Nessas
eleições, houve um dado bastante curioso, e que obviamente passará despercebido
de toda a mídia: o número de votos brancos e nulos para presidente chegou “perigosamente”
perto dos 10 milhões (9,6 milhões). Em 2006,
esse valor havia sido de 6,8 milhões no segundo turno, quando as opções eram menores que no primeiro turno.
Considerando-se
que havia partidos de absolutamente todos os espectros ideológicos à esquerda
do centro, a única conclusão possível é a de que há, no mínimo, 10 milhões de
pessoas órfãs de um partido político que defenda uma ideologia que as
represente.
Como
a única ideologia ausente foi a ideologia liberal-clássica, é justamente esse
partido que está em falta.
Não
consigo enxergar qualquer outra explicação lógica para o fato de 10 milhões de
pessoas votarem branco e nulo para presidente numa eleição em que há partidos
de esquerda de todos os tipos e para todos os gostos (PT, PSDB, PV, PSOL, PSDC,
PSTU, PCB e PCO).
Mais
ainda: considerando-se que uma parcela significativa dos eleitores do PV, PSDB,
DEM e até mesmo do PMDB votam nesses partidos por mera falta de uma opção mais
liberal, estamos lidando aí com um universo que pode chegar a 20 milhões de
eleitores órfãos de representatividade política.
Um
partido liberal bem organizado e com discurso em favor da propriedade, da
liberdade econômica e do porte de armas (como bem mostrou o referendum de 2005)
capturaria fácil esses eleitores.
Bom ponto. É inacreditável um país de dimensões continentais como o Brasil, com uma ampla variedade de pessoas, não ter essa mesma variedade política. Aqui é tudo igual. Até na França tem um partido libertário. Na Itália também. E na Alemanha eles já governam em coalizão com os conservadores.
Leandro,
num país onde a esquerda domina desde a conversa fiada do boteco da esquina até o debate acadêmico e as decisões políticas, um partido se acovardou mudando o próprio nome para evitar qualquer ligação com o pensamento liberal, você acredita que esses 20 milhões viriam facilmente adotar uma postura não conservadora e conquistar algum espaço relevante no cenário político?
Porque o que a gente observa nos Estados Unidos é até preocupante, o fato do Ron Paul e Bob Barr serem considerados “nanicos” e no entanto, defenderem causas nobres.
Você acha que o efeito surtido aqui de um partido de orientação liberal-clássica seria maior que nos EUA?
Grande abraço.
Angelo, sobre Ron Paul e os EUA, é preciso levar em conta algumas particularidades. O Partido Republicano boicota seguidamente Ron Paul por causa de sua inflexível postura anti-guerra e anti-Fed, o que fere inúmeros interesses corporativistas dos tradicionais apoiadores do partido.
Ele também não pode simplesmente ir para o Partido Libertário, pois a democracia americana é bastante peculiar: é extremamente difícil você fazer com que seu nome esteja nas cédulas de todos os estados do país. Apenas os partidos republicanos e democratas desfrutam esse privilégio. Ou seja, migrar para outro partido tornaria matematicamente impossível qualquer chance de vitória.
Por fim, uma pesquisa de abril deste ano para a eleição presidencial americana de 2012, feita em nível nacional pela Rasmussen – o mais conceituado instituto de pesquisa de opinião americano -, trouxe o seguinte resultado:
Barack Obama – 42%
Ron Paul – 41%
Outro – 11%
Indecisos – 6%
Considerando-se apenas os eleitores independentes – aqueles que não são filiados a nenhum partido -, o placar era ainda mais animador:
Ron Paul – 47%
Barack Obama – 28%
A margem de erro é de 3 pontos percentuais.
http://www.rasmussenreports.com/public_content/politics/elections/election_2012/election_2012_barack_obama_42_ron_paul_41
Ou seja, tem, sim, muita demanda. Falta apenas espaço político.
Leandro,
Considerando sua hipótese, seria o nordeste a região mais liberal do país?
eleicoes.uol.com.br/2010/raio-x/votos-invalidos/
Pode ser, por que não?
Sei que você está querendo inferir que o pessoal ali é mais, digamos assim, “atrapalhado”, e acabou errando na hora de votar. Ok, direito seu.
Mas será que todos se “atrapalharam” assim? Veja que se você analisar a porcentagem de votos em branco, a porcentagem é praticamente a mesma para todo o Brasil.
Porém, jogando o seu jogo, posso perguntar: E se excluíssemos aqueles que de fato erraram ao digitar, será que o número total cairia de 10 milhões para menos de 7 milhões, número do segundo turno de 2006?
Ou eu poderia ir até mais além: quantas pessoas estavam com a intenção de votar nulo mas acabaram por infeliz coincidência digitando um número que de fato era de algum candidato — dando assim seu voto para quem não queriam?
Nesse caso, o número de votos nulos era pra ser ainda maior.
Podemos fazer várias elucubrações.
Foi justamente essa minha justificativa para votar nulo ontem. Dar meu voto para qualquer um dos candidatos seria apoiar suas idéias, o que não trará mudança alguma no futuro. Só acho que os votos nulos em branco deveriam contar no total dos votos válidos, para evitar de “ajudar” algum candidato.
Ei, esqueceu de somar aí as abstenções. Eu nem saí de casa ontem por que só tinha socialista pra votar.
Não creio que as abstenções diminuiriam substancialmente se houvesse um partido liberal. Ao contrário! Políticos são o espécime com melhor faro – sempre cheiram o que o eleitorado quer, e fazem o discurso que se que ouvir. Se houvesse demanda por políticos liberais, choveriam liberais de discurso para nos governarem.\r
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Os que votaram branco e nulo estão provavelmente protestando contra a classe política como um todo, contra a obrigatoriedade do voto, ou simplesmente não dão importância alguma ao voto (ou outra causa de natureza correlata).\r
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Discordo pontualmente do raciocínio, Helio. De fato, políticos são o espécime com melhor faro – mas eles empre cheiram o que a maioria do eleitorado quer, e fazem o discurso que a maioria quer ouvir.
Como políticas liberais claramente não são uma demanda da maioria, então não faz sentido para políticos se aventurarem nesse campo, pois as perdas poderiam ser maiores que os ganhos.
A título de comparação, o liberalismo (no caso, a desburocratização, o fim da inflação e desestatizações) era uma demanda em 1989, e Collor elegeu-se justamente com esse discurso (sua entrevista nas páginas amarelas da VEJA ainda antes do segundo turno era quase reaganiana). Ademais, naquela eleição, havia mais três candidatos com discurso liberal.
Com o tempo, após sucessivas e muito bem sucedidas propagandas desconstrucionistas e caluniosas feitas pela esquerda, tal discurso saiu de moda, chegando ao ponto de hoje assustar qualquer um.
(A notícia boa é que o discurso comunista caiu ainda mais em desuso. Em 2006, o PSOL teve 6,5 milhões de votos. Agora, não chegou a 900 mil).
Leandro, não concordo que um político só consiga cheirar o que a maioria quer. Um político incremental (olha Menger aí!) sempre pensa em como será eleito. Se houver muita oferta de candidatos para preencher a demanda esquerdista, surgirão candidatos liberais para atender uma eventual demanda liberal, sempre.\r
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Portanto, faz todo sentido para o político incremental se aventurar na seara liberal, se isso for demandado e se for o necessário para ser eleito, e poder exercer o poder.
Minha cota de tempo e esforço para discussão sobre meandros da política neste ano foi esgotada com os posts deste artigo. Podemos continuar no ano que vem… 🙂
Abstenção: 24.610.296 (18,12%)
Brancos: 3.479.340 (3,13%)
Nulos: 6.124.254 (5,51%)
Total: 34.213.890
Fonte: TSE
Li em alguns cantos que a situação ganhou largamente a maioria no parlamento.
Se isso for verdade, acho que agora temos uma boa razão para “torcer” pelo Serra (não que isso faça diferença, mas enfim)
Um executivo com minoria no congresso não consegue fazer muita coisa. E, dentre as alternativas existentes, um governo travado é sem dúvida a melhor.
Tudo bem que se o Serra ganhar a chance do PMDB virar casaca é alta, tudo em nome da “governabilidade”…
Que o Libertários – LIBER seja o partido liberal que preencha este espsço político no cenário nacional.
Aqui no mises.org.br vemos sempre noticias sobre a bolha de crédito no Brasil, o que assusta muitos como eu.\r
Não seria melhor torcer pela Dilma mesmo? Se a bomba explodir na mão do PT, pode ser o fim do partido.\r
O Serra tem a fama de neoliberal, se extourar na mão dele ninguem mais vai dar ouvidos pro liberalismo, ainda que a gente saiba que Serra é oposto ao liberalismo.
Falou tudo Zeh! Se a casa vai cair, que caia sob a cabeça do inimigo!
O número de abstenções está muito alto. Fica bem difícil para o cidadão se submeter a um monte de filas para transferir títulos, se dirigir à seção eleitoral, para digitar um monte de números. Não é um esforço pequeno.
Nos estados mais ricos a abstenção fica em uns 15%, e nos mais pobres em 20%, porque a falta de uma condução pesa muito nessa hora. Há um número enorme de eleitores fora de seu reduto eleitoral.
Tenho um palpite que por causa disso e por causa do efeito Tiririca, vamos ver mudanças no voto obrigatório, simplificações para o voto em trânsito, e talvez novas regras de quociente eleitoral. Os políticos não são bobos e sabem que estas coisas ameaçam o sistema político.
Um partido seria parte de um movimento pro libertarismo
Basta seguir o script do PT que antes não conseguia nem eleger vereador.
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Qual a diferença do PT e de outros partidos, a ideologia a militancia realmente agredita no seus ideias, logicamente são idiotas uteis.
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Hoje ninguem conhece nada sobre libertarismo ,eu disse ninguem e sem exagero.Libertarismo não e so no ambito economico e um movimento politico filosofico social muda ate a cultura do pais.
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“Não podemos lutar contra o coletivismo, a menos que lutemos contra sua base moral: altruísmo. Não podemos lutar contra o altruísmo, a menos que lutemos contra sua base epistemológica: irracionalismo. Não podemos lutar contra nada – a menos que lutemos por alguma coisa: e aquilo pelo que devemos lutar é a supremacia da razão, e uma visão do homem como ser racional”Ayn Rand
O que não tem é um partido que as pessoas acreditem ser realmente honesto.Não necessariamente liberal.
Infelizmente.
Norberto,
Não sei quanto a você, mas eu acredito na honestidade do pessoal do PCO, e mesmo do Tiririca.
Sei que estou um tanto atrasado (o ultimo comentário é de 23/10). É a primeira vez que visito o site e acho a discussão muito interessante, por isso vou me arriscar um pouco aqui.
– O PL era a minha grande esperança, penso que não há maneira melhor de se instalar a democracia que não atraves do liberalismo. Fui e continuarei sendo um admirador do Afif;
– é minha opinião que a chave, a medida que tem a capacidade de dar inicio a uma democracia efetiva E PERMANENTE, no Brasil passa pela reforma política, mas reforma política não tem nada a ver com o que se discute atualmente (voto distrital/listas, financiamentos de campanha). A reforma política que precisamos é a CORRIJA as estruturas partidárias, porque os partidos não são mais que associações de eleitores com a capacidade de INTERMEDIAR o processo representativo previsto no artigo 1° da Constituição. Infelizmente ainda não temos no Brasil alguma maneira de COBRAR dos politicos eleitos a responsabilidade pela representação que é a razão de terem sido eleitos;
= depois, todos os cargos políticos são estaduais, de vereador a senador. Apenas a presidência da república é nacional, então qual é a razão de os partidos políticos (art. 16 da CF) terem obrigatoriamente caráter nacional ? Qual é a razão de a participação dos partidos no fundo partidario ser proporcional ao numero de votos e não ao número de filiados ? qual é o sentido de haver partidos e estes não serem obrigados a, antes de apresentar projetos, ter a aprovação dos filiados ?
– depois, antes de se REINSTALAR (?) a FEDERAÇÃO no Brasil (uma nação constituida de grupos sociais marcados por enormes desigualdades), não será possível estimular, nos cidadãos, a percepção da importância da participação política nos resultados cotidianos.
Denise Frossard disse outro dia que “a escada se lava de cima pra baixo” mas eu me permito lembrar que, esta mesma escada, se constroi de baixo pra cima. O sistema político brasileiro é hoje uma pirâmide invertida, de cabeça pra baixo, e assim está sempre em equilíbrio precário. A reestabilização depende da estruturação mais adequada dos partidos.
Quem topa montar o novo partido?
Acho besteira você abdicar do direito de votar, um candidato ganhará de qualquer forma, o mais inteligente seria votarmos no que fosse mais livre-mercado ( eu sei, no Brasil o mais livre-mercado é praticamente um social-democrata ). De qualquer forma, melhor que deixar o PT ganhar.\r
Infelizmente a maioria da população vota por falta de conhecimento.\r
Enfim, é melhor você escolher o menor dos males do que deixar de votar, talvez por ver isso como um gesto anarcocapitalista. Que pena, outra utopia.
Leandro, você considerou o número de Testemunhas de Jeová no Brasil? Segundo o relatório 2011 deles, eles são em 733.475 no Brasil, e apresentaram taxa de crescimento de 2% nos últimos anos…e praticamente TODOS eles anulam o voto.
Se esse número for de “batizados” e considerando que eles pensam um bocado antes de se batizar, temos que o número de pessoas adeptas aos seus ensinamentos pode ser bem maior…o que pode ter um certo impacto nesses votos nulos/brancos.
Mas claro, to só especulando. Certamente essa tendência de votos nulos/brancos é proporcional ao perfil dos candidatos. Mas acredito sim que uma parte relativa desses votos é por causa dos Testemunhas de Jeová; imagino entre 500mil e 1 milhão…
@Leandro Couto;
Reparou que o aumento dos votos nulos/brancos é proporcional à “esquerdoatividade” dos canditatos?
A Esquerda foi sempre aos poucos levando as eleições para a esquerda; primeiro, Centrista X Centro-Esquerda X, depois Centro-Esquerda X Moderado, depois Moderado X Radical…conforme o povo vai se acostumando, até chegar ao ponto em que escolheremos entre Fidel ou Stálin.
Na Facamp, onde estudo, o pessoal da economia acha que Keynes é de EXTREMA DIREITA!!! Dá pra acreditar? É isso que a esquerda faz: os alunos do curso de economia tido como “2 melhor do Brasil” com um conceito totalmente deformado, porque a esquerda sempre apresentou seus candidatos menos esquerdistas como “extrema direita”, como faz com o PSDB.
E o povao foi se acostumando…
Viva!!! Já tinha comemorado na época e volto a comemorar. Abstenção já. Espero que possomos bater um novo record a cada eleição.
“São impressionantes os números que traduzem a opção preferencial de boa parte do eleitorado pelo silêncio diante das urnas municipais: 25% dos brasileiros e 30% dos paulistanos anularam, deixaram o voto em branco ou simplesmente se abstiveram.
Somados, são 35 milhões de eleitores voluntariamente apartados do processo de escolha. Em São Paulo foram 2,4 milhões e ultrapassaram a votação dos dois primeiros colocados: José Serra (1,8 milhão) e Fernando Haddad (1,7 milhão).
(…) Na prática, vota quem quer. A obrigatoriedade só serve para dar mais trabalho a quem não quer. Contudo, fosse o voto facultativo, a ausência não seria ainda maior?
Provavelmente.”
Dora Kramer – 12 de outubro de 2012
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,abandono-em-massa-,944470,0.htm
Sei que já faz um tempo, mas gostaria apenas de acrescentar algo: vejam só a situação, muitos comentários falam sobre o Afif, mas a verdade é que ele é atualmente parte do governo federal do PT e estadual do PSDB, pode ser que se tivesse sido eleito para senador, estaria atualmente fazendo acordo para aumentar o Estado…
Afinal de contas o que ele tem feito para diminuir o Estado?
Obrigado.