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Por que o PISA, por si só, é inútil

Publicado no início de dezembro, o resultado do exame PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) de 2018 e as posições (sempre baixas) ocupadas pelo Brasil no referido ranking tornaram-se o principal assunto da grande mídia. 

Independentemente do viés ou da linha editorial de cada jornal, o comentário foi uníssono: “O Brasil precisa investir mais em educação!“. “Precisamos melhorar o resultado, ou para sempre seremos um país subdesenvolvido“.

Não se trata apenas de uma questão  de ingenuidade (acreditar que o estado possa prover educação genuína a algum indivíduo). A situação é bem pior: as afirmações revelam a cosmovisão positivista reinante no Ocidente moderno. 

Com efeito, talvez seja este o pior veneno jamais ministrado à nossa agonizante civilização: a ideia de que é possível se construir uma sociedade organizada, justa e próspera a partir de modelos centralizados de educação que reflitam as convicções de uma elite intelectual iluminada, incumbida do seu dever de “desselvagizar” o homem bruto, inculto e religioso.

A auto-importância que os intelectuais se atribuem

O escândalo causado pelo baixo desempenho dos alunos brasileiros no PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) reflete o mesmo cenário exposto por Nassim Taleb, em seu best-seller “Antifrágil“, no capítulo chamado “Ensinando Pássaros a Voar”. No texto, o autor ilustra a história de um grupo de intelectuais que agrupa um bando de pássaros em salas de aula e lhes ministra palestras sobre aerodinâmica e técnicas de voo. Em seguida, os pássaros são levados a campo e verifica-se que 100% da amostra conseguiu voar. Os resultados então são convertidos em artigos, seminários, livros e cursos de pós-graduação, atestando a efetividade do método acadêmico quanto à didática do voo de aves.

Ao suscitar risos no leitor, o autor então começa a descrever como processos semelhantes ocorrem nas salas de aula das mais renomadas escolas e universidades do mundo, apenas trocando pássaros por humanos. Ele rotula de “epifenômeno” a falsa associação de um evento a outro registrado simultaneamente. Mais especificamente, os acadêmicos acreditam que o bom desempenho dos pássaros se dá exclusivamente por causa das aulas ministradas, e não apesar delas. 

De igual forma, podemos ser levados a crer que a chegada da noite faz surgir estrelas no céu em vez de entender que elas sempre estiveram ali, estando apenas antes ofuscadas pela luz solar.

O epifenômeno educacional é a constante do Ocidente moderno. De alguma forma, aparentemente todos foram levados a crer que o desenvolvimento de uma sociedade possui relação direta com os níveis de educação formal de seus membros. Taleb atribui esta miopia a um problema ao qual ele denominou “A história escrita pelos perdedores”. 

Segundo o autor, os indivíduos mais pujantes em uma sociedade (os mais inteligentes, produtivos, empreendedores, caridosos etc.) estão ocupados demais em sua tarefa de carregar o mundo nas costas, enquanto que aos intelectuais da academia é relegada a tarefa de escrever livros e registros que contarão a história (o que ocorrerá obviamente sob sua ótica, geralmente elitista e soberba).

Como realmente funciona no mundo real

No que tange ao desenvolvimento econômico, o autor passa então a discorrer sobre diversos eventos, tidos como pontos de inflexão na curva de riqueza da sociedade, desvinculando sua origem da teoria originalmente proclamada: a de que a ciência precede a tecnologia. 

Para Taleb, o que ocorre é exatamente o contrário, a tecnologia precede a ciência. E a ciência se serve da tecnologia para seu avanço e sobrevivência.

É intuitivo pensar que a roda veio antes da matemática e da descoberta do pi, como também é intuitivo pensar que as armas, o fogo e o cozimento de alimentos vieram antes da mecânica, da química e da termodinâmica. Contudo, não é intuitivo pensar que os instrumentos que permitem a existência da vida moderna surgiram de forma independente da ciência acadêmica e organizada. É a partir daí que Taleb passa a contar a história de invenções, como a dos motores a jato, da máquina a vapor e da cibernética como movimentos aleatórios não-provocados, ou seja, executados por indivíduos independentes e com pouca ou nenhuma instrução formal, orientados apenas pelas necessidades de seus respectivos contextos cotidianos.

Atenção: não estou aqui dizendo que a pesquisa acadêmica é inútil e que os conhecimentos produzidos em departamentos hierarquizados, tão logo sejam levados por indivíduos produtivos para fora da academia, não podem ser aproveitados no processo de inovação tecnológica.  O que realmente está sendo afirmado é que a pesquisa acadêmica e o nível geral de escolarização formal de uma sociedade não são, sob hipótese alguma, motores do desenvolvimento econômico, mas sim suas consequências

Primeiro uma sociedade enriquece, e só depois passa a permitir que alguns indivíduos possam se dedicar a atividades contemplativas e “desligadas” do mercado produtivo. Esta é a ordem, e não o contrário.

Assim como a máquina a vapor e o motor a jato citados anteriormente, quase tudo o que move o mundo moderno foi primariamente inventado ou economicamente viabilizado à parte da academia. Do refino de petróleo de John Rockefeller à linha de montagem de Henry Ford, da descoberta dos semicondutores ao motor à combustão interna de Otto, do Windows, Mac OS e Linux ao iPhone, a necessidade é que dirige as soluções e a necessidade só pode ser enxergada sob a condição da exigência de mercado — ou seja, no mundo real, fora do ambiente controlado do laboratório.

Os americanos nunca lideraram (e até hoje não desempenham muito bem) os índices educacionais, assim como a China só passou a crescer nesses rankings após a abertura comercial dos anos 1970. O mesmo padrão pode ser visto no Japão, na Coréia do Sul e nos países nórdicos. 

O crescimento nos rankings educacionais só aparece após o crescimento econômico. Isso é algo lógico: é totalmente intuitivo que, quanto mais ricas as famílias, menos será demandada a mão-de-obra das crianças, sendo possível que o jovem seja sustentado por mais anos de carreira escolar/universitária. 

Contudo, é necessário enfatizar que, ainda que os níveis gerais de escolarização cresçam, o impacto de tais “avanços” sobre o desenvolvimento econômico de uma sociedade não será determinante, sendo na maior parte das vezes inócuo e, por significativas vezes, problemático. Haja vista o mal que as escolas de economia e “ciências sociais & humanas” têm trazido para o mundo moderno. 

Tente apenas imaginar como seria a sua vida se não houvesse essa inflação de Ph.D’s nos bancos centrais, quebrando as economias de tempos em tempos. Pense também em todos os males causados pelos “experimentos sociais” promovidos por intelectuais de sociologia-filosofia-e-afins quando a estes é concedido o poder de ditar as chamadas “políticas públicas”. Nestes casos, podemos dizer que a “academização” tem mais prejudicado que ajudado o nosso mundo.

Para concluir

Deveríamos medir o desenvolvimento de nossas crianças com base em suas aptidões para resolver problemas do cotidiano, em suas capacidades de buscar soluções por conta própria, em serem pessoas honestas que cumprem contratos, em seu respeito pelos demais entes da sociedade e em sua capacidade de resistir a tempos difíceis. 

E não pelo desempenho em índices de escolarização — sim, a palavra certa é escolarização; educação é outra coisa.

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52 comentários em “Por que o PISA, por si só, é inútil”

  1. “A ocupação do aparato estatal brasileiro pelo comunobanditismo levou MEIO SÉCULO. Se querem livrar-se dela, preparem-se para um esforço igualmente longo em vez de cobrar do governo milagres instantâneos.” > http://www.youtube.com/watch?v=RyNdh1OgioE

    “ABRAHAM WEINTRAUB: PISA, MEC E O QUE PODE SER FEITO” > http://www.youtube.com/watch?v=4S-SrH-Indg

    “V ESCOLA & DESINFORMAÇÃO CONTRA MIN WEINTRAUB” > http://www.youtube.com/watch?v=BUMljVmH6Vg

  2. A academia é totalmente superestimada. E o pior: quanto mais inútil é a área (tipo sociologia e qualquer outra ciência humana), mais importante eles se acham.

    Já as áreas que sã0 realmente importantes, como medicina e engenharia, são bastante humildes. Quanto mais importante é o cara, mais humilde ele tende a ser. Normal: a humildade decorre da complexidade da área. Quanto mais o cara estuda, mais ele percebe que não sabe nada. Já quem é de humanas jura que encontrou todas as soluções para o mundo. E daí advêm as desgraças.

  3. Segundo o falecido José Monir Nasser. (só conheci o seu trabalho depois que ele morreu, e por acaso devido ao YouTube)

    Ele disse numa palestra, que está no YouTube, que educação não é ensino, essa é uma falsa equação.

    O trivium e o quadrivium são os instrumentos de educação, o resto é ensino quando muito…

    (foi nesse dia que eu ouvi falar no trivium e no quadrivium)

    Ele ainda afirmou que a educação no Brasil é irrecuperável. (um tanto pessimista, mas usou argumentos para isso)

  4. Achei interessante trazer esse link para vocês verem mobile.abc.net.au/news/2017-06-30/bilnd-recruitment-trial-to-improve-gender-equality-failing-study/8664888?pfmredir=sm ri muito, pior que o objetivo dos caras era aumentar a diversidade ao invés de pegar o melhor profissional

  5. Em busca da verdade

    Por que desmerecer o PISA? Será que é por que a China lidera o exame ?

    Habilidades em ciência, matemática e leitura são fundamentais para a produtividade do país avançar e para o sucesso do capitalismo. Sabotar a educação é sabotar o capitalismo. É uma atitude suicida dos que se dizem defensores do mercado.

    E por último, aposto que ninguém aqui abriu mão de pesado investimento na própria educação formal para preparar a si mesmo para a competição por bons empregos, a exemplo do autor, que certamente teve a oportunidade de desenvolver as habilidades medidas pelo PISA que ele critica.

  6. Concordo que a academia é superestimada. Ainda assim, o fato do Brasil apresentar um desempenho tão ruim é preocupante. O aluno fica praticamente uma década e meia na escola. Mais de 200 dias letivos no ano. E quando sai de lá, tem dificuldade com coisas básicas como ler, fazer contas simples, etc.

    É verdade que as habilidades requeridas para ser bem sucedido na escola não são necessariamente as mesmas que são requeridas para ser um profissional bem sucedido no mercado de trabalho (Muitas vezes estas habilidades são até opostas, mas isto é outra história). Mas considerando que o aluno fica este tempo todo na escola, e justamente na época da vida em que é mais fácil para o ser humano aprender coisas novas, e considerando ainda todo o gasto com educação que os governos são obrigados a ter com educação, é vergonhoso o desempenho que estamos alcançando.

  7. Outra coisa. Hoje dá-se muito valor ao “fazer várias atividades”. Uma criança hoje é matriculada em várias atividades distintas para “amadurecer”. Mas isso faz com que ela raramente acabe criando coisas que mudam o mundo. Muito menos poderá construir grandes empresas que irão concorrer com outras empresas.

    Bill Gates, por exemplo, era obcecado com computadores. A cada chance que ele tinha ele ia mexer em computadores. Ele cabulava aula e ficava noites acordado se dedicando a essa sua devoção.

    Michael Jordan, após ser afastado do time quando criança, decidiu que nunca mais iria se sentir tão desprezado novamente. Passou a cabular aulas pra ficar treinando no ginásio, jogando dias e noites inteiros.

    Donald Trump passou toda a vida focado em negócios imobiliários. Mesmo quando ainda estava na faculdade pegou dinheiro emprestado do pai para comprar um condomínios de 1400 unidades. Graduou-se milionário e, uma década depois, já era bilionário.

    Steve Jobs tinha a criatividade como sua paixão. Na década de 1980 ele já visualizava um iPod, mas com a tecnologia então disponível, o negócio seria um trambolho enorme. Tão obcecado ele era que não descansou enquanto sua imaginação não ganhou vida EXATAMENTE no formato que ele imaginou.

    Mark Zuckerberg se dedicou incansavelmente à codificação e conversão de uma linguagem em código. Era o único do seu grupo a ser considerado um verdadeiro gênio. Construiu o Facebook.

    Parece que a única maneira de ser bem-sucedido na vida é ter um foco afiado e empurrar tudo o que secundário para o lado.

  8. Será que a escola estatal não é uma das razões pelas quais a depressão se faz tão presente entre os mais jovens? Se leis pesadas sobre o mercado podem desestimular empreendedores, por que a mesma coisa não poderia estar acontecendo com a juventude?

  9. Se jogar mais dinheiro em uma coisa fosse o suficiente, a África seria o continente mais avançado da Terra. Não o é, da mesma forma que a educação brasileira é pífia, pela péssima gestão do dinheiro.

    Tal qual trabalhar melhor > trabalhar duro, usar melhor > usar mais.

  10. Fugindo do tema eu e um colega estávamos especulando a seguinte questão:

    “um país com moeda forte sem banco central, economia livre ou até mesmo sem estado poderia entra uma crise (no sentido de quebra geral, não flutuações) dado que ele estariam imerso no mercado mundial e outros estados estariam quebrando”??

    Eu tenho a impressão que afetaria sim, mas seria mais fácil se recuperar por não ter política monetária piorando e ter uma moeda forte

    A pergunta é para o Leandro em especial; mas todos que tenha algo a contribuir que assim façam.

  11. Confesso que, apesar dos argumentos do autor, não entendi a razão do desprezo ao PISA. Existem métricas melhores de avaliação dessas conhecimentos com a abrangência desse programa? Matemática, ciências e leitura não são conhecimentos suficientes para se fazer tudo na vida, mas são basicos. Sem eles (ou pelo menos parte deles) é muito difícil se conseguir uma capacitação em qualquer atividade mais avançada.

  12. Muito bom esse artigo. Pegou-me desprevenido. Eu sempre achei que a educação era o ponto de partido para o crescimento da sociedade e da igualdade de oportunidades dos indivíduos. Preciso urgentemente ler mais sobre isso. Parabéns ao articulista.

  13. O pisa em si é um sistema de avaliação muito deficiente.Mas por mais ruim que seja,a minha pergunta é,porque o Brasil fica sempre nas últimas posições?Estamos sofrendo um boicote,ou nossa educação é tão ruim assim?

  14. Países do Oriente Próximo na Ásia tem a melhor escolarização e um dos fatores é o fim gratuidade da escola publica, por lá professores não são oprimidos para maquiar resultados e alunos que perderem ano pagam taxas equivalente a de escola privada.

    Já educação vem do peso de seu sobrenome

  15. João Luiz Martins Teixeira Soares

    No Brasil, essa academização de tudo e que os “Professores” acadêmicos possuem a solução de tudo, principalmente na área de economia, sociologia e pedagogia, se dá graças ao método Paulo Freire.

  16. Uma coisa eh fazer uma prova de papel…outra coisa eh fazer na prahtica…quem dera se tudo fosse simples assim: “eh soh fazer uma prova de papel”

  17. Existe uma editora ou conjunto de livros para escolarizar crianças pequenas em suas aptidões para resolver problemas do cotidiano, em suas capacidades de buscar soluções por conta própria, em serem pessoas honestas que cumprem contratos, em seu respeito pelos demais entes da sociedade e em sua capacidade de resistir a tempos difíceis?

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