Algumas
vezes você começa a ler um livro e não consegue parar. Há também aquelas vezes em que, assim que
você interrompe a leitura, você jamais se sente estimulado a retomá-la. Algo similar aconteceu comigo quando um de
meus alunos me emprestou um livro escrito pelo professor Yasheng Huang intitulado Capitalism
with Chinese Characteristics: Entrepreneurship and the State (Capitalismo com Características Chinesas:
Empreendedorismo e o Estado). Sempre
que tinha de interromper a leitura desse livro, ficava com medo de
retomá-la. Não porque o livro não fosse
bom, muito pelo contrário; mas sim por causa da exaustiva pesquisa e de todos
os detalhes empíricos contidos nele.
Certamente
o livro não é daqueles para se ler na cama, antes de dormir.
Contudo,
fiquei contente com essa minha perseverança, pois algumas coisas nas quais eu
sempre acreditei sobre o desenvolvimento da China foram agora revisadas e
corrigidas.
Por
exemplo, quão “rápido” foi esse desenvolvimento? Bem, veja isso:
Na
semana passada o governo chinês divulgou os números das exportações do país em
2009.
“Os números sugerem que a China
irá ultrapassar o total de exportações da Alemanha para o ano de 2009”. BBC. (Os
números da Alemanha só serão publicados em fevereiro).
Algo
que fará do país o maior exportador do mundo.
Longe de gerar elogios para o país, tal façanha irá inevitavelmente
incitar novas reivindicações para que a China aprecie sua moeda.
“Liderados pelos EUA, [os
concorrentes comerciais da China] dizem ser injusto a China ter conseguido
baratear seus bens por meio de uma desvalorização do Yuan. Porém o primeiro-ministro Wen Jiabao já disse
que a China “não vai se curvar” às demandas externas para valorizar sua moeda”.
Porque
“Pequim já deixou claro há muito
tempo que só vai permitir que o yuan flutue livremente quando sua economia
doméstica estiver forte o bastante para compensar qualquer declínio nas
exportações”. BBC.
Portanto,
quando será que isso irá acontecer?
Resposta: Não nos próximos anos.
O
grande mérito do livro do professor Huang é que ele investiga e delineia a
evolução gradual do superávit comercial da China e desmonta alguns mitos pelo
caminho.
Um
desses grandes mitos é o de que a China conseguiu prosperar tendo, de um lado,
um enorme e pesado planejamento central e, de outro, absolutamente nenhum
direito de propriedade — algo que, em si, seria uma impossibilidade, a menos
que a China tivesse descoberto um novo jeito de se fazer as coisas.
Mas
a verdade é que a incrível velocidade da atividade econômica da década de 1980
não teve quase nada a ver com planejamento centralizado — e tudo a ver com
direitos de propriedade.
Em
1958, o sistema agrícola comunal foi imposto pelo governo de Mao Tsé-Tung (ou
Mao Zédong). Para os agricultores e suas
famílias, tal arranjo era o equivalente a pouco mais do que escravidão, só que
sob outro nome. Foi um desastre.
Durante
os 20 anos seguintes, os chineses trabalharam penosamente e sofreram sob esse
sistema impraticável. Até que em 1978,
dois anos após Deng Xiaoping ter assumido a liderança, algo extraordinário
aconteceu.
Visualize
isso:
Uma
comunidade agrícola extremamente pobre em uma pequena aldeia chamada Xiaogang,
na província de Anhui, uma das mais pobres da China. Em finais de 1978, não se sabe ao certo a
data, 18 agricultores empobrecidos se reuniram.
Eles concordaram em fragmentar a terra, ficando cada família com um
determinado pedaço, o qual elas iriam cultivar individualmente. Esses agricultores concordaram em não pedir
grãos e nem dinheiro para o governo.
Eles iriam cumprir as exigências de quotas determinadas pelo governo,
porém iriam audaciosamente ficar com as possíveis sobras para então
vendê-las. Isso era contra a lei.
Temerosos
com o que poderia acontecer às suas famílias, esses agricultores selaram um
acordo entre si: se qualquer um deles fosse apanhado e aprisionado pelo
governo, todos os outros da aldeia iriam cuidar de seus filhos até que eles fizessem
18 anos de idade. O acordo foi firmado
com assinaturas e impressões digitais.
E
foi assim, de acordo com a história, que tudo começou.
No
ano seguinte, a colheita de grãos foi 6 vezes maior do que havia sido em
1978. Eles conseguiram facilmente cumprir
suas quotas, vendendo em seguida todo o excedente — a maioria à beira de
estradas. A renda per capita aumentou em
um fator de 20. O Secretário do Partido
Comunista, Wan Li, que era o responsável pela Província de Anhui à época, ficou
sabendo da ocorrência e acabou aprovando o “experimento”.
A
notícia se espalhou rapidamente para outras comunidades por toda a China. As melhorias na produtividade e na produção
foram tão impressionantes que o experimento acabou sendo oficialmente aprovado
por Deng Xiaoping em 1980. Quatro anos
depois, o sistema comunal já havia desaparecido por completo.
Ao
longo da década de 1980, as rendas per capita no meio rural cresceram a uma
média de 9% ao ano. Esse poder de compra
extra estimulou o surgimento de negócios não-agrícolas. Esses empreendimentos passaram a ser
conhecidos como Iniciativas de Municípios e Aldeias (IMA). Eles foram diligentemente estimulados pelo
governo, que lhes concedeu alíquotas de impostos mais baixas e facilitou a
obtenção de empréstimos. Tendo sido
virtualmente excluídos do sistema assistencialista chinês — que existia pelo
menos em nome –, os camponeses encararam isso como sendo a oportunidade que
tinham para suprir suas necessidades básicas.
E eles agarraram-na com veemência — não aos milhares, mas aos milhões.
Nesse
ponto, fica explícita a inacreditável profundidade da pesquisa feita pelo professor
Huang: ele mergulhou profundamente nos arquivos do Ministério da
Agricultura. Para o ano de 1985 ele
descobriu que, das 12 milhões de IMAs oficialmente reconhecidas, mais de 10
milhões eram propriedade privada, geridas por indivíduos e suas famílias.
Eles
ganharam o direito de ter o próprio negócio, de administrá-lo livremente, de produzir
o que estava sendo demandado, de vender seus produtos para quem quisessem e de manter
os lucros que gerassem.
As
reformas rurais possibilitaram tudo isso, mas foi o surgimento de um livre
mercado em conjunto com a garantia dos direitos de propriedade que fez com que tudo
isso acontecesse.
“Uma produção diversificada, uma
economia baseada em mercadorias, e pequenos empreendimentos de todos os tipos que floresceram rapidamente na zona rural, como se um exército estranho tivesse
repentinamente surgido do nada. Isso não foi uma realização do nosso
governo central.” Deng Xiaoping,
Diário do Povo, 13 de junho de 1987.
(Grifo do autor).
A década de 1980 terminou com o episódio da Praça da Paz Celestial.
(O texto linkado apresenta uma versão
pouco conhecida sobre esse episódio, devidamente escondida pela mídia, que
prefere insistir na versão de que os manifestantes estavam exigindo democracia.
Segundo o autor, os manifestantes não
eram civis demandando mais liberdade, mas sim comunistas da linha dura do
Partido, que estavam protestando contra as reformas capitalistas que vinham
sendo empreendidas por Deng. Os
manifestantes — jovens estudantes — temiam, corretamente, que os empregos a que
foram prometidos no aparato de planejamento central do estado estivessem em
risco. O fato de os
manifestantes estarem cantando o hino da Internacional e agitando fotos de Mao não
deixa dúvidas sobre as reais intenções desse grupo. Vale lembrar também
que o próprio Deng havia sido aprisionado e torturado por membros de seu
próprio partido durante o regime de Mao — membros esses que agora estavam
perdendo o poder –, o que explica sua tendência dissidente).
A propósito, o professor Huang demole outro mito aqui:
“Após o colapso da União Soviética, muitos analistas ocidentais e
chineses chegaram à conclusão de que a China foi poupada do mesmo destino em
1989 porque ela não havia liberalizado seu sistema político. Essa é uma leitura errada da história. A razão por que a China não entrou em colapso
em 1989 pouco tem a ver com a falta de reformas políticas… O verdadeiro motivo
de a China não ter entrado em colapso foi porque a população rural estava razoavelmente
contente… No auge do tumulto que ocorria na Praça da Paz Celestial, Deng, de
acordo com relatos, teria feito os seguintes comentários para os outros líderes
chineses: ‘A economia ainda é a base; se não tivéssemos essa base econômica, os
agricultores já teriam se rebelado após 10 dias de protestos estudantis’.”
O professor Huang diz que sua pesquisa comprova que houve uma mudança
deliberada na política no início dos anos 1990 sob a liderança de Jiang Zemin
e, depois, de Zhu Rongji. A economia sofreu
uma guinada: saiu do meio rural e foi para os centros urbanos. Quando perguntado nesse vídeo sobre o porquê disso
ter acontecido, ele foi honesto o suficiente para dizer que não sabe exatamente o
motivo. Entretanto, o episódio da Praça
da Paz Celestial parece ter sido um fator significativo.
As reformas rurais foram revertidas, assim como o fluxo de liquidez
creditícia; na década de 1980, 30% das famílias rurais tinham acesso a algum
tipo de crédito — na década de 1990, esse número caiu para menos de 10%. Impostos foram elevados, os serviços de saúde
encareceram e as taxas de educação aumentaram.
Essas políticas foram utilizadas para financiar os investimentos do
governo nos centros urbanos. Como resultado,
o aumento per capita nas rendas rurais caiu para menos de 3% ao ano durante a
maior parte da década de 90.
Assim, o rápido crescimento da zona rural ocorrido nos anos 80 estancou no
início dos anos 90.
Entretanto, a economia como um todo continuou a crescer mais de 9% ao
ano. O professor Huang argumenta que
acadêmicos e pesquisadores estrangeiros não conseguiram perceber o que
realmente estava acontecendo simplesmente porque eles se preocupavam apenas em
analisar números do PIB e do Investimento Estrangeiro Direto. A verdade é que, de toda forma, a maioria
deles não poderia fazer mais do que isso.
O problema não era de escassez de material, mas, sim, de
confiabilidade. Todavia, o professor
Huang conseguiu acesso a todos os documentos originais, e os leu com ímpeto
(por exemplo, como parte de sua pesquisa, ele esquadrinhou 22 volumes de
documentos internos de bancos; sim, 22 volumes!)
Os fabricantes chineses foram forçados a exportar seus produtos não
simplesmente porque os consumidores domésticos poupavam em excesso, mas sim, e ainda
mais importante, porque a queda na renda disponível na zona rural fez com que
não houvesse um mercado interno suficiente para absorver toda a produção. Utilizar uma moeda desvalorizada para
promover suas exportações não foi uma estratégia deliberada de desenvolvimento;
o fato é que eles não tinham muita escolha — simplesmente não havia nenhum outro
destino a ser dado à produção interna.
Foi assim que começou o desequilíbrio no comércio global, argumenta o
professor Huang, e que só fez crescer desde então. O que a dupla Bush-Greenspan fez a partir de
2001, com a queda dos juros americanos e a consequente expansão da base
monetária do país, foi exacerbar enormemente um sério problema que já existia.
Quando a recuperação econômica vier, os empregos não virão com ela. Da maneira como as coisas estão, os empregos
só voltarão quando países como a China, em particular, começarem a gastar e
países como os EUA, em particular, começarem a exportar. A China tem de encontrar uma maneira de
regenerar sua economia rural, e os EUA têm de encontrar alguma maneira de
reestruturar drasticamente sua economia.
E “não há opção” — como disse Margaret Thatcher ainda no início da
década de 1980: se você é incapaz de competir em um mercado, então saia dele!
Até que isso aconteça, a única coisa que conseguiremos “garantir” será um
tipo medonho de impasse econômico.
“Todos… concordam que esses desequilíbrios envolvem um excesso de
consumismo e endividamento da parte dos americanos e uma escassez de ambos da
parte dos chineses e de outras nações em desenvolvimento… Assim que eles
começarem a gastar mais de suas rendas neles próprios, esses fundos não mais
estarão disponíveis para os americanos pegarem emprestado. Infelizmente, é nesse ponto que a verdadeira crise econômica vai começar.” (Grifo do autor). Peter Schiff.
Um terrível enigma — para todos nós.
Meus agradecimentos ao professor Huang.
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Para um relato completo e macabro sobre o terror dos anos comunistas da
China, leia A China
comunista e os seus campos de morte
Artigo interessante a bessa! Porém, vale ressaltar que mesmo com a “propriedade” e a iniciativa individual, temos o Estado dando as ordens como por exemplo as metas de produção e depois o próprio Estado destruindo a riqueza dessas propriedades para investimento urbano. Mais uma amostra da “maravilhosa” máquina Estatal.
A inexequibilidade dos projetos socialistas utópicos conduz invariavelmente a versões toscas e autoritárias do velho capitalismo. Ironicamente, 40 anos de comunismo sob Mao produziram o Mundo dos Sonhos de todo grande burguês: um país de mão-de-obra farta, barata. Mas apesar de tudo, os chineses nunca viveram tão bem quanto agora. O que vem a provar que o pior dos capitalismos ainda é superior ao melhor dos socialismos.
Não posso dizer nada o restante da História do texto. Mas dizer que os manifestantes da Praça da Paz Celestial, massacrados em 1989, protestavam contra as reforma liberais, foi um chute para a arquibanda, pois eles queriam mais reformas liberais.
Muito legal esse artigo, hein. Impressiona-me que só tenha recebido 2 comentários (3 com esse).\r
Economia de lado, chamou-me atenção a indicação de um artigo com uma versão alternativa à geralmente aceita sobre o episódio da Praça da Paz Celestial. Muito interessante.
O artigo não explica nada de muito relevante. Porque, afinal, a China cresce a longas taxas e por tanto tempo ? Tá rolando livre mercado lá ?
A liberdade teve e tem muitíssimos heróis anônimos. Sejamos parte deles!
* * *
Fiquei muito, mas muito tempo mesmo, com essa dúvida na cabeça: por que a China se tornou uma fábrica de bilionários. Este artigo não explica exatamente, mas traz muita informação sobre a base econômica atual do país e, implicitamente, ajuda a explicar.
Só acho que este artigo deveria ficar sempre na lista dos Dez Mais. É importante demais pra ficar esquecido.
A China é um bom exemplo de onde o comunismo funcionou: produziu milhões de mortos, fome e loucura. Creio que seria interessante dar continuidade ao presente artigo registrando a realidade da China atual, as cidades fantasmas que lá existem, as milhares de pessoas que moram em guetos em cidades como Xangai e também como a China se tornou o que é graças a investimentos principalmente do Tio Sam. Para completar, e sem querer ser um chato de galocha, talvez ainda caiba uma terceira parte onde poderia ser explorado a ação “imperialista” da China no Mar da China com a construção de ilhas distantes 3 mi quilômetros da costa chinesa mas apenas a 300 km da costa de países vizinhos.
Defendi e votei na primeira candidatura do Lula. Mas, consolidei minha convicção de antipetista com os desdobramentos da operação "lava jato". Fui na adolescência socialista, amadureci social-democrata e me tornei um liberal conservador.
Revi, também, alguns princípios da minha formação de professor. Sou da geração Paulo Freire, "rezamos" o Freire em tudo, ideologicamente e metodologicamente, discursei sua filosofia, pedagogia e didática, durante meus estudos e aulas ministradas. Não podia ser diferente, entrei na faculdade em fins de 1970 e conclui em meados de 1980, foi o período de absoluto estudo dos filósofos e cientistas sociais marxistas. As leituras de textos do próprio Marx, Engels, Nietsche, Sartre, Gramsci, Érich Fromm e tantos outros, além de Paulo Freire, nos encheram de saberes. Sou daqueles que entendem que é necessário reescrever Paulo Freire. Pouco se leu sobre autores do liberalismo. O eco destes ensinamentos se fazia sentir nas igrejas e em todos os eventos sócios-comunitários e forjou a geração que vivemos, eu contribuí para isso em certo grau. Era muito difícil ser mais holístico…
A partir de reflexões nos vários debates e contrapontos na academia tenho feito algumas leituras sobre o Liberalismo conservador, autores como Durkheim, John Look, Adam Smith, Stuart Mill, Miguel Reale e outros, tem ocupado um pouco mais meu tempo. A leitura de textos do “Mises Brasil” tem me dado boas leituras.
Tenho acompanhado atentamente os acontecimentos políticos. Apoio presidente Bolsonaro, penso que ele tem muito boas intenções para colocar o Brasil nos trilhos em relação ao combate da corrupção, tráfico de drogas, violência e a bandidagem. A corrupção é a raiz de todos os males sociais. Penso que o liberalismo, com os devidos ajustes, nem muitas regras do Estado e nem “Laissez Faire”, deve ser o motor da economia brasileira…
Defender politico é dos 17-24, ou seja, alguém que precisa amadurecer intelectualmente. Somos um país de clima ótimo propício para a vida calma e tranquila, sem medo da morte, sem ter que contar com o vizinho para te emprestar uma lenha, sem responsabilidades, nem a vida do próximo. Você até pode nascer no Brasil, mas evoluir é sair fora dele, se quer governo com honestidade razoável, estude, se esforce e vá para algumas das nações gélidas do norte. Do contrário, fique e assista de camarote os animais se matando na arena por um ar condicionado.
Ontem eu vi essa antiga reportagem da Globo sobre os protestos na Praça da Paz Celestial.
Sabendo-se de que esses estudantes realmente estavam pedindo pela reversão reformista econômica, por que hoje o governo chinês, que está mais em linha dura no partido do que nessa época, fica apavorado quando se fala sobre esses protestos? E quanto à morte de Hu Yaobang?
E realmente, ali na reportagem, eles estavam cantando o hino da Internacional Socialista. Vamos falar a verdade, todavia, de que muitos protestos estudantis são pautados por esquerdismo e/ou estatismo (como tivemos aqui no Brasil em 2019 por causa do contingenciamento de gastos no ensino superior).
De qualquer forma, não é justificável atirar em manifestantes.