibindo a prática, que por sinal não é mais que uma troca voluntária.

    No entanto, ficou parecendo para o leitor não atento que o Sidney concluiu que RFs não geram ciclos, mas na verdade ele próprio afirma que RFs geram ciclos SE não forem reflexo de um aumento por demanda por dinheiro. Ainda que eu não tenha chegado à conclusão sobre esse segundo caso, me parece que o que os bancos corriqueiramente fazem é criar moeda independente de alterações na demanda por dinheiro.

    Imaginando um caso de free banking, onde um banco é aberto com 100% de reservas (por definição), este teria grande incentivo a diminuir reservas e criar dinheiro, pois os ganhos esperados parecem ser maiores que o risco adicional de corrida de resgates. Pronto: estará detonado o processo de ciclos. No entanto, quando alcançar o equilíbrio do trade-off, me parece que novas criações de dinheiro só se darão por aumento de demanda por moeda (assim entendo, mas será mesmo?). Se for esse o caso, e se aumentos de dinheiro derivados de aumento por demanda por dinheiro realmente não detonarem ciclos, então o Sidney estará correto.

    Finalmente, a instabilidade do sistema de RFs pressupõe um risco de corridas bancárias que podem provocar (e provocam mesmo) abruptas quedas na quantidade de dinheiro do istema, em uma dimensão que me parece muito maior que uma mera mudança na demanda por dinheiro sugeriria. Passado o susto e sobrevivendo os bancos mais solventes, haveria um abrupto aumento na quantidade de dinheiro do sistema. Ora, o que seria isso senão ciclos?

    Aguardo os sábios comentários do Sidney!

  16. Helio,\r
    \r
    A “alternativa seria um decreto governamental proibindo a prática, que por sinal não é mais que uma troca voluntária”? \r
    Mesmo em uma sociedade de leis privadas, a lei que coibisse fraude englobaria o sistema bancário e as RFs se enquadrariam neste delito. E um sistema de RF não é uma troca voluntária, é uma troca impossível, pois um depositante e um prestatário jamais poderão utilizar o mesmo bem simultaneamente. \r
    \r
    Sidney,\r
    \r
    RF não deve ser aceita como legal simplesmente por ser um “fenômeno do mercado”. Fraude surgiu no mercado, assim como diversas outras práticas condenáveis. \r
    \r
    E o exemplo do Gmail não pode ser usado como analogia ao sistema de RF. Primeiro, os programadores do Google conseguem estimar com razoável segurança, devido aos comportamentos passados de seus usuários quanto de espaço se utiliza e até mesmo manter uma margem de segurança para caso haja alguns picos de usos durante o ano. A chamada regra dos grandes números. No entanto, sabemos que isso não se aplica ao caso de depositantes do sistema bancário, pois o próprio sistema de RF pode gerar ciclos, desconfiança e a eventual corrida bancária. Não se pode “estimar” o dia que isto ocorrerá e os bancos acabarão insolventes. A não ser que ocorra como nos últimos séculos em que os governos concederam privilégios para que estes seguissem operando mesmo não honrando seus compromissos.\r
    \r
    Existe algo similar no mundo virtual? Com a utilização de espaço de armazenamento de email? Prometer 2Gb de espaço geraria uma “corrida a maior utilização de espaço” causando um crash do sistema em questão de dias? É uma comparação sem sentido. Um depositante não consegue retirar o seu depósito em uma corrida bancária. Um usuário do Gmail não conseguiria utilizar mais espaço conforme prometido em um eventual crash do sistema. São problemas completamente distintos. O primeiro problema é de não honrar a custódia “perdendo-se o bem depositado” e o outro é um problema de não honrar um contrato de maior capacidade de custódia e não de ser incapaz de devolver o que ali já está “custodiado” (emails, arquivos, etc.).\r

  17. O pessoal da teoria do equilíbrio monetário ainda não respondeu a questão dos efeitos das reservas fracionárias sobre os preços relativos na economia…

    Honestamente, acho a teoria do “monetary equilibrium” uma teoria macroeconômica (só fala sobre o místico nível geral de preços) e extremamente ingênua… É mais uma das milhares de teorias que pregam que a quantidade de moeda na economia importa e que existe uma determinada quantidade “ótima” para “rodar” as transações sem “distorções de preço”. Nada que um Keynesiano não defenderia.

  18. Por sinal Sidney, o debate parece ter sido revigorado por Bagus e Howden. Sugiro a leitura da recente treplica deles a Selgin, caso nao o tenha feito.

    libertarianpapers.org/2011/18-bagus-howden-unanswered-quibbles-with-fractional-reserve-free-banking/

  19. Olá Sidney,\r
    \r
    Muito interessante seu texto e gostaria de contribuir com a discussão.\r
    Acabei de ler também o seu outro texto compleentar no blog e quero lhe fazer uma pergunta.\r
    Dado que o banco afirma que realizará a conversão de 1 para 1 do saldo em conta corrente para a moeda primária, mas não determina como fará isso, minha dúvida é:\r
    Como você (como correntista) assinou um contrato onde o banco lhe afirmou que realizaria a conversão citada acima, caso, numa dada situação, o banco não fosse capaz de horar tal compromisso ele estaria descumprindo o contrato correto? Portanto, ele teria cometido uma fraude.\r
    \r
    Digo isso pois em situações de corrida bancária (mesmo que não generalizada) o banco poderá não ser capaz de honrar todos seus compromissos e, portanto, esse é ponto que discordo de você.\r
    Por um lado, quando eu deposito meu dinheiro, ele poderá fazer o que quiser com ele, contudo, quando eu quiser sacá-lo ele precisará prover tal liquidez ou estará cometendo uma fraude, concorda?\r
    \r
    Aguardo um retorno para podermos evoluir tal discussão.\r
    \r
    Abs

  20. Sidney,

    Se esse vendedor de bananas administrar um armazém de bananas e eu contratar o serviço dele de armazenagem, e ele não tiver a quantidade de bananas que prometeu a mim e aos seus outros clientes, vou considera-lo um fraudador e ser contra ele vender bananas. Como as bananas que ele vende são todas iguais, eu não me importo de ele não separar exatamente aquelas que são minhas, logo não me incomodo de ele guardar todo o seu estoque junto, sem separação por cliente. Mas ele tem que tem TODAS as bananas que promete! Se, por outro lado, ele fechou comigo um contrato de fornecimento semanal e por algum motivo não consegue entregar, eu posso ser prejudicado, até eventualmente processa-lo por perdas e danos, mas ele não cometeu fraude nesse caso.

  21. Sidney,

    Permita-me pedir sua opinião sobre o seguinte fato:
    Imagine que a corretora de valores com a qual você realiza seus investimentos em ações, percebe que uma certa proporção de ações mais líquidas (por exemplo, Petrobras e Vale) sempre se mantêm na sua custódia de clientes. Para incrementar seu lucro, ela decide vender uma parte dessas ações para emprestar para outros clientes comprarem essas mesmas ações. No final, seus clientes terão direito a uma quantidade maior de ações do que aquela que a corretora possui em sua custódia. Você acredita que a corretora agiu de maneira ilegal? Se todas as corretoras tivessem essa prática, não haveria consequência danosas para o mercado de ações? Se você fosse um certificador privado das corretoras, não recomendaria que essa prática fosse proibida?

  22. Edik,\r
    \r
    Se a corretora agiu de forma ilegal ou não depende o tipo de contrato que ela fez com seus clientes. Teoricamente ela, poderia, por exemplo, emitir certificados ou “vale ações” e caso conquistasse a confiança dos seus clientes (resgatando de acordo com o prometido), fazer o procedimento que vc afirma com alguma lucratividade (como os bancos no caso de RF). Mas, novamente, isso dependeria do tipo de contrato com os clientes. Se eu fosse um “certificador privado”, pouco importa se eu recomendaria ou não a corretora (mas não, eu não recomendaria a ilegalidade. As partes podem fechar o contrato que acharem melhor com suas propriedades).\r
    \r
    E não acho que traria consequências “danosas” para o mercado. Se vc prestar atenção algo parecido já acontece nos mercados de ações mesmo. Opções, por exemplo, são uma espécie de promessas em cima de outro ativo que, pode ser ações (eu compro uma opção e posso exerce-la ou não e o emissor da opção tem que ser capaz de cumprir com o acordo). Sendo mais especifico, eu compro uma opção de compra de ações da empresa Y com preço de exercicio (strike) de R$X a ser exercida daqui 10 dias. Qdo passar os 10 dias, suponha que eu queira exercer, ou seja, quero minhas ações da empresa Y por R$X. O emissor dessas opções não precisará necessariamente manter essas ações da empresa Y na sua carteira o tempo inteiro, ele pode vender a descoberto (vender as opções sem ter a ação objeto da opção). Algumas bolsas, por questão de risco, proibem isso. É uma opção da bolsa (que é uma entidade privada). Agora, vc acha que deve ser ilegal vender opções a descoberto? De forma nenhuma, o ato de venda não viola a propriedade de ninguém. É mais arriscado? É, mas isso vai das partes aceitar ou não. Ainda p/ completar, em tese, tem opções “americanas”, que significam que o direito de exercer essa opção é continuo (pode ser feito a qualquer momento), sem uma data fixada. Seria proibido vender isso a descoberto? Obviamente não. \r
    \r
    O fato de algo ser arriscado, de algo poder gerar perdas, não significa que deve ser proibido (nem é o caso de reservas fracionadas, que é bastante segura e sem risco consideravel). Se as pessoas desejam fazer um acordo arriscado, é um direito delas independentemente se eu ou você fariamos. E se isso afeta preços que você se importa, tbm não é direito seu proibir o negócio por isso. Você não tem propriedade sobre preços. \r
    \r
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  23. Sinto muito, mas este texto não fez sentido.

    Ele fala de dois modos de operar RF, uma inflacionário e outra não.
    Mas o modo não inflacionário me parece ser apenas uma poupança que não tem juros. O cara deixa o dinheiro parado, e aceita o banco utiliza-lo. No segundo modo, que é o modo operandis atual, o cara não aceita, usa, e mesmo assim o banco empresta.

    Melhor resposta até agora foi dada pelo Professor Huerta.
    E os romanos também sabiam que isso era crime.

  24. Desculpem eu reviver este artigo do tempo do EPA, mas tenho alguns questionamentos.

    Estou lendo pelo celular, não li todos os comentários, então peço desculpas se estou sendo repetitivo.

    A maior questão que veio à minha cabeça é a seguinte:

    Sendo a moeda fundamentalmente um meio de troca, por que eu aumentaria minha demanda por ela se meu intuito não fosse gastá-la (investir ou consumir)?

    Fica a pergunta porque o cenário da “expansão do crédito não inflacionária” me parece pouco provável.

    Do ponto de vista funcional, esse cenário é idêntico ao funcionamento do sistema sem reservas fracionárias: houve abstenção do consumo em favor da poupança. E, como há de ser em condições normais, poupança=investimento.

    Ou seja, eu adquiro um título do banco XPTO que possui liquidez diária. Posso usar esse dinheiro a qualquer momento, mas, por alguma razão, mantenho os encaixes voluntariamente.

    O grande problema aqui é a contabilidade: existe um descompasso entre a maturação dos ativos e dos passivos daquele banco. Embora possua passivos exigíveis de curtíssimo prazo, os ativos (empréstimos) são de prazo maior.

    Se eu, por alguma razão, resolver sacar o dinheiro, não existe mais o lastro para o empréstimo. Se isso ocorrer de maneira sistêmica, como no caso de uma eventual catástrofe natural ou ataque terrorista, uma corrida bancária faz com que esse sistema imoloda.

    Ou seja, não existe uma forma de garantir essa expansão “não inflacionária” do crédito por:
    1. Eu só aumento a minha demanda por moeda se precisar gastá-la.
    2. Mesmo que eu deixe o dinheiro parado no banco, em qualquer “emergência” eu não hesitarei em utilizá-lo. Isso feito em ampla escala transforma a expansão do crédito atual em inflacionária.

    Logo, esse sistema proposto é inerentemente instável por conta das reservas fracionárias

  25. De qualquer forma, não se pode dizer que o sistema de RF é inofensivo.

    O sistema de RF talvez fosse aceitável se feito por bancos individualmente, com a ciência de seus clientes (que poderiam optar não correr o risco e escolher outro banco) e se não fosse uma prática institucionalizada e assegurada pelo Banco Central.

    * * *

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