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A liberdade é mais importante que a democracia

Quem ganha com
a democracia?  A se acreditar na resposta
padrão, são as massas — os demos –
que se beneficiam com um governo da maioria. 
Essa noção, entretanto, já está desacreditada.

Étienne de La Boétie, em seu poderoso livro The
Politics of Obedience: The Discourse of Voluntary Servitude
,
explica que um tirano domina em decorrência do consentimento do povo, já que
não existe qualquer outro meio de um homem controlar o destino de milhões.

Como o poder é sempre e em todo lugar algo inebriante
e corruptor, estaria o problema na ordem de governo?  Embora seja verdade que, à medida que o poder
aumenta e se torna mais centralizado, a violência e o assassinato se tornam os
meios mais prováveis de se efetuar a transição entre regimes opressores, será
que podemos daí concluir que a democracia seria o melhor arranjo?

A democracia de fato permite transições pacíficas
entre duas elites governantes (ou, para sermos mais realistas, entre diferentes
facções da mesma elite).  Provavelmente
ela seja o arranjo mais adequado para se transferir o poder sem derramamento de
sangue.  Mas qual o benefício da
democracia para nós, as pessoas comuns? 
Deveria você, por exemplo, celebrar aquelas raras ocasiões em que a
maioria, por meio do voto, chancela uma visão de mundo igual à sua?  Afinal, mesmo um tirano irá, uma vez ou
outra, governar a seu favor.

Não, a democracia não é benéfica para aqueles que são
emancipados e cultuam a liberdade.  Um
homem pode venerar a democracia durante o período em que ele está na maioria e
até mesmo apreciá-la quando suas visões não mais estão no poder.  Mas seria isso uma forma de liberdade?  Seria a liberdade nada mais do que aceitar as
decisões da maioria a todo o tempo e sob quaisquer custos?

A liberdade requer que cada indivíduo tenha o poder de
utilizar seu corpo e sua propriedade da maneira que mais lhe aprouver, desde
que tais ações não colidam com a liberdade de outrem.  E quando as colisões ocorrerem, um juiz ou
arbitrador decide cada caso baseando-se nos direitos de propriedade — e nos
direitos de propriedade apenas.

Em uma democracia, a liberdade é simplesmente o
direito de votar a favor ou contra uma proposta ou um candidato, e então
aceitar a decisão da maioria.  Caso não
aceite, você será submetido ao aparato da coerção e compulsão do estado.  É assim que, essencialmente, a sorte política
de cada um é lançada, com o voto singular não tendo absolutamente qualquer
efeito.  O eleitor deve obedecer
regiamente o resultado final, mesmo que discorde inteiramente dele — caso não o
faça, provavelmente irá perder sua propriedade e seus direitos de propriedade
no final.  Esse arranjo em nada difere de
um arranjo em que, sob uma ditadura, o eleitor faz um voto simbólico e esse voto
não é contabilizado, uma vez que o resultado já está determinado pelos
caprichos do tirano.

Em ambas as situações o eleitor tem de aceitar a
vontade de outros.  O direito ao voto — e
o direito de ter seu voto contabilizado — não muda nada.

A democracia favorece apenas aqueles que estão no poder, bem como todo o seu grupo de apoio.  Ao
contrário dos regimes absolutistas do passado, a democracia é a única forma de
governo que fornece os meios mais consistentes para aqueles que estiveram no
poder poderem dormir e morrer em
paz.  O
mesmo se aplica para toda a nomenklatura e
seus apparatchiks e
cortesãos.  Esses bajuladores, após a
invenção da democracia, não mais precisam temer traições, assassinatos e o
subsequente coroamento de um novo rei.  A
elite e sua burocracia podem se aposentar tranquilamente em suas fazendas e
gozar o resto de suas vidas sem qualquer receio — suas riquezas e descendentes
estarão seguros, pagos regiamente pelo contribuinte “livre”.

O grande ideal dos
pensadores liberais dos séculos XVIII e XIX, ao defenderem uma reforma política
que aboliria a monarquia e a autocracia, era libertar o indivíduo da tirania de
um homem só ou da tirania de alguns poucos sobre todo o resto.  Mas eles também alertaram para um outro
perigo igual ou até mesmo maior: a tirania da maioria sobre a minoria, mesmo
que a minoria fosse composta de apenas um indivíduo.  O ideal deles não era uma democracia
irrestrita, mas, sim, a liberdade individual assegurada por uma ordem
constitucional que limitasse os poderes do governo.

Os governos seriam formados
por homens com a única e exclusiva função de garantir e proteger esses direitos
individuais.  Qualquer conceito de
“direitos humanos” que quisesse ter algum significado teria necessariamente de
se referir aos direitos individuais de seres humanos distintos.  Não deveria existir um homem “coletivo”.  Afinal, tudo o que há são indivíduos
segregados que pensam, agem, avaliam, sonham e têm objetivos e propósitos que
guiam suas vidas.

Os liberais do passado
também enfatizaram que a liberdade nunca estará garantida caso as pessoas não
tenham os meios para viver suas vidas independentemente da — e algumas vezes em
oposição à — autoridade política.  Essa é
uma das razões por que eles consideravam o direito à propriedade privada algo
essencial e crucial.  A propriedade privada
dá a um indivíduo a propriedade e o controle sobre uma fatia dos meios de
produção — e é por meio disso que ele poderá escolher como e com qual propósito
irá viver sua vida.  A propriedade
privada dá a ele um “território” que está sob sua própria jurisdição; ele
governa a si próprio em sua casa ou em sua propriedade.  Na sociedade livre, ele pode criar seu “país”
pessoal dentro de sua propriedade privada, de modo que esse “país” represente
seus valores, ideais e desejos.

É verdade que nenhum homem
é uma ilha.  O homem é um animal social
que precisa da assistência e da companhia de seus semelhantes.  Porém, na sociedade livre, a associação
humana é produzida e estimulada pelo mercado e seu sistema social de divisão do
trabalho.  O mercado é uma arena de
trocas pacíficas e voluntárias.  A
premissa moral do mercado é que os homens são proibidos de utilizar a força e a
fraude em suas transações.  A liberdade
que cada homem tem de viver e fazer suas escolhas deve ser respeitada pelos
outros integrantes da sociedade, assim como ele também deve respeitar a
liberdade destes.

Dado que a coerção é
proibida no mercado, se um homem quiser o companheirismo ou a cooperação de
outras pessoas ele terá de aprender a praticar a cortesia, a polidez, a
honestidade, a lealdade e as boas maneiras em todas as suas transações com
terceiros.  Caso contrário, elas irão se
afastar dele e irão se associar e fazer negócios com outros que sejam mais
respeitosos e sensitivos.  Assim, o fato
de que, no mercado, todas as interações são voluntárias e baseadas no
consentimento mútuo, resulta em homens se tornando mais civilizados e refinados
em suas relações com seus semelhantes.

Ademais, o mercado é muito mais democrático que a
arena política.  No livre mercado, cada
indivíduo toma a sua própria decisão relativa a uma ampla variedade de bens e
serviços comercializáveis.  Dada suas
preferências, sua riqueza e sua renda, ele compra a combinação de bens e
serviços que a seu ver irá melhorar a qualidade, o desfrute e os propósitos de
sua vida.  Mais ainda: no mercado livre e
privado, suas decisões e escolhas não restringem diretamente as decisões e
escolhas de terceiros.  Que um indivíduo
goste de comprar presunto e ovos para seu café da manhã em nada impede que
outro indivíduo possa comprar cereais e suco, ou que, ainda, um terceiro
indivíduo possa optar por não comprar nada para comer no início do dia e, ao
invés disso, opte por gastar seu dinheiro de alguma outra forma.

Os empreendedores e comerciantes que estão no lado da
oferta do mercado respondem às nossas diferentes demandas concorrendo entre si
para comprar e contratar os recursos, os bens de capital e os serviços de
mão-de-obra que serão utilizados para produzir os bens que o público consumidor
está demandando.  Empreendedores e comerciantes
não podem obrigar os consumidores a comprar os bens e serviços que colocam no
mercado.  Eles precisam persuadir o
público a fazer isso, tendo como base a qualidade e o preço dos bens que estão
postos à venda.  Tampouco podem eles
forçar o público a trabalhar para eles, seja como fornecedores de recursos,
seja como mão-de-obra.  Cada empreendedor
e comerciante concorre contra seus rivais pela compra e/ou arrendamento desses
recursos, bem como pelos salários pagos à mão-de-obra.  E nenhum desses empreendedores e comerciantes
tem a certeza de que irá ter algum lucro ou mesmo equilibrar receitas e
despesas — a menos que os consumidores escolham comprar aquilo que foi colocado
à venda.

O que será produzido e a que preços esses bens serão
vendidos é algo que será determinado em última instância pelo público, que
“vota” com seu dinheiro naquilo que foi criado pelo mercado.  Ao mesmo tempo, os resultados originados pelo
mercado são “pluralísticos”.  Isto é, o
mercado fornece uma forma de “representação proporcional”.  As minorias são ofertadas com bens e serviços
tanto quanto a maioria, dependendo apenas do quanto elas estão dispostas a
“votar” com seu dinheiro no mercado.  De
fato, qualquer minoria de consumidores pode receber ao menos alguns dos bens e
serviços que desejam desde que estejam dispostas a — e sejam capazes de —
oferecer preços a esses bens e serviços; preços esses que sejam suficientes
para cobrir os custos nos quais o fornecedor irá incorrer para trazê-los ao
mercado.

Mas, sendo assim, não seria verdade que os
consumidores no mercado têm um número desigual de “votos” em termos da
quantidade de dinheiro que eles têm para demandar os vários bens e serviços que
desejam?  Sim, isso é verdade.  Mas em um mercado livre e competitivo, o que
determina o número de “votos” monetários que cada consumidor tem é reflexo da
renda que ele adquiriu como produtor, uma vez que ele também teve de ofertar
outros bens que os consumidores também desejaram comprar.  Assim, a fatia de renda de cada indivíduo em
sociedade livre é reflexo do quanto os outros membros da sociedade pensam valer
seus serviços, do quanto eles valoram sua contribuição a um processo particular
de produção.

O pluralismo democrático da economia de livre mercado se
contrasta fortemente com o resultado oriundo do processo democrático
político.  Os bens e serviços fornecidos
pelo governo não estão abertos às escolhas e tomada de decisões
individuais.  Não podemos ser exigentes
na escolha dos bens e serviços governamentais em termos das quantidades relativas
que gostaríamos de ter.  E certamente não
temos a opção de rejeitar completamente alguns desses bens e serviços — ou
mesmo não querer absolutamente nenhum deles. 
Tampouco temos a opção de pagar por apenas aqueles bens e serviços
governamentais que queremos.  O governo
adquire os meios financeiros para fornecer as coisas que fornece à sociedade
através da tributação — isto é, o roubo compulsório de parte da renda e riqueza
dos cidadãos sem o consentimento voluntário e individual destes.

Em uma ditadura, esse confisco é determinado pelos
desejos do soberano e daqueles próximos a ele, tendo por base as suas
necessidades pelos recursos da nação.  Em
uma sociedade democrática, os limites da tributação teoricamente dependem do
grau com que aqueles que estão no poder são capazes de convencer a população de
que o confisco via tributação é um reflexo legítimo da própria vontade
“popular” que foi expressa no processo eleitoral.  Porem, na prática, os limites da tributação
são influenciados pela formação de coalizões de grupos de interesse que
financiam e pressionam por vários programas governamentais que envolvem
redistribuição de renda e restrições ao mercado, seja através de
regulamentações, de barreiras comerciais ou de privilégios monopolísticos.  Tudo isso, é claro, é defendido sob a
alegação de ser do “interesse nacional” ou em nome do “bem comum”.

É por permitir e chancelar esse tipo de abuso, algo
inerente ao processo democrático, que tal sistema se tornou inimigo da
liberdade.  Esses vários esquemas intervencionistas
e de redistribuição de renda são a fonte das acusações de corrupção e de
criação de discórdia nas sociedades democráticas.  É isso que torna a democracia um sistema
divisivo.  Ao estender a democracia
política às áreas que deveriam ser deixadas com a individualidade e a soberania
pessoal, bem como com o pluralismo voluntário e democrático do livre mercado, o
sistema se desvirtuou por completo.

Como está agora, a democracia não é vantajosa para os demos; ela é vantajosa apenas para a
elite do poder.  Algo a se pensar.

_______________________________________________________

Leia também:

De Hans-Hermann
Hoppe:

Democracia – o deus que falhou

Como os piores são eleitos

A democracia não é a solução; é o problema

A ética e a economia da
propriedade privada

 

De Lew
Rockwell:

Por que o estado cresce? (E o que
podemos fazer quanto a isso)

O que é o estado?

Dois tipos de competição

 

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24 comentários em “A liberdade é mais importante que a democracia”

  1. RENATO BARBOSA DA SILVA RAMOS

    ESTIMADOS AMIGOS LIBERTÁRIOS\r
    \r
    AO LER A PUBLICAÇÃO DO EXTRAORDINÁRIO PROFºRICHARD EBELING DA HONROSA INSTITUIÇÃO HILLSDALE COLLEGE,CUJO PRESIDENTE É O MR.LARRY P.ARN(AMIGO MEU),AUTOR DE UMA EXCELENTE BIOGRAFIA DO PREMIER WINSTON CHURCHILL PUDE CHEGAR A CONCLUSÃO DE QUE ELE ESTÁ COBERTO DE RAZÃO.\r
    ACONTACE QUE TER A DEMOCRACIA NÃO É TER A LIBERDADE ASSEGURADA!\r
    NO LIVRO”CAPITALISMO,SOCIALISMO E DEMOCRACIA” DO FILÓSOFO POLÍTICO INGLÊS\r
    JOSEPH SCHUMPETER,ELE NOS FALA QUE A DEMOCRACIA É UN ARRANJO INSTITUCIONAL À TOMADAS DE DECISÕES POLÍTICAS(ADMNISTRATIVAS E/OU LEGISLATIVAS)E NADA MAIS.\r
    A DEMOCRACIA É UM MEIO,UM PROCESSO E NÃO UM FIM NELA MESMA,POR ISSO INCAPAZ DE SALVAGUARDAR A LIBERDADE INDIVIDUAL.\r
    PARA NÓS TERMOS A LIBERDADE ASSEGURADA É NESSESSÁRIO A PROMULGAÇÃO DE UMA LEGÍTIMA CONSTITUIÇÃO DA LIBERDADE DE FATO E DE DIREITO QUE ELEJA UM VERDADEIRO REGIME POLÍTICO DEFINIDO,QUE NO CASO É A DEMARQUIA,IDEALIZADO PELO ECONOMISTA,CIENTISTA-POLÍTICO,FILÓSOFO E JURISTA,O PROFºFRIEDRICH AUGUST VON HAYEK.\r
    LEMBREM-SE DE QUE NÃO PODEMOS EXIGIR DA DEMOCRACIA ÀQUILO QUE ELA NÃO PODE NOS FORNECER!\r
    ABS,\r
    RENATO RAMOS\r
    SAUDAÇÕES LIBERTÁRIAS!

  2. Miguel A.E. Corgosinho

    Reflita isso: O Brasil tem mais um poço de petróleo consistente de riqueza concreta e valor “para si”, pelo qual o valor abstrato deveria ser correspondente a correlatos necessários da produção, constituindo-se diretamente a expansão da moeda nacional – e esta ultima, deve, por isso, se referir ao papel natural do desenvolvimento científico da economia e não o de se alargar ao máximo no ônus externo de títulos públicos.

    O que mais interessa é que existe uma soberania externa do valor (implícita a estrutura interna da riqueza), criada artificialmente pelo dólar, e conseqüentemente a fundação dos valores das riquezas entram globalmente para os EUA.

    Então, qual o país você acha que vai ser o dono do poço de petróleo?

    Resumindo, o adestramento especifico para o poder, a ser enfrentado pela democracia estenderam-se a preparação de um meio exterior mútuo, segundo a maneira de ver a soberania externa de todos os países. Considerando que os limites naturais do real objetivam a fusão ambiciosa de um núcleo a ser exposto os dois lados fundamentais de uma mesma moeda: o sujeito de valor e o seu próprio âmbito monetário.

  3. Miguel. Como dizemos aqui no RS: Te puxou, hein? Mas, afinal, és contra ou a favor do texto, enquanto conjunto de sentidos implícitos e explícitos?

  4. Miguel A. E. Corgosinho

    Angelo, \r
    \r
    Teria outras divergências com texto: “The Discourse of Voluntary Servitude, explica que um tirano domina em decorrência do consentimento do povo, já que não existe qualquer outro meio de um homem controlar o destino de milhões.”\r
    \r
    Hoje, O que domina uma nação são as condições em que o capital modifica a organização interna da sociedade.\r
    \r
    O problema é: os politicos reconheceriam que o “poder” está implícito ao equipamento do Meio Exterior da produção? Ao meu modo de ver, a parte subjetiva deles se explicita apenas à autoridade para colocar concepções iniciais em ação, como um conjunto compartilhado de resultados, em que estariamos contidos nas operações geradoras para:\r
    \r
    – Abordar procedimentos de principios de controle, por processos ordenadores da simultaneidade, que são conheidos como “software”.\r
    \r
    – Escolher a rede mundial para vigilância recíproca das atividades fundamentais – por objetivo da passividade de valor – reservadas as atividades númericas de um sistema em si.\r
    \r
    – Programar o funcionamento de transferência eletrônica contida nos conceitos das funções espaciais da informática, que compete assegurar os opostos reais de valor da produção, durante um periódo de liberdade social, na sequencia relativa de uma moeda soberana.\r
    \r

  5. Caro Miguel, devo dizer, honestamente, que não entendi muito bem o que você quis dizer. Achei o texto deveras confuso, mas talvez seja só eu; peço desculpas se não poderei fazer uma análise melhor do seu ponto de vista. Gostaria só de chamar atenção para um ponto: “Hoje, O que domina uma nação são as condições em que o capital modifica a organização interna da sociedade.”\r
    Veja bem, o capital não força – para pior – uma mudança na organização social. Ele (ou melhor dizendo, os modos de produção de determinada sociedade) alteram aquilo que é ultrapassado, desnecessário e não mais reflete o momento histórico de tal sociedade. Foi com o surgimento da burguesia que se deu a origem da sociedade citadina e, com o desenvolvimento da burguesia, o mercantilismo e as instituições feudais foram sendo deixadas de lado (em maior ou menor grau, dependendo da onde você analisar). Não é que a burguesia ‘forçou’ uma mudança na sociedade. A burguesia estava pensando no seu próprio interesse (como Adam Smith brilhantemente demonstrou); mas a sociedade não mais comportava tais instituições. Essa, também, é uma briga que Marx teve com seus contemporâneos, em especial List (que embora anterior, fundamentou o chamado industrial-nacionalismo alemão). Para Marx, tais estudiosos estavam sendo contrários à História, que, na opinião de Marx, passava pelo desenvolvimento de um capitalismo liberal (no modelo inglês) para depois desembocar no início do socialismo. A História mostrou Marx errado, mas também mostrou List errado, já que o intervencionismo e o protecionismo se mostram desatualizados e contra-producentes. Temos, agora, que desenvolver o capitalismo da forma mais liberal possível, para que a sociedade consiga atingir as mudanças que são necessárias para seu tempo histórico (quem sabe, não será um anarcocapitalismo?). Portanto, não é que o capital ‘força’ mudanças; tais mudanças estão engendradas na sociedade e são necessárias para o desenvolvimento (mais ou menos tarde, dependendo da boa vontande dos políticos). O modo de produção só cria uma forma para tais mudanças serem realizadas. Espero que eu tenha me feito claro o suficiente.\r
    \r
    Mudando de assunto, excelente artigo. De fato, a liberdade é mais importante que a democracia, da mesma forma que o capitalismo liberal é mais justo para a sociedade que qualquer tipo de tentativa governamental para diminuir as desigualdades. Como Friedman escreveu, existe capitalismo sem liberdade, mas não existe liberdade sem capitalismo.

  6. Miguel A. E. Corgosinho

    Prezado Aroveti, Voce disse: o capital não força – para pior – uma mudança na organização social.\r
    \r
    Mas é esse o problema amigo: uma mudança na organização social, exemplo: o crescimento dos investimentos externos provocam emissão de moeda (endividamento do estado). \r
    \r
    Por que ninguém repensa o investimento (organização social) quando alguém mostra o modelo perverso de apropriação indevida da lei do valor da produção, pelo qual se faz a submissão econômica no estado (que nada produz)? \r
    \r
    Estranho esse sistema de liberdade: Os países se endividam pela riqueza da propriedade privada, porém, o valor é apenas uma relação entre a forma da propriedade e a ação humana!!! \r
    \r
    Após tantos anos de escravidão econômica com o FMI, o modo de abstrair os efeitos da propriedade privada não se diferencia de uma expropriação da unidade nacional, em que a producão perde o pressuposto da teoria do valor (neutro), necessário ao regime recíproco de conversão histórica e correlatos (interno/externo) diretos do valor da produção para a moeda, mas o valor se transforma inversamente em ônus reais (titulos públicos) para o rentista especular o estado ao longo do tempo.\r
    \r
    Se impõe um modelo de livre mercado, isso implica que ele realmente seja livre do estado – não bastaria captar cientificamente o tempo histórico do poder da riqueza acumulada no “valor da produção”, para lastrear a moeda a lei do valor.\r
    \r
    Economistas, por que prender o estado ou a sociedade ao desfecho do mercado financeiro?\r
    \r
    Concordando com você nisso: “Temos, agora, que desenvolver o capitalismo da forma mais liberal possível, para que a sociedade consiga atingir as mudanças que são necessárias para seu tempo histórico (quem sabe, não será um anarcocapitalismo?).” (???) \r
    _______________________________________________________________________________\r
    \r
    Karl Marx, pág 119 – No mundo moderno todo individuo faz parte de um sistema escravista. Mas a escravidão da sociedade burguesa é, aparentemente, a mais ampla liberdade, porque parece ser a independencia acabada do individuo para o qual o movimento desenfreado… é a manifestação de sua própria liberdade, enquanto que na realidade não é mais do que a expressão de sua submissão absoluta e a perda do seu caráter humano.\r
    \r
    O que o individuo percebe é a aparência do direito legal, enquanto que o jogo real dos privilégios desenvolve-se de certa maneira por trás dele.\r
    \r
    Marx disso dá muitos exemplos concretos.\r
    \r
    Em primeiro lugar, o mercado capitalista: “A esfera da concorrência… a encerrar somente cada caso tomada a parte, é dominada pelo acaso, lei interior que confirma nos acasos e nas regras so aparece quando se reúne uma série desses acasos, enquanto que diversos agentes da produção não vêem nem a compreendem”. Cada vendedor e cada comprador se crêem livres e todos estão submetidos, sem disso ter conhecimento à lei do valor.\r

  7. O idéia de liberdade trazida no texto é uma coisa absolutamente nefelibata. Eu pergunto: ser livre não é ter liberdade também para escolher a escravidão? Se a democracia não é o melhor regime, qual seria então? Se a ditadura da maioria é tão ruim como o autor afirma, então a ditadura da minoria seria melhor? A democracia é o espelho das imperfeições culturais em um determinado momento da História. Se no “mercado das idéias” o intervencionismo e o “welfare state” estão sendo “demandados”, não podemos atribuir isso a um defeito congênito da democracia. As regras do mercado valem também para o mundo da política (“mercado das idéias”).

  8. Não foi a intenção de ter fazer um argumento de autoridade e sim de você ir pesquisar que estes pensadores já responderam suas indagações.

    Ora, se a maioria ve um beneficio nesse arranjo, por que ela haveria de abandona-lo?

    A maioria achar que o arranjo lhe é benéfico não significa que o arranjo [b]seja[b] benéfico. E na verdade não é. é extremamente maléfico para a maioria e extremamente benéfico para uma minoria.

    se a maioria consente, entao por que os governos precisam criar prisoes, exercitos e policia para se sustentar?

    A mesma coisa da “maioria de escravos”que vc inventou. É a maioria que cria e sustenta prisoes, exercitos e a policia e é a minoria que vai presa.

    Ora, o servico poderia ser prestado “pela maioria”, que como turba encolerada rapidamente eliminaria qualquer minoria discontente.

    Sim, e é isso que acontece.

    Quanto ao “nao-consentimento”, você perverteu todo o sentido. Vc pode não consentir voluntariamente em pagar impostos e não consentir com a existencia do estado. Mas uma maioria consente voluntariamente e oprime a minoria que vc faz parte a consentir na porrada.

  9. Fernando,\r
    \r
    Apenas um adendo. Meu erro em relacao a populacao escrava do Brasil nao foi uma tentativa planejada de usar dados incorretos para “puxar a sardinha para a minha brasa”. Na verdade, eu estava acompanhando este debate: blog.mises.org/15331/haiti-and-the-commons , e assumi que a populacao escrava brasileira fosse maior que a populacao livre, como ocorreu no Haiti.\r
    \r
    Conforme o site http://www.sethkaller.net/catalogs/47-historical/797-haitian-slave-uprising-in-1791 , naquele pais, no momento da revolucao, a populacao negra era 10 vezes maior que a populacao branca (eh o que se infere da frase “Africans outnumbered the white population by 10 to 1, embora nao esteja dito que todos os de origem africana fossem escravos).\r
    \r
    Pela sua linha de argumentacao, ate o momento da revolucao, os negros haitianos (maioria) consentiam com a escravidao (que como voce sabe, era legal no Haiti). Ora, se eles consentiam, nao eram escravos, certo?

  10. Erik Frederico Alves Cenaqui

    Prezado Leandro\r
    \r
    A democracia é um método bem sucedido de fazer as pessoas confundirem estado com sociedade.\r
    \r
    Eu percebo nos diversos textos do site que diferenciar a sociedade do estado é fundamental para os libertários.\r
    \r
    Num regime democrático cria-se um caldo de cultura onde as pessoas pensam que o estado é uma propriedade coletiva de todos os eleitores e que os votos da pessoas influenciam as políticas públicas.\r
    \r
    Ocorre que, na prática isto não acontece vez que apenas uma minoria tem o efetivo acesso aos poderes estatais, a maioria esmagadora das pessoas nunca terão qualquer benefício com o governo e as políticas públicas são definidas de forma completamente secreta, obscura e clandestina.\r
    \r
    Frise-se que os valores democráticos não alteram a natureza do estado vez que este continua usando de extrema violência para conseguir obter seus objetivos.\r
    \r
    Lendo este texto fica claro para mim que é impossível os libertários lançarem um programa de governo.\r
    \r
    Abraços

  11. Especialmente para o Miguel…

    Veja bem Miguel, num contexto histórico onde dialeticamente as classes se confrontam ante o Poder e o capital, podemos antever que o subjetivismo inconsciete deste contexto produz uma individuação num sentido teórico-pratica. Se contextualizarmos o sentido da hermeneutica capitalista opressora com com uma visão de mundo humanista, teremos como resultado a síntese sobre a idéia dominante dentro de uma escala de observação-participação contextualizada segundo uma abordagem ampla sobre as classes.
    É claro que numa visão de espectro pratico-teórico tudo pode se contextualizar num projeto social politico-humanista atraves de uma aboradagem progressista. É clarfo que as classes se exporão de modo característico dentro de uma função social histórica. É exatamente daí que podemos concluir que é válida a contextualização das classes dentro de um campo de pratica social estabelecida historicamente.

    Enfim, é isso grande Miguel

  12. Emerson Luis, um Psicologo

    A democracia não é um fim em si mesma, mas um meio para proteger direitos fundamentais. Seu ponto fraco é poder ser desvirtuada e funcionar contra esses direitos.

    * * *

  13. Roberto Alves Lima

    Acho que o Dionisius não leu o livro do Ben Shapiro.

    Em “Primetime Propaganda”, o autor não diz que os programas de TV devam ser politicamente neutros, nem que eles sejam ruins por causa disso — o autor, aliás, se diz fã de boa parte deles.

    O que o Shapiro argumenta, depois de entrevistar dezenas de executivos e roteiristas do mercado televisivo, é que há um esforço deliberado por parte dessas pessoas de lançar mensagens políticas nos seus programas, disfarçadas de entretenimento. Para tal, roteiristas conservadores são colocados numa lista negra. Pior: os entrevistados não só admitem que haja essa barreira, como a consideram positiva.

  14. Maravilhosa entrevista. Benzadeus!

    Disse tudo o que eu gostaria de dizer, se minha opinião tivesse algum crédito. Artes transmitem valores, mensagens, etc., e podem (atenção para o destaque no ‘podem’) influenciar culturalmente uma sociedade. Mas hoje em dia, é um tanto descabido acreditar que uma elite intelectual tenha tanto poder para formar personalidades. Com a internet, todo mundo tem a liberdade de escolher o que quer ver e ouvir, pronto.

    E o pessoal criou um mal-estar desnecessário pelo fato de a premiação do Oscar este ano ter sido influenciada pela campanha “Oscars so white” no ano passado. Pelo que eu fiquei sabendo, não arrancou pedaço de ninguém, então as críticas poderiam ter tido bem menos rancor. Até parece que é alguma novidade alguém “não merecedor” levar o prêmio. E além do mais, mesmo que a produção artística de determinadas orientações políticas ganhem esses privilégios – sejam os prêmios ou o espaço em mídias, entre outras coisas –, isso não é garantia de sucesso ou permanência para seus artistas, produtores e criadores. Isso é o público que vai decidir.

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